O Meu Alívio é que Eles Ganham Mal


Ilustradora convidada: Ana Júlia

Apesar de ter sido cometido há 3 anos, o assédio feito por Marcius Melhem, agora ex-diretor de comédia da Globo, repercutiu em diversos veículos de comunicação nas últimas semanas. Em uma festa de comemoração do centésimo episódio do Novo Zorra, ele entrou no banheiro em que a atriz Dani Calabresa estava, a prensou contra a parede e tentou forçá-la a uma relação sexual que ela não queria.

O caso aconteceu em 2017, mas só ganhou projeção agora. A emissora conseguiu abafar o caso durante muito tempo. Deram quadros humorísticos, participações em séries e tudo mais que pudesse fazer a atriz desistir de denunciar o diretor. Inclusive, o próprio Melhem foi gravado questionando “o que mais ela queria para calar a boca”.

E com todo esse escândalo à lá Harvey Weinstein na maior emissora do país, o debate sobre os abusos no meio artístico veio à tona. Tão à tona que descobri algo que não queria. Aliás, eu queria saber sim, mas fiquei triste ao descobrir: uma das minhas bandas nacionais favoritas também estava envolvida em escândalos de assédio. Desde 2016.

O nome é Francisco El Hombre. Uma banda que eu amava e que te recomendaria parar tudo e ouvir as mensagens nas músicas deles. Uma mais importante que a outra. Mas, infelizmente, é o famoso caso da casa de ferreiro, espeto de pau.

Em um papo por zoom com amigos, fui informado que dois dos cinco integrantes da banda foram acusados de assédio e abuso e, ao contrário do Marcius Melhem, o assunto não estava escondido para todos. Só eu que não sabia. Logo eu, que sempre achei que era o Descobridor dos 7 Browsers.

Passei 4 anos consumindo as músicas da banda sem imaginar que, por trás daqueles belos acordes, havia uma verdade não tão bela. E foi de partir o coração. A letra da música mais famosa deles é dedicada às mulheres. “Um homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define, você é seu próprio lar”. A canção “Triste, Louca ou Má” chegou a concorrer ao Grammy Latino.

E o pior é que eu os escutava com certa frequência durante todos esses anos, dando dinheiro a eles. Dava play em plataformas que remuneram a cada vez que a música é tocada, como Spotify e Youtube. A única coisa que eu não fiz enquanto fã foi ir ao show.

E aí parei para calcular: foram 4 anos ouvindo eles depois do cancelamento-geral. Então, colocando que no primeiro ano eu devia ouvir umas 20 vezes por mês, totaliza 240 plays na banda. Nos outros três anos, vamos estimar que essa média caiu para 5 vezes ao mês, o que dá 180 vezes. Totalizando aí pelo menos umas 420 reproduções.

Então eu quis averiguar: será que a minha desinformação havia gerado muito lucro para a Francisco El Hombre? Será que eu seria expulso do panteão dos canceladores do Twitter? E fui atrás dos dados dessas plataformas pelas quais os escutava e encontrei a minha indulgência.

No Brasil, a cada 1000 visualizações, um vídeo no Youtube pode ganhar valores entre 1 e 19 reais. E no Spotify, a cada 1000 reproduções, a plataforma repassa para o artista algo em torno de 20 reais. E, como disse ali em cima, os meus cliques não chegaram a um quarto disso.

Foi a primeira vez que fiquei feliz que os artistas são mal pagos no Brasil. Geralmente acho até desrespeitoso. Mas para tantos Woody Allen, Harvey Weinstein e Marcius Melhem da vida, que ficaram milionários mesmo sendo grandes abusadores, que bom que pelo menos temos casos como Francisco El Hombre que, de mim, não ganharam nem 10 reais.

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Ilustradora convidada:

Ana Júlia

Estudante de Artes Visuais, em Uberlândia. Desenhista digital e amante das artes, encontrei no desenho a melhor forma de expressão. Adoro como as cores conversam entre si e busco trazer sentimento e expressividade através das ilustrações, mostrando o mais íntimo e fascinante de mim.

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