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Risadas em meio ao fim do mundo

Quando se trata de comédia, o que é interessante notar é que assim como o cinema, televisão e a música o gênero tem subgêneros diferentes. Existem Stand-ups, roasts, comédia mais ácida ou mais simples. Além disso, existe o humor com notícias que cada vez se torna mais presente no nosso dia a dia. Nesse cenário vale destacar o programa que se tornou referência e ficou conhecido como um dos mais informativos, sendo muitas vezes usado como fonte primaria acerca de alguns fatos: o Last Week Tonight com John Oliver.

Criado em 2014, depois da longa passagem do comediante britânico pelo The Daily Show, o Last Week Tonight começou muito na esteira de outros programas do mesmo gênero. Porém aos poucos ele conseguiu criar uma receita bastante interessante: Um equilíbrio entre o lado da comédia e o lado informativo, sem necessariamente ter uma opinião formada sobre o assunto.

Diferente dos outros programas em que as vezes a notícia serve de escada para uma opinião (como o Late Show do Stephen Colbert) ou até mesmo fazer graça apenas (como o Saturday Night Live), a grande sacada do programa foi trazer fontes, citações, vídeos, entre outras coisas, como base do seu roteiro e se utilizar dele para fazer piadas no meio do texto, como um respiro. Piadas essas que muitas vezes não têm ligação nenhuma com o tópico discutido, como, por exemplo, no ano passado, em que depois de passar uma temporada inteira “dando em cima” do ator Adam Driver, John recebeu uma ligação no último episódio tomando um esporro do ator.

John Oliver e Adam Driver

Vale ressaltar que muitos tópicos são direcionados ao público estadunidense, pais de origem do programa. Porém, ainda existem alguns episódios onde são comentados tópicos internacionais, como: A questão dos Uighuris na China, o Brexit, além de eleições pelo mundo como na Índia, Itália, França e até no Brasil:

A melhor parte do programa é que, mesmo em tempos caóticos, ainda é possível se informar e rir um pouco. O Last Week Tonight é transmito na HBO, tendo seus episódios Postados toda quarta-feira na plataforma de streaming HBO GO, além disso o programa posta seu bloco principal inteiro no Youtube toda segunda feira.

Qual é a questão central de A Chegada?

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Existem poucos filmes hoje em dia que conseguem dar uma sensação de uma história completa e fechada. Muitas vezes é comum ficar preso em longas discussões sobre pequenos fatores e acontecimentos que te tiram da história. Isso ocorre principalmente por uma falta de foco que se tem na escrita e (as vezes) no processo de direção de um filme. “A Chegada” (2016) é um bom exemplo de como se focar no essencial de uma narrativa a torna mais consistente. É um filme cujas ações são tão bem escolhidas que fazem uma história pequena de menos de duas horas pesar como uma jornada de duas horas e meia. Tudo isso graças a uma decisão importante na hora da escrita: a escolha de um tema.

Quando se trata do processo de criação de uma história, muitas vezes o que se tem no começo são uma série de pedaços de ideias soltas que podem ou não acrescentar a narrativa. Isso acontece tanto em roteiros originais, quanto em adaptados. Fatos que ocorreram com um personagem histórico, por exemplo, podem ajudar ou atrapalhar a ideia de que um filme quer construir sobre essa pessoa e, por isso, podem ser cortados dos tratamentos subsequentes.

Ao se focar em algo que guie sua história, o roteirista escolhe um um caminho pelo qual ele pode dar forma a sua narrativa. Isso pode ser expresso, recriado e até modificado na hora da gravação de diferentes formas, mas, para se ater ao exemplo, vamos ver como essa relação com o tema ocorre em “A Chegada” (2016).

História e Roteiro

O que é interessante observar é que desde o princípio o tema de “A Chegada” (2016) é bastante claro: a comunicação. É algo que está presente na obra original, o conto “A História da Sua Vida” de Ted Chiang. Nele, Louise é uma linguista que é chamada para tentar estabelecer contato com uma raça alienígena que chegou à terra. Até aí, fica claro o papel do tema, mas ao ser comparado a adaptação, surgem algumas mudanças interessantes: Enquanto no livro a história pula em diferentes momentos de Louise sem motivo explícito, no filme é possível observar certa preparação sobre essa questão da sua memória. Dando um foco maior no tema central, antes de revelar os “poderes” da protagonista.

Além disso, é possível ver o elemento da comunicação sendo expresso de várias maneiras ao longo do roteiro, chegando a ser o tema central de várias cenas. Por exemplo:

Nas primeiras vezes que Louise (Amy Adams) e Ian (Jeremy Renner) entram em contato com os heptapods, existe uma tentativa de estabelecer comunicação com a raça:

Ian meche no computador enquanto Louise mostra palavras aos heptapods

Quando Louise (Amy Adams) e Ian (Jeremy Renner) tem discussões com Coronel Weber (Forrest Whitaker) e o Agente Halpern (Michael Stuhlbarg) sobre como proceder, se mostram problemas de comunicação constantes:

Coronel Weber, Ian, Louise, Agente Halpern e um soldado discutem

Quando os soldados do campo são convencidos a “dar uma amostragem de força” aos alienígenas graças a um podcast conspiracionista, eles são manipulados por um meio de comunicação:

Dois soldados ouvem um podcast de um conspiracionista

Por fim, quando Louise (Amy Adams) é convocada para traduzir um áudio em mandarim que fora extraído por meio de espionagem, que geralmente é realizado por meio de um roubo de comunicação:

Louise ouve um áudio ao lado do Coronel Weber

Além disso, na parte mais “superficial” do roteiro, é possível notar a intertextualidade que o filme tem com questões mais científicas e acadêmicas. Uma característica adaptada diretamente da linguagem do conto de Ted Chiang que serve para dar uma certa profundidade/veracidade as abordagens de Louise (Amy Adams) além de servir de ferramenta para a revelação final do filme.

Louise em seu quarto

Ian: “Sabe, eu estava lendo sobre uma ideia que se você fizer uma imersão numa língua estrangeira você pode realmente reprogramar seu cérebro.”
Louise: “É, a Hipótese de Sapir-Whorf. A teoria de que… É a teoria de que a língua que você fala determina como você pensa e…”
Ian: “Ela afeta como você enxerga tudo. Estou curioso. Você está sonhando na língua deles?”

Direção

Quando o roteiro deixa as mãos do roteirista e segue para a produção, um diretor consciente sobre a história pode fazer grandes mudanças que a favorecem. A primeira adaptação feita que engrandeceu “A Chegada” (2016) foi a adição da mídia como elemento visual no filme. Ela está presente em todos os lugares desde o começo. Jornais com diferentes posturas e de diferentes empresas informam e passam mensagens curtas para diferentes personagens. Elas ajudam a entender como o mundo lá fora reage a chegada dos extraterrestres e adicionam tensão ao filme. Quanto mais sessões são necessárias para estabelecer comunicação efetiva com os heptapods, mais o caos se espalha em meio a espera do público sobre uma resposta.

Louise caminha pela universidade enquanto os alunos assistem jornal, ian assiste o jornal dentro de seu escritório, os outros cientistas assistem ao noticiário, diferentes cenas de caos aparecem no noticiário

Porém o simbolismo maior da mídia no filme é justamente mostrar a falta de comunicação existente naquele universo. Assim, como a aliança de países decide deixar de cooperar e cortam contato entre si como uma “medida de segurança”, o fato de terem diferentes canais de mídia simbolizam que somos alvos de diferentes pontos de vista e opiniões, sem nunca poder ter um panorama geral e mais acurado sobre os fatos. O que fica mais claro quando a notícia da desistência de guerra pela China é mostrada de forma muito similar a mensagem primordial dos heptapodes (que só faria sentido quando somada com as outras 11 mensagens existentes). Em um mundo onde a comunicação entre indivíduos e nações é falha a única forma de entender a realidade é se submeter a diferentes pontos de vista.

A Mensagem final dos heptapods é mostrada na tela vários jornais reportam a noticia da desistência da china simultaneamente

Trilha sonora

Um outro elemento interessante que também gira entorno da comunicação é a forma em que a trilha sonora do filme foi composta. Se em “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”(1977) a música pode ser uma forma de comunicação entre espécies, Jóhann Jóhannsson pensou que música de “A Chegada” seria composta a partir dos meios de comunicação sonora existentes.

Sejam eles vozes humanas:

Ou os sons dos heptapods:

Isso, junto de algumas questões postas dentro do filme, nos fazem refletir sobre quantas características fonéticas foram necessárias para que humanidade pudesse compor as línguas que se utiliza hoje em dia.

Por fim, com um tema e um direcionamento certo em cada parte da produção, “A Chegada” (2016) se mostra como uma obra focada e consistente. Claro que ainda existem características que fogem ao tema da comunicação no filme, a questão da memória de Louise por exemplo. Porém muitas dessas não contradizem a história e podem ajudar na consistência da carreira de um roteirista ou diretor (algo para outro texto). Ainda assim, é uma obra fechada e digna da atenção que tem.

Os Monstros que Gostam de Ifood

Estava eu voltando pra casa depois de um longo dia de trabalho, quando entra no ônibus uma figura magra e decrépita. Com um pavor estranho, vejo ela se aproximar sorrateiramente. E, para meu pânico, aquele ser horroroso senta do meu lado. Apesar de ouvir música, eu prestava atenção em cada movimento sorrateiro que ele fazia para se aproximar. Pausei a música.

“O que você quer?” eu perguntei. Mas, para minha surpresa, a resposta me agradou bastante num primeiro momento. Ele queria um ar-condicionado, Netflix e ficar horas deitado na cama. Fiquei pasmo quando entendi que, ali do meu lado, em plena hora do rush, aquela figura era nada mais nada menos que o meu cansaço pós trabalho.

O convidei a dividir o fone e ele fez questão de recusar. Vi que não era de muitas palavras. Estranhei quando cheguei em casa e ele entrou sem pedir licença. Botou o iFood bem na minha frente. Falei que queria algo light. Pediu hambúrguer. Falei que queria ver Tom Ford. Botou Adam Sandler, e, por fim, ainda me fez ignorar as mensagens de amigos que me chamavam para sair.

O mais bizarro foi acordar no outro dia. Ele tinha ido embora sem nem deixar um bilhete. Sem deixar qualquer rastro. Foi quando eu senti algo roçar no meu pescoço. Não podia acreditar. Aquela noite estranha tinha gerado um fruto, que, apesar de pequenino e fofo à primeira vista, num segundo olhar era feio como a criatura que o gerou. Quando vi, o monstro que estava deitado comigo dessa vez era a preguiça de fazer tudo de novo. Será que ele gosta de iFood?

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Ilustradora convidada:

Anna Porci

Estudante de animação, estagiária de tatuagem e apaixonada em contar histórias. Desenho desde que me conheço por gente e vivo pela arte, de qualquer tipo. Talvez viciada até demais em musicais da Broadway.

👉  Conheça o trabalho da Anna Porci no seu instagram.

A VIAGEM DE CHIHIRO

Ela nunca quis se mudar. Não havia um único dia que não pensasse em voltar para sua cidade, que não calculasse mentalmente como seria abandonar seu emprego, juntar tudo no pequeno carro e partir de volta para a rua em que nasceu, pra perto da sua família, dos antigos amores, daquela maldita cidade em que todos sabiam seu nome e que apesar de ter muitos motivos para odiá-la, continuava sendo insuportável não estar nela. Ela chegava a ensaiar um discurso de demissão, verificava se poderia sair do contrato de aluguel. Porém sempre que tentava pôr o plano em prática, a chefe dizia que iria aumentar o seu salário, sua inquilina lhe entregava caixas de biscoitos e chocolates em troca na sua permanência e, sufocada em gentilezas, ela acabava adiando seu movimento de romper com aquele novo mundo. Afinal era muito nova para abrir mão de uma nova oportunidade de emprego como aquela. Todos lhe diziam que jovem como era – bonita até – ela deveria ser grata por ter um emprego com salário tão bom, mesmo sendo numa cidadezinha que ninguém sabia o nome. Logo, se deparava outra vez com mais uma noite deitada entre as cobertas do seu pequeno novo apartamento com uma dor inexplicável em seu peito, decepcionada por sua incapacidade de defender seus próprios interesses. O mundo parecia sempre dar um jeito de jogá-la na direção contrária do que seu coração queria, e ela parecia cada vez mais fraca e incapaz de nadar contra corrente. Logo, adoecia cada vez mais seu pobre coração e sua capacidade de desejar verdadeiramente as coisas, sentindo-se mais como uma jovem cordeira, idiota e dócil, que só sabia seguir o rebanho, só fazendo barulho quando lhe era permitido e sonhando com o dia do abate. Volta e meia, se pegava pensando coisas do tipo. Como que desejando que uma doença terrível a tornasse inválida para seu trabalho, ou mesmo um acidente horroroso que não deixasse outra alternativa que não mandá-la pra perto dos seus pais, pros cuidados de uma cidade maior, ou qualquer escapatória do tipo. Mais de uma vez se pegou dirigindo com seu pequeno carro tarde da noite, passando por postes e muros e fantasiando que dirigia contra eles a toda velocidade. Depois se sentia esquisita e patética e voltava para casa.

Com o passar do tempo e da constatação que não iria embora tão cedo, ela nem mais ligava para família ou amigues. Demorava dias para retornar suas mensagens. Começou a torcer para que a esquecessem, facilitando aquela separação dolorosa. Na esperança de que dessa forma sua saudade poderia se transformar numa raiva amarga até eventualmente desaparecer. E com o novo esforço em ser distante e desagradável, as ligações e mensagens diminuíam gradativamente. Quando veio a pandemia, a cidade fechou sua hospitalidade aos turistas e ela se resignou à ideia de que estava mesmo presa lá. De que seria melhor assim, incapaz de transmitir o vírus para ninguém que realmente amasse. O prefeito colocou viaturas nas fronteiras, o que deveria fazer com que se sentissem mais segures, mas ela tinha quase a sensação de que – no contrário – as viaturas eram uma forma de impedir que fosse embora. Tinha sonhos em que tentava sair de carro e era cercada por policiais com rostos pálidos, baba espessa, zombando dela e a arrastando violentamente de volta para casa. Ou pior, às vezes sonhava que sua própria chefe aparecia na estrada escura a noite, com olhos flamejantes de ódio, e abria duas enormes e assustadoras asas, fazendo inúmeras e sanguinolentas ameaças para que retornasse para casa e abandonasse de uma vez a ideia estúpida de partir. Ela acordava suada, uma vez até – pra sua imensa vergonha – mijada, apavorada e constrangida. Sentindo-se ainda menor e indefesa às circunstâncias. Logo ia trabalhar, com a mesma cara de sempre, a fazer as mesmas tarefas de sempre, ouvindo elogios dos colegas que afirmavam: “desse jeito você vai ser grande aqui, ter uma longa e promissora carreira, morremos de inveja do seu potencial”. Ao que ela respondia sorrindo, sem acrescentar mais nada. Ouvindo a palavra “longa” ecoar e ecoar feito uma sentença. Uma sentença repetida e repetida incansavelmente.

O fechamento do prefeito funcionou tão bem, que os casos na cidade eram pouquíssimos e ela podia trabalhar na empresa em dias alternados, com testes e baixa no número dos funcionários. O que ela até gostava mais do que ficar em casa cercada de fotos e memórias da sua antiga vida. Ali, tinha às vezes a breve sensação de esquecer quem era, de ser absorvida pelas conversas idiotas nos corredores, pelo barulho das máquinas de expresso, pelo riso gostoso da secretária que flertava com o gerente. Alguém começou a levar pães caseiros que cheiravam muito bem e davam uma sensação de acolhimento quando comidos ainda quentes. Os pesadelos diminuíram, eram mais curtos, ela nem chegava à fronteira da cidade. Às vezes, via apenas os olhos flamejantes brilhando na escuridão, sem dizer nada. Ela se convencia que sua saúde mental deveria estar se restabelecendo. Fez até uma tímida amizade com uma colega de trabalho que agora lhe dava carona todos os dias nas idas e voltas pra casa, livrando-a da necessidade até de dirigir melancolicamente sonhando com as estradas. Sinais de progresso, aparentemente. Nem ela, nem você que está lendo, poderiam em tais circunstâncias suspeitar de outra coisa se não de que ela se recuperava de uma estranha síndrome nervosa ou terror noturno. Ninguém em sã consciência pensaria que os seus sonhos poderiam ter de fato acontecido, ou mesmo pensaria em verificar que agora – com a nova e diária carona – o seu carro esquecido na garagem tinha os quatro pneus estranhamente furados. Muito menos poderia supor que todos os dias enquanto trabalhava, as fotos de sua família e amigues eram substituídas – uma a uma – por fotos suas ao lado de pessoas que desconhecia completamente e que por isso lhe causavam menos e menos angústia, saudade, desejo. Não são coisas que você ou ela perceberiam assim tão facilmente ou mesmo conseguiriam comprovar que estavam de fato acontecendo sem serem internades numa clínica psiquiátrica. Não, para isso é preciso algum outro movimento extraordinário.

O final de semana chegou, ela estava outra vez entre as cobertas desde o final da tarde. Agora tinha uma enorme televisão no seu quarto. O sinal não pegava muito bem, mas conseguia ver filmes baixados pelo computador. Maratonava sequências e sequências de filmes e séries até cair no sono. Assim eram agora seus finais de semana. Não conseguia ainda se animar de ir beber na casa da sua nova amiga, mas se afundar no mundo das ficções lhe era prazeroso o suficiente. Estava lá, quase adormecendo diante do ruído na televisão. Nem mesmo sabia mais o que estava assistindo quando ouviu um barulho alto na sala. Móveis caindo, algumas coisas quebrando. Levantou assustada e teve medo. Muito medo de se deparar com um violento assalto sem ter muito o que entregar e pensou que talvez fosse melhor fingir que estava dormindo ou se esconder e deixar que os ladrões levassem tudo que tinha. A ideia de ser assaltada também parecia – pela primeira vez em meses – algo plausível de forçá-la a ir embora. No entanto, a curiosidade foi incontrolável. Se eram assaltantes, eram terrivelmente desastrados. Abriu a porta do quarto que dava para a sala e tentou olhar apenas com a cabeça silenciosamente para fora. O que viu não podia ser explicado. Havia um enorme bicho, uma espécie de dragão branco gigantesco se debatendo no chão do seu apartamento. Sua fascinante pele com múltiplos arranhões vermelhos, alguns sangrando e sujando todos os móveis. Os olhos fechados de tanta dor. Sem saber exatamente porquê, teve o estranho impulso de trancar todas as portas e cerrar todas as janelas, fechando persianas e tudo que poderia dar vista aos vizinhos. O enorme e mítico animal, exaurido, permanecia deitado, apenas respirando pelas grandes narinas brancas e os olhos cerrados. Ela tentou se aproximar, ele abriu os enormes olhos olhando em sua direção. Sua alma gelou. Prendeu a respiração, o coração batia acelerado. Era como olhar nos olhos de uma fera, de uma besta com seus dois enormes chifres de marfim. Era pavoroso e encantador. Ficou olhando no fundo dos enormes olhos dele. Percebeu que havia algo, algo doce naquele estranho olhar. Sentiu como se o conhecesse. Como se de alguma forma aquela enorme fera lhe fosse familiar. Teve o estranho impulso de tocá-lo, acariciá-lo, demonstrar que o queria ali e que queria ajudá-lo. Aproximou a palma da sua mão da testa do dragão, fazendo um tenro carinho. A fera primeiro pareceu tensa e ficou imóvel. A medida que o afago continuou, foi relaxando. Ela também, com mais confiança, foi se aproximando mais dele, sentando ao lado da sua cabeça no chão. Então, colou seu rosto ao rosto dele, testa com testa, num sinal de profunda empatia. Aquele toque lhe fez sentir-se acolhida, em casa. Uma onda de pertencimento parecia tomar seu corpo. A pele do dragão estava quente, mas era macia e agradável. Não queria parar de tocá-lo, ou se afastar dele. Permaneceu um longo tempo acariciando sua fantástica crina, sentindo o ar abrasador que saia de seus pulmões. Pensava que deveria ser desses seres que realmente cospem fogo pelo calor que sentia emanar dele. Aos poucos, aquela brisa tórrida, como o próprio verão soprando em suas pernas, deu início a uma nova atração. O dragão roçava levemente sua face nela, sentia a gigantesca boca úmida passando por sua pele, sua calcinha umedecia. Um tesão fantástico começou a dominá-la. Imaginava a boca abrindo e a enorme língua áspera, fogosa e cálida, passando por seu corpo. Pensava que apenas com a língua o bicho podia lambê-la inteira, dos peitos à buceta, ao cu, até a alma. Tentou de início não deixar o pensamento a afetar tanto, mas era impossível disfarçá-lo. Com tamanhas narinas, devia estar sentindo o cheiro da sua buceta desde antes mesmo dela saber que se excitava. Mal terminou esse pensamento, notou que tinha parado o afago e que a fera lhe olhava com seus olhos ameaçadores. E sorria. Um dragão sorrir não é coisa de todos os dias. Revelava assustadores e afiados dentes, inúmeros. No entanto, pra sua surpresa, ela continuava enlouquecidamente excitada.

Levantou-se diante do dragão. Era como se pudesse se comunicar com ele por telepatia. Como se soubesse o que ele queria que ela fizesse. Ao se levantar, ele também se ergueu, ouriçado, como pronto para um bote. Ela tirou as roupas e ficou de pé, completamente nua diante dele, os peitos duros, a buceta com os pelos arrepiados. A fera sacudia levemente a enorme cauda, derrubando um vaso de planta aqui, um quadro acolá. E então parou. A boca abriu novamente, como ela esperava. Como uma úmida gruta gotejante. A língua era fina e comprida, ágil como a própria cauda ou como poderiam ser os tentáculos de algum outro bicho. Primeiro envolveu sua perna, se enroscando em sua coxa. Melada, babada, pegajosa. Era capaz de tanta pressão que quase lhe deixava roxa. Ao mesmo tempo, escorregadia. Foi se enroscando dos pés até sua virilha. Chegou na buceta e cobriu-a por inteiro. A língua cobria toda sua xota, de quase o cu ao clitóris. Todos os lábios, toda sua carne agora em contato com aquela carne mole e quente da língua do dragão. A temperatura parecia aumentar. Os pelos da fera se arrepiaram, estava excitada. Os olhos se fechavam de prazer. Então a ponta da língua desceu e subiu pelo clitóris, era firme e áspera. Se movia quase violentamente. As pernas dela abriram mais e mais. Mal conseguia se manter em pé. A língua continuava, agora passava a ponta por toda sua buceta, em todas as direções. Ela sentia que ia cair pra trás. Quando percebeu que o dragão estava erguido diante dela e sua cauda agora amparava seu corpo, tirando seus pés do chão. Trazendo ela mais pra perto, para se emaranhar no seu longo corpo e na sua longa língua incansável. Agora apoiada na cauda, a fera soltou sua perna, e brincou de lambê-la toda, subindo da boceta até seu queixo. Ficava toda molhada, sentia na pele inteira o calor da boca dela, tremia, tinha espasmos involuntários. Nunca na vida tinha provado sensação parecida. Estava completamente entregue e mole. Se quisesse, o dragão poderia facilmente engoli-la. Mas não o fazia. Continuava ali passeando por seu corpo, sugando com uma sucção sem comparação os seus peitos, se movendo ágil por seu clitóris. Ela gemia e gemia, virava os olhos, suava, agarrava os pelos da fera com toda força. Então o dragão parou, enroscou a cauda em sua cintura e a ergueu até quase bater no teto. O corpo dela pendurado no alto, bem em cima da boca gigantesca do dragão. No início, ficou tensa, contraindo toda musculatura, pensando se não estava numa emboscada. Mas de pronto relaxou, olhou no fundo dos olhos dele e sussurrou: “ eu confio em você”. O dragão então meteu só a enorme cabeça de sua língua em sua buceta, penetrando ela profundamente. Meteu e girou a língua lá dentro, debatendo-se no seu ponto g, tocando o colo do seu útero, acariciando tudo. Parecia estar voando, seu corpo erguido do chão, ia relaxando e se sentindo mais e mais leve, mais e mais aberto ao prazer mais delirante que alguém poderia imaginar. O orgasmo é como voar, pensou. E fechou os olhos enquanto ele fodia sua boceta com a língua. Enquanto enroscava ela em sua causa, que agora também segurava seu pescoço para não pender pra trás e roçava em sua nuca, fazia cócegas em sua orelha. A língua entrando e saindo, girando mais. Sentia as paredes da buceta latejando. Gozava como nunca. Esguichava pra fora, pra dentro da boca do dragão. Até ele pousá-la no chão novamente, doce e delicado.

Ela o abraçou com toda força que restava. Em seguida, tentou se aninhar nele, entre suas patas, colando seu corpo molhado nele. Adormeceram ali, exaustos os dois no chão do apartamento. Mal amanheceu, o dragão de pronto levantou novamente, agitado, se virando para a janela. Ela compreendeu, ele precisava ir embora. Abriu a janela ao máximo e ele saiu voando, desaparecendo no céu azul, como num sonho extraordinário. Era belo e esguio, agora podia vê-lo melhor no céu ensolarado. Até não conseguir ver mais nada. Sem conseguir concluir exatamente o que tinha acontecido, agradecendo nunca ter aceitado colocar grades nas janelas. Olhou no entorno, mas a cidade parecia exatamente igual. Nenhum vizinho ou vizinha encarava ou nada parecido. Principiou a arrumar o estrago que o dragão fez em seus móveis pela sala, até que encontrou o pequeno bilhete: “Esteja pronta meia noite, eu venho buscá-la. Não confie em ninguém. Quando me ver, você saberá.” Ela preparou uma mala, pela primeira vez em tantos meses sentia-se cheia de coragem, e então esperou.

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Ilustradora:

Carolina Morales

graduanda em pedagogia pela PUC-Rio, cenógrafa e caracterizadora do Grupo Fúria, coletivo teatral, trabalha com artes plásticas e é tatuadora iniciante – Carolina Morales é cientista.

👉  Conheça o trabalho da Carol no instagram.

A Quebra de Paradigmas em ‘Nada Ortodoxa’

Em 2020, a Netflix lançou em seu catálogo sua nova produção, “Nada Ortodoxa”. A minissérie retrata a comunidade judaica-ortodoxa de Satmar, em Williamsburg, Nova Iorque. Esthie (Shira Haas), a protagonista, é uma jovem judia que foi criada por sua avó, visto que sua mãe foi expulsa da comunidade e seu pai é um alcoólatra.

O seriado é uma adaptação do livro “Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots”, de Deborah Feldman. O livro conta a história da própria autora, que rompeu com o grupo religioso em que nasceu por conta da infelicidade da vida conjugal advinda de um casamento arranjado.

Uma criança ortodoxa vestida de noiva posa para uma foto em meio a diversos convidados
Yakov Shapiro (Amit Rahav) e Esther Shapiro (Shera Haas)

Na obra audiovisual, Esthie foge durante o shabat com a ajuda de uma amizade externa a sua comunidade, e vai para Berlim, onde vive sua mãe. Dessa forma, se traz para a narrativa todas as questões históricas que levaram à diáspora judaica, que resultou justamente na existência de congregações extremamente fechadas em prol da preservação da cultura e memória de um povo.

A atriz, Shira Haas, tem uma performance incrível num papel nem um pouco fácil de ser interpretado. Uma personagem com diversas camadas, em um arco que é justamente de rompimento com uma série de normas comportamentais que regem sua vida desde o nascimento. Shira faz esse papel brilhantemente, com muita força e verdade.

“Nada Ortodoxa” retrata um universo específico, trazendo símbolos culturais que poucas vezes foram retratados no audiovisual. É o primeiro seriado falado em iídiche já feito. Só por essa razão já vale a pena conferir, mas a atuação impecável de Shira Haas e a narrativa emocionante da protagonista tornam a minissérie ainda mais instigante.

Martin, um vampiro demasiado humano

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Se o protagonista de Martin (1977), de George A. Romero, é um vampiro ou apenas um assassino serial, a mim, parece uma questão de “fé” de quem assiste ao filme. Aliás, a fé cega e fanática é o principal alvo deste longa, realizado por um diretor já conhecido por se utilizar do gênero do horror como meio para analisar e criticar a sociedade norte-americana (recomendo três textos sobre o tema, esse, esse e este).

Neste filme, Romero, assim como fez com os zumbis, desmistifica a figura do vampiro. Para quem não sabe, o diretor foi um dos primeiros — senão o primeiro — a dissociar os mortos-vivos da “magia”, mais especificamente, do Vodu (geralmente associado no cinema de forma pejorativa à magia negra). Já em “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), seu longa de estreia, a origem das criaturas está muito mais próxima do universo da ficção científica do que do horror. Mas é em seu filme setentista, que o diretor realiza um processo de desconstrução muito mais radical.

Assim, Martin de George A. Romero parece estar em sintonia com as transformações sofrida pelo gênero em sua época, em que uma antiga forma de abordar o horror dá lugar a uma nova. Nessa leva de filmes podemos observar algumas características em comuns: a desmistificação das criaturas, as mudanças da “natureza” do mal, abordagens mais “realistas”, uma maior dificuldade em diferenciar “heróis” e monstros etc.

A condição do protagonista não está necessariamente ligada ao sobrenatural, mas a fatores muito mais mundanos. O vampirismo aqui ainda é tratado como uma doença, mas não de origem “fisiológica” ou mística, mas sim psicológica e social. No entanto, essa abordagem não exclui totalmente os elementos da mitologia dos vampiros, mas apenas os utiliza de outras formas, transformando ou potencializando alguns de seus “sentidos”. Por exemplo, o subtexto sexual muito ligado a representação dessas criaturas.

Lobby Card onde vemos zumbis e o título Night of the Living Dead em letras estilizadas
Lobby Card do filme “A Noite dos Mortos Vivos”, um dos filmes mais famosos de Romero

Tanto nas telas, quanto em outras formas de arte, o ato de sugar o sangue de suas vítimas está ligado a um ato de violência sexual, algo agravado quando levamos em conta a capacidade de encantar ou hipnotizar que esses seres folclóricos são dotados. No contexto do filme este ritual não é só desmitificado, como apresentado de forma crua, violenta e “desglamourizada”. Em Martin o desejo por sangue está estritamente ligado a uma pulsão, a um vício que se materializam em atos de violência.

Martin olha em nossa direção com uma seringa na boca

Pôster do filme Martin, onde se vê o parte do rosto do rapaz com uma dentadura de vampiro, rostos aterrorizados e letras estilizadas que remetem onde o "T" remete a uma seringa e uma cruz

Material promocional de Martin, duas mãos feita de ossos tentam alcançar a letra T que remete a imagem de uma cruz e de uma estaca
No material promocional os símbolos da cruz, da estaca e da seringa se misturam, todos muitos pertinentes a temática do filme

Mas como dito anteriormente, a fé cega e o fanatismo são questões centrais na obra. Longe de isentar Martin dos seus atos, Romero nos dá um vislumbre do contexto no qual o protagonista cresceu. Em sua família há a crença, passada de geração em geração, de que alguns seus membros são amaldiçoados e, por isso, são uma vergonha e um martírio que todo o clã deve suportar. No entanto, esta maldição nunca é de fato comprovada. Pelo contrário, tudo o que “classicamente” é utilizado como forma de se defender contra criaturas da noite — crucifixos, alho e, até mesmo, exorcismo — são completamente inúteis. Mas, mesmo contra todas as evidências, o rapaz ainda é visto pelos membros mais velhos da família como uma aberração sobrenatural, ao ponto do próprio Martin acreditar ser um vampiro de 86 anos.

Padre jovem, com um cigarro na mão e rosto sorridente
Padre Haword, interpretado pelo próprio Romero, acha cômico o interesse de Cuda pelo exorcismo
Padre idoso, tem a bíblia em uma mão e uma vela na outra
Padre Zulemas (J. Clifford Forrest Jr.) realiza o antigo ritual de exorcismo sem sucesso

Tudo o que temos para corroborar essa versão são “flashbacks”, que não por consciência são filmados em preto e branco e de forma muito mais “conservadora” do que o restante do filme. Mas essa clara “incompatibilidade” com o todo parece apenas colocar em xeque a veracidade do que vemos. Isso ou teríamos que concluir que Romero fez essas escolhas unicamente para um propósito estético? O que não me parece ser o caso.

Martin olha para cima, para o topo de uma escada

Uma mulher sobe a escada correndo

Uma mulher com um candelabro sobe uma escada

Uma mulher vista de baixo caminha com um candelabro

Martin sobre as escadas , sua sombra na parede tem um aspecto sinistro

Uma mulher corre por um corredor sinistro

Martin, visto de baixo, caminha em meio as sombras.
Alguns frames dos supostos flashbacks: figurinos de época, cenários barrocos e sinuosos contrastam com as cenas no “presente”

Aliás, aqui temos um ponto. Se observarmos com atenção, podemos notar que no cerne do filme há um conflito de gerações. O exemplo mais óbvio é o conflito entre Martin e seu primo Cuda (Lincoln Maazel). Mas na mesma medida, há uma oposição entre este e sua neta, Christina (Christine Forrest), que não só não acredita na maldição, como é a única que de fato deixa para trás um lar, uma cidade e uma realidade um tanto castradora. Cada um dos dois jovens encontra uma forma de se rebelar contra a obtusidade e atraso da crença cega, personificada em Cuda: ele escolhe dar vasão a impulsos primitivos e destrutivos, se contentando a encenar o papel ao qual lhe impuseram; enquanto ela deixa aquele mundo para trás em busca um caminho próprio e independente.

O ator Lincoln Maazel aponta acusador para fora de quadro

Martin olha para fora de quadro irritado

Christine Forrest chateada apoia a cabeça em sua mão
Os atores Lincoln Maazel, John Amplas e Christine Forrest

Este último parece de certa forma refletir a trajetória do diretor, mas não quero ir tão longe. Quero dizer que essa oposição entre o antigo e o novo se encontra refletida também no filme em si, em sua forma, visual e direção. Podemos ver isso nos movimentos e enquadramentos da câmera, na montagem, na decupagem, no uso do preto e branco e da cor, na caracterização dos personagens etc. tudo neste longa parece estar ora em sintonia ora em desacordo com uma forma mais “tradicional” de filmar o horror. Por exemplo, a cena em que Martin, fantasiado como Drácula, assusta seu primo. Tudo nela, desde do figurino até a forma de filmar, remetem aos filmes do Drácula (1958) da Hammer, onde o personagem ficou imortalizado na figura de Christopher Lee.

Martin fantasiado como Drácula:

O rosto de Martin maquiado de branco, ele usa uma dentadura de vampiro

Martin vestido de Drácula em meio a neblina

Martin vestido de Drácula amedronta Cuda

Martin vestido de Drácula esconde seu rosto por trás da capa

Trailer de “Drácula” de Terence Fisher e produzido pela Hammer:

Devido a esta dualidade, ao assistir Martin, muitos filmes de diferentes tradições e períodos do terror podem espreitar sua mente. Desde filmes contemporâneos e conterrâneos deste como o “O Massacre da Serra Elétrica” (1974) de Tobe Hooper; passando por representantes europeus como alguns filmes de Mario Bava ou de um Lucio Fulci, até obras mais antigas como o “Drácula” (1931) de Tod Browning e, por que não, “Nosferatu” (1922) de Murnau. Afinal, muitos filmes do gênero são referenciados na obra.

Cuda faz o sinal da cruz, Martin está coberto de sangue morto em sua cama
Dupla ironia: Cuda mata Matin com uma estaca por um crime que ele não cometeu

Assim, Martin de George A. Romero parece estar em sintonia com as transformações sofrida pelo gênero em sua época, em que uma antiga forma de abordar o horror dá lugar a uma nova. Nessa leva de filmes podemos observar algumas características em comuns: a desmistificação das criaturas, as mudanças da “natureza” do mal, abordagens mais “realistas”, uma maior dificuldade em diferenciar “heróis” e monstros etc. Esta forma de encarar o terror me parece atravessar a década de 70 e 80, resistido aos anos 90 e chegando com menos força em nossos dias. Mas isso é apenas uma especulação que talvez valha a pena ser abordada em um texto futuro. No mais, assistam está obra perturbadora, que muito tem a nos revelar por meio de imagens e sons.

O coito nunca foi tão perigoso

Sexto mês de quarentena. A mãe de Maricléia chega em casa e, ao correr para desinfetar as mãos no banheiro, se depara com uma cena que automaticamente atribui aos demônios do filme Exorcista: um corpo levitando em sua sala. “AAAAAH”, grita a senhora. E o espanto só aumenta quando a mulher percebe que aquele corpo, na verdade, é a própria filha Maricleia, que está subindo pelas paredes. E do susto vem a fúria. “Desce daí agora, menina, que loucura é essa? Vai sujar minha parede todinha” berra ela, abanando seu pano de prato do Smilinguido no ar e sem questionar sobre as capacidades aéreas da filha. “Nunca vou entender essa menina”.

Exorcizada das paredes da sala, Maricleia corre rastejante para seu quarto e, envolta pela penumbra do isolamento-dentro-do-isolamento, abre a lista de contatos do celular. Ela havia cumprido corretamente todos os protocolos da quarentena, inclusive até julgara quem não o fez. Porém, a carne é fraca. Era chegada a hora dela abandonar os protocolos quarentênicos (e furar para furunfar). Ela vê o nome de Haroldo e se anima, ele é de confiança e tem um bom condicionamento físico, a quarentena não deve ter tirado isso dele.

Maricleia pensa: seria esse malhado o escolhido? Mas, numa rápida ida ao Instagram do pretendente, a primeira tristeza coital. Inúmeros stories com os amigos em bares. Ele fazia parte dos furadores-oficiais. Próximo! E o Figueiredo… Hmmmm… Parece que está tudo de acordo com o Instagram. Ele está fazendo crossfit no quarto, cuidando da avó, ainda não fez nenhuma live entrevistando os amigos do mercado financeiro. Tudo o que a Maricleia precisa para esquecer que 2020 é o ano em que as coisas sempre dão errado.

“Oi sumido” escreve ela num direct semi-indecente e, depois de algumas trocas fotográficas, rola o convite. ‘E aí, vamos?”. Entretanto, ao invés de uma resposta, ela recebe a notificação de que foi marcada em um stories. Figueiredo postou a conversa dando exemplo para seus seguidores do crossfit de que não é só porque você está num bom webnamoro que é pretexto para furar a quarentena. E, depois desse golpe no senso de moral, Maricleia se desespera. Chega até a pensar em adotar as dicas da prefeitura de Nova York e transar através de buracos na parede. Mas desiste quando percebe que a parede de seu quarto é uma parede estrutural do prédio. Maldita arquitetura. Nessas horas nem o Niemeyer ajuda.

Assim, entre devaneios com Chay Suede sem camisa e pesadelos com seu funeral por zoom, Maricleia seguia confusa-até que finalmente a sorte a sorri. Quando a nossa fogosa-heroína menos esperava, chega a mensagem de seus sonhos. Vinícius diz: “bora se ver?” e ela sente que finalmente o mar estava peixe (e como Maricleia queria pescar).

Eles marcam o horário e o local, tudo bem até aí, vão se ver logo logo. Maricleia se arruma, passa seus cremes. Mas, como eu disse ali em cima, 2020 é o ano em que as coisas sempre dão errado. E, para Maricleia, não seria diferente. Na hora em que a garota ia saindo para o encontro, outro berro de sua mãe. “AAAAH. PRA ONDE VOCÊ VAI, MENINA?” e a senhora, mais uma vez acompanhada de seu pano do Smilinguido, fala que não vai deixar a rebenta sair. “Eu sou grupo de risco, esqueceu? Pode tratar de ir para o seu quarto A-G-O-R-A”.

E a menina, sem argumentos para validar a fugidinha quarentênica, novamente corre em direção a seus aposentos. Porém, dessa vez, 2020 iria longe demais. Porque, sem querer, destrambelhada que era, Maricleia acaba incendiando o quarto ao entrar nele e, consequentemente o apartamento, (de tanto fogo que tinha).

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Ilustrador convidado:

Ary

Insano nas horas vagas, decifrador de sonhos e amigo relapso. Uso arte para decifrar as mentiras do mundo, que muitas vezes são mais saborosas que as verdades. Petropolitano por não ter escolha, existo.

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Bacurau

É caixão atrás de caixão. Um massacre importado. A morte não começou ali, mas se alastrou. Os moradores tentaram fechar a cidade, mas as pessoas continuaram vindo. Não tem governo pra impedir, os turistas vêm aos montes. Melhor seria se viessem logo com a pá pra cavar um mar de covas e nomear o genocídio de uma vez só. Os carros chegavam cedo, abarrotados de mulheres brancas, com unhas postiças, ou homens brancos de camisas polo, óculos rayban, sujando português com inglês, querendo pagar tudo em dólar. É assim que começa hoje em dia. Não é preciso artilharia. É um comboio de conversíveis ou carros blindados 4×4 ou motos silenciosas e fluorescentes. Eles param na entrada do boteco, tocam todas as coisas, babam em cima das pessoas, sem máscara, sem nenhum pudor. Comendo da sua comida, bebendo da sua bebida, mas não quer seu hospital não. Sua casa, não. É um resort abrindo atrás do outro, há uns não sei quantos poucos quilômetros da gente. Pra depois dizer que a periferia é a cidade, não o resort. Tem água no resort, tem piscina olímpica, tem cachoeira artificial, a vida mesmo é lá. Abrindo vaga para morte. Ela trabalha no hospital público da cidade. Viu tanta dor que desde o ano passado quando ela sonha vê os seus olhos pingando sangue. Ela não parece aguentar mais ser tão portadora de maus presságios. Cansou de pedir pra parar com o jogo no campinho, com a festa no boteco, com a entrada dos turistas. Às vezes, quando cruza com um deles e pede gentilmente (com sua gentileza exausta) para que usem a máscara, eles riem e falam dela como se fosse parte de um passado extinto, uma espécie morta. Então balançam as carteiras de trabalho em sua cara, como quem enxota um cachorro. O ódio vai crescendo. Ela só sabe ter pesadelos. “Eles tão se alojando em mim”, ela pensa, “feito vermes”. Querendo estragar por dentro sua capacidade de ter alguma alegria, pra que ela – toda existência dela – se reduza em ser essa mensageira do inferno. Como se o sangue não estivesse nas mãos deles, como se a culpa dessa merda toda estar nessa proporção não fosse justamente deles. Mas a raiva vai dominando, querendo competir com a pandemia. Contaminando tudo. Não há paz possível, não tem tesão possível. Até o dia em que reencontrou os dois.

Foram dias e dias no hospital, sem ver mais ninguém além do pequeno corpo médico e seus inacabáveis pacientes. Já estava com as faces quase rasgadas pelos EPIs, quando mandaram ela pra casa. À força. As mãos dela já tremiam de cansaço, as palavras já ficando duras, não tinha como continuar. Chegaram uma pá de outros médicos, de alguma ONG, e ela saiu pro segundo pior pesadelo: a espera impotente na sua casa cercada de fantasmas. Como se viver, agora, fosse esperar o momento em que a cidade inteira iria ser só povoada por fantasmas, feito sua cabeça. Amigues, parentes, tudo virando nome na nota de rodapé da imprensa. O pavor de perguntar por alguém e ouvir a resposta com os olhos marejados e a voz embargada: “cê não soube?”. Ela então fechava tudo, se fechava inteira, rezava e pedia pra tudo fechar, pras pessoas acordarem todas, pro verme morrer.

Era noite, ela tava trancada em casa, no silêncio, deitada no sofá, quando ouviu o barulho dos carros, rangendo, megafone empunhado. “Vamo botar pra fora essa gente! Não vão fazer de nós cemitério não! Se alguém tem que morrer, que seja pra melhorar.” Ela corre pra janela, as pessoas cavando o chão, desenterrando arma. O carro descendo caixas e caixas de álcool, máscara, luva, face shield. As indicações pra evitar o confronto a menos de um metro de distância. “Já era guerra. Só que agora a gente vai revidar”. Ela reconhece os dois homens no carro, da adolescência. É estranho como podia reconhecer por trás da máscara, na distância, pela voz, pelo fogo na voz deles. Era como uma bandeira de esperança balançando. Ela sente – depois de quase um ano – o retorno da esperança, feito um calor gostoso no estômago. A raiva encontrando o meio de parar de sufocá-la. Eles acenam. Cúmplices. Pra sua surpresa, no entanto, finalizado os informes, os dois descem do carro e caminham em direção a janela dela. As armas empunhadas na cintura dos jeans sujos de terra, suados. “Lindos”, ela se pega pensando, com certa vergonha. No primeiro impulso, ajeita os cabelos, coloca a máscara e abre a porta.

Eles param distantes. “A gente soube que te mandaram pra casa. Como cê ta?”, disse um deles – o mais parrudo, agora com a cabeça raspada. Os dois namoraram em algum momento do passado cheio de sol, língua, suor. O outro, era um velho amigo, há muito tempo foragido da polícia, tanto tempo que nem sabia exatamente como deveria ser o rosto dele por baixo da máscara. Ela respondeu brevemente sobre a indignação, o afastamento do plantão, a casa vazia. Eles deram algumas voltas em palavras gentis, comentários elogiosos pela luta dela na linha de frente, até finalmente perguntarem, admitindo o real motivo de estarem ali: precisavam de um lugar pra passar a noite, antes da guerra do dia seguinte. Bem, como ela vivia se expondo na linha frente, pensaram de cair por ali. Sabiam que tinha um quarto vazio, prometeram higienizar tudo, sair de manhã cedinho. “Faria bem uma companhia pra você, vai deprimir no meio de tanta morte, metida aqui sozinha.” E ela sabia que concordava. Vê-los era um presente que ela não se permitia há mais de um ano.

Os dois entraram, tiraram os sapatos, as roupas de rua. Ela lhes entregou toalhas limpas, arrumou o quarto com dois colchões e um ventilador novo. Pro seu estranhamento, entraram juntos no banheiro. Ela brincou que o box não aguentava dois homens que nem eles, mas eles riram e entraram junto mesmo assim. Ela ficou do lado de fora. Sem conseguir disfarçar os olhos na porta. Começou a ter a estranha fantasia dos dois debaixo da água, dos rostos sem máscara, dos corpos se esbarrando no banheiro apertado, das unhas pintadas de um passando na cabeça careca do outro. Tudo foi ficando quente, as paredes pareciam querer suar com a fantasia dela. Então ouviu o trinco da porta girar. Num susto, apavorada pela ideia de ser pega assim vidrada nos dois, se meteu correndo na cozinha. Repartiu o resto do jantar em dois pratos de vidro e procurou alguma coisa que pudesse oferecer pra beber. Os dois entraram na sala, agora limpos. Só sabiam agradecer, pegaram os dois pratos e sentaram no sofá. Finalmente, baixaram as máscaras e ela pode ver seus rostos. Aquela invasão na sua solidão toda, a estranha normalidade com que comiam e riam e falavam diante dela, encheu seus olhos de lágrimas. Ela não conseguiu esconder. Escorriam em profusão. Os dois se levantaram assustados. No primeiro impulso, seu ex tomou ela num forte abraço. Ela apoiou o rosto mascarado no peito dele. É tanto tempo sem um abraço, que ela só soube amolecer naqueles braços fortes. Era tão gostoso. “O afeto foi arrancado de mim”, escapou dos lábios moles dela. “Eu sei, mas nisso a gente pode te ajudar” disse o amigo e lhe entregou uma pequena semente. “Toma, você vai se sentir melhor”. Ela sorriu, abriu a boca, ele colocou a sementinha na sua língua. Ela engoliu.

Ela conhece a onda. As coisas iam ficar diferentes. Alguém botou Gal pra tocar no rádio, bem baixinho. “Sendo melhor, a gente fica com distância de você”. Os dois começaram a dançar na frente dela, coladinhos. Ela ficou sentada no sofá olhando. Um sol parecia acender na luz do teto. As paredes voltaram a suar. Os dois dançavam mais, colando boca na orelha um do outro. Ela respirava fundo. Parecia que a máscara não estava mais lá. Via as coxas grossas dos dois encaixadas, a mão do amigo segurando firme na cintura do seu ex. A excitação crescia. Eles suavam. Tiraram as camisas e ela teve a sensação de que a enorme tatuagem de pássaro nas costas do seu ex se mexia. Podia ouvir um piar violento, as asas batendo. Um bicho cuspindo sangue. Começou a gargalhar. O riso preso, escorregava solto agora, soando como um alívio. Ela se espantou com o som do próprio riso. Levantou e começou a dançar sozinha, mas com os olhos neles. Girava, rebolava, se tremia toda. E o calor da sala só aumentava. Tirou a blusa também, ficando de sutiã e short. Rodando pra longe deles, tentando não sucumbir em se misturar naquela roçação. A música foi ficando lenta. Os dois deram um doce e lindo beijo na boca.

Param de dançar. Era quase como se ela também os beijasse. Ela passava os dedos nos próprios lábios, eles se beijavam abrindo bem a boca, deixando ela espiar as línguas, os dentes. Seu amigo passava a mão pelo peito largo do seu ex, ela quase sentia a palma nos seus seios. Os bicos das tetas ficando duros. O ex enfiou a mão na calça do amigo, entrando na sua cueca, pegando firme no seu pau. Ela meteu os dedos na calcinha, encharcada, latejando. O amigo abaixou as calças e seu ex colocou seu pau grande e duro na boca. Ela começou a se tocar enquanto seu ex chupava com gosto o pau. Se fechasse os olhos, lembrava dele lhe chupando na adolescência. Ouvia o barulho da moto deles. Via os dois com arma empunhada, rosto cheio de sangue. Abriu os olhos. Um masturbava o outro, batendo uma punheta bem devagar, com os olhos nela. Ela do outro lado da sala, em pé, deixando o short e a calcinha caídos no meio das pernas, a mão tocando em círculo no clitóris, os pelos da buceta arrepiados. Penetrou nos olhos deles. Na cabeça deles. Podia sentir o fogo que queimava suas ideias. A dor de ter que se entregar assim pra vingança, pra guerra. Os entendia profundamente.

Então, foi como se também pudesse tê-los perto. Como se apesar da distância da sala, os dois caminhassem até ela. Nas suas cabeças, sentiam o roçar da barba mal feita do ex na sua nuca, a pele macia do amigo na sua mão. O ex passando a língua nas suas costas, descendo até sua bunda. O amigo tocando sua buceta, colocando a boca em seu peito. Chupando seu peito. Mordiscando seu mamilo. Sua boca quente. A boca quente do ex beijando sua bunda, passando a língua no seu cu. – Ela escuta os dois batendo a punheta. Vê os dois paus duros, pulsantes na distância. – Beija o pescoço do amigo, a saudade é uma coisa que consome a gente. Beija quase que pra arrancar pedaço. Ter algo que possa guardar dele. O suor tem gosto de fruta e cachaça. É mágico. Ela se ajoelha e passa os dedos na sua barriga. A pele agora está cheia de cicatrizes, furos, arranhões. Enquanto isso seu ex passa a mão no seu clitóris, começa a meter nela de quatro, devagar. Ela começa a chupar o amigo. Ele segura seu cabelo, para conseguir ver o rosto dela entre os cachos. Ela aperta a bunda dura dele. Sente o outro pau entrando e saindo da sua xota, molhado, massageando tudo dentro. O quadril do ex contra sua bunda enquanto ele aperta forte sua cintura. Ela rebola pra ele. O pau vai fundo, na boca, na buceta. Eles gemem. O barulho do pássaro retorna. Ela imagina os três no sofá, como que de fora. Se vê sentando no colo do seu amigo, devagarinho rebolando no seu pau babado, enquanto o ex beija sua boca e toca uma pra ela, bem na sua frente. Ela quase acredita que está ali mesmo no sofá. Começa a quicar no pau dele. Os três gemem cada vez mais alto. Sente os dedos grossos do seu ex tocarem seu clitóris novamente, enquanto ela quica no colo do seu amigo. Os dedos grossos tremem, farfalham. Ele sorri. Penas parecem sair das suas costas. O amigo então passa os dedos pelo cu dela e começa a meter no seu cu, bem devagar, bem cuidadoso. O ex, pela frente, beija lentamente sua boca, sua orelha, e passa a cabeça do seu pau pela sua buceta. Nos grandes e pequenos lábios, pela cabecinha do clitóris. Os dois, um atrás e outro na frente, parecem abraçá-la por dentro e por fora. Parecem se fundir nela. Sente as quatro mãos fazendo carícias por toda sua pele, seus cabelos. Um afago abundante. O calor vai se aliviando. Parece estar debaixo de uma cachoeira. As lágrimas voltam pros seus olhos. Uma alegria violenta parece chover sobre eles, como se fossem encher a sala de água. Ela gargalha enquanto tem um orgasmo.

Por fim, se percebe grudada na parede da sala. As pernas abertas. Os dois no outro extremo da sala, gozados. A porra melando seus dedos, suas barrigas. As máscaras cobrindo as tão desejadas bocas. “Obrigada”, ela diz, entre risos e os últimos espasmos. Ela vê o pássaro na janela. É bom presságio. O início do bom presságio. “Amanhã a gente vai tirar esses filha da puta daqui”. Eles concordam. A nossa onda tá só começando. A revolta é a cura.

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Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho da Camila no instagram.

Três vezes Jackie Chan II: A Jornada Continua

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Como toda continuação que se preze, este post é uma versão maior e, não necessariamente, melhor deste outro texto. Vocês podem ter notado que um velho conhecido está dando as caras por aqui de novo. Sim, Jackie Chan! Sem dúvidas o ator honconguês mais famoso da atualidade. Por isso, apertem os cintos e venham comigo nessa jornada pelo submundo dos streamings e descubram algumas pérolas escondidas do cinema asiático.

O Protetor (1985)

Danny Aiello e Jackie Chan
Danny Aiello e Jackie Chan interpretam uma dupla de tiras improvável

Este filme, dirigido por James Glickenhaus, transpira anos 80. Tiro, porrada, cenas de nudez, uma dupla de tiras improvável, a morte de um parceiro/amigo/pai de família… Tem até, lá no comecinho, uma referência aos longas distópicos com o visual “meio punk” — que, apesar de encontrarem os seus principais representantes nos anos 70, em filmes como Mad Max (1979) e Os Selvagens da Noite (1979), tiveram um boom nos anos 80. Em “O Protetor”, Jackie é Billy Wong, um detetive nova-iorquino (sim, a história começa em Nova York, mas tenham paciência…), que tem que ir para Hong Kong (aí, não falei?) para resgatar uma vítima de sequestro e desbaratar um esquema de tráfico de drogas internacional. Como eu disse, nada mais oitentista do que isso. Vale mencionar que dando um suporte ao nosso astro, está Danny Aiello como parceiro “substituto”.

Crime Story (1993)

Jackie Chan e Kent Cheng se encaram
Jackie Chan e Kent Cheng

Este longa dirigido por Kirk Wong — e dizem as más línguas, com muita interferência indesejadas de Jackie — é no mínimo interessante. Assim como os filmes mencionados no texto anterior, a história é simples e serve mais como uma justificativa para as diversas situações de tensão e cenas de ação, do que um elemento primordial. Então, se você é um devoto ortodoxo da deusa Narrativa Bem Construída, talvez não curta, porém para aqueles que, assim como eu, acreditam que o cinema é mais do que isso, talvez queiram se aventurar a assistir essa obra. Mas não se enganem, “Crime Story” não é uma obra-prima ou coisa do gênero, mas sim um filme de ação rocambolesco, com um ótimo jogo de gato e rato entre o inspetor Eddie Chan (interpretado por nosso herói) e o o corrupto Hung (interpretado pelo excelente Kent Cheng).

Operação Condor: Um Kickboxer Muito Louco (1991)

Carol Cheng, Eva Cobo, Shôko Ikeda eJackie Chan olham admirados para um objeto.
Carol Cheng, Eva Cobo, Shôko Ikeda e, claro, Jackie Chan

Ok. Talvez este filme não devesse estar aqui já que o protagonista em momento algum põe os pés em Hong Kong. Mas como ele foi produzido lá e eu que a dito as regras do jogo, vale estar nesta lista. Aqui nosso ator honconguês favorito interpreta um aventureiro que, ao melhor estilo Indiana Jones, percorre o mundo em busca de tesouros e artefatos perdidos. Na verdade, “Operação Condor: Um Kickboxer Muito Louco” faz parte de uma série de filmes de aventura/comédia iniciada por “Armadura de Deus” (1986). Vale mencionar que além de atuar — ao lado de um elenco internacional — Jackie Chan também dirige esta barra de ouro que vale mais do que dinheiro. Por isso, assisti-la pode ser uma oportunidade de conhecer um pouco de seu estilo milimetricamente planejado de direção.

Jackie Chan olha sério para alguém fora de quadro
Jackie Chan ainda te lembrando que não faz só comédias

Enfim, se bateu aquela curiosidade, os longas estão disponíveis — até o momento em que escrevo este texto — no Prime Video da Amazon. Estas são três obras para se ver antes de morrer de tédio num domingo monótono e modorrento. Não sei se posso dizer que este post fará parte de uma trilogia ou não. Como já bem sabemos, o terceiro filme é, quase sempre, o pior de todos. Mas quem sabe se em umas de minhas longas jornadas streaming a dentro, eu encontre mais filmes legais estrelados por Jackie Chan.

O Coração Revolucionário de Antígona

Em 2019, a diretora Sophie Deraspe lançou o filme “Antigone”, uma releitura da clássica tragédia grega nos tempos de hoje. A protagonista, Antígona, é uma adolescente que está finalizando o ensino médio e, de repente, se vê tendo que enfrentar a difícil escolha de proteger seu irmão da polícia ou priorizar a sua própria liberdade e nunca mais vê-lo.

O filme se passa no Canadá e é falado em francês, mas conta a história de uma família de imigrantes gregos, trazendo diversas referências culturais e religiosas da Grécia que no texto original, são parte fundamental da trama. No caso do longa, não é a antiguidade grega e seus costumes que estão em cheque, mas sim a contemporaneidade globalizada em um país de primeiro mundo. No entanto, existe um trabalho especial em retratar a cultura grega como parte do contexto familiar das personagens, promovendo uma intertextualidade interessante entre as duas obras, visto que para cada uma delas a sociedade grega tem pesos completamente diferentes dentro da narrativa.

Em uma sacada muito perspicaz, o roteiro traz o famoso texto grego como uma alegoria para retratar a brutalidade policial e, também, a questão da imigração em países de primeiro mundo. Se utilizando de um clássico, o longa-metragem mostra como as relações de poder vigentes na nossa sociedade podem ser bem mais antigas e imutáveis do que gostaríamos de acreditar. Na trama original, Antígona desafia o poder do Estado ao realizar o enterro de seu irmão Polynice, ainda que o príncipe Creontes tenha o decretado proibido. No filme, depois de ter o irmão mais velho (Eteócle) assassinado pelas mãos do Estado, a heroína promove a fuga de Polynice de dentro da prisão, para que ele não seja deportado de volta para seu vilarejo de origem.

Antígona é paparicada por sua família

Os símbolos utilizados para ressignificar o antigo texto de Sófocles também são bastante inteligentes. O coro/corifeu do filme é a própria internet. Em montagens dinâmicas com fotos e comentários aparecendo na tela, temos a sensação de entender a opinião pública da cidade sobre os conflitos. Dessa forma, questões exclusivas à nossa sociedade de hoje acabam surgindo. Quando Eteócle é assassinado pela polícia, é possível observar tanto comentários em apoio quanto avalanches de ódio, trazendo uma narrativa própria para o ocorrido. Desde a associação de Eteócle à criminalidade até os comentários xenofóbicos, a presença de uma “milícia online” para alimentar as redes sobre a situação e distorcer os fatos é recorrente no longa.

Exemplo de montagem contendo comentários da internet

Exemplo de montagem contendo comentários da internet

Além disso, quando Antígona é presa após a polícia identificar a fuga de seu irmão, inicia-se um movimento na internet em defesa da protagonista. Mais uma vez trazendo para uma trama clássica, escrita em 400 a.C, um elemento narrativo que só é possível nos tempos de hoje. O movimento “Free Antigone” surge através de conhecidos da protagonista e é amplificado por meio das redes, viralizando o caso pelo país e pelo mundo —possivelmente em uma analogia ao #BlackLivesMatter, que ganhou extrema força nas ruas no ano passado, mas já fazia barulho na internet desde 2013.

Dois policiais observam manifestação em favor de Antígona

Ainda sobre os símbolos, é interessante pensar nas escolhas de adaptação que foram feitas na história para o roteiro do filme. Os gregos atribuíam as tragédias aos deuses, no sentido de que todo final trágico advinha de uma ideia de punição divina. Na história de Édipo e Antígona, todos os conflitos familiares são parte de um castigo dos deuses, de uma maldição. No texto, o conflito principal está no desencontro entre as leis divinas e as leis do homem. Isso se dá da mesma forma na adaptação. Porém, quando o roteirista decide botar a morte de Eteócle nas mãos do Estado e não do irmão (como se dá originalmente), ele faz uma escolha política, promovendo uma crítica dentro de um contexto social específico atual, desassociando-se de uma justificativa divina.

É claro que a tragédia original também tem forte teor político, a partir do momento que traz uma personagem tão resistente como Antígona desafiando as leis do Estado devido a sua fé. Toda a sua história de vida se dá por uma maldição, mas que também muito tem a ver com conflitos de poder. Seu pai casou-se com a própria mãe e tornou-se rei. Seu tio, Creontes, assume o poder de forma tirânica depois que a maldição vem à tona. Todos esses são conflitos políticos, a diferença é que o filme não traz o viés do sagrado. Em “Antigone”, são as estruturas de poder as únicas responsáveis pela desgraça da família de Antígona, desde irmãos envolvidos com crime devido a sua condição social (imigrantes sem cidadania) à brutalidade policial, passando por um sistema judiciário absolutamente ultrapassado.

Antígona e uma mulher choram

A própria simbologia por trás da substituição da morte e proibição do enterro de Polynice, pela sua deportação é bastante política. Ainda que ambos digam respeito a um “não-lugar”, ou seja, a proibição do pertencimento, o segundo é um direito civil enquanto o primeiro está relacionado a um “direito” kármico, espiritual. E as motivações se encontram também na afetividade que Antígona tem por sua família.

Tratando-se de escolhas narrativas, também é muito interessante a maneira como a personagem é abordada. Na tragédia de Sófocles, Antígona leva o nome da peça, mas quem tem uma evolução de arco dramático é o príncipe Creontes. É ela quem causa o incidente incitante mas é ele quem sofre a consequência das próprias escolhas. É ele o protagonista da história. No filme, dirigido por uma mulher, isso é completamente invertido, tornando Creontes apenas mais uma peça narrativa na trama de Antígona.

Antígona disfarçada como seu irmão

No filme, Antígona se disfarça de homem para tomar o lugar de Polynice na prisão e facilitar sua fuga. Corta seus cabelos, copia as tatuagens do irmão, troca a cor dos olhos com uma lente como numa preparação de um soldado para sua guerra. A personagem é um grande símbolo de força e resistência. A heroína não dá o braço a torcer e se mantém fiel ao que acredita até o fim, em todos os momentos. Seja no texto original ou no longa. Porém, no segundo, pelo caráter mais racional e menos místico de seu entendimento de justiça, essa imponência se dá de maneira ainda mais legítima — pelo menos para nós, do século XXI.

Embora se trate de uma história muito antiga, Antígona traz signos em sua narrativa que se aplicam até hoje aos conflitos político-sociais. A adaptação de Sophie Deraspe traz à tona todas essas questões, trazendo uma proposta contemporânea para o texto clássico. E, é importante frisar, a atriz, Nahéma Ricci, faz um trabalho impecável ao interpretar uma personagem tão importante para a história da literatura.

CREONTE
Não é justo dar ao homem de bem, tratamento igual ao do criminoso.

ANTÍGONA
Quem nos garante que esse preceito seja consagrado na mansão dos mortos?

CREONTE
Ah! Nunca! Nunca um inimigo me será querido, mesmo após a morte.

ANTÍGONA
Eu não nasci para partilhar de ódios, mas somente de amor!

Isaac Newton. o próximo Tik Toker

Se eu quiser trocar de emprego hoje, tenho que mudar o status em 3 redes sociais. E em nenhum órgão do governo. Ninguém regula (além do algoritmo). A carteira de trabalho agora é peça de museu, disposta ao lado da televisão de tubo e dos Tamagochis.

A modernidade tinha tudo para dar certo: remédios, internet, ar condicionado portátil. Enquanto o esforçado Homo Sapiens lutava para capturar seus mamutes, nossa mais enfadonha missão de sobrevivência da espécie é esperar os 40 minutos do iFood. E olha que não é difícil caçar lasanhas na sessão de congelados do supermercado, elas são mais dóceis que os mamutes. Não tem pintura rupestre que supere um delivery.

Os cavernosos antepassados devem rolar em seus fósseis. Principalmente quando veem que eles tiveram todo o trabalho de inventar a roda para, anos mais tarde, o cidadão comprar um carro e ir para a rua cantar pneu. Que, para quem não sabe, é aquela prática de acelerar o carro com ele parado, a fim de produzir nada mais que um som alto e ruidoso.

Não é louco pensar que a física se desenvolveu, passou por Isaac Newton, Einstein, Stephen Hawking e chegou até o ponto em que cantar pneu virou moda? E a rinha de galo então? A biologia passou milhões e milhões de anos evoluindo, cuidando de cada detalhe de cada animal. Até chegar ao ponto de ser possível organizarem brigas de pobres (e musculosos) galos, que só queriam um poleiro bonito para chamar de seu.

A Mãe Gaia passou seus aproximadamente 14 bilhões de anos preparando o terreno. Mas era impossível ela prever que toda uma geração seria criada pelo Pânico na TV e pelos filmes do American Pie. Muito menos que os Tik Tokers virariam tão poderosos. Suspeito que ela tampouco previa que a Amazônia fosse virar menos valiosa que a Amazon.

Não que eu culpe a saga de filmes dos amigos que queriam transar com o máximo de mulheres possíveis pelo Armagedon que se aproxima. Muito menos o programa de “humor” dominical. Eles não são tão poderosos. Mas não tenho dúvidas de que positivo o impacto não foi. Depois de tantas piadas com assédio, não é de se estranhar o país ter 1 estupro a cada 8 minutos.

Não sei se a vida imita a arte ou se a arte imita a vida, mas sei que, se forem muitas imitações, vira moda. É o famoso de grão em grão. Mas, ao invés de galinha enchendo o papo, é o mundo sendo enchido de sopapo. Ou você acha que ele não sente dor quando um tweet do Trump é mais poderoso que um artigo científico?

Pode até parecer que não, que o caos contemporâneo já fez com que o mundo se acostumasse à dor infligida pela humanidade, por cada vez mais tweets estarem superando a ciência. Ou então pelos sucessivos golpes de estado financiados por empresários estadunidenses de olho nos recursos naturais de países como a Bolívia. Mas, menos dia, mais dia, a galinha enche o bico — e a conta chega.

Já está chegando, na verdade. Já passou da hora de olhar para trás, ver onde erramos enquanto civilização e entender que o homem não é o lobo do homem. O homem é o lobo da Terra. Talvez o erro tenha sido na hora que inventamos a roda. O mundo com certeza estaria melhor sem os pneus cantando.

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Ilustradora convidada:

Tatsue

Nas redes sociais eu sou conhecida como Tatsue Yoshida, mas me chamo Jennifer Hottz, tenho 19 anos e moro em Petrópolis, RJ.  Comecei a desenhar com 14 anos e demorei para me descobrir no “cartoon dark”. Percebi que meu traço nunca era o retinho e muito menos o agradável ao ver da maioria, gosto de causar esse desconforto com cores escuras e bastante hachura, formas distorcidas e “demônios”. Muitos dos meus desenhos contam alguma história, e a maioria tem um texto junto, alguns tratam de questões políticas, mas o meu foco é voltado para a mente, o sensação de nojo, a hipocrisia, o ego, medo e afins…

👉  Conheça o trabalho da Tatsue no seu instagram.

O incrível mundo do Fan-Made

Um dia, por ai, dando uma passada pelo Twitter, Instagram ou até mesmo em algumas páginas no Facebook, você pode acabar se deparando com um conteúdo que parece original, mas não é bem original. Ele pode vir como um pôster, uma ilustração, uma montagem ou até mesmo um trailer falso de um filme que você espera sair e que no final não é verdadeiro (o que é uma filha da *******).

Todo esse tipo de conteúdo é o Fan-Made, ou seja, conteúdo feito por fãs, para fãs, sobre propriedades que não é dos fãs. Falando assim parece algo ilegal, mas não é, confia. Essa, na verdade, tem sido uma vertente que tem revelado muitos artistas, cujo o trabalho já vem impactando as obras que os inspiram.

Como primeiro exemplo, vejamos o artista Butcher Billy. Ilustrador de Curitiba que faz artes inspiradas no estilo dos quadrinhos da era de ouro e de prata, com referências a músicas e filmes. Depois de alguns anos trabalhando em diferentes conjuntos de obras, em 2018, graças a uma arte sua baseada em Black Mirror, foi convidado pelo criador da série, Charlie Brooker, para ter sua obra presente na quarta temporada.

Alguns trabalhos de Butcher referente a série.

Além de ter duas de suas artes inseridas no universo da série. O Curitibano participou de eventos promocionais, como uma venda de Fitas K7 contendo suas ilustrações como capa. Atualmente, Butcher não se poupa em mostrar seus clientes em seu perfil no Instagram:

Outro exemplo nessa mesma linha, é do artista gráfico Bosslogic. Sírio erradicado na Austrália, ele chegou a criar pôsteres com cenas antes inimagináveis: sejam de batalhas, imagens quase bíblicas além de algumas piadas com o cotidiano. Todos eles com uma qualidade gráfica assustadora, digna de alguém que já trabalha no ramo já há 10 anos.

Muitas das suas artes foram feita com o objetivo de visualizar possíveis escalações para personagens em adaptações para cinema ou TV. Algo que chama muito atenção, não só dos fãs, como também dos próprios atores. O maior exemplo do impacto de seu trabalho foi quando em 2019, a atriz Rosário Dawson foi escalada para o papel de Ahsoka Tano, na segunda temporada de The Mandalorian (2019-), tudo graças a uma arte de 2017:

A arte feita por Bosslogic que chamou a atenção dos produtores da série

“Na verdade isso veio primeiro pelos fãs online. Alguém me marcou num tweet me escalando. Eu retweetei pensando, ‘Claro, por favor’ e ‘#AhsokaVive’ e aparentemente isso chamou a atenção de alguém que estava trabalhando com Star Wars por anos. Ela encaminhou para o Dave Filoni. E assim que isso tudo começou. Eu fiquei tipo ‘Meu deus, eu acabei de ser escalada graças à um fã?’…”

Esses são apenas dois exemplos de como esse tipo de arte tem tido impacto hoje em dia. Pra falar a verdade, são só dois tipos dentro do Fan-Made: Existem muitos outros casos e obras na música e em outros meios (que não cabem aqui). Além desses artistas, eu por exemplo, tenho seguido muito designers de pôsteres como Jake Kontou, que vez ou outra fazem uns Fan-Poster que são incríveis. E você tem algum tipo de Fan-Made que você acompanha?