Início Site Página 19

Asas e a busca pela espiritualidade

“ ‘Asas’ é um misto de ansiar por querer me libertar e expor espiritualmente dentro desse isolamento” – Kaê Guajajara

Na última segunda-feira, a cantora indígena Kaê Guajajara lançou, pelo canal Azuruhu, no Youtube, o seu primeiro clipe. O vídeo, que acompanha a música “Asas”, traz um território comum e, ao mesmo tempo, distante a todos nós, onde a artista divide com o público um pouco de seus processos de cura em forma de arte.

Com uma linguagem que mescla o futurismo indígena e uma pegada de surrealismo, o clipe nos transmite por meio de metáforas visuais os sentimentos de equilíbrio e leveza associados aos elementos da natureza. Nos aproximando de outras formas de vida, seus diversos simbolismos carregam em peso a bagagem cultural e as diversas expressões de espiritualidade dos povos originários, em uma caracterização daquilo que se encontra no campo do não-dito ou não-registrado, ultrapassando assim as barreiras que normalmente encontramos em linguagens como a música ou a palavra escrita.

Foto de Kaê por Abimael Salinas
Créditos das fotos: Abimael Salinas / insta: @abimaelsalinas
Foto de Kaê por Abimael Salinas
Créditos das fotos: Abimael Salinas / insta: @abimaelsalinas

Ao ver o clipe, podemos observar que muito da melodia de “Asas” é reflexo e resposta de Kaê ao sentimento de isolamento que muitos têm vivido nesses tempos de pandemia. Segundo a cantora, a inspiração veio ao ouvir o trabalho do artista Nelson D, intitulado “Asas Rebeldes”. A música a fez lembrar de seu amigo Samuel Chuengue, que havia composto “Eu tenho que voar” há algum tempo, e então ela decidiu que poderia ir encaixando uma música na outra. 

Carregada de muitas de suas questões, como a vontade e necessidade de libertação, Kaê Guajajara foi, aos poucos, deixando essa junção mais parecida com ela mesma, ao desenvolver um processo criativo que se somaria às duas composições para as permear com sua personalidade. 

“A música ‘Asas’ e o clipe foram a forma em que consegui realmente expressar a minha busca pela fórmula mágica para não mais me sentir presa, como as pessoas tanto falam aqui, para estar com o espírito livre, né, viajando por várias dimensões em que só a gente sabe.” – Kaê Guajajara

Kaê vestindo cocar
Créditos das fotos: Abimael Salinas / insta: @abimaelsalinas

Em sua conta no Instagram, a cantora desafiou seus seguidores a também exporem seus processos de cura, postando uma foto, poesia, texto, vídeo ou o que quer que prefiram, marcando a hashtag #DesafioAsas. Com o desejo de que possamos materializar aquilo para o qual muitas vezes não encontramos nenhum símbolo, a ideia da cantora é ver os fãs, amigos e familiares fazendo qualquer coisa que os faça se sentir livres, para que, assim como ela foi inspirada pela arte de seus amigos, mais e mais pessoas possam se inspirar e buscar esses processos sem vergonha de dizer o que realmente as faz felizes.

“Asas” é a música de chamada do EP “Wiramiri”, que estará disponível em todas as plataformas na segunda quinzena de setembro e conta com participações de outros artistas indígenas, como Wescritor, Kandu Puri e pessoas próximas a Kaê. 

Acompanhe as redes sociais da cantora e do coletivo Azuruhu em @kaeguajara e @azuruhu para saber mais sobre os processos de construção do EP, suas músicas e diversas outras ações do coletivo, que acontecem sempre simultaneamente. 

O dia em que acordei sem Serotonina

Um dia acordei sem serotonina. Procurei a danada em todo canto e nada dela aparecer. Cheguei até a botar anúncio no jornal, mas também foi em vão. Desconfiei que algum dos amigos com quem moro a tivesse pego de sacanagem e, depois de revirar a gaveta de todos e não encontrá-la, me veio o remorso por suspeitar de pessoas queridas. Remorso e falta de serotonina formam uma combinação tão divertida quanto igreja e estado.

Na farmácia, a balconista me disse que o estoque havia acabado – e denunciou baixinho que só iriam repor no Carnaval (No Rio de Janeiro, é quando a nova remessa chega). O problema era que eu tinha várias festas nos próximos dias e, para piorar, em absolutamente todas, era obrigatório levar a sua própria serotonina. Nessas horas ninguém chama a gente para uma remoção de siso ou funeral de tia avó.

Quando contei do desaparecimento na mesa de bar, o choque foi total. Ainda mais por ser verão. Para os cariocas, essa é a época mais rigorosa quanto ao dress code da serotonina. “Vamos lá andar na orla, vai te fazer bem”. A pessoa ignorava a sensação térmica de 52 graus e que tinha acabado de acontecer um arrastão a duas quadras dali. Ainda fico impressionado que, com um sorriso no rosto e uma altinha no fim de tarde, o carioca encara qualquer infecção por água contaminada no maior bom humor.

Porém, apesar dos convites para me jogar no caos urbano, decidi ficar em casa até que a bendita da serotonina voltasse. Em um mix de calabouço escuro personalizado e Sibéria artificial, fiz da assinatura da Netflix a minha nova melhor amiga. Nossa relação era apimentada por pipocas amanteigadas e os dias se embolavam como um rocambole mal feito.

Outro ótimo companheiro-paliativo foi o celular. Entre fotos da dieta detox de 3 dias da Juliana e vídeos de uma blogueira comentando os casos de machismo no Big Brother, criamos ali uma área de descanso para quando surgia a tarja do Netflix dizendo que eu deveria dar uma volta. Nunca confie em plataformas de streaming.

Tudo estava indo bem nesse mundinho escuro até que CLAP CLAP CLAP. Arrombaram a porta da minha masmorra. Ó não. Quem veio ali. O famigerado. O temido. O incomparável… Tarja Preta. Com seus braços fortes e animadores, ele desligou o ar condicionado, me carregou para fora daquela dimensão apática e, dando tapinhas nas minhas costas, me jogou de volta ao extasiante universo das pessoas funcionais.

Foram alguns dias até eu me readaptar ao mundo nada hostil que nos cerca. Mas, quando dei por mim, já estava de volta ao posto 9, ignorando completamente a sensação térmica de 52 graus e abraçado na minha serotonina como se nunca a tivesse perdido. Alguém quer vir comigo tirar o siso na sexta-feira?

* * *

Ilustradora convidada:

Janaína Portella

Janaína PortellaFotógrafa que desenha, faz uns vídeos, tenta uns beats e blusinhas, mas queria mesmo ser DJ.

 


👉  Conheça o Instagram da Janaína

Observações sobre o stand-up

O stand-up é uma forma de arte bem particular. Juntando algo do teatro e atuação (embora não existam personagens ou elenco) e algo da escrita e da dramaturgia (embora não exista uma narrativa convencional). Esse fazer artístico sempre foi visto como uma forma de expressão menor; por um tempo compartilhei desse pensamento, mas ao começar a assistir alguns especiais e ler um pouco sobre o tema, fui forçado a mudar de opinião.

Caso não houvesse nada a testemunhar a seu favor, a comédia stand-up pelo menos teria iniciado a carreira de atores como Eddie Murphy, Richard Pryor, Robin Williams, Jim Carrey… A lista é longa de mais para ser escrita. De fato, lugares como os clubes de comédia Comedy Store, The Improv ou Comedy Cellar, foram verdadeiros celeiros para comediantes que marcaram época. Mas esse tipo de apresentação tem muitas qualidades.

Sem muitos recursos além de alguns efeitos de luz e alguns poucos objetos “cênicos”, tudo com que o comediante conta são sua voz, seu corpo e sua vivência, assim seu domínio da linguagem é crucial. No stand-up, o texto e o encadeamento de ideias são fundamentais.  

Mas o stand-up, assim como a comédia em geral, sempre teve uma uma dupla natureza de tanto refletir quanto confrontar uma época. Muitas vezes, gostamos de acreditar em uma noção à la iluminista de que sempre seguimos uma linha reta rumo ao progresso material e “espiritual”, mas as coisas não são assim, nem na comédia nem no mundo. Por isso, essa relação do comediante com a sociedade pode ser comparada àquela de um equilibrista na corda bamba e o chão. Aliás, aí está uma boa comparação, tanto o primeiro quanto o segundo correm algum risco: um a morte, o outro desagradar a plateia.

Lenny Bruce sendo revistado por um policial durante uma de suas prisão
Lenny Bruce sendo revistado por um policial durante uma de suas prisão

Tomemos como exemplo o comediante Lenny Bruce — que atuou entre os anos 50 e 60 — e sua recusa constante em fazer shows “limpos”, algo que lhe rendeu diversas prisões. Sempre fazendo piadas com palavras “obscenas” e temas polêmicos como religião, política e questões sociais de sua época. Em determinado momento de sua trajetória, Bruce se tornou um defensor feroz da liberdade de expressão. Sua vida até rendeu um filme chamado “Lenny” (1974), dirigido por Bob Fosse e estrelado por Dustin Hoffman. Não se pode deixar de mencionar que comediantes como Bill Hicks e George Carlin, que também atacaram a hipocrisia e costumes da sociedade americana, deveram muito a ele.  

Dustin como Lenny no filme de Bob
Dustin como Lenny no filme de Bob

Dick Gregory é outro comediante que usa do humor como uma arma no campo politico, assim como Lenny, Dick foi preso algumas vezes, principalmente por seu ativismo político em favor dos Direitos Civis. Foi justamente para se dedicar mais as suas causas, que ele abandonou a comédia em 1970 (com um breve retorno nos anos 90). Inclusive, o comediante Havoc Miranda fez um breve vídeo falando mais sobre sua trajetória.  

Dick Gregory em uma de suas apresentações
Dick Gregory em uma de suas apresentações

A comédia, devido ao seu grande apelo popular e ao eterno status de “arte menor”, desfruta de bastante liberdade, podendo muitas vezes adotar uma atitude mais transgressora e iconoclasta, já que não está tão presa à ideia de “boa arte” ou “boa forma”. Algumas vezes, alguns artistas podem adotar um tom agressivo, altamente sarcástico ou irônico. Atualmente, nessa linha mais corrosiva temos nomes como Ricky Gervais (um dos criadores do “The Office” original), Sarah  Silverman, Bill Burr, Dave Chappelle, entre outros. Muitas vezes, esses comediantes podem levantar em suas piadas verdadeiras questões morais/éticas, que ao fim do show, ecoam na mente do público.  

Rick Gervais e Penelope Wilton em “After Life”, série criada e estreada pelo comediante
Rick Gervais e Penelope Wilton em “After Life”, série criada e estreada pelo comediante

No entanto, não é só pelo seu potencial crítico que essa modalidade de comédia deve ser reconhecida e valorizada. Sem muitos recursos além de alguns efeitos de luz e alguns poucos objetos “cênicos”, tudo com que o comediante conta são sua voz, seu corpo e sua vivência, assim seu domínio da linguagem é crucial. No stand-up, o texto e o encadeamento de ideias são fundamentais, não é por menos que muitos comediantes, também trabalharam como roteiristas no cinema ou na televisão.

Sarah Silverman em seu especial “A Speck of Dust” (2017)
Sarah Silverman em seu especial “A Speck of Dust” (2017)

Quando se diz que toda piada é composta por um setup e um punch line, tudo parece simples, mas quando notamos todo o malabarismo retórico e timing necessários para se fazer uma plateia rir, vemos o quanto isso é complicado, ainda mais se levarmos em conta certos temas. A linha divisória entre o engraçado e o “mau gosto” é muito tênue, é só tomar como exemplo o especial “Humor Negro” de Daniel Sloss, no momento em que ele conta uma piada sobre a morte da irmã mais nova, cria-se um breve desconforto no ambiente, mas é justamente por ser uma história tão pessoal e marcante em sua vida, que a piada funciona.

Especial de Daniel Sloss para a Netflix
Especial de Daniel Sloss para a Netflix

Este é outro ponto importante sobre Stand-Up, diferente do teatro, no palco não há um personagem, mas uma persona. Basicamente o comediante “atua” como uma versão de si mesmo, maximizando suas características e traços de personalidade marcantes, algumas vezes isso significa revelar o pior de si mesmo. Por esse caráter tão pessoal, os textos costumam girar em torno das experiências, visão de mundo e, em alguns casos, traumas do próprio comediante. Por exemplo, o especial “Nanette” (2018) de Hannah Gadsby  foi uma experiência catártica para a comediante e para a plateia. Por mais que se possa discordar de alguns de seus argumentos ou da própria “forma” que Gadsby deu a suas ideias (para saber mais, ver notas), o espetáculo é impactante. Um outro bom exemplo, do quão fundo  um texto de comédia pode ir nos conflitos e medos de um artista, é o set “Live”  (2012) de Tig Notaro, realizado pouco depois que ela descobriu estar com câncer. Neste espetáculo, Tig faz um texto ao mesmo tempo melancólico e engraçado, infelizmente a apresentação não foi filmado, existindo apenas seu registro em áudio.  

Tig Notaro e Hanna Gadsby
Tig Notaro e Hanna Gadsby

No entanto, não só de traumas e dor vive o humor, alguns comediantes preferem focar em pequenos dramas pessoais ou apenas em situações cotidianas. Nessa linha temos Mike Birbligia (que tem um ótimo especial chamado “My Girlfriend’s Boyfriend”), John Mulaney, ou os já veteranos Jerry Seinfeld e Ray Romano (Sim, o cara de “Everybody Loves Raymond”). Não é por menos, que esses dois últimos, estrelaram suas próprias sitcoms.

Ray Romano, em seu especial “Right Here, Around The Corner”
Ray Romano, em seu especial “Right Here, Around The Corner”

Ainda levando em conta esse ato de se revelar no palco, James Acaster, em seu “Repertoire”, parece subverter completamente essa lógica quando, por exemplo, diz ter trabalhado como policial infiltrado ou que fez parte de um grande esquema fraudulento de venda de mel. Porém, ao mesmo tempo que essas histórias são claramente ficcionais, parecem revelar algo de sua visão de mundo, de sua personalidade. No último “episódio” de seu especial, Acaster conta uma história triste sobre um pato pai de família que é abatido por um caçador, morrendo sem ter a chance de ver seus filhotes crescer. A quem o pato representa (ele mesmo, seu pai, ninguém?) não dá para ter certeza. O final de sua apresentação é um completo ponto de interrogação, nos deixando apenas um punhado de pistas, sem termos certeza quais são falsas ou verdadeiras.

James Acaster em “Repetoire”, disponível no Netflix
James Acaster em “Repetoire”, disponível no Netflix

No Brasil, o stand-up parece passar por um  momento de amadurecimento. Hoje se vê uma multiplicidade de temas, estilos e visões de mundo no cenário nacional, temos desde um Victor Camejo, Nando Viana e Victor Ahmar para quem as palavras, a calma e controle corporal são essenciais para o provocar o efeito cômico, até um Thiago Ventura, Bruna Louise ou Murilo Couto que se utilizam muito bem da expressividade do corpo e um jeito muito particular de falar para ampliar a comicidade de seus textos, que por si só já garantiram risadas.

Stand-up já deveria ser levado mais a sério aqui no Brasil, seja por suas nuances, pelo seu poder contestador ou apenas por nos tirar constantemente de nossa zona de conforto. Mais do que um meio para se fazer rir, essa modalidade de comédia é uma forma de externar ideias, pensamentos e inquietudes muito humanas.

Outros links para quem se interessar:
New York Times: “Nanette’ Is the Most Discussed Comedy Special in Ages. Here’s What to Read About It.”

The Slate: “Stand-up Tragedy: Hannah Gadsby’s Nanette shows how comedy is broken, and leaves us to pick up the pieces.”

The Outline: “The ‘Nanette’ problem: Comedy is at its best when it helps audiences understand their relationship to trauma, not when it makes them feel comfortably woke”

Vice: “Comediantes explicam por que ‘Nanette’ de Hannah Gadsby é tão inovador”

Closer e a liquidez das relações contemporâneas

Saindo do terror altamente contemporâneo de Hereditário, caímos agora em um drama adulto pautado pelas relações amorosas em uma Londres solitária: Closer. Peço permissão para incluir o subtítulo brasileiro: Perto Demais. Acho que dá uma força e potencializa a história. A proximidade entre os seres gera a exposição dos sentimentos e nos torna vulneráveis.

Poster do filme Closer

Primeiro de tudo, já vamos entrar no clima colocando essa música do Damien Rice, The Blower’s Daughter, pra tocar, que ficou eternamente atrelada ao filme. A música também foi responsável por divulgar mundialmente este cantor maravilhoso de indie folk rock irlandês. Seu primeiro álbum O, de 2002, foi um grande sucesso e marcou uma geração com sua voz doce e profunda que atinge nosso subconsciente emocional.

A música teve um grande êxito no Brasil e no mundo, principalmente por causa desse filme. Aqui ganhou uma versão em um dueto estrondoso de Ana Carolina & Seu Jorge.

Como dito no vídeo, na cena da exposição das fotos de Ana, personagem de Julia Roberts, a música que toca ao fundo é Samba da Benção, canção escrita em 1967 por Vinícius de Moraes, grande poeta brasileiro. O clipe abaixo foi gravado na Pedra do Arpoador, outro grande símbolo do estado do Rio de Janeiro, berço da bossa nova e de uma construção imagética de Brasil que perpetua até os dias de hoje e se faz presente na cena do filme de 2004.

Voltando ao filme, o diretor de Closer, Mike Nichols também é responsável e pelos premiados filmes A Primeira Noite de um Homem e Quem Tem Medo de Virginia Wolf?. Este último também é uma adaptação de uma importante peça teatral, desta vez de Edward Albee. Virou filme em 1966 com Elizabeth Taylor e é reconhecido como uma importante trama de confinamento, onde os personagens permanecem todos no mesmo cenário, expostos aos seus próprios traumas e dilemas existenciais. Mike nos mostra como é habituado a textos teatrais, na maneira que respeita a obra original e dirige seus atores com autonomia e segurança.

A grande diferença básica entre teatro e cinema é o diálogo. No teatro, a arte do ator e do texto, o que vale é o diálogo. Pode ser farsesco, anti-naturalista, poético, em verso ou até altamente lúdico. A criação de imagens é transferida para a mente do espectador, algo que no cinema não é muito bem-vindo. Na sétima arte, o desejável é sempre substituir texto por ações dos personagens ou imagens. Longos silêncios e dizer apenas o essencial também são conselhos dignos dos manuais de roteiro para novos escritores.

Julia Roberts em cena do filme Closer

O cinema é a arte do diretor. É ele quem conceitua, cria uma imagem e tem a palavra final. Até mesmo na edição, que é a última forma de escrita,  pode ser também alterada pela direção. No teatro, não. É a arte do aqui e agora, o ator é quem manda. É ele quem dá o tempo, quem dá a deixa e que dita o ritmo do espetáculo. Nesta adaptação de Closer, a palavra teatral ainda é muito respeitada. Não há grandes marcas cênicas, ou técnica evidente. Neste filme, as coisas que importam são: o ator e o texto. O resto está lá para servi-los, não para acrescentar novas informações ou para guiar a ação. É pelo diálogo que eles estarão desnudados e ficarão perto demais do público.

Clive Owen

O filme também pode ser correlacionado com a análise do filósofo Zygmunt Buman, que em 2004 lançou o livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, onde disserta sobre o comportamento das relações amorosas da contemporaneidade. Ele teoriza que as relações de hoje são líquidas, que não se busca a solidez. Nada pode ser rígido o suficiente a ponto que seja difícil de ser alterado. As relações duram até quando derem prazer e satisfação a nós mesmos, e assim, quando não nos interessar mais,  as descartaremos. Tudo parte da mesma lógica da sociedade de consumo. Aqui temos uma entrevista com Bauman, explicando sua visão de mundo para caracterizar os novos tempos.

Natalie Portman e Clive Owen

Então é isso! Abaixo eu coloco o trailer do filme pra vocês verem! Lembrando que Closer está disponível na Globoplay!

O realismo emocional da série Euphoria

Como já foi escrito antes, é possível construir a atmosfera de uma obra audiovisual com apenas elementos simples de roteiro que nos passam a sensação sobre o universo que estamos assistindo. Ainda assim o texto não é o único que pode ajudar a construir isso, já que como se trata de uma série ou um filme, somos submetidos a entender, interpretar e (até mesmo) sentir a história que acompanhamos a partir das imagens que estes produzem.

Claro que, se não houvesse um roteiro, não teríamos imagens a serem produzidas, entretanto, se duas pessoas lerem a mesma história podem acabar a imaginando de forma completamente diferente, e por isso é preciso de uma interpretação e um direcionamento para saber como contá-la. Para fazer isso, é fundamental o trabalho de diferentes áreas da produção, desde o casting, design de produção, figurino e é claro a direção para orquestrar tudo. Porém, nesse texto, vamos nos focar no trabalho da direção de fotografia e o que gira em torno dela para construir tais imagens.

Considerando isso, a série Euphoria (2019-), se destaca por se utilizar de elementos estéticos já considerados comuns para criar uma identidade visual forte que não só dá sua interpretação sobre a história, como também complementa o roteiro para comentar sobre a geração a qual ela retrata.

Esses elementos podem ser divididos da seguinte maneira:

1) Luz e cores:

A leitura de luzes e cores que a série faz é bastante simples. Em ambientes abertos e de dia a série gosta de usar a iluminação natural sem criar muitos contrastes, destacando assim o clima ensolarado de East Highland na Califórnia.

Nate e McKay esperando no estacionamento encostados em seus carros.Jovem Christopher Mckay encarando a câmera em um dia ensolarado

Em ambientes escuros, fechados e em específicos casos abertos, a série sempre procura utilizar a combinação simples de tons de laranja com azul, cores complementares que já são usadas em diversos filmes blockbusters. Algo que é bastante compreensível, visto que é a junção que melhor enfatiza a pele humana, e além disso era uma opção simples para fugir da ideia de fazer uma série muito colorida:

“Precisa ser colorido de uma forma, acredito eu, para que se sinta a elevação. Mas nós não queríamos que fosse como as cores do arco iris, ou pelo menos sem nenhum sistema. Então, na maioria das vezes, nós usamos cores primarias, e eu contei muito com o contraste do laranja com o azul, que é um contraste bastante básico.” – Marcell Rév, diretor de fotografia de quatro episódios e responsável pela criação da estética da série.

Fonte: deadline

Rue vestida de detetive segurando um telefone no seu quarto escuroMcKay encarando Cassie do lado de fora de um restaurante a noiteNate Jacobs vestido com um terno no lado de fora do colégioCassie vestida com um pijama no na sua garagem

Em ambientes abertos e noturnos a direção de fotografia cria névoas que ocupam bastante espaço de cena. Algo que poderia ser facilmente usado para dar um ar fantasmagórico em um filme de terror, mas que nesse caso tenta criar uma aura entorno dos personagens, quase como se estivéssemos em um sonho.

Jules esperando no bosque a noite
Observe como o contraste de laranja e azul continua presente.

Mesmo não querendo ser “muito colorida” a série dá bastante destaque ao roxo/púrpura, cores que geralmente simbolizam realeza e lealdade e que nesse caso serve para ilustrar justamente momentos de “euforia”, sejam eles de festa ou, no caso de Rue (Zendaya), para representar os efeitos das drogas sobre a sua percepção do entorno.

Rue e Jules entrando no baile de inverno
Rue (Zendaya) e Jules (Hunter Schafer) entrando no baile de inverno.

Rue e Jules sob efeito de drogas no cobertor de Jules
Rue (Zendaya) e Jules (Hunter Schafer) sob o efeito de drogas.

2) Cenários:

Quanto aos cenários, a direção de fotografia quase sempre investiu na ideia de quebrar limites físicos e temporais da cena com a movimentação da câmera. Para que isso fosse possível, foram construídos cenários transformistas que geralmente enfatizavam duas ideias de roteiro:

Vista de parte da casa de Rue de cima e sem o teto

Jovem Nate lavando o rosto e "se transformando" em sua versão mais velha

  1. Relativizando o tempo: onde se cria uma ligação entre diferentes locais sem cortes. Algo que pode ser visto no episódio Stuntin’ like My Daddy, quando acompanhamos Rue (Zendaya) narrando a juventude de Nate Jacobs (Jacobi Eroldi) e a câmera atravessa dois espelhos diferentes para “transformar” um garoto de 12 anos em um jovem de 18. 
  1. Ressaltando o ponto de vista: onde se brinca com a interação entre o ator, a câmera e o cenário. Algo que é possível observar no piloto, durante a festa de Christopher Mckay (Algee Smith), quando Rue sente os efeitos das drogas que usou ao ver o corredor inteiro girar.

Rue "girando" no corredor da festa de Mckay

3) Angulação, foco e movimentação de câmera:

Primeiro, é preciso ressaltar que é raro a série se utilizar de ângulos parados. Câmeras em movimento é algo predominante ao longo dos episódios, nos fazendo inclusive, estranhar quando uma cena de planos parados aparece. De qualquer forma, quando a angulação está aliada a movimentação de câmera, o que vemos muitas vezes são ângulos tortos e não convencionais que só tem a complementar o quadro e adicionar mais fluidez e ritmo a gravação.

Jules cheirando uma carreira antes de entrar em uma festa

Já a focagem raramente faz takes com planos diferentes no mesmo foco. Sejam eles distantes ou muito próximos, eles sempre distinguem bem o personagem do ambiente, ressaltando o ponto de vista dele em cena. Se utilizando de um foco bem preciso e sem criar distorções de volume.

Rosto de Cassie com pouco foco
Note com as orelhas de Cassie (Sydney Sweeney) não estão no mesmo enfoque que seus olhos.

É possível ver também muitos efeitos bokeh em ambientes escuros que dão cor ao plano e flares em ambientes claros que geralmente servem para destacar o clima ensolarado.

Rue andando em meio ao foguetório do festival

Cassie em lágrimas no festival

Rue olhando Jules em um dia ensolarado

Cassie e Lexie esperando no quintal na calçada da rua

Por último a movimentação de câmera é o grande destaque da fotografia da série. É composta de movimentos contínuos, estáveis e de velocidade regular, que geralmente usam gruas e trilhos e dão exuberância para qualquer cena gravada. Ela está tão presente na série que até mesmo em cenas menores com falas de personagens e ações simples, são gravadas com aproximações, distanciamentos, panorâmicas ou até mesmo tracking shots.

Kat entrando no corredor do colégio

Cada movimento desses não tem um propósito próprio. Mesmo que a série esteja cheia de exemplos, na maioria das vezes o único propósito desses movimentos é adicionar fluidez ao plano e ritmo a cena como um todo. E, apesar serem bem executados e se encaixarem bem na cena, boa parte deles nasceu de improvisos feitos no set:

“Os Storybords eram um plano bom, mas nós nunca realmente aderimos a eles. Algumas vezes é ótimo gravar um storyboard, mas as vezes você traz algo melhor, ou tem algo acontecendo no set que é um pouco diferente do que você esperava, e você só grava aquilo. Nós sempre estávamos prontos para improvisar, e é um grande sentimento de liberdade, quando alguém como Sam (Sam Levinson, criador da série) está realmente disposto a improvisar, mesmo que ele sempre tenha um plano.” – Marcell Rév

Fonte: deadline

Ainda assim, mesmo não existindo um padrão minimamente planejado sobre a aplicação de cada movimento, vale ressaltar o uso constante da fotografia de chicotes (Whip Pans) que servem de diferentes formas: sejam transições de tempo, transições de espaço ou até mesmo identificar relação entre personagens.

Maddy e Nate trocando olhares na festa do McKay
Nate (Jacob Eroldi) e Maddy (Alexa Demie) no episódio 1

Maddy e Nate trocando olhares no baile de inverno
Nate (Jacob Eroldi) e Maddy (Alexa Demie) no episódio 8

Jovem Kat bebendo pina colada em diferentes momentos na Jamaica
Kat (Barbara Ferreira) criança bebendo em sua viagem a Jamaica

Mãe de Lexi chamando a atenção de Rue
Rue na casa de Cassie (Sydney Sweeney) e Lexi (Maude Apatow)

“Para os movimentos de câmera, nós queríamos muito que eles tivessem uma energia que liga as diferentes histórias juntas. Então, eu diria que a movimentação de câmera é a cola da série, ela cola tudo junto.” Marcell Rév

Fonte: deadline

Essas movimentações também tem um papel crucial para a montagem da história. Como foi destacado antes, muitas cenas abrem mão do simplismo e decidem fazer movimentos complexos e ângulos não convencionais para criar uma estética diferenciada. Porém, em alguns casos essas gravações dão liberdade a montagem, permitindo com que ela alinhe a movimentação com o ritmo da trilha original e não original.

Note como a ação dos personagens e o movimento da câmera parecem seguir o ritmo da música.

Todo esse trabalho de câmera junto tem um papel essencial sobre a representação da juventude e a relação com mundo a sua volta. Essa relação geralmente não é muito explorada em outros programas do mesmo gênero, mas que no caso de Euphoria é a ideia principal por trás de sua estética. Vejamos, por exemplo, como essa relação se dá na abordagem da série sobre nudez, segundo uma das atrizes:

… A questão sobre nudez nessa série é que ela não é glamorizada, não é como ‘Ah, toma aqui um par de tetas’, é apenas real. Quando você faz sexo, você está nu e existe tanta história por trás disso, que se você estiver assistindo a série somente pela nudez, você está assistindo pelas razões erradas.” – Sydney Sweeney, que interpreta Cassie Howard.

Fonte: Build Series

Como é de praxe de programas da HBO, sexo é mostrado de forma explícita e sem restrição nenhuma. Porém, ao invés da câmera se utilizar de ângulos que valorizem os corpos dos personagens em cena, e subsequentemente, acabe os sexualizando, todas as cenas de sexo são gravadas de forma a tentar mostrar o sentimento dos personagens em questão e a naturalidade da situação:

Apesar da quantidade de movimento que colocamos na série como um todo, achei importante ter momentos nas cenas de sexo em que a câmera está parada e estamos tendo uma noção do que os personagens estão pensando e sentindo. Nesses momentos, você quer que a câmera não seja, exatamente objetiva, mas que permita o desconforto e o nervosismo que você sente quando faz sexo quando é jovem, para que todos os aspectos emocionais fiquem evidentes para o espectador. E você não pode fazer isso se cada plano tiver um esplendor.” –  Sam levinson

Fonte: Vulture

Somando esses movimentos mirabolantes, cenários transformistas, luzes e cores bem marcadas, cada elemento, de uma maneira ou de outra, já foi utilizado à exaustão em outras obras. Mas o interessante de Euphoria é como uma reutilização, reapropriação e revisão dessas ferramentas podem ajudar a criar uma linguagem única para a conversa que a série propõe sobre a juventude.

“Então, não é realmente baseado em realismo. Nós chamamos de ‘realismo emocional’, algo que é mais baseado nas emoções dos personagens, e não como o mundo envolta deles realmente parece”Marcell Rév

Fonte: Deadline

Seja você mais jovem ou não, a estética da série tenta emular a emoção que sentíamos quanto ao nosso entorno quando tínhamos a idade de seus protagonistas. Era uma realidade crua como qualquer um pode ver, mas ainda assim afetada pelos sentimentos que temos por ela. Assim a série cria uma maquiagem bela e colorida, sobre a crueza e sinceridade que o roteiro da história conta.

Todas as citações são traduções livres

Chupa, Peste Bubônica!

O século XXI nos faz enfrentar diversos problemas que nossos antepassados jamais seriam capazes de imaginar. Fotos com poucas curtidas. Brigas por textões do Facebook. A falta de Pokemons no trajeto do trabalho até em casa. São diversas as adversidades que a geração Z tem que superar que aqueles lá atrás que morriam de Peste Bubônica não adivinhariam.

Recentemente tive de passar por uma das maiores provas de resistências de um jovem da atualidade. O pesadelo de qualquer um na faixa dos vinte anos. A morte de um parente próximo? Não. A perda de um rim? Pior. O sucateamento das federais? Tente de novo. Foi realmente pesado o que Deus me fez passar. É até complicado de passar para o papel.

Estava eu deitado em minha cama numa noite fria. Assistia alguma série qualquer do Netflix, quando, de repente, a gravidade resolveu me castigar. Mesmo que eu não tivesse feito nada. A maldita invenção de Newton puxou meu celular para o chão da maneira mais violenta que você pode imaginar. Sorte que celular não sangra. Só se espatifa. E o meu se espatifou no chão gelado quebrando em pedacinhos. Ele não sangrou, mas eu sim. Sim, sou exagerado demais.

A vida de um universitário não é fácil. A dieta regada a miojo e o transporte público que está sempre lotado como se fosse um bloco de Carnaval comprovam esse fato. De algum modo, o dinheiro está sempre curto. Então gastar com o conserto do meu celular era algo inexequível naqueles próximos dias. Se com celular já é difícil, imagina sem. É pior que o Temer na presidência.

Nos primeiros dias de luto, parecia que a Amy Winehouse cantava aonde quer que eu fosse. Estava preso num clipe triste de pouca cor onde eu olhava pela janela e gotas melancólicas de chuva caiam vagarosamente. Me pegava imaginando as inúmeras conversas que estava perdendo, os memes que não recebia, as mensagens de bom dia no grupo da família, as fotos de gatinho que minha tia evangélica estaria compartilhando. Enfim, coisas extremamente relevantes para a existência humana.

Algum tempo depois, aquele sofrimento foi se apaziguando. Percebi que não conferir meu Facebook a cada 10 minutos poderia ser algo bom. Eu não sabia mais da viagem que o Carlos estava fazendo para Arraial do Cabo, ou que a Luciana tem a melhor mãe do mundo, ou que a Duda comeu um prato de baixa caloria num restaurante caro. E isso era gostoso. O fluxo de informação descontrolado se torna sufocante por não existir um filtro do que é postado. É que nem aquelas avenidas empanturradas de poluição visual e cheias de conteúdo inútil. Só que de gente. Também inútil.

A quebra do meu celular me fez reparar do vício que me controlava. Assim como o crackudo só percebe que está viciado depois que a onda passa, eu precisei me desintoxicar para descobrir que a Internet tinha virado minha droga. Fui obrigado a me desviciar e aprender a viver sem um Iphone na mão a todo instante. Ainda bem que consegui juntar a grana para o conserto dele e não tive que vender os móveis da minha casa que nem a galera da droga pesada. Inveja daquele pessoal que só tinha que se preocupar com a Peste Bubônica.

* * *

Ilustrador convidado:

Reinaldo Figueiredo

Mais reconhecido como fundador do O Planeta Diário e por fazer parte do Casseta & Planeta, Reinaldo tem um extenso trabalho, transitando entre a escrita, a música e o desenho. Como ilustrador e cartunista, trabalhou no O Pasquim, em jornais de grande circulação como O Globo e a Folha de S. Paulo (onde tinha sua própria coluna) e publicou quatro livros: Escândalos Ilustrados, Desenhos de Humor, Noites de Autógrafos e A Arte de Zoar. Atualmente, continua explorando suas múltiplas habilidades: publica alguns de seus cartuns e quadrinhos na Revista Piauí, toca contrabaixo no quarteto Companhia Estadual de Jazz (CEJ) e apresenta o podcast A Volta ao Jazz em 80 Mundos, disponível no site do Instituto Moreira Salles.

A revolução audiovisual de Michael Jackson

Ao mesmo passo que Michael Jackson foi certamente uma das figuras mais controversas no universo das celebridades, se consagrou também como um dos mais importantes artistas da música pop até hoje. A revolução artística que Michael trouxe para suas produções ultrapassou a esfera musical, tornando-se uma referência para o cinema e especialmente para a dança, trazendo e fazendo grandes nomes dentro da indústria audiovisual.

Com 6 anos de idade, Michael começava, com seus irmãos, o “The Jackson 5”, aos 8 anos, se tornava o cantor principal e aos 11, — já contratados pela Motown — a banda lançava “ABC” e “I Want You Back”, dois hits implacáveis, ambos com primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos.

Em 1976, já construindo uma carreira de sucesso e em uma nova gravadora (Epic), o “The Jackson 5” passava a se chamar apenas “The Jacksons”. Estreando Michael Jackson e seus irmãos nas produções musicais audiovisuais, a música “Blame It on The Boogie” teve um clipe típico da era disco com os efeitos visuais, danças e figurinos clássicos da época.

Dois anos depois, após a composição e interpretação de alguns hits de sucesso pelo “The Jacksons”, Michael foi convidado para participar do filme “The Wiz”, um musical que fez uma releitura do clássico “O Mágico de Oz”, contando a história de uma professora negra do Harlem — representada por Diana Ross —, que é pega por um ciclone enquanto corria atrás de seu cachorro e vai parar na Terra de Oz. Michael fazia o Espantalho (Scarecrow).

The Wiz foi crucial para a trajetória de Michael, não só por ser sua primeira performance no cinema, onde brilhou como dançarino, cantor e ator; mas também por ter sido na produção do mesmo, onde Quincy Jones diretor musical de The Wiz e um dos mais importantes produtores musicais da indústria americana até hoje conheceu Michael Jackson e dali se iniciou uma das parcerias de maior sucesso na história da música pop do último século. Foi junto com Quincy Jones que Michael produziu Thriller e outras grandes obras de sua carreira.

Michael Jackson e Quincy Jones
Michael Jackson e Quincy Jones

Quincy Jones foi o produtor musical do primeiro álbum solo de Michael, “Off The Wall” (1979), que não só foi aclamado pela crítica e pelo público, como foi nomeado para dois grammys, levando o de melhor performance masculina de R&B. “Dont Stop ‘Till You Get Enough” e “Rock With You” foram sucessos, e tiveram seus videoclipes no mesmo ano. Ainda sem trazer novos elementos, ambos são videos com uma estética disco convencional, com figurinos e efeitos visuais marcantes da década de 80. 

Mas foi em “Thriller” (1982) que tudo mudou. Já no primeiro videoclipe do álbum, “Billie Jean” (dirigido por Steve Baron), se vê uma obra audiovisual de teor completamente diferente do que Michael já havia lançado. O clipe apresenta uma narrativa e como muitas vezes se repete no desenrolar de sua carreira coloca o cantor como uma figura mítica, com poderes sobrenaturais no meio de pessoas normais. Em “Billie Jean”, Michael fica invisível em fotografias e tem a capacidade de desaparecer, além de iluminar os ladrilhos do chão quando passa. 

“Billie Jean” foi um sucesso, e é considerado o motivo pelo qual a MTV se tornou o fenômeno que foi, dentro da indústria do entretenimento não só isso, ele também evitou que o canal, que na época se mostrava um mal investimento para seus executivos, fosse cancelado. A emissora tinha pouco mais de 1 ano, era focada em rock ‘n’ roll e seu conteúdo era praticamente exclusivamente branco. A MTV se recusou a transmitir o clipe e só aceitou coloca-lo no ar depois de severas ameças da Epic, gravadora de Michael, que prometia tirar o direito do canal de reproduzir o material de qualquer um de seus artistas, e fazer uma exposição pública de discriminação racial. Depois da primeira transmissão de “Billie Jean”, o álbum vendeu mais dez milhões de cópias, e a MTV passou a ganhar atenção do público mainstream ainda que anos mais tarde tenha cometido o mesmo erro, ao resistir a abraçar a cultura hip hop e seus videoclipes inovadores

Clipe de “Billie Jean”
Clipe de “Billie Jean”

Alguns meses depois, Michael lançava o clipe de “Beat It”, que o consagrava como um artista pop internacional. Dirigido por Bob Giraldi, “Beat It” já abusava de elementos cinematográficos — especialmente do gênero musical — com um prelúdio que contava uma história, além de grandes coreografias com muitos dançarinos e traços narrativos presentes na direção de arte, na dança e na performance dos bailarinos. Novamente, Michael aparece como um ser “especial”, dessa vez quase heroico, separando uma briga de faca entre duas gangues e unindo todos numa mesma coreografia. Para isso, Michael propôs uma audição com dançarinos que realmente pertencessem a gangues rivais de Los Angeles — Creeps e Bloods —, de forma que a rivalidade existente no clipe, de fato era presente tanto nos sets de filmagem e quanto vida real.

Finalmente, no dia 2 de Dezembro de 1983, era lançado o filme que mudaria para sempre os paradigmas para produção de videoclipes, se tornando uma das maiores referências de audiovisual para a música pop. Mais do que um clipe, “Thriller” é um curta-metragem de terror, com diversas referências da cinematografia do gênero, que combina uma revolução em efeitos especiais para a época, uma inovação em direção de arte e coreografia e mais uma vez um pioneirismo na introdução de características e propostas narrativas típicas do cinema dentro dos videoclipes. 

“Thriller” foi dirigido por John Landis, que foi convidado por Michael depois de lançar seu filme “Um Lobisomem Americano Em Londres” (1981). Michael gostava do filme por ser um terror que também era engraçado. John então propôs a produção de um curta, ao invés de um videoclipe com a duração da música. “Thriller” parodia alguns filmes b de terror clássicos dos anos 50 — com influências em obras como “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) e “A Companhia dos Lobos” (1984), e coreografias inspiradas no “Fantasma da Ópera” (1986). Novamente, Michael aparece como uma figura lendária, se transformando em lobisomem no meio de zumbis.

Michael Jackson e John Landis
Michael Jackson e John Landis

“Thriller” foi um marco tão grande que até hoje é relido, referenciado e parodiado em diversas outras obras. Desde a maquiagem, o figurino, até as performances, as danças e a inovação narrativa e técnica, tudo na obra é extremamente inventivo em comparação ao que era produzido naquele momento. Em “Rodeo” de Lil Nas X, há referências evidentes a “Thriller”, afirmadas pelo próprio artista. Tanto no conceito quanto na estética, Lil Nas buscou exatamente o que Michael buscava em 1983, brincar com efeitos visuais possíveis em suas respectivas épocas para contar uma história de terror. 

Em “Thought Contagion”, a banda Muse também se inspira abertamente na obra de Michael para contar uma história de terror. Além de repetir elementos presentes em “Thriller”, como o carro em uma rua escura, os olhos vermelhos, a transformação dos outros em volta em monstros. A principal diferença é a perspectiva do protagonista, que não é a do monstro mas sim a da vítima.

Até mesmo no hip hop brasileiro, “Thriller” teve sua homenagem. O cantor Batoré, atualmente Batz Ninja, fez uma releitura da obra em seu videoclipe “F.A.B”, onde praticamente todas as cenas do filme original são adaptadas em um cenário carioca.

No histórico clipe de “Bad Romance”, da Lady GaGa, — primeiro videoclipe feminino a alcançar um bilhão de visualizações no youtube — muitos críticos afirmam haver uma influência direta da coreografia dos zumbis de “Thriller”. Para além disso, toda a inovação na parte estética, direção de arte moderna e “monstruosa” evidenciam uma inspiração na obra de Michael. Em outros trabalhos como “Alejandro”, “Judas e “Telephone”, GaGa explora bastante a linha narrativa em suas criações audiovisuais. Não há afirmações da artista sobre as comparações, mas a própria já comentou publicamente diversas vezes sua admiração pelo trabalho de Michael Jackson.

Em 2013, “Thriller” ganhou um curta de stop-motion feito com lego realizado pela artista Annete Jung. Alguns anos depois, em “Michael Jackson’s Halloween” (2017), um média-metragem que termina no encontro dos protagonistas com o próprio Michael, “Thriller” teve sua adaptação para animação. 

Mas o sucesso de “Thriller” não parou a inventividade de Michael, que em 1987 lançava o álbum “Bad”, também produzido por Quincy Jones. Com a faixa que levava o nome do álbum, Michael produziu mais um filme-videoclipe, dessa vez de 18 minutos, dirigido por ninguém menos do que Martin Scorsese, escrito pelo novelista Richard Price e coreografado pelo próprio Michael. O curta, inspirado no filme “West Side Story”, conta a história do choque cultural entre o protagonista, Darryl (Michael Jackson), que termina os estudos e volta para sua antiga vizinhança e não é mais “malvado” como seu antigo grupo de amigos.

O famoso clipe de Beyoncé, “Formation”, foi bastante comparado a “Bad”, partindo do paralelo de histórias de vida de dois artistas que ascenderam e vivem dois mundos: o mundo de sua criação e o mundo que a fama e o enriquecimento lhes proporcionou. Ambos os artistas foram acusados de “embranquecimento” — no caso de Michael, de uma maneira muito mais complexa e especialmente individual — e como resposta fizeram obras com a mensagem de que de alguma forma ainda eram os mesmos, ou pelo menos que nunca perderam tudo aquilo que suas criações lhe ensinaram. Além disso, as coreografias de “Formation” conversam muito com as propostas por Michael e seus dançarinos no clipe de “Bad”.

Ainda em “Bad”, em 1988, o single “Smooth Criminal” também ganhou seu videoclipe de sucesso. Inspirado em “O Poderoso Chefão” (1972), e com referências a Fred Astaire em “The Band Wagon” (1953), Michael representa um gangster em um clipe meio ação, meio faroeste nos anos 30. No vídeo, os dançarinos e Michael performam o “inclinado anti-gravidade”, um passo marcante e que parece praticamente impossível.

Em 1988, Michael volta a ter uma aparição marcante no cinema, com “Moonwalker”, filme antológico que conta a história de Michael, lutando contra um perigoso traficante de drogas (interpretado por Joe Pesci) e seu exército de drogados para proteger três crianças. Durante o filme vemos uma série de clipes de singles do álbum “Bad”. Entre eles há o videoclipe de “Speed Demon”, feito como um vídeo promocional para a divulgação do filme e do álbum, onde animação e mundo real se misturam; iniciando uma tendência que apareceria futuramente em prestigiados títulos de Hollywood como “Uma Cilada Para Roger Rabbit” (1988) e “Space Jam” (1996).

Depois de uma série de grandes sucessos advindos da parceria de Michael com Quincy Jones, em 1991, Michael lança “Dangerous”, seu primeiro disco solo sem o produtor. O primeiro single do álbum foi “Black or White”, outro enorme hit audiovisual. Dirigido por John Landis, o mesmo criador de “Thriller”, o clipe de “Black or White” conta com a atuação de Macaulay Culkin — protagonista de “Esqueceram de Mim”, que na época acabara de ser lançado —, Tess Harper, Tyra Banks e George Wendt.

Na época, o clipe de “Black or White” causou bastante polêmica, tendo seus últimos quatro minutos censurados em diversas transmissões para a televisão, devido a repercussão do caso. Isso se deu porque no final do vídeo, personificando uma pantera, Michael faz uma dança extremamente expressiva com alguns movimentos “sexuais” que foram interpretados de maneira profundamente conservadora por parte do público. Além de destruir um carro e as janelas de um estabelecimento durante sua performance de pantera negra — certamente em uma alusão ao “Black Panthers Party” —, o que também traz um discurso político através do imagético que não resultou em uma repercussão positiva da obra.

Michael Jackson e dançarinas do clipe “Black or White”
Michael Jackson e dançarinas do clipe “Black or White”

“Remember The Time” foi outro single impactante de “Dangerous”, trazendo um cenário egípcio para a obra de Michael, com uma proposta totalmente diferente. Voltando as raízes de “Thriller”, neste curta-metragem a ideia foi brincar com uma estética extravagante e possivelmente caricata, se utilizando da comédia — dessa vez até de maneira mais evidente do que em “Thriller” — para contar uma história, e como sempre se utilizando do máximo de recursos de efeitos especiais disponíveis no momento. Mais uma vez, o personagem de Michael beira ao fantástico, com super-poderes que o distinguem dos seres humanos comuns — o que seguramente diz bastante sobre a forma como ele se via e se comportava.

“Remember The Time” foi dirigido por John Singleton e é estrelado por Eddy Murphy, Imam e Magic Johnson. Filmado nos estúdios da Universal no ano de 1992, o videoclipe foi transmitido em diversos canais, além de especiais de comédia da MTV.

Em 1995, Michael veio ao Brasil, acompanhado de Spike Lee que produziu e dirigiu o clipe de “They Don’t Care About Us” no Pelourinho (Salvador) e no Morro do Dona Marta (Rio de Janeiro). O clipe conta com a colaboração do importante e tradicional grupo musical baiano Olodum, além da população local que é parte fundamental da narrativa proposta.

Pouco tempo depois, Michael produziu uma segunda versão de clipe para a música que se passava em uma prisão americana, com coreografias poderosas de grupo e imagens impactantes de revolta ao redor do mundo. Essa versão foi censurada pela MTV, devido a “brutalidade das imagens” e se tornou muito menos conhecida que a versão brasileira, que tem uma proposta um pouco diferente.

Hoje, em 2020 — pouco mais de uma década após seu infeliz falecimento —, Michael se mantém como uma das principais referências para artistas, produtores e diretores de toda a indústria musical. É o grande ídolo dos grandes ídolos que a cultura pop tem em seu leque na atualidade, o que diz tudo sobre a importância e primazia de seu trabalho. “Thriller” para sempre será um marco na história do cinematografia musical. Michael definitivamente não foi uma das figuras mais coerentes que a fama e a mídia construíram, mas deixou um legado artístico indiscutível e estabeleceu um padrão de excelência quase inalcançável para a geração que o seguiu.

Hereditário e a metáfora sobre o luto

E saindo de uma doçura sem tamanho que foi o meu texto de As Vantagens de Ser Invisível, chegamos agora ao expoente no novo terror, o aclamado Hereditário, escrito e dirigido por Ari Aster.

Hereditário é o primeiro longa-metragem do novo nome do terror norte-americano: Ari Aster, um jovem diretor de 34 anos que vem chamando atenção. Tudo começou com seus pais: seu pai músico e sua mãe poetisa proporcionavam a ele uma relação com a arte desde cedo. Até que por volta dos dez anos de idade se viciou em filmes de terror e alugava todos os títulos possíveis na época das locadoras de vídeo. Seguiu sua vocação, estudou cinema e fez seu primeiro curta-metragem, em 2011.

The Strange Thing About the Johnsons é sobre uma relação incestuosa de pai e filho. A vontade de fazer o filme se originou da própria revolta que Aster tinha com o Instituto em que estudava, onde, segundo ele, preparava os alunos para seguirem um caminho clássico hollywoodiano. Ele, por sua vez, quis chocar e escolheu um tema extremamente polêmico. O curta foi premiado no importante festival de Sundance, conhecido por apresentar grandes talentos pro cinema e logo se tornou um sucesso na internet. Abaixo temos o link do Vimeo com o curta completo.

Entre 2011 e 2016, realizou 7 curtas-metragens, com destaque para o seu quarto em 2013, desta vez, mudo, sobre uma mãe superprotetora com seu filho, que sonha em ir para a faculdade e ela tenta o impedir. Munchausen foi outro grande êxito de crítica, que o consolidou no meio artístico americano. O título se originou da nomenclatura da síndrome onde a mãe protege tanto o filho que torna a relação tóxica e perigosa: Síndrome de Münchhausen. O curta está disponível abaixo:

A assinatura de Ari Aster chamou a atenção da produtora e distribuidora de filmes A24. A empresa, fundada em 2012 em Nova York, já presentou o público com grandes títulos, e a maioria deles com densidade de enredo e trama envolvente. A liberdade criativa que a empresa fornece aos seus profissionais somada às escolhas de histórias pouco convencionais têm gerado uma legião de fãs e tornou-se referência de qualidade. A parceria com Ari Aster consolida um gênero que a empresa têm apostado com retorno positivo: o terror. Abaixo separei alguns filmes realizados ou distribuídos com o selo da A24.

E para gerar esse terror todo na película, nada melhor do que uma grande atriz que está passando por um grande momento da sua carreira: Toni Collette. Seu desempenho neste filme é espetacular, onde transita por todas as camadas de uma filha que perde a mãe, mesmo que esta não tenha sido um exemplo de ternura em sua criação. A sua raiva com a vida, com a família e com questões do seu passado são muito bem representadas e vividas por Toni. Abaixo trouxe dois projetos em que se destacou nos últimos anos; são eles Entre Facas e Segredos e a minissérie Inacreditável, ambos de 2019.

Outro ponto técnico que neste filme fica evidente é a qualidade do plano geral. Para conseguir tal efeito e simular a impressão de casa de bonecas, onde tudo é miniatura, a direção optou por filmar estas partes em um sound stage, ou, traduzindo livremente, palco sonoro. É uma espécie de estúdio enorme, similar a um hangar, onde há muito espaço para construção de cenário e, consequentemente, recuo de câmera. Desta maneira, tudo tem uma dimensão maior em relação ao tamanho dos atores, relacionando com o estranho hábito da protagonista de representar sua vida e experiências em miniaturas de brinquedo.

Confira o trailer oficial do filme ou relembre, caso você já tenha assistindo:

Então é isso, galera! Vamos com tudo em cima desse filme, que ele tem muito assunto e muitas ramificações! Lembrando que ele está disponível nos streamings Amazon Prime Video e HBOGo

Grande abraço! Até a próxima!

As vantagens de ser invisível e a redescoberta do afeto

Agora um alívio! Depois de sairmos do Clímax, aquele filme perturbador do Gaspar Noé, vamos para uma das obras que eu mais amo na vida e que marcou toda minha geração!

Primeiro de tudo já solta a playlist do Spotify, porque a trilha sonora deste filme é absurdamente maravilhosa, com nomes como The Samples, The Smiths e também a presença da lenda maior David Bowie.

O fato dela ser composta por grandes conjuntos e cantores dos anos 1980 e 1990, evidencia a época em que o autor estava em período colegial, vivendo e experimentando as dores e as delícias da juventude.

As experiências da adolescência e do ensino médio podem ser agradáveis e nostálgicas para alguns, mas extremamente difíceis e dolorosas para outros. E é neste limbo que Stephen Chbosky, autor do livro, do roteiro e diretor desta obra, se encontrou.

Ele criou este romance enquanto passava por uma separação, onde questionava noções de amor próprio e reconexão com sua essência. Por essas e outras, sempre controlou os direitos da obra, tratando-a como intransferível e intransponível, o que não é comum na indústria do cinema. Chbosky fez questão de capitanear todas as etapas criativas de sua obra.

As Vantagens de Ser Invisível é um grande marco para nós, os primeiríssimos millennials, nascidos a partir de 1995, essa geração que já cresceu mexendo na internet, embora com muitas influências e hábitos das gerações anteriores. O livro foi lançado em 1999, mas sua história se passa em 1992. O filme, por sua vez, só foi lançado em 2012. Então, as referências dos anos 1980, 1990, 2000 e 2010 se misturam neste caldeirão identitário que é a obra de Chbosky.

Justamente quando o filme estreou, eu estava praticamente terminando o ensino médio, onde os sonhos e expectativas no futuro eram gigantes. A gana e ansiedade de realizar sonhos começavam a germinar, assim como os primeiros prazeres, relações amorosas, paixões platônicas… Muito, muito, muito. Tudo muito. A bendita intensidade; a sensação mais eufórica na mais linda das idades.

Não é á toa que filmes de high school ainda são universais e abarcam públicos de todas as idades, pois é neste momento da vida em que expressamos nossa essência e começamos mudanças que nos acompanharão por muitos anos. É a reafirmação de escolhas e ações que constituirão nossa identidade. Ali estamos nós ainda sem os grandes golpes da vida adulta e sem os problemas que vamos assumir com o chegar da idade. É a hora de arriscar.

Pra mostrar o quanto eles ainda estão presentes no cinema e nas premiações contemporâneas, trago títulos que fizeram bonito e já são novos expoentes desta dramaturgia coming-of-age: 

Um outro fator interessante do filme é a maneira de como a literatura do século XX ajuda o protagonista a lidar com seus próprios problemas e a construir sentido à sua própria vida, passando a entender o pensamento humano e a se expressar. Torna-se evidente o poder da arte literária e a cumplicidade que se tem com a solidão, com o medo do desconhecido e até com o seu professor, primeiro parceiro de Charlie no opressor ensino médio americano.

Alguns títulos que são citados e aparecem na estante do personagem de Logan Lerman são: O Grande Gatsby (1925), O Estrangeiro (1942), O Apanhador no Campo de Centeio (1951), Na Estrada (1957), A Separate Peace (1959) e O Sol é para Todos (1960). Outros autores de língua inglesa citados são Charles Dickens, autor de Oliver Twist e Um Conto de Natal e William Shakespeare, autor das peças teatrais Hamlet e Romeu e Julieta.

Depois de muito escrever sobre este filme, eu só sinto vontade de assistir mais uma vez e me deliciar com a ingenuidade, o afeto e grande amizade que o trio composto por esses três grandes atores (Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller) representou e ainda representa para mim.

É uma nostalgia muito bem-vinda para tempos de isolamento social. Uma redescoberta dos valores, dos amores e dos bons sentimentos. Uma nova maneira de renascer, de amadurecer e de despontar para um novo normal. Para um novo mundo.

Dois Orson Welles

A história de Orson Welles em Hollywood é bem conhecida, de jovem promessa à pária em um piscar de olhos. Depois de toda a complicação envolvendo o lançamento de “Cidadão Kane” (1941) e sua baixa bilheteria, o diretor perde seu prestígio com os estúdios e também o controle criativo de seus filmes. As interferências de produtores, a dificuldade em conseguir trabalho e a paranoia anticomunista que crescia nos EUA fazem com que Welles busque melhores oportunidades na Europa.

Fora de seu país de origem, Orson Welles decide adaptar Otelo para o cinema. As filmagens são complicadas, duram cerca de três anos e ocorrem parte na Itália, parte no Marrocos. As muitas dificuldades financeiras, os constantes hiatos na produção, a troca de atrizes e a dificuldade de reunir o elenco em um mesmo lugar forçaram Welles a adaptar o seu “estilo” as novas condições de trabalho. André Bazin, em seu livro sobre o diretor, nota como os planos longos e a profundidade de campo, tão presentes nos seus filmes anteriores, em “Othello” (1952), foram subsistidos por planos breves e a maior utilização do plano e contra-plano.

Poster de “Cidadão Kane” ilustrado por William Rose.
Poster de Othello de 1955, ano de lançamento do filme nos EUA.

Obviamente as condições financeiras e técnicas afetam o resultado final de um filme: influenciam a sua estética, limitam ou ampliam as escolhas do diretor, permitem a equipe trabalhar desse ou daquele jeito etc. Tudo isso é evidente, mas nunca havia pensado em como isso se dá na obra de um mesmo diretor, como condições mais ou menos favoráveis influenciam o seu trabalho e seu “estilo”

De algum modo, tanto “Cidadão Kane” quanto “Othello” foram afetados pelos seus processos de produção. Entre eles há diferenças formais bem evidentes, mas, evidentemente, tais particularidades não impedem que Orson Welles possua uma “assinatura” própria, nem impossibilitam a existência de uma unidade em sua obra.

Tendo essa questão em mente, sigo a trilha deixada por Bazin e escrevo algumas palavras sobre o trabalho de Orson Welles; mais especificamente sobre dois de seus filmes, cada um realizado em momentos muito distintos de sua carreira. “Cidadão Kane”, o primeiro longa-metragem do diretor, foi filmado quando ele era uma grande aposta da RKO (um importante estúdio na época) e contava com muita liberdade criativa e um alto orçamento; já “Othello”, foi realizado em sua estádia na Europa, onde Welles encontrou grande dificuldades técnicas e financeiras.

 Orson Welles fotografado por Cecil Beaton.
Orson Welles fotografado por Cecil Beaton.

Tratando-se do cinema de Orson Welles, a montagem é uma boa forma de se aproximar do tema. Em “Cidadão Kane”, o montador Robert Wise tende a seguir a lógica do cinema clássica. Assim sendo, a montagem deve ser “invisível” e não deve chamar a atenção para si; sua única função é facilitar a narrativa e a imersão do público. Neste primeiro filme de Welles, todas as transições entre os planos seguem esse princípio. O uso constante da fusão, as elipses e raccords cuidadosamente planejados tornam a narrativa fluida e os cortes quase imperceptíveis.

Por outro lado, em Othello – montado por Jenö Csepreghy (creditado como John Shepridge), Jean Sacha, Renzo Lucidi e William Morton – essa lógica é constantemente desafiada. Embora ainda tenha uma função narrativa, a montagem desse filme é mais caótica e imprecisa. Em muitos momentos, não há fluidez entre os planos; já em outros, há raccords, mas esses são tão abruptos que apenas evidenciam a montagem, criando uma desarmonia entre os planos e na própria noção de espaço. Isso também se dá com o som, muitos diálogos parecem estar dissociados das imagens: há momentos em que falta sincronização; em outros, a voz de um personagem parece completamente livre de seu corpo e de sua presença. Muitas dessas peculiaridades, que no cinema clássico seriam considerados erros, foram resultantes das complicações enfrentadas durante as filmagens. Porém, Welles foi capaz de se utilizar desses imperfeições para um fim expressivo.

Mas antes do processo de montagem (e, de certa forma, dele indissociável) vem o ato de pensar a encenação. Em “Cidadão Kane”, Welles adota planos mais longos e uma mise-en-scène elaborada. Há sempre tempo para a interação entre os atores/personagem, para a gradação de suas emoções e para a locomoção de seus corpos no espaço. Em “Othello”, as coisas se dão de forma um pouco diferente, é a montagem que possibilita Welles transformar duas locações distantes em um mesmo lugar, ou permite atores, que nunca conseguiam conciliar agendas, contracenassem juntos. Para tanto, adotou-se uma visão pragmática: não há tempo (nem dinheiro) para elaboração, assim tudo é concisão e cada plano se torna essencial. Tal visão parece se manifestar nos cortes, na velocidade dos diálogos, nos movimentos bruscos dos atores e da câmera, no uso do plano e contra-plano. Durante todo filme, há uma sensação de urgência e desorientação, que não só reflete a psique do protagonista; como a do próprio Welles, que tenta criar sentindo a partir de um amontoado confuso e caótico de imagens e sons.

Othello (Orson Welles) observa Desdemona (Suzanne Cloutier).

De algum modo, tanto “Cidadão Kane” quanto “Othello” foram afetados pelos seus processos de produção. Entre eles há diferenças formais bem evidentes, mas, evidentemente, tais particularidades não impedem que Orson Welles possua uma “assinatura” própria, nem impossibilitam a existência de uma unidade em sua obra. Em todos os filmes do diretor é possível observar traços estilísticos e temáticos comuns, mas essa não é uma questão para se tratar agora.

Nota: Apesar de em 1951, o filme “Otello”  já circular por algumas salas italianas, seu lançado oficial se deu apenas no Festival de Cannes de 1952. 

Clímax: a imersão do cinema sensorial

Da melancolia sobre relações amorosas contemporâneas de Her, vamos agora para um filme extremamente sensorial, onde os sentimentos de loucura e medo se instalam em um lugar previamente seguro com o longa Clímax, do provocador Gaspar Noé.

“Uma montanha russa que se torna um trem fantasma”

Acho que esta frase define bem o filme: uma experiência sensorial para quem assiste. Nós somos praticamente sugados para dentro do ambiente e da trama do filme. Para que esta loucura estivesse presente na interpretação dos atores, o filme foi rodado em ordem cronológica durante quatro semanas. Segundo o diretor, foi o filme mais rápido que ele já realizou, desde a concepção da ideia até o término das filmagens.

É neste caos todo que a trilha sonora se mostra primordial na construção de um ambiente intenso, eufórico e de gradual perturbação.

A trilha contém inúmeras músicas eletrônicas de produtores musicais europeus antológicos, como o francês Cerrone e o italiano Giorgio Moroder.

A princípio, o diretor Gaspar Noé estava completamente fascinado pelo mundo da dança, pelos dançarinos da noite parisiense e pela riqueza de suas experiências de vida. Ele foi magnetizado por esses artistas, que mesmo vivendo sob realidades adversas, brilhavam em cima de um palco. Seja uma vez por semana, a cada quinze dias ou a cada mês, aqueles poucos minutos os transfonavam em estrelas potentes e grandiosas, os preenchendo de satisfação e esperança.

Em meio à esta pesquisa, o estilo de dança krumping foi o que mais impressionou Noé, por seus movimentos extremamente rápidos, rijos e com uma certa agressividade de quem necessita expurgar a opressão que vive. Abaixo, separei um vídeo que ilustra os movimentos que atraíram o diretor:

Este estilo de dança foi tema do documentário Rize (2005), realizado pelo badalado fotógrafo de moda David LaChapelle. O filme impressionou Noé com sua energia vibrante, pois os artistas dançam como se estivessem possuídos. Já Clímax utiliza muito dessa relação dança/espiritualidade para se conectar com a paranoia instalada na festa.

Nos créditos iniciais, o filme se intitula “orgulhosamente francês” por se conectar ao sentimento do país, que começava a se recuperar dos ataques terroristas sofridos no final de 2015. O medo de lugares fechados, o perigo à qualquer instante e vindo de quem menos se espera, no filme, o terror está em todo lugar.

Para relembrar melhor esses dois momentos da história recente da França, separei duas reportagens: A primeira é sobre os atentados orquestrados no país em 2015 e a segunda aborda como o povo passou a conviver com o trauma destes eventos.

O estilo de Gaspar Noé continua extremamente sensorial e chocante, como foi por toda sua carreira. Colocados em conflito, seus personagens se expõem aos instintos mais animalescos e fisiológicos. Se você ainda não conhece nenhum outro filmes deste diretor, sugiro os títulos abaixo:

Mad Men: Encarando Verdades

ATENÇÃO: SPOILERS ABAIXO

Quando pensamos em uma época, sempre acabamos nos deixando levar por memórias de seus principais acontecimentos, sejam eles eventos históricos ou culturais. São esses recursos que nos ajudam a pintar nosso imaginário e criar uma ideia de como eram as coisas em tal período. Porém esse imaginário só nos dá uma versão resumida e não nos passa a sensação real de estar lá, de vivenciar esses eventos históricos, de ouvir um artista pela primeira vez ou ver um filme na sua estreia.

Essa atmosfera é algo bastante difícil de se alcançar na ficção. Muitas obras, por exemplo, criam uma aproximação fiel em seu departamento de arte (cenários e figurinos), mas quando se propõem a contar uma história, muitas vezes fogem da realidade, criando roteiros que romanceiam alguns fatos e os tornam menos palpáveis. Existem algumas exceções, filmes biográficos, por estarem focados na jornada de um ou mais personagens, descrevem seus atos como triunfantes, para que o público compartilhe as dores e desafios vividos pelos seus protagonistas. Mas até mesmo nesse gênero, uma dose extra de romanceação pode ser fatal pra quebrar a atmosfera do período representado e nos fazem criar um falso imaginário sobre como as coisas eram. 

Nesse contexto, Mad Men, série criada por Matthew Weiner, ganhadora de nove Emmys, se diferencia. O programa, que se passa em uma agência de publicidade de Nova Iorque ao longo dos anos 60, tenta emular atmosfera da época, se utilizando de uma ferramenta de roteiro arriscada: o desconforto.

Pete encarando a saia de Peggy

Pete: “Bem, você está na cidade agora. Não seria um pecado se víssemos suas pernas. Se você apertar sua cintura um pouquinho, você vai parecer uma mulher.”
-T01E01: “Smoke Gets In Your Eyes”

No primeiro episódio, somos apresentados a um escritório comum do centro de Manhattan com um contraste visual claro: em meio a um design confortável e personagens de roupas estilosas e ternos bem cortados, nos vemos em um ambiente de trabalho dominado por pessoas brancas. Os homens tomam a parte executiva e criativa, enquanto as mulheres são reduzidas aos cargos de secretárias e telefonistas. Até aí, uma descrição bem fiel de um ambiente de trabalho no ano de 1960. O que dá verosimilhança a esses ambientes é o roteiro, repleto de comentários de assédio e faltas graves de trabalho, além de situações desagraveis para alguns personagens que eram levadas como simples piadas. Assim a série apresenta uma atmosfera elegante e atrativa, porém repetidas vezes desconfortável para alguns personagens e para quem assiste.

Causar essa sensação no publico é algo bastante arriscado. No caso da série, tais situações podem fazer com que quem assiste não crie empatia pelos personagens, se canse da história ou até mesmo torça contra eles. Porém, o que Mad Men faz é criar um universo rico de personagens complexos, onde esse desconforto é utilizado pra confrontar seu público sobre os valores que consideramos básicos hoje, e lembrando-nos que até pouco tempo atrás, eles não eram.

O Real Protagonismo da Série:

A primeira forma com que a série nos faz pensar nessa ideia é com seu título:

Cartaz com o significado de Mad Men
*A tradução literal de Mad Men é: “Homens Loucos” algo que seria considerado uma piada pelos executivos da época e que no contexto da série serve como reflexão sobre os costumes desses homens.

Cartaz que aparece no começo do primeiro episódio da série “Smoke Gets In Your Eyes”: “Mad Men*: Termo criado no final dos anos 1950 para descrever executivos de propaganda da Avenida Madson. Foram eles mesmos que criaram.”

Os homens que se correspondem como “Mad Men” na série são parte de três gerações que reagem de diferentes formas as mudanças de sua época: os mais velhos como Roger Sterling (John Slattery) e Bert Cooper (Robert Morse) são de uma geração mais antiga, que ainda carrega ideias inadequadas e retrogradas. Don Draper (Jon Hamm), já é de uma geração que tem alguns dos mesmos problemas da anterior, mas que ainda sim está mais aberta; por último os mais novos como Pete Campbell (Vincent Kartheiser), Henry Crane (Rich Sommer), Paul Kingsley (Michael Gladis) e Ken Cosgrove (Aaron Staton), ficam em uma corda bamba entre seguir os passos dos mais velhos ou seguir seu próprio caminho.

Ainda na primeira temporada, fica claro que esse é o grupo que chefia e faz boa parte da criação da agência e logo é aquele que nos focamos mais. Porém o objetivo do título da série em fazer referência à esses homens é nos enganar sobre as reais protagonistas. Se pensarmos no arco dos personagens do começo ao fim do programa, podemos notar que dramaticamente falando, poucos desse grupo passaram por mudanças que tiveram impacto. Sendo assim, eles estavam em situações diferentes do começo, porém continuavam basicamente com os mesmos valores e carácter

O real “protagonismo” fica com as mulheres da série. Joan Holloway (Christina Hendricks), por exemplo, começa o primeira temporada com uma promessa de deixar o cargo de gerente do escritório assim que se casar. Ela de fato se casa e sai da vida do escritório. No entanto, depois de passar por crises, sofrer abusos e ter um filho, ela decide sair da agência para criar sua própria produtora. Já Peggy Olson (Elisabeth Moss), por outro lado, começa como uma secretaria com alguns talentos escondidos. Depois de galgar seu espaço como redatora júnior ao longo dos anos, ela sobe no ranking dos cargos criativos, chegando a se tornar redatora sênior antes dos 30 anos. Assim, a trajetória dessas duas personagens não só justificam o seu real protagonismo, como também simboliza a conquista de espaço pelas mulheres em cargos criativos, executivos e até mesmo de direção ao longo dos anos 1960.

Peggy encarando Don de forma séria

Peggy: “Eu quero ser a primeira diretora de criação desta agência.”
-T07E10: “The Forecast”

Os Movediços anos 1960:

Por meio dos seus personagens, a série transmite outra ideia: como as pessoas passam por mudanças e eventos históricos. Nesse caso, o texto foge de maniqueísmos e se utiliza dessas transformações para aumentar a complexidade de seus personagens e refletir sobre como as modificações no tecido da sociedade são sutis e ao mesmo tempo rápidas. Vejamos o exemplo de como a série retrata a questão do racismo e a luta pelos direitos civis nos EUA.

Roger segurando um jornal dobrado
Roger comenta sobre as marchas dos direitos civis que se originaram em Selma.

Roger: Esse negócio de Selma não acaba nunca. Acha mesmo que não precisam de leis de direitos civis?
-T04E05: “The Chrysanthemum and the Sword”

Na primeira temporada somos levados a acreditar, não só pela realidade do escritório, mas também pelo recorte que a série faz, que o elenco negro seria limitado e o assunto dos direitos civis e do racismo seriam pouco debatidos, caso fossem citados. Porém, já na segunda temporada o assunto começa a ser representado e debatido, dividindo cada vez mais os personagens pelo seu caráter. 

Nesse contexto, Roger e Bert, por serem mais velhos, são aqueles que menos comentam sobre o assunto e quando abrem a boca não falam coisas muito agradáveis; Pete e Don se mostram os mais abertos sobre a questão. Pete a princípio por uma questão de interesse, tendo visto grande oportunidade de trabalho em se focar no “Mercado dos Negros” (Negro Market), mas aos poucos se mostra mais empático. Enquanto Don, considerando suas origens, (mesmo já tendo feito comentários misóginos) geralmente não encarna a ideia de julgar pessoas pelo que elas são e, assim como fez com Peggy, prefere avalia-las pelo seu trabalho e realizações. 

Roger cantando com o rosto pintado de preto.
Roger cantando “My Old Kentucky Home” em seu casamento.

Esse contraste não só pertence ao gênero masculino. Betty Drapper por exemplo é bastante conservadora quanto ao assunto dos direitos civis, assim como Trudy Campbell (Alison Brie) que, mesmo de forma inconsciente, já praticou o preconceito daquela época algumas vezes. Enquanto Peggy, por exemplo, nunca demonstrou problemas com a questão, isso fica claro na forma como ela trata Dawn (Teyonah Parris), então secretaria de Don (e primeira personagem negra regular do elenco). 

No meio da série, o assunto fica recorrente ao ponto de não poder ser mais evitado. Vale ressaltar um episódio onde esse conflito fica claro: na terceira temporada, no episódio “My Old Kentucky Home”, Roger faz uma festa para celebrar seu casamento recente com Jane (Peyton List) em meio ao coquetel ele decide cantar uma música para sua mulher usando uma maquiagem Blackface. Desde o começo de sua apresentação fica claro o desconforto de alguns em meio alienação de outros:

*Note o desconforto que Don e Pete sentem ao ver a cena, em comparação a outros demais no fundo.

Por fim, depois de algumas mudanças, a série dá seu argumento final sobre o papel dos personagens quanto ao assunto. No episódio “The Flood”, da sexta temporada a série mostra as reações dos personagens ao repentino assassinato do líder do movimento dos direitos civis, Martin Luther King Jr. São poucos os personagens que não se manifestam em choque quanto a situação: Bert não abre a boca sobre o assunto, Roger, como de costume, não espelhe bons comentários e Henry foca no trabalho sem o mínimo de sensibilidade. 

A dor e o choque fica com o restante do elenco principal. Porém a grande cartada se dá pelo contraste da reação dos personagens brancos em comparação aos personagens negros. Phylis (Yaani King Mondschein), secretaria de Peggy chega no trabalho atrasada e arrasada com a situação, enquanto Dawn, que não era sequer esperada no trabalho, decide ir como uma forma de aliviar a cabeça, algo que surpreende Joan e Don.

Nesse ponto, o roteiro acerta em nos lembrar que boa parte dessa comoção, assim como a forma que os personagens lidam com a questão, não passavam de uma apropriação quanto ao assunto. Assim, nos lembrando que mesmo estando em novos tempos, as barreiras da segregação não foram totalmente derrubadas.

Joan abraçando Dawn

Joan: Nós todos sentimos muito.
-T06E05: “The Flood”

Como foi dito antes, representar a realidade de uma época é uma tarefa difícil, não existem fórmulas, muito menos manuais de como fazê-lo. Não existe receita de bolo, mas é pela utilização de alguns recursos narrativos, que um bom roteirista pode criar uma combinação que funcione. Foi do equilíbrio entre a elegância e o charme com o nojo e a brutalidade, que Matthew Weiner conseguiu criar uma história visceral, desconfortável e, ainda sim, bastante fiel a época que representa. Podendo hoje ser considerada uma obra de grande valor histórico que não só nos faz entender melhor os anos 1960, como também nos faz refletir sobre as mudanças que passamos e o estado em que estamos agora.

Lesli Linka Glatter, diretora de 6 episódios da série, comentando sobre a experiência do começo da produção:

“Isso foi antes da TV a Cabo e do Streaming, mas era o começo da AMC. Mas ninguém tinha a real noção, o que era a AMC na época? Eu li o roteiro, e eu pensei‘Meu Deus, isso é sobre como nós chegamos onde estamos agora.’ Isso é uma obra tão extraordinária feita pelo Matt Weiner, e olhando para nossa própria cultura e costumes sexuais e como as mulheres eram tratadas e como os homens se relacionavam com isso. Eu tinha acabado de ler aquele livro do David Halberstam sobre exatamente isso que Matt usou bastante como inspiração. É sobre todas as coisas que aconteceram nos anos 50 que moldaram a cultura do jeito que ela é, como o começo do McDonald’s e Levittown e o Presidente Kennedy usando a Televisão, o primeiro presidente a usar a TV como um meio Politico, Mad Men era apenas isso, um olhas sobre nossa cultura… em uma visceral, linda história.

Fonte: Tv Insider