





Um dia acordei sem serotonina. Procurei a danada em todo canto e nada dela aparecer. Cheguei até a botar anúncio no jornal, mas também foi em vão. Desconfiei que algum dos amigos com quem moro a tivesse pego de sacanagem e, depois de revirar a gaveta de todos e não encontrá-la, me veio o remorso por suspeitar de pessoas queridas. Remorso e falta de serotonina formam uma combinação tão divertida quanto igreja e estado.
Na farmácia, a balconista me disse que o estoque havia acabado – e denunciou baixinho que só iriam repor no Carnaval (No Rio de Janeiro, é quando a nova remessa chega). O problema era que eu tinha várias festas nos próximos dias e, para piorar, em absolutamente todas, era obrigatório levar a sua própria serotonina. Nessas horas ninguém chama a gente para uma remoção de siso ou funeral de tia avó.
Quando contei do desaparecimento na mesa de bar, o choque foi total. Ainda mais por ser verão. Para os cariocas, essa é a época mais rigorosa quanto ao dress code da serotonina. “Vamos lá andar na orla, vai te fazer bem”. A pessoa ignorava a sensação térmica de 52 graus e que tinha acabado de acontecer um arrastão a duas quadras dali. Ainda fico impressionado que, com um sorriso no rosto e uma altinha no fim de tarde, o carioca encara qualquer infecção por água contaminada no maior bom humor.
Porém, apesar dos convites para me jogar no caos urbano, decidi ficar em casa até que a bendita da serotonina voltasse. Em um mix de calabouço escuro personalizado e Sibéria artificial, fiz da assinatura da Netflix a minha nova melhor amiga. Nossa relação era apimentada por pipocas amanteigadas e os dias se embolavam como um rocambole mal feito.
Outro ótimo companheiro-paliativo foi o celular. Entre fotos da dieta detox de 3 dias da Juliana e vídeos de uma blogueira comentando os casos de machismo no Big Brother, criamos ali uma área de descanso para quando surgia a tarja do Netflix dizendo que eu deveria dar uma volta. Nunca confie em plataformas de streaming.
Tudo estava indo bem nesse mundinho escuro até que CLAP CLAP CLAP. Arrombaram a porta da minha masmorra. Ó não. Quem veio ali. O famigerado. O temido. O incomparável… Tarja Preta. Com seus braços fortes e animadores, ele desligou o ar condicionado, me carregou para fora daquela dimensão apática e, dando tapinhas nas minhas costas, me jogou de volta ao extasiante universo das pessoas funcionais.
Foram alguns dias até eu me readaptar ao mundo nada hostil que nos cerca. Mas, quando dei por mim, já estava de volta ao posto 9, ignorando completamente a sensação térmica de 52 graus e abraçado na minha serotonina como se nunca a tivesse perdido. Alguém quer vir comigo tirar o siso na sexta-feira?
Fotógrafa que desenha, faz uns vídeos, tenta uns beats e blusinhas, mas queria mesmo ser DJ.
O stand-up é uma forma de arte bem particular. Juntando algo do teatro e atuação (embora não existam personagens ou elenco) e algo da escrita e da dramaturgia (embora não exista uma narrativa convencional). Esse fazer artístico sempre foi visto como uma forma de expressão menor; por um tempo compartilhei desse pensamento, mas ao começar a assistir alguns especiais e ler um pouco sobre o tema, fui forçado a mudar de opinião.
Caso não houvesse nada a testemunhar a seu favor, a comédia stand-up pelo menos teria iniciado a carreira de atores como Eddie Murphy, Richard Pryor, Robin Williams, Jim Carrey… A lista é longa de mais para ser escrita. De fato, lugares como os clubes de comédia Comedy Store, The Improv ou Comedy Cellar, foram verdadeiros celeiros para comediantes que marcaram época. Mas esse tipo de apresentação tem muitas qualidades.




No entanto, não é só pelo seu potencial crítico que essa modalidade de comédia deve ser reconhecida e valorizada. Sem muitos recursos além de alguns efeitos de luz e alguns poucos objetos “cênicos”, tudo com que o comediante conta são sua voz, seu corpo e sua vivência, assim seu domínio da linguagem é crucial. No stand-up, o texto e o encadeamento de ideias são fundamentais, não é por menos que muitos comediantes, também trabalharam como roteiristas no cinema ou na televisão.



No entanto, não só de traumas e dor vive o humor, alguns comediantes preferem focar em pequenos dramas pessoais ou apenas em situações cotidianas. Nessa linha temos Mike Birbligia (que tem um ótimo especial chamado “My Girlfriend’s Boyfriend”), John Mulaney, ou os já veteranos Jerry Seinfeld e Ray Romano (Sim, o cara de “Everybody Loves Raymond”). Não é por menos, que esses dois últimos, estrelaram suas próprias sitcoms.


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Saindo do terror altamente contemporâneo de Hereditário, caímos agora em um drama adulto pautado pelas relações amorosas em uma Londres solitária: Closer. Peço permissão para incluir o subtítulo brasileiro: Perto Demais. Acho que dá uma força e potencializa a história. A proximidade entre os seres gera a exposição dos sentimentos e nos torna vulneráveis.
Primeiro de tudo, já vamos entrar no clima colocando essa música do Damien Rice, The Blower’s Daughter, pra tocar, que ficou eternamente atrelada ao filme. A música também foi responsável por divulgar mundialmente este cantor maravilhoso de indie folk rock irlandês. Seu primeiro álbum O, de 2002, foi um grande sucesso e marcou uma geração com sua voz doce e profunda que atinge nosso subconsciente emocional.
A música teve um grande êxito no Brasil e no mundo, principalmente por causa desse filme. Aqui ganhou uma versão em um dueto estrondoso de Ana Carolina & Seu Jorge.
Como dito no vídeo, na cena da exposição das fotos de Ana, personagem de Julia Roberts, a música que toca ao fundo é Samba da Benção, canção escrita em 1967 por Vinícius de Moraes, grande poeta brasileiro. O clipe abaixo foi gravado na Pedra do Arpoador, outro grande símbolo do estado do Rio de Janeiro, berço da bossa nova e de uma construção imagética de Brasil que perpetua até os dias de hoje e se faz presente na cena do filme de 2004.
Voltando ao filme, o diretor de Closer, Mike Nichols também é responsável e pelos premiados filmes A Primeira Noite de um Homem e Quem Tem Medo de Virginia Wolf?. Este último também é uma adaptação de uma importante peça teatral, desta vez de Edward Albee. Virou filme em 1966 com Elizabeth Taylor e é reconhecido como uma importante trama de confinamento, onde os personagens permanecem todos no mesmo cenário, expostos aos seus próprios traumas e dilemas existenciais. Mike nos mostra como é habituado a textos teatrais, na maneira que respeita a obra original e dirige seus atores com autonomia e segurança.
A grande diferença básica entre teatro e cinema é o diálogo. No teatro, a arte do ator e do texto, o que vale é o diálogo. Pode ser farsesco, anti-naturalista, poético, em verso ou até altamente lúdico. A criação de imagens é transferida para a mente do espectador, algo que no cinema não é muito bem-vindo. Na sétima arte, o desejável é sempre substituir texto por ações dos personagens ou imagens. Longos silêncios e dizer apenas o essencial também são conselhos dignos dos manuais de roteiro para novos escritores.

O cinema é a arte do diretor. É ele quem conceitua, cria uma imagem e tem a palavra final. Até mesmo na edição, que é a última forma de escrita, pode ser também alterada pela direção. No teatro, não. É a arte do aqui e agora, o ator é quem manda. É ele quem dá o tempo, quem dá a deixa e que dita o ritmo do espetáculo. Nesta adaptação de Closer, a palavra teatral ainda é muito respeitada. Não há grandes marcas cênicas, ou técnica evidente. Neste filme, as coisas que importam são: o ator e o texto. O resto está lá para servi-los, não para acrescentar novas informações ou para guiar a ação. É pelo diálogo que eles estarão desnudados e ficarão perto demais do público.

O filme também pode ser correlacionado com a análise do filósofo Zygmunt Buman, que em 2004 lançou o livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, onde disserta sobre o comportamento das relações amorosas da contemporaneidade. Ele teoriza que as relações de hoje são líquidas, que não se busca a solidez. Nada pode ser rígido o suficiente a ponto que seja difícil de ser alterado. As relações duram até quando derem prazer e satisfação a nós mesmos, e assim, quando não nos interessar mais, as descartaremos. Tudo parte da mesma lógica da sociedade de consumo. Aqui temos uma entrevista com Bauman, explicando sua visão de mundo para caracterizar os novos tempos.

Então é isso! Abaixo eu coloco o trailer do filme pra vocês verem! Lembrando que Closer está disponível na Globoplay!
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Como já foi escrito antes, é possível construir a atmosfera de uma obra audiovisual com apenas elementos simples de roteiro que nos passam a sensação sobre o universo que estamos assistindo. Ainda assim o texto não é o único que pode ajudar a construir isso, já que como se trata de uma série ou um filme, somos submetidos a entender, interpretar e (até mesmo) sentir a história que acompanhamos a partir das imagens que estes produzem.
Claro que, se não houvesse um roteiro, não teríamos imagens a serem produzidas, entretanto, se duas pessoas lerem a mesma história podem acabar a imaginando de forma completamente diferente, e por isso é preciso de uma interpretação e um direcionamento para saber como contá-la. Para fazer isso, é fundamental o trabalho de diferentes áreas da produção, desde o casting, design de produção, figurino e é claro a direção para orquestrar tudo. Porém, nesse texto, vamos nos focar no trabalho da direção de fotografia e o que gira em torno dela para construir tais imagens.
Considerando isso, a série Euphoria (2019-), se destaca por se utilizar de elementos estéticos já considerados comuns para criar uma identidade visual forte que não só dá sua interpretação sobre a história, como também complementa o roteiro para comentar sobre a geração a qual ela retrata.
Esses elementos podem ser divididos da seguinte maneira:
A leitura de luzes e cores que a série faz é bastante simples. Em ambientes abertos e de dia a série gosta de usar a iluminação natural sem criar muitos contrastes, destacando assim o clima ensolarado de East Highland na Califórnia.


Em ambientes escuros, fechados e em específicos casos abertos, a série sempre procura utilizar a combinação simples de tons de laranja com azul, cores complementares que já são usadas em diversos filmes blockbusters. Algo que é bastante compreensível, visto que é a junção que melhor enfatiza a pele humana, e além disso era uma opção simples para fugir da ideia de fazer uma série muito colorida:
“Precisa ser colorido de uma forma, acredito eu, para que se sinta a elevação. Mas nós não queríamos que fosse como as cores do arco iris, ou pelo menos sem nenhum sistema. Então, na maioria das vezes, nós usamos cores primarias, e eu contei muito com o contraste do laranja com o azul, que é um contraste bastante básico.” – Marcell Rév, diretor de fotografia de quatro episódios e responsável pela criação da estética da série.
Fonte: deadline




Em ambientes abertos e noturnos a direção de fotografia cria névoas que ocupam bastante espaço de cena. Algo que poderia ser facilmente usado para dar um ar fantasmagórico em um filme de terror, mas que nesse caso tenta criar uma aura entorno dos personagens, quase como se estivéssemos em um sonho.

Mesmo não querendo ser “muito colorida” a série dá bastante destaque ao roxo/púrpura, cores que geralmente simbolizam realeza e lealdade e que nesse caso serve para ilustrar justamente momentos de “euforia”, sejam eles de festa ou, no caso de Rue (Zendaya), para representar os efeitos das drogas sobre a sua percepção do entorno.






Já a focagem raramente faz takes com planos diferentes no mesmo foco. Sejam eles distantes ou muito próximos, eles sempre distinguem bem o personagem do ambiente, ressaltando o ponto de vista dele em cena. Se utilizando de um foco bem preciso e sem criar distorções de volume.





Por último a movimentação de câmera é o grande destaque da fotografia da série. É composta de movimentos contínuos, estáveis e de velocidade regular, que geralmente usam gruas e trilhos e dão exuberância para qualquer cena gravada. Ela está tão presente na série que até mesmo em cenas menores com falas de personagens e ações simples, são gravadas com aproximações, distanciamentos, panorâmicas ou até mesmo tracking shots.

Cada movimento desses não tem um propósito próprio. Mesmo que a série esteja cheia de exemplos, na maioria das vezes o único propósito desses movimentos é adicionar fluidez ao plano e ritmo a cena como um todo. E, apesar serem bem executados e se encaixarem bem na cena, boa parte deles nasceu de improvisos feitos no set:
Fonte: deadline
Ainda assim, mesmo não existindo um padrão minimamente planejado sobre a aplicação de cada movimento, vale ressaltar o uso constante da fotografia de chicotes (Whip Pans) que servem de diferentes formas: sejam transições de tempo, transições de espaço ou até mesmo identificar relação entre personagens.




Fonte: deadline
Essas movimentações também tem um papel crucial para a montagem da história. Como foi destacado antes, muitas cenas abrem mão do simplismo e decidem fazer movimentos complexos e ângulos não convencionais para criar uma estética diferenciada. Porém, em alguns casos essas gravações dão liberdade a montagem, permitindo com que ela alinhe a movimentação com o ritmo da trilha original e não original.
Note como a ação dos personagens e o movimento da câmera parecem seguir o ritmo da música.
Fonte: Build Series
Como é de praxe de programas da HBO, sexo é mostrado de forma explícita e sem restrição nenhuma. Porém, ao invés da câmera se utilizar de ângulos que valorizem os corpos dos personagens em cena, e subsequentemente, acabe os sexualizando, todas as cenas de sexo são gravadas de forma a tentar mostrar o sentimento dos personagens em questão e a naturalidade da situação:
Fonte: Vulture
Somando esses movimentos mirabolantes, cenários transformistas, luzes e cores bem marcadas, cada elemento, de uma maneira ou de outra, já foi utilizado à exaustão em outras obras. Mas o interessante de Euphoria é como uma reutilização, reapropriação e revisão dessas ferramentas podem ajudar a criar uma linguagem única para a conversa que a série propõe sobre a juventude.
Fonte: Deadline
Seja você mais jovem ou não, a estética da série tenta emular a emoção que sentíamos quanto ao nosso entorno quando tínhamos a idade de seus protagonistas. Era uma realidade crua como qualquer um pode ver, mas ainda assim afetada pelos sentimentos que temos por ela. Assim a série cria uma maquiagem bela e colorida, sobre a crueza e sinceridade que o roteiro da história conta.
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O século XXI nos faz enfrentar diversos problemas que nossos antepassados jamais seriam capazes de imaginar. Fotos com poucas curtidas. Brigas por textões do Facebook. A falta de Pokemons no trajeto do trabalho até em casa. São diversas as adversidades que a geração Z tem que superar que aqueles lá atrás que morriam de Peste Bubônica não adivinhariam.
Recentemente tive de passar por uma das maiores provas de resistências de um jovem da atualidade. O pesadelo de qualquer um na faixa dos vinte anos. A morte de um parente próximo? Não. A perda de um rim? Pior. O sucateamento das federais? Tente de novo. Foi realmente pesado o que Deus me fez passar. É até complicado de passar para o papel.
Estava eu deitado em minha cama numa noite fria. Assistia alguma série qualquer do Netflix, quando, de repente, a gravidade resolveu me castigar. Mesmo que eu não tivesse feito nada. A maldita invenção de Newton puxou meu celular para o chão da maneira mais violenta que você pode imaginar. Sorte que celular não sangra. Só se espatifa. E o meu se espatifou no chão gelado quebrando em pedacinhos. Ele não sangrou, mas eu sim. Sim, sou exagerado demais.
A vida de um universitário não é fácil. A dieta regada a miojo e o transporte público que está sempre lotado como se fosse um bloco de Carnaval comprovam esse fato. De algum modo, o dinheiro está sempre curto. Então gastar com o conserto do meu celular era algo inexequível naqueles próximos dias. Se com celular já é difícil, imagina sem. É pior que o Temer na presidência.
Nos primeiros dias de luto, parecia que a Amy Winehouse cantava aonde quer que eu fosse. Estava preso num clipe triste de pouca cor onde eu olhava pela janela e gotas melancólicas de chuva caiam vagarosamente. Me pegava imaginando as inúmeras conversas que estava perdendo, os memes que não recebia, as mensagens de bom dia no grupo da família, as fotos de gatinho que minha tia evangélica estaria compartilhando. Enfim, coisas extremamente relevantes para a existência humana.
Algum tempo depois, aquele sofrimento foi se apaziguando. Percebi que não conferir meu Facebook a cada 10 minutos poderia ser algo bom. Eu não sabia mais da viagem que o Carlos estava fazendo para Arraial do Cabo, ou que a Luciana tem a melhor mãe do mundo, ou que a Duda comeu um prato de baixa caloria num restaurante caro. E isso era gostoso. O fluxo de informação descontrolado se torna sufocante por não existir um filtro do que é postado. É que nem aquelas avenidas empanturradas de poluição visual e cheias de conteúdo inútil. Só que de gente. Também inútil.
A quebra do meu celular me fez reparar do vício que me controlava. Assim como o crackudo só percebe que está viciado depois que a onda passa, eu precisei me desintoxicar para descobrir que a Internet tinha virado minha droga. Fui obrigado a me desviciar e aprender a viver sem um Iphone na mão a todo instante. Ainda bem que consegui juntar a grana para o conserto dele e não tive que vender os móveis da minha casa que nem a galera da droga pesada. Inveja daquele pessoal que só tinha que se preocupar com a Peste Bubônica.
Mais reconhecido como fundador do O Planeta Diário e por fazer parte do Casseta & Planeta, Reinaldo tem um extenso trabalho, transitando entre a escrita, a música e o desenho. Como ilustrador e cartunista, trabalhou no O Pasquim, em jornais de grande circulação como O Globo e a Folha de S. Paulo (onde tinha sua própria coluna) e publicou quatro livros: Escândalos Ilustrados, Desenhos de Humor, Noites de Autógrafos e A Arte de Zoar. Atualmente, continua explorando suas múltiplas habilidades: publica alguns de seus cartuns e quadrinhos na Revista Piauí, toca contrabaixo no quarteto Companhia Estadual de Jazz (CEJ) e apresenta o podcast A Volta ao Jazz em 80 Mundos, disponível no site do Instituto Moreira Salles.
Ao mesmo passo que Michael Jackson foi certamente uma das figuras mais controversas no universo das celebridades, se consagrou também como um dos mais importantes artistas da música pop até hoje. A revolução artística que Michael trouxe para suas produções ultrapassou a esfera musical, tornando-se uma referência para o cinema e especialmente para a dança, trazendo e fazendo grandes nomes dentro da indústria audiovisual.
Com 6 anos de idade, Michael começava, com seus irmãos, o “The Jackson 5”, aos 8 anos, se tornava o cantor principal e aos 11, — já contratados pela Motown — a banda lançava “ABC” e “I Want You Back”, dois hits implacáveis, ambos com primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos.
Em 1976, já construindo uma carreira de sucesso e em uma nova gravadora (Epic), o “The Jackson 5” passava a se chamar apenas “The Jacksons”. Estreando Michael Jackson e seus irmãos nas produções musicais audiovisuais, a música “Blame It on The Boogie” teve um clipe típico da era disco com os efeitos visuais, danças e figurinos clássicos da época.
Dois anos depois, após a composição e interpretação de alguns hits de sucesso pelo “The Jacksons”, Michael foi convidado para participar do filme “The Wiz”, um musical que fez uma releitura do clássico “O Mágico de Oz”, contando a história de uma professora negra do Harlem — representada por Diana Ross —, que é pega por um ciclone enquanto corria atrás de seu cachorro e vai parar na Terra de Oz. Michael fazia o Espantalho (Scarecrow).


Alguns meses depois, Michael lançava o clipe de “Beat It”, que o consagrava como um artista pop internacional. Dirigido por Bob Giraldi, “Beat It” já abusava de elementos cinematográficos — especialmente do gênero musical — com um prelúdio que contava uma história, além de grandes coreografias com muitos dançarinos e traços narrativos presentes na direção de arte, na dança e na performance dos bailarinos. Novamente, Michael aparece como um ser “especial”, dessa vez quase heroico, separando uma briga de faca entre duas gangues e unindo todos numa mesma coreografia. Para isso, Michael propôs uma audição com dançarinos que realmente pertencessem a gangues rivais de Los Angeles — Creeps e Bloods —, de forma que a rivalidade existente no clipe, de fato era presente tanto nos sets de filmagem e quanto vida real.

Em “Thought Contagion”, a banda Muse também se inspira abertamente na obra de Michael para contar uma história de terror. Além de repetir elementos presentes em “Thriller”, como o carro em uma rua escura, os olhos vermelhos, a transformação dos outros em volta em monstros. A principal diferença é a perspectiva do protagonista, que não é a do monstro mas sim a da vítima.
Até mesmo no hip hop brasileiro, “Thriller” teve sua homenagem. O cantor Batoré, atualmente Batz Ninja, fez uma releitura da obra em seu videoclipe “F.A.B”, onde praticamente todas as cenas do filme original são adaptadas em um cenário carioca.
No histórico clipe de “Bad Romance”, da Lady GaGa, — primeiro videoclipe feminino a alcançar um bilhão de visualizações no youtube — muitos críticos afirmam haver uma influência direta da coreografia dos zumbis de “Thriller”. Para além disso, toda a inovação na parte estética, direção de arte moderna e “monstruosa” evidenciam uma inspiração na obra de Michael. Em outros trabalhos como “Alejandro”, “Judas e “Telephone”, GaGa explora bastante a linha narrativa em suas criações audiovisuais. Não há afirmações da artista sobre as comparações, mas a própria já comentou publicamente diversas vezes sua admiração pelo trabalho de Michael Jackson.
Mas o sucesso de “Thriller” não parou a inventividade de Michael, que em 1987 lançava o álbum “Bad”, também produzido por Quincy Jones. Com a faixa que levava o nome do álbum, Michael produziu mais um filme-videoclipe, dessa vez de 18 minutos, dirigido por ninguém menos do que Martin Scorsese, escrito pelo novelista Richard Price e coreografado pelo próprio Michael. O curta, inspirado no filme “West Side Story”, conta a história do choque cultural entre o protagonista, Darryl (Michael Jackson), que termina os estudos e volta para sua antiga vizinhança e não é mais “malvado” como seu antigo grupo de amigos.
O famoso clipe de Beyoncé, “Formation”, foi bastante comparado a “Bad”, partindo do paralelo de histórias de vida de dois artistas que ascenderam e vivem dois mundos: o mundo de sua criação e o mundo que a fama e o enriquecimento lhes proporcionou. Ambos os artistas foram acusados de “embranquecimento” — no caso de Michael, de uma maneira muito mais complexa e especialmente individual — e como resposta fizeram obras com a mensagem de que de alguma forma ainda eram os mesmos, ou pelo menos que nunca perderam tudo aquilo que suas criações lhe ensinaram. Além disso, as coreografias de “Formation” conversam muito com as propostas por Michael e seus dançarinos no clipe de “Bad”.
Ainda em “Bad”, em 1988, o single “Smooth Criminal” também ganhou seu videoclipe de sucesso. Inspirado em “O Poderoso Chefão” (1972), e com referências a Fred Astaire em “The Band Wagon” (1953), Michael representa um gangster em um clipe meio ação, meio faroeste nos anos 30. No vídeo, os dançarinos e Michael performam o “inclinado anti-gravidade”, um passo marcante e que parece praticamente impossível.
Em 1988, Michael volta a ter uma aparição marcante no cinema, com “Moonwalker”, filme antológico que conta a história de Michael, lutando contra um perigoso traficante de drogas (interpretado por Joe Pesci) e seu exército de drogados para proteger três crianças. Durante o filme vemos uma série de clipes de singles do álbum “Bad”. Entre eles há o videoclipe de “Speed Demon”, feito como um vídeo promocional para a divulgação do filme e do álbum, onde animação e mundo real se misturam; iniciando uma tendência que apareceria futuramente em prestigiados títulos de Hollywood como “Uma Cilada Para Roger Rabbit” (1988) e “Space Jam” (1996).
Depois de uma série de grandes sucessos advindos da parceria de Michael com Quincy Jones, em 1991, Michael lança “Dangerous”, seu primeiro disco solo sem o produtor. O primeiro single do álbum foi “Black or White”, outro enorme hit audiovisual. Dirigido por John Landis, o mesmo criador de “Thriller”, o clipe de “Black or White” conta com a atuação de Macaulay Culkin — protagonista de “Esqueceram de Mim”, que na época acabara de ser lançado —, Tess Harper, Tyra Banks e George Wendt.
Na época, o clipe de “Black or White” causou bastante polêmica, tendo seus últimos quatro minutos censurados em diversas transmissões para a televisão, devido a repercussão do caso. Isso se deu porque no final do vídeo, personificando uma pantera, Michael faz uma dança extremamente expressiva com alguns movimentos “sexuais” que foram interpretados de maneira profundamente conservadora por parte do público. Além de destruir um carro e as janelas de um estabelecimento durante sua performance de pantera negra — certamente em uma alusão ao “Black Panthers Party” —, o que também traz um discurso político através do imagético que não resultou em uma repercussão positiva da obra.

“Remember The Time” foi outro single impactante de “Dangerous”, trazendo um cenário egípcio para a obra de Michael, com uma proposta totalmente diferente. Voltando as raízes de “Thriller”, neste curta-metragem a ideia foi brincar com uma estética extravagante e possivelmente caricata, se utilizando da comédia — dessa vez até de maneira mais evidente do que em “Thriller” — para contar uma história, e como sempre se utilizando do máximo de recursos de efeitos especiais disponíveis no momento. Mais uma vez, o personagem de Michael beira ao fantástico, com super-poderes que o distinguem dos seres humanos comuns — o que seguramente diz bastante sobre a forma como ele se via e se comportava.
“Remember The Time” foi dirigido por John Singleton e é estrelado por Eddy Murphy, Imam e Magic Johnson. Filmado nos estúdios da Universal no ano de 1992, o videoclipe foi transmitido em diversos canais, além de especiais de comédia da MTV.
Em 1995, Michael veio ao Brasil, acompanhado de Spike Lee que produziu e dirigiu o clipe de “They Don’t Care About Us” no Pelourinho (Salvador) e no Morro do Dona Marta (Rio de Janeiro). O clipe conta com a colaboração do importante e tradicional grupo musical baiano Olodum, além da população local que é parte fundamental da narrativa proposta.
Pouco tempo depois, Michael produziu uma segunda versão de clipe para a música que se passava em uma prisão americana, com coreografias poderosas de grupo e imagens impactantes de revolta ao redor do mundo. Essa versão foi censurada pela MTV, devido a “brutalidade das imagens” e se tornou muito menos conhecida que a versão brasileira, que tem uma proposta um pouco diferente.
Hoje, em 2020 — pouco mais de uma década após seu infeliz falecimento —, Michael se mantém como uma das principais referências para artistas, produtores e diretores de toda a indústria musical. É o grande ídolo dos grandes ídolos que a cultura pop tem em seu leque na atualidade, o que diz tudo sobre a importância e primazia de seu trabalho. “Thriller” para sempre será um marco na história do cinematografia musical. Michael definitivamente não foi uma das figuras mais coerentes que a fama e a mídia construíram, mas deixou um legado artístico indiscutível e estabeleceu um padrão de excelência quase inalcançável para a geração que o seguiu.
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E saindo de uma doçura sem tamanho que foi o meu texto de As Vantagens de Ser Invisível, chegamos agora ao expoente no novo terror, o aclamado Hereditário, escrito e dirigido por Ari Aster.
Hereditário é o primeiro longa-metragem do novo nome do terror norte-americano: Ari Aster, um jovem diretor de 34 anos que vem chamando atenção. Tudo começou com seus pais: seu pai músico e sua mãe poetisa proporcionavam a ele uma relação com a arte desde cedo. Até que por volta dos dez anos de idade se viciou em filmes de terror e alugava todos os títulos possíveis na época das locadoras de vídeo. Seguiu sua vocação, estudou cinema e fez seu primeiro curta-metragem, em 2011.

The Strange Thing About the Johnsons é sobre uma relação incestuosa de pai e filho. A vontade de fazer o filme se originou da própria revolta que Aster tinha com o Instituto em que estudava, onde, segundo ele, preparava os alunos para seguirem um caminho clássico hollywoodiano. Ele, por sua vez, quis chocar e escolheu um tema extremamente polêmico. O curta foi premiado no importante festival de Sundance, conhecido por apresentar grandes talentos pro cinema e logo se tornou um sucesso na internet. Abaixo temos o link do Vimeo com o curta completo.
Entre 2011 e 2016, realizou 7 curtas-metragens, com destaque para o seu quarto em 2013, desta vez, mudo, sobre uma mãe superprotetora com seu filho, que sonha em ir para a faculdade e ela tenta o impedir. Munchausen foi outro grande êxito de crítica, que o consolidou no meio artístico americano. O título se originou da nomenclatura da síndrome onde a mãe protege tanto o filho que torna a relação tóxica e perigosa: Síndrome de Münchhausen. O curta está disponível abaixo:
A assinatura de Ari Aster chamou a atenção da produtora e distribuidora de filmes A24. A empresa, fundada em 2012 em Nova York, já presentou o público com grandes títulos, e a maioria deles com densidade de enredo e trama envolvente. A liberdade criativa que a empresa fornece aos seus profissionais somada às escolhas de histórias pouco convencionais têm gerado uma legião de fãs e tornou-se referência de qualidade. A parceria com Ari Aster consolida um gênero que a empresa têm apostado com retorno positivo: o terror. Abaixo separei alguns filmes realizados ou distribuídos com o selo da A24.
E para gerar esse terror todo na película, nada melhor do que uma grande atriz que está passando por um grande momento da sua carreira: Toni Collette. Seu desempenho neste filme é espetacular, onde transita por todas as camadas de uma filha que perde a mãe, mesmo que esta não tenha sido um exemplo de ternura em sua criação. A sua raiva com a vida, com a família e com questões do seu passado são muito bem representadas e vividas por Toni. Abaixo trouxe dois projetos em que se destacou nos últimos anos; são eles Entre Facas e Segredos e a minissérie Inacreditável, ambos de 2019.

Outro ponto técnico que neste filme fica evidente é a qualidade do plano geral. Para conseguir tal efeito e simular a impressão de casa de bonecas, onde tudo é miniatura, a direção optou por filmar estas partes em um sound stage, ou, traduzindo livremente, palco sonoro. É uma espécie de estúdio enorme, similar a um hangar, onde há muito espaço para construção de cenário e, consequentemente, recuo de câmera. Desta maneira, tudo tem uma dimensão maior em relação ao tamanho dos atores, relacionando com o estranho hábito da protagonista de representar sua vida e experiências em miniaturas de brinquedo.


Confira o trailer oficial do filme ou relembre, caso você já tenha assistindo:
Então é isso, galera! Vamos com tudo em cima desse filme, que ele tem muito assunto e muitas ramificações! Lembrando que ele está disponível nos streamings Amazon Prime Video e HBOGo!
Grande abraço! Até a próxima!
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Primeiro de tudo já solta a playlist do Spotify, porque a trilha sonora deste filme é absurdamente maravilhosa, com nomes como The Samples, The Smiths e também a presença da lenda maior David Bowie.
O fato dela ser composta por grandes conjuntos e cantores dos anos 1980 e 1990, evidencia a época em que o autor estava em período colegial, vivendo e experimentando as dores e as delícias da juventude.

As experiências da adolescência e do ensino médio podem ser agradáveis e nostálgicas para alguns, mas extremamente difíceis e dolorosas para outros. E é neste limbo que Stephen Chbosky, autor do livro, do roteiro e diretor desta obra, se encontrou.
Ele criou este romance enquanto passava por uma separação, onde questionava noções de amor próprio e reconexão com sua essência. Por essas e outras, sempre controlou os direitos da obra, tratando-a como intransferível e intransponível, o que não é comum na indústria do cinema. Chbosky fez questão de capitanear todas as etapas criativas de sua obra.

As Vantagens de Ser Invisível é um grande marco para nós, os primeiríssimos millennials, nascidos a partir de 1995, essa geração que já cresceu mexendo na internet, embora com muitas influências e hábitos das gerações anteriores. O livro foi lançado em 1999, mas sua história se passa em 1992. O filme, por sua vez, só foi lançado em 2012. Então, as referências dos anos 1980, 1990, 2000 e 2010 se misturam neste caldeirão identitário que é a obra de Chbosky.
Justamente quando o filme estreou, eu estava praticamente terminando o ensino médio, onde os sonhos e expectativas no futuro eram gigantes. A gana e ansiedade de realizar sonhos começavam a germinar, assim como os primeiros prazeres, relações amorosas, paixões platônicas… Muito, muito, muito. Tudo muito. A bendita intensidade; a sensação mais eufórica na mais linda das idades.

Não é á toa que filmes de high school ainda são universais e abarcam públicos de todas as idades, pois é neste momento da vida em que expressamos nossa essência e começamos mudanças que nos acompanharão por muitos anos. É a reafirmação de escolhas e ações que constituirão nossa identidade. Ali estamos nós ainda sem os grandes golpes da vida adulta e sem os problemas que vamos assumir com o chegar da idade. É a hora de arriscar.
Pra mostrar o quanto eles ainda estão presentes no cinema e nas premiações contemporâneas, trago títulos que fizeram bonito e já são novos expoentes desta dramaturgia coming-of-age:
Um outro fator interessante do filme é a maneira de como a literatura do século XX ajuda o protagonista a lidar com seus próprios problemas e a construir sentido à sua própria vida, passando a entender o pensamento humano e a se expressar. Torna-se evidente o poder da arte literária e a cumplicidade que se tem com a solidão, com o medo do desconhecido e até com o seu professor, primeiro parceiro de Charlie no opressor ensino médio americano.
Alguns títulos que são citados e aparecem na estante do personagem de Logan Lerman são: O Grande Gatsby (1925), O Estrangeiro (1942), O Apanhador no Campo de Centeio (1951), Na Estrada (1957), A Separate Peace (1959) e O Sol é para Todos (1960). Outros autores de língua inglesa citados são Charles Dickens, autor de Oliver Twist e Um Conto de Natal e William Shakespeare, autor das peças teatrais Hamlet e Romeu e Julieta.

Depois de muito escrever sobre este filme, eu só sinto vontade de assistir mais uma vez e me deliciar com a ingenuidade, o afeto e grande amizade que o trio composto por esses três grandes atores (Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller) representou e ainda representa para mim.
É uma nostalgia muito bem-vinda para tempos de isolamento social. Uma redescoberta dos valores, dos amores e dos bons sentimentos. Uma nova maneira de renascer, de amadurecer e de despontar para um novo normal. Para um novo mundo.
Confira o trailer oficial do filme ou relembre, caso você já tenha assistindo:
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A história de em Hollywood é bem conhecida, de jovem promessa à pária em um piscar de olhos. Depois de toda a complicação envolvendo o lançamento de (1941) e sua baixa bilheteria, o diretor perde seu prestígio com os estúdios e também o controle criativo de seus filmes. As interferências de produtores, a dificuldade em conseguir trabalho e a paranoia que crescia nos EUA fazem com que Welles busque melhores oportunidades na Europa.


De algum modo, tanto “Cidadão Kane” quanto “Othello” foram afetados pelos seus processos de produção. Entre eles há diferenças formais bem evidentes, mas, evidentemente, tais particularidades não impedem que Orson Welles possua uma “assinatura” própria, nem impossibilitam a existência de uma unidade em sua obra.


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Da melancolia sobre relações amorosas contemporâneas de Her, vamos agora para um filme extremamente sensorial, onde os sentimentos de loucura e medo se instalam em um lugar previamente seguro com o longa Clímax, do provocador Gaspar Noé.
“Uma montanha russa que se torna um trem fantasma”
Acho que esta frase define bem o filme: uma experiência sensorial para quem assiste. Nós somos praticamente sugados para dentro do ambiente e da trama do filme. Para que esta loucura estivesse presente na interpretação dos atores, o filme foi rodado em ordem cronológica durante quatro semanas. Segundo o diretor, foi o filme mais rápido que ele já realizou, desde a concepção da ideia até o término das filmagens.
É neste caos todo que a trilha sonora se mostra primordial na construção de um ambiente intenso, eufórico e de gradual perturbação.
A trilha contém inúmeras músicas eletrônicas de produtores musicais europeus antológicos, como o francês Cerrone e o italiano Giorgio Moroder.

A princípio, o diretor Gaspar Noé estava completamente fascinado pelo mundo da dança, pelos dançarinos da noite parisiense e pela riqueza de suas experiências de vida. Ele foi magnetizado por esses artistas, que mesmo vivendo sob realidades adversas, brilhavam em cima de um palco. Seja uma vez por semana, a cada quinze dias ou a cada mês, aqueles poucos minutos os transfonavam em estrelas potentes e grandiosas, os preenchendo de satisfação e esperança.
Em meio à esta pesquisa, o estilo de dança krumping foi o que mais impressionou Noé, por seus movimentos extremamente rápidos, rijos e com uma certa agressividade de quem necessita expurgar a opressão que vive. Abaixo, separei um vídeo que ilustra os movimentos que atraíram o diretor:
Este estilo de dança foi tema do documentário Rize (2005), realizado pelo badalado fotógrafo de moda David LaChapelle. O filme impressionou Noé com sua energia vibrante, pois os artistas dançam como se estivessem possuídos. Já Clímax utiliza muito dessa relação dança/espiritualidade para se conectar com a paranoia instalada na festa.

Nos créditos iniciais, o filme se intitula “orgulhosamente francês” por se conectar ao sentimento do país, que começava a se recuperar dos ataques terroristas sofridos no final de 2015. O medo de lugares fechados, o perigo à qualquer instante e vindo de quem menos se espera, no filme, o terror está em todo lugar.
Para relembrar melhor esses dois momentos da história recente da França, separei duas reportagens: A primeira é sobre os atentados orquestrados no país em 2015 e a segunda aborda como o povo passou a conviver com o trauma destes eventos.

O estilo de Gaspar Noé continua extremamente sensorial e chocante, como foi por toda sua carreira. Colocados em conflito, seus personagens se expõem aos instintos mais animalescos e fisiológicos. Se você ainda não conhece nenhum outro filmes deste diretor, sugiro os títulos abaixo:
Confira o trailer oficial do filme ou relembre, caso você já tenha assistindo:

Pete: “Bem, você está na cidade agora. Não seria um pecado se víssemos suas pernas. Se você apertar sua cintura um pouquinho, você vai parecer uma mulher.”
-T01E01: “Smoke Gets In Your Eyes”


Peggy: “Eu quero ser a primeira diretora de criação desta agência.”
-T07E10: “The Forecast”

Roger: Esse negócio de Selma não acaba nunca. Acha mesmo que não precisam de leis de direitos civis?
-T04E05: “The Chrysanthemum and the Sword”

*Note o desconforto que Don e Pete sentem ao ver a cena, em comparação a outros demais no fundo.
A dor e o choque fica com o restante do elenco principal. Porém a grande cartada se dá pelo contraste da reação dos personagens brancos em comparação aos personagens negros. Phylis (Yaani King Mondschein), secretaria de Peggy chega no trabalho atrasada e arrasada com a situação, enquanto Dawn, que não era sequer esperada no trabalho, decide ir como uma forma de aliviar a cabeça, algo que surpreende Joan e Don.
Nesse ponto, o roteiro acerta em nos lembrar que boa parte dessa comoção, assim como a forma que os personagens lidam com a questão, não passavam de uma apropriação quanto ao assunto. Assim, nos lembrando que mesmo estando em novos tempos, as barreiras da segregação não foram totalmente derrubadas.

Joan: Nós todos sentimos muito.
-T06E05: “The Flood”
Como foi dito antes, representar a realidade de uma época é uma tarefa difícil, não existem fórmulas, muito menos manuais de como fazê-lo. Não existe receita de bolo, mas é pela utilização de alguns recursos narrativos, que um bom roteirista pode criar uma combinação que funcione. Foi do equilíbrio entre a elegância e o charme com o nojo e a brutalidade, que Matthew Weiner conseguiu criar uma história visceral, desconfortável e, ainda sim, bastante fiel a época que representa. Podendo hoje ser considerada uma obra de grande valor histórico que não só nos faz entender melhor os anos 1960, como também nos faz refletir sobre as mudanças que passamos e o estado em que estamos agora.