Peggy e Don sentados encarando o espectador.

Mad Men: Encarando Verdades


O que a premiada série tem a falar sobre como podemos retratar nosso passado de forma mais realista

ATENÇÃO: SPOILERS ABAIXO

Quando pensamos em uma época, sempre acabamos nos deixando levar por memórias de seus principais acontecimentos, sejam eles eventos históricos ou culturais. São esses recursos que nos ajudam a pintar nosso imaginário e criar uma ideia de como eram as coisas em tal período. Porém esse imaginário só nos dá uma versão resumida e não nos passa a sensação real de estar lá, de vivenciar esses eventos históricos, de ouvir um artista pela primeira vez ou ver um filme na sua estreia.

Essa atmosfera é algo bastante difícil de se alcançar na ficção. Muitas obras, por exemplo, criam uma aproximação fiel em seu departamento de arte (cenários e figurinos), mas quando se propõem a contar uma história, muitas vezes fogem da realidade, criando roteiros que romanceiam alguns fatos e os tornam menos palpáveis. Existem algumas exceções, filmes biográficos, por estarem focados na jornada de um ou mais personagens, descrevem seus atos como triunfantes, para que o público compartilhe as dores e desafios vividos pelos seus protagonistas. Mas até mesmo nesse gênero, uma dose extra de romanceação pode ser fatal pra quebrar a atmosfera do período representado e nos fazem criar um falso imaginário sobre como as coisas eram. 

Nesse contexto, Mad Men, série criada por Matthew Weiner, ganhadora de nove Emmys, se diferencia. O programa, que se passa em uma agência de publicidade de Nova Iorque ao longo dos anos 60, tenta emular atmosfera da época, se utilizando de uma ferramenta de roteiro arriscada: o desconforto.

Pete encarando a saia de Peggy

Pete: “Bem, você está na cidade agora. Não seria um pecado se víssemos suas pernas. Se você apertar sua cintura um pouquinho, você vai parecer uma mulher.”
-T01E01: “Smoke Gets In Your Eyes”

No primeiro episódio, somos apresentados a um escritório comum do centro de Manhattan com um contraste visual claro: em meio a um design confortável e personagens de roupas estilosas e ternos bem cortados, nos vemos em um ambiente de trabalho dominado por pessoas brancas. Os homens tomam a parte executiva e criativa, enquanto as mulheres são reduzidas aos cargos de secretárias e telefonistas. Até aí, uma descrição bem fiel de um ambiente de trabalho no ano de 1960. O que dá verosimilhança a esses ambientes é o roteiro, repleto de comentários de assédio e faltas graves de trabalho, além de situações desagraveis para alguns personagens que eram levadas como simples piadas. Assim a série apresenta uma atmosfera elegante e atrativa, porém repetidas vezes desconfortável para alguns personagens e para quem assiste.

Causar essa sensação no publico é algo bastante arriscado. No caso da série, tais situações podem fazer com que quem assiste não crie empatia pelos personagens, se canse da história ou até mesmo torça contra eles. Porém, o que Mad Men faz é criar um universo rico de personagens complexos, onde esse desconforto é utilizado pra confrontar seu público sobre os valores que consideramos básicos hoje, e lembrando-nos que até pouco tempo atrás, eles não eram.

O Real Protagonismo da Série:

A primeira forma com que a série nos faz pensar nessa ideia é com seu título:

Cartaz com o significado de Mad Men
*A tradução literal de Mad Men é: “Homens Loucos” algo que seria considerado uma piada pelos executivos da época e que no contexto da série serve como reflexão sobre os costumes desses homens.

Cartaz que aparece no começo do primeiro episódio da série “Smoke Gets In Your Eyes”: “Mad Men*: Termo criado no final dos anos 1950 para descrever executivos de propaganda da Avenida Madson. Foram eles mesmos que criaram.”

Os homens que se correspondem como “Mad Men” na série são parte de três gerações que reagem de diferentes formas as mudanças de sua época: os mais velhos como Roger Sterling (John Slattery) e Bert Cooper (Robert Morse) são de uma geração mais antiga, que ainda carrega ideias inadequadas e retrogradas. Don Draper (Jon Hamm), já é de uma geração que tem alguns dos mesmos problemas da anterior, mas que ainda sim está mais aberta; por último os mais novos como Pete Campbell (Vincent Kartheiser), Henry Crane (Rich Sommer), Paul Kingsley (Michael Gladis) e Ken Cosgrove (Aaron Staton), ficam em uma corda bamba entre seguir os passos dos mais velhos ou seguir seu próprio caminho.

Ainda na primeira temporada, fica claro que esse é o grupo que chefia e faz boa parte da criação da agência e logo é aquele que nos focamos mais. Porém o objetivo do título da série em fazer referência à esses homens é nos enganar sobre as reais protagonistas. Se pensarmos no arco dos personagens do começo ao fim do programa, podemos notar que dramaticamente falando, poucos desse grupo passaram por mudanças que tiveram impacto. Sendo assim, eles estavam em situações diferentes do começo, porém continuavam basicamente com os mesmos valores e carácter

O real “protagonismo” fica com as mulheres da série. Joan Holloway (Christina Hendricks), por exemplo, começa o primeira temporada com uma promessa de deixar o cargo de gerente do escritório assim que se casar. Ela de fato se casa e sai da vida do escritório. No entanto, depois de passar por crises, sofrer abusos e ter um filho, ela decide sair da agência para criar sua própria produtora. Já Peggy Olson (Elisabeth Moss), por outro lado, começa como uma secretaria com alguns talentos escondidos. Depois de galgar seu espaço como redatora júnior ao longo dos anos, ela sobe no ranking dos cargos criativos, chegando a se tornar redatora sênior antes dos 30 anos. Assim, a trajetória dessas duas personagens não só justificam o seu real protagonismo, como também simboliza a conquista de espaço pelas mulheres em cargos criativos, executivos e até mesmo de direção ao longo dos anos 1960.

Peggy encarando Don de forma séria

Peggy:“Eu quero ser a primeira diretora de criação desta agência.”
-T07E10:“The Forecast”.

Os Movediços anos 1960:

Por meio dos seus personagens, a série transmite outra ideia: como as pessoas passam por mudanças e eventos históricos. Nesse caso, o texto foge de maniqueísmos e se utiliza dessas transformações para aumentar a complexidade de seus personagens e refletir sobre como as modificações no tecido da sociedade são sutis e ao mesmo tempo rápidas. Vejamos o exemplo de como a série retrata a questão do racismo e a luta pelos direitos civis nos EUA.

Roger segurando um jornal dobrado
Roger comenta sobre as marchas dos direitos civis que se originaram em Selma.

Roger: Esse negócio de Selma não acaba nunca. Acha mesmo que não precisam de leis de direitos civis?
-T04E05: “The Chrysanthemum and the Sword”

Na primeira temporada somos levados a acreditar, não só pela realidade do escritório, mas também pelo recorte que a série faz, que o elenco negro seria limitado e o assunto dos direitos civis e do racismo seriam pouco debatidos, caso fossem citados. Porém, já na segunda temporada o assunto começa a ser representado e debatido, dividindo cada vez mais os personagens pelo seu caráter. 

Nesse contexto, Roger e Bert, por serem mais velhos, são aqueles que menos comentam sobre o assunto e quando abrem a boca não falam coisas muito agradáveis; Pete e Don se mostram os mais abertos sobre a questão. Pete a princípio por uma questão de interesse, tendo visto grande oportunidade de trabalho em se focar no “Mercado dos Negros” (Negro Market), mas aos poucos se mostra mais empático. Enquanto Don, considerando suas origens, (mesmo já tendo feito comentários misóginos) geralmente não encarna a ideia de julgar pessoas pelo que elas são e, assim como fez com Peggy, prefere avalia-las pelo seu trabalho e realizações. 

Roger cantando com o rosto pintado de preto.
Roger cantando “My Old Kentucky Home” em seu casamento.

Esse contraste não só pertence ao gênero masculino. Betty Drapper por exemplo é bastante conservadora quanto ao assunto dos direitos civis, assim como Trudy Campbell (Alison Brie) que, mesmo de forma inconsciente, já praticou o preconceito daquela época algumas vezes. Enquanto Peggy, por exemplo, nunca demonstrou problemas com a questão, isso fica claro na forma como ela trata Dawn (Teyonah Parris), então secretaria de Don (e primeira personagem negra regular do elenco). 

No meio da série, o assunto fica recorrente ao ponto de não poder ser mais evitado. Vale ressaltar um episódio onde esse conflito fica claro: na terceira temporada, no episódio “My Old Kentucky Home”, Roger faz uma festa para celebrar seu casamento recente com Jane (Peyton List) em meio ao coquetel ele decide cantar uma música para sua mulher usando uma maquiagem Blackface. Desde o começo de sua apresentação fica claro o desconforto de alguns em meio alienação de outros:

*Note o desconforto que Don e Pete sentem ao ver a cena, em comparação a outros demais no fundo.

Por fim, depois de algumas mudanças, a série dá seu argumento final sobre o papel dos personagens quanto ao assunto. No episódio “The Flood”, da sexta temporada a série mostra as reações dos personagens ao repentino assassinato do líder do movimento dos direitos civis, Martin Luther King Jr. São poucos os personagens que não se manifestam em choque quanto a situação: Bert não abre a boca sobre o assunto, Roger, como de costume, não espelhe bons comentários e Henry foca no trabalho sem o mínimo de sensibilidade. 

A dor e o choque fica com o restante do elenco principal. Porém a grande cartada se dá pelo contraste da reação dos personagens brancos em comparação aos personagens negros. Phylis (Yaani King Mondschein), secretaria de Peggy chega no trabalho atrasada e arrasada com a situação, enquanto Dawn, que não era sequer esperada no trabalho, decide ir como uma forma de aliviar a cabeça, algo que surpreende Joan e Don.

Nesse ponto, o roteiro acerta em nos lembrar que boa parte dessa comoção, assim como a forma que os personagens lidam com a questão, não passavam de uma apropriação quanto ao assunto. Assim, nos lembrando que mesmo estando em novos tempos, as barreiras da segregação não foram totalmente derrubadas.

Joan abraçando Dawn

Joan: Nós todos sentimos muito.
-T06E05:”The Flood”

Como foi dito antes, representar a realidade de uma época é uma tarefa difícil, não existem fórmulas, muito menos manuais de como fazê-lo. Não existe receita de bolo, mas é pela utilização de alguns recursos narrativos, que um bom roteirista pode criar uma combinação que funcione. Foi do equilíbrio entre a elegância e o charme com o nojo e a brutalidade, que Matthew Weiner conseguiu criar uma história visceral, desconfortável e, ainda sim, bastante fiel a época que representa. Podendo hoje ser considerada uma obra de grande valor histórico que não só nos faz entender melhor os anos 1960, como também nos faz refletir sobre as mudanças que passamos e o estado em que estamos agora.

Lesli Linka Glatter, diretora de 6 episódios da série, comentando sobre a experiência do começo da produção:

“Isso foi antes da TV a Cabo e do Streaming, mas era o começo da AMC. Mas ninguém tinha a real noção, o que era a AMC na época? Eu li o roteiro, e eu pensei‘Meu Deus, isso é sobre como nós chegamos onde estamos agora.’ Isso é uma obra tão extraordinária feita pelo Matt Weiner, e olhando para nossa própria cultura e costumes sexuais e como as mulheres eram tratadas e como os homens se relacionavam com isso. Eu tinha acabado de ler aquele livro do David Halberstam sobre exatamente isso que Matt usou bastante como inspiração. É sobre todas as coisas que aconteceram nos anos 50 que moldaram a cultura do jeito que ela é, como o começo do McDonald’s e Levittown e o Presidente Kennedy usando a Televisão, o primeiro presidente a usar a TV como um meio Politico, Mad Men era apenas isso, um olhas sobre nossa cultura… em uma visceral, linda história.

Fonte: Tv Insider

Compartilhe sua opinião