Ilustração de Reinaldo Figueiredo

Chupa, Peste Bubônica!


Ilustrador convidado: Reinaldo Figueiredo

O século XXI nos faz enfrentar diversos problemas que nossos antepassados jamais seriam capazes de imaginar. Fotos com poucas curtidas. Brigas por textões do Facebook. A falta de Pokemons no trajeto do trabalho até em casa. São diversas as adversidades que a geração Z tem que superar que aqueles lá atrás que morriam de Peste Bubônica não adivinhariam.

Recentemente tive de passar por uma das maiores provas de resistências de um jovem da atualidade. O pesadelo de qualquer um na faixa dos vinte anos. A morte de um parente próximo? Não. A perda de um rim? Pior. O sucateamento das federais? Tente de novo. Foi realmente pesado o que Deus me fez passar. É até complicado de passar para o papel.

Estava eu deitado em minha cama numa noite fria. Assistia alguma série qualquer do Netflix, quando, de repente, a gravidade resolveu me castigar. Mesmo que eu não tivesse feito nada. A maldita invenção de Newton puxou meu celular para o chão da maneira mais violenta que você pode imaginar. Sorte que celular não sangra. Só se espatifa. E o meu se espatifou no chão gelado quebrando em pedacinhos. Ele não sangrou, mas eu sim. Sim, sou exagerado demais.

A vida de um universitário não é fácil. A dieta regada a miojo e o transporte público que está sempre lotado como se fosse um bloco de Carnaval comprovam esse fato. De algum modo, o dinheiro está sempre curto. Então gastar com o conserto do meu celular era algo inexequível naqueles próximos dias. Se com celular já é difícil, imagina sem. É pior que o Temer na presidência.

Nos primeiros dias de luto, parecia que a Amy Winehouse cantava aonde quer que eu fosse. Estava preso num clipe triste de pouca cor onde eu olhava pela janela e gotas melancólicas de chuva caiam vagarosamente. Me pegava imaginando as inúmeras conversas que estava perdendo, os memes que não recebia, as mensagens de bom dia no grupo da família, as fotos de gatinho que minha tia evangélica estaria compartilhando. Enfim, coisas extremamente relevantes para a existência humana.

Algum tempo depois, aquele sofrimento foi se apaziguando. Percebi que não conferir meu Facebook a cada 10 minutos poderia ser algo bom. Eu não sabia mais da viagem que o Carlos estava fazendo para Arraial do Cabo, ou que a Luciana tem a melhor mãe do mundo, ou que a Duda comeu um prato de baixa caloria num restaurante caro. E isso era gostoso. O fluxo de informação descontrolado se torna sufocante por não existir um filtro do que é postado. É que nem aquelas avenidas empanturradas de poluição visual e cheias de conteúdo inútil. Só que de gente. Também inútil.

A quebra do meu celular me fez reparar do vício que me controlava. Assim como o crackudo só percebe que está viciado depois que a onda passa, eu precisei me desintoxicar para descobrir que a Internet tinha virado minha droga. Fui obrigado a me desviciar e aprender a viver sem um Iphone na mão a todo instante. Ainda bem que consegui juntar a grana para o conserto dele e não tive que vender os móveis da minha casa que nem a galera da droga pesada. Inveja daquele pessoal que só tinha que se preocupar com a Peste Bubônica.

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Ilustrador convidado:

Reinaldo Figueiredo

Mais reconhecido como fundador do O Planeta Diário e por fazer parte do Casseta & Planeta, Reinaldo tem um extenso trabalho, transitando entre a escrita, a música e o desenho. Como ilustrador e cartunista, trabalhou no O Pasquim, em jornais de grande circulação como O Globo e a Folha de S. Paulo (onde tinha sua própria coluna) e publicou quatro livros: Escândalos Ilustrados, Desenhos de Humor, Noites de Autógrafos e A Arte de Zoar. Atualmente, continua explorando suas múltiplas habilidades: publica alguns de seus cartuns e quadrinhos na Revista Piauí, toca contrabaixo no quarteto Companhia Estadual de Jazz (CEJ) e apresenta o podcast A Volta ao Jazz em 80 Mundos, disponível no site do Instituto Moreira Salles.

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