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TATUAGEM

Um jovem de coração militar, tão comum nesses tempos mórbidos. Ele está sentado no apartamento apertado, onde se confina com sua família gigante. Faz um calor dos infernos, mesmo no inverno, porque estão todos presos e se esbarrando o dia inteiro. Os pais até saem, mas seguram o próprio negacionismo pela sua avó que ainda não querem que morra. O jovem passa a tarde estudando e disciplinando ainda mais o coração e todos os órgãos, querendo muito dar certo na vida, ter a vida dos sonhos numa casa direita que faça menos calor e onde possa beber cerveja o dia inteiro e pagar uma mulher para limpar suas coisas. Ele pensa que esse sonho é unicamente seu, como se riscasse todos os dias os outros nomes dos donos desse sonho e escrevesse o seu por cima, para ser merecedor desse sucesso. Mesmo que sinta que merecer qualquer coisa boa já seria algo surpreendente e extraordinário. Toda noite se masturba assim pensando muito no futuro, na casa dos sonhos e na paz, nem pensa tanto nas moças, se excita mais com a possibilidade de ser amado facilmente, dizendo pouco e ganhando muitos carinhos em troca. Sonhava com gargantas profundas feitas para engolir tudo, onde ele pudesse meter todo o pau que ainda iria ter. Sonhava com as mãos roboticamente ágeis que subiriam e desceriam perfeitamente equipadas para fazer o que nem mesmo suas próprias mãos sabiam fazer. Mas quando acontecia desses pensamentos não levantarem o pau o suficiente, corria para a pornografia para nem precisar pensar em nada, para quase desligar a cabeça e só despertar com a porra jorrando na barriga e limpar com um pedaço de papel. Como se fosse essa coisa também suja, também indevida. O ideal, acreditava, era nem ver a própria porra. Era depositar logo em algum lugar dentro de alguém e assim transar ficando limpo.

Foi quando um dia, totalmente desprevenido, entrou num link errado. Entrou assim num site que dizia: “VENHA VER TODA PUTARIA IMPOSSÍVEL”. Era uma transmissão ao vivo em um palco improvisado com fundo feito um céu estrelado de luzes pisca-pisca. Logo na abertura, moças entraram cantando e sacudindo peitos, purpurinadas e com máscaras tapando bocas e narizes. Não podia ver seus rostos e isso parecia ainda mais delicioso. Em seguida chegaram também rapazes, todos coloridos, com sungas finas e brilhantes. Declamavam poemas e as vozes pareciam se misturar todas, não sabia mais dizer o gênero da voz ou de quem era a boca que saia cada coisa. Eram vozes sem boca fazendo um coro animado com todas as palavras sacanas que o rapaz nunca tinha ouvido na vida. As mãos dançavam, depois passavam álcool gel nas bundas brancas, negras e amarelas. Depois apertavam os mamilos redondos, gordos, magros, escuros ou claros. Soltavam gritinhos agudos quase que coreografados. Uma espécie de circo ia se armando, uma espécie de encantaria e o rapaz sem nem perceber soltava risadinhas e ia chegando perto assim da tela, hipnotizado. Então aqueles corpos faziam perguntas, diziam: “Se não temos mais bocas, podemos amar com dedos higienizados?” e metiam os dedos nos cus. “Mas o álcool arde, papi!” gritava alguém e saia correndo pro outro lado. E depois diziam versos que o rapaz não conseguia entender. Mas o pau do rapaz na calça começava a se agitar, também encantado de alguma forma com a confusão danada daquelas pessoas estranhas da tela. Até que aparece, no meio das pessoas, uma em especial. Um corpo forte, másculo, parecido com o corpo que o rapaz queria ter, mas com uma enorme saia de brilhantes, uma saia que era como se tivesse sido roubada de uma estrela de cinema. A saia tomava todo o chão, longa e escorrida e todas as outras pessoas saíram correndo do palco para deixar aquele homem falar sozinho com sua beleza.

O homem sentou assim, cruzando as pernas. O rapaz mal conseguia respirar. O homem mexia nos próprios cabelos cacheados, parecia ser o homem mais forte com as mãos mais doces do mundo. Então o homem sozinho, no meio do palco virtual, tira sua máscara e revela a boca, com seus lábios carnudos cintilantes. Os lábios do homem se movem como se beijassem o ar, como se pudessem falar e beijar ao mesmo tempo. Como se pudessem quase beijar as orelhas de quem ouve, apesar da tela. Beijava, talvez sem querer, as orelhas daquele rapaz militar que quase babava diante do homem. Que arregaçava assim o peito e as ideias para aquela imagem doce. O homem, de repente, olha para a câmera, para o fundo dos olhos da câmera e começa a cantar. Sua voz é serena, um canto de sereia, parece mover o rapaz entre o tesão e o sonho. Parece conseguir habitá-lo. Nunca quis tanto um homem, parecia amá-lo mais do que poderia amar seu pai, mais do que poderia amar até as mulheres dos seus sonhos. Queria que ele lhe pegasse no colo e cantasse dentro da sua boca. Que brilhasse assim onde suas mãos pudessem tocá-lo. Queria tocá-lo. Deixaria aquele homem ficar deitado assim brilhando sem fazer nada e poderia fazer tudo por ele. Aquela excitação era muito diferente de toda a excitação que já tinha sentido. Imaginava o homem deitado em sua cama, gracioso. Imaginava abrir o fecho daquela saia com a língua e puxar devagarinho os metros e metros de tecido revelando as pernas peludas, revelando as coxas grossas, revelando o pau luminoso. Pensava que beijar a barriga daquela estrela era como beijar a estátua de um santo e, no mesmo instante, se corrigia: era mais do que isso, era beijar um astro. Se via com a boca no umbigo celeste enquanto o homem ainda cantava. Na sua cabeça, aquele homem sempre cantava e cantaria sempre. Cantaria enquanto descia a boca até o seu pau e cantaria enquanto o garoto chupa seu pau, centímetro por centímetro. Chupando querendo mesmo desconcertar o canto, sabendo que seria impossível. Um garoto nunca desconcerta um homem, apesar de todo o esforço? O homem sempre iria desconcertar o garoto? Queria mostrar que estava desconcertado. Mostrar seus mamilos tímidos, sua barriga magra, sua boca ingênua, seus dedos calejados e seu pau torto de tanta punheta no seco do seu quarto. Queria saber se o homem gostaria da sua bunda apertada, do seu cu nunca lambido, mas já visitado por um ou dois dedos curiosos. Dizer que mesmo sem saber como era possível, o seu cu já latejava pelo pau do homem e sua língua já esboçava perguntar grudada no ouvido: “Quer meter?”. Poderia meter tudo nele, o garoto nunca se sentiu tão forte. Tão forte que até seguraria o homem pelos cabelos e até lhe diria um verso de poesia que nunca conheceu, porque essa é a força que estava descobrindo em si mesmo. Esse era o tamanho do sonho que crescia entre suas pernas. Descobria que tinha disciplina para desaprender tudo e fazer jus àquele amor estranho, que poderia aprender algum instrumento da noite pro dia, ou aprender a dançar ou só descobrir como chupar um caralho maravilhosamente bem, como colocar ele inteiro dentro da boca e aceitar ser o melhor buraco para o melhor homem do mundo. Só queria poder acompanhar aquele corpo, aquela voz, aquela presença que continuava para lá da tela com as pernas cruzadas fazendo o público suspirar.

Então, um sorriso se esboça no canto dos lábios daquele homem estrela. Uma mágica coincidência ou, talvez, o homem saiba, aquele homem deveria saber de tudo. Ao reparar no sorriso, o garoto pensa que vai morrer de tanto que corre o seu coração. Pensa que vai morrer de tão duro e sedento que seu pau fica dentro da cueca. Decide tirar peça por peça no ritmo que canta a voz do seu astro. Primeiro tira a camisa, o homem treme as mãos no microfone. Pela primeira vez o rapaz passa os dedos doces pelo próprio pescoço, sente que tem o melhor pescoço que um garoto poderia oferecer. O homem espelha seu gesto e ergue os cabelos cacheados, começa um canto que é quase um gemido. O rapaz vai descendo o dedo até passar pelos próprios mamilos. O homem canta ais e uis e as notas são como lambidas quentes, como uma língua áspera que vai da nuca até a beira da calça. O rapaz abaixa as calças, o homem canta ainda mais baixo colado no microfone. O garoto delira, puxa o caralho pra fora. O homem se anima, descruza as pernas. O rapaz senta na cadeira como se roçasse a bunda nas coxas do homem. Fecha os olhos, toca no próprio pau como tocaria nele, como se o seu pau fosse a coisa mais magnífica do mundo, como se fosse a atração do circo, como se aquela punheta deixasse a plateia muda. Um instrumental entra alto, ele abre os olhos e o homem na tela dança levantando e abaixando a saia. Ele está se dando também, calado também. O garoto entra em sintonia, como se o homem lhe ensinasse a dançar a melhor punheta possível. Vai batendo uma, segurando para não explodir, segurando para ter graciosidade ainda que suando cada vez mais. O homem suando e girando, também, cada vez mais. A saia se agita e o refletor faz ondas prateadas envolverem o cantor. O garoto está prestes a gozar com os olhos cheios de lágrimas. Aquele homem parece querer se banhar na sua porra. Gozar é como chover ondas prateadas e ele goza, jorra o mar na própria barriga. O homem torna a cantar meloso, um canto melado de porra. É lindo. O rapaz chora e treme. O homem canta como que para afagar os seus cabelos: “Eu quero te contar das chuvas que apanhei, das noites que varei no escuro a te buscar. Eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o rei, nas discussões com Deus.” O garoto ainda não está pronto, sente a luz baixando. Não quer que o show acabe nunca. Pede para que aquele show não acabe nunca. Lembra-se do cu, no meio daquele escuro. Vira a bunda para a tela, empina a bunda na cadeira. Antes do fim, o rapaz precisa ser comido. Sussurra: “Me coma antes de ir embora”.

Uma fanfarra entra no palco, tudo se acende subitamente. Todes voltam pro palco para cantar, como que para a bunda do rapaz. O homem fica no centro para reger a cantoria. Um canto com todas as línguas do mundo, uma dança de mil dedos. O rapaz abre a bunda com as duas mãos e mete o dedo devagar. A música toca mais alto. E depois, mete outro dedo. O homem berrando. E depois, outro dedo. Gritos e risadas. Entra e sai do cu com gosto. O homem começa a declamar uma poesia no meio da música, ou talvez uma espécie deliciosa de manifesto: “A ÚNICA COISA QUE NOS SALVA”, diz ele, “A ÚNICA COISA QUE NOS UNE É A UTOPIA DO CU”. Não para por aí, segue falando por cima da cantoria, quase como se falasse com o cu do garoto. Cada palavra que o homem diz é como uma metida funda na sua bunda. Ele entoa: “Tem cu, tem cu, tem cu”. Cada metida funda parece salvar seu coração. “Tem cu, tem cu, tem cu”. Alguém bate na porta, mas ele não escuta. “Tem cu, tem cu, tem cu”. Está de olhos fechados, aquele é o último ato. “Tem cu, tem cu, tem cu”. Está no verdadeiro mundo dos sonhos. “Tem cu, tem cu, tem cu”. A porta se abre, a família olha horrorizada. “Tem cu, tem cu, tem cu”. Mas nada mais importa, pois antes de abrir os olhos, o cu do rapaz é o cu mais feliz do mundo.

Ilustradora convidada:

Laura Pinheiro

Laura Pinheiro, designer gráfica, amante de impressoras e de scanners. Utilizo de processos de design para desenvolver minhas expressões.

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Minha Mãe é uma Peça: a revolução da comunicação não violenta

Tenho esse texto pronto na minha cabeça há mais de um ano. Já o narrei para alguns amigos e passamos horas conversando sobre. Ainda não tinha o formalizado em letras. Faço agora numa homenagem a Paulo Gustavo que nos deixou há quase um mês vítima da covid e do horror que tem sido a gestão da pandemia por esse governo nefasto.

Apesar da partida antecipada desse brasileiro tão especial e adorado por todos, sua obra nunca nos deixará. As pontes que Paulo Gustavo construiu são sólidas. Para a gente, ficou uma grande lição de amor. Com sua comédia, com a icônica personagem Dona Hermínia, Paulo Gustavo nos ensinou a importância da família e do amor independente de qualquer estrutura social opressora.

Falando em opressão – para quem me lê com frequência sabe que esse é meu tema por aqui – penso que no teatro e cinema cabem todos os tipos história. Particularmente, tenho um profundo interesse pelas que buscam destituir as lógicas opressoras sem violências. Paulo Gustavo foi um grande mestre na construção de uma narrativa revolucionária adotando a comunicação não violenta. Escolhendo o humor e o amor.

Apesar dos tapas, xingamentos e surtos de Dona Hermínia, “Minha Mãe é uma Peça” é puro afeto. Assisti ao último filme da série duas vezes. A primeira logo na estreia no Rio de Janeiro à convite da querida Malu Valle, atriz que interpreta a personagem Dona Lourdes no filme, que foi minha professora de teatro na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras) e diretora do primeiro espetáculo de Paulo Gustavo com Fábio Porchat chamado “Infraturas”, além sua de grande amiga. A segunda em Olinda com minha avó Lúcia e minha afilhada Giovanna de 10 anos na época. Fiquei realmente impactada com o filme. A um olhar desatento, a obra pode parecer uma simples comédia. Um filme para entreter a família. Mas não é só isso. Tem muito ali.

Elenco na estreia do filme

O filme fala da solidão de uma mãe quando os filhos crescem e saem de casa, da necessidade de controle, do processo de desapego, dos caminhos que cada filho segue na vida, da aceitação desses caminhos, da preocupação se tudo vai dar certo, do amor à família, à todas as famílias. Chorei copiosamente e gargalhei nas duas vezes. E juro que não imaginei que me emocionaria tanto. Nas sessões que fui, o cinema estava lotado e o filme foi bastante aplaudido no final. Não só aplaudido, ovacionado.

Paulo Gustavo não ostentou a maior bilheteria da história do cinema brasileiro em vão. Os mais de 11 milhões de expectadores que foram assistir seu filme na telona não foram só assistir um filme, foram assistir a sua história. A história da sua família, da sua mãe, do seu casamento, do seu amor pelos amigos e a história do nascimento de seus dois filhos. Num país extremamente conservador, isso é grande fenômeno. Isso, por si só, já é revolução.

A ferramenta que Paulo utilizou para alcançar um estrondoso sucesso de público no teatro e no cinema foi a ferramenta da identificação. Ele criou uma narrativa espelho onde nós nos enxergamos de diversas maneiras. Vemos a nós mesmos, nossas mães, tias, avós. Como sempre reforço, não somos contos de fada, finais felizes, corpos perfeitos, bem ou mal, mocinha ou vilão, somos humanos. Sentimos dor, medo, raiva, surtamos, xingamos, nos apaixonamos e amamos. Dona Hermínia é uma mãe real, com defeitos, qualidades e, sobretudo, muito amor. Os dramas vivenciados pelos personagens em “Minha mãe é uma Peça” são dramas do dia à dia. Mas isso não significa que não exista profundidade. Tem muita.

A personagem Dona Hermínia, já inspirada na imitação que Paulo fazia da mãe, começou em um esquete na peça o “O Surto”. Posteriormente, o ator escreveu o monólogo “Minha Mãe é uma Peça”, o produziu e o financiou com empréstimos e ajuda da família. Estreou no Teatro Cândido Mendes no Rio de Janeiro em 04 de maio de 2006, exatamente 15 anos antes de sua partida. O sucesso foi estrondoso e só continuou a crescer.

Como no teatro, Paulo estava sozinho em cena, o artifício para construir os diálogos com os personagens que ganharam vida no cinema foram alguns. Além de falar diretamente com o público, com vozes que o auxiliavam a contar a história, Dona Hermínia dialoga ao telefone e pela janela do cenário com a filha Marcelina (Mariana Xavier), o filho Juliano (Rodrigo Pandolfo), o ex-marido Carlos Alberto (Herson Capri) e a vizinha Dona Lourdes.

Embora no cinema a história tenham ganhado muito mais tons, a narrativa que Paulo criou permaneceu a mesma desde o início. Em entrevista à Jô Soares, três anos após da estreia, ele nos contou o quanto os teatros seguiam lotados. Mencionou sobre uma senhora que foi assistir à peça mais de 180 vezes e diversas outras que foram repetidamente levando as amigas. Percebam o poder de conexão de uma narrativa quando nos reconhecemos nela.

Um amigo comentou comigo que, antes da estreia de “Minha Mãe é uma Peça 3” (2019), Paulo estava sendo criticado porque o filme não ostentaria um beijo gay. Eu já havia assistido e nesse momento fiquei confusa. Não lembrei se havia tido beijo ou não. Porém, depois de tudo que foi entregue, especialmente a cena onde Dona Hermínia leva Juliano ainda criança vestido de Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo para uma festinha infantil e a cena do casamento quando ela faz um lindo discurso de apoio a união do filho com outro homem, um beijo diria mais o que?

Não sei se não colocar o beijo foi uma opção para não violentar quem pudesse se sentir agredido com a cena. Depois do estrondoso sucesso do filme, podemos supor, seja qual foi a razão, que Paulo Gustavo estava certo. Comer pelas beiradas, talvez, ainda seja o mais inteligente a ser feito. Obviamente, nenhum beijo deveria ser censurado. Até conseguirmos esse feito, a gente precisa ensinar as pessoas o porquê beijos não são atos de violência. A vida e a obra de Paulo nos ensinou isso de forma muito bonita.

Quero aqui fazer uma breve comparação de “Minha Mãe é uma Peça” com outros filmes que pode ser considerada um tanto quanto esdrúxula. Talvez seja mesmo. A faço para reforçar o argumento que trago sobre o poder de uma narrativa não violenta. O filme de Paulo Gustavo foi lançando num período de algumas outras obras de sucesso no cinema. Dois longas metragens da época receberam muito destaque nas críticas cinematográficas, sendo apontados como narrativas revolucionárias. Um deles foi o brasileiro “Bacurau” (2019) de Kléber Mendonça e Juliano Dorneles e o estadunidense “Coringa” (2019) dirigido por Todd Phillips. Ambos apresentam construções incríveis. Aspectos artísticos inegáveis tanto é que foram indicados à importantes premiações.

Ambos, porém, no meu entendimento, falam para a bolha. Se comunicam com quem já está habituado a esse tipo de história. Outro aspecto problemático é que tanto “Bacurau” quanto “Coringa” demonstram um certo fetiche com a violência. Da insurgência do oprimido que acaba reproduzindo o lugar do opressor como coloca Paulo Freire. Entendo que esse também é o nosso lado humano. Na falta de alternativa, muitas vezes, não temos saída. A violência se torna o caminho. No entanto, não vejo essas histórias como revolucionárias. Elas tão somente refletem nossa condição de barbárie.

Enxergo narrativas revolucionárias como aquelas capazes de destituir as formas de opressão que ainda estão muito enraizadas no nosso subconsciente. As que tem o poder de nos fazer pensar diferente. De mudar chaves no nosso entendimento da vida. Quando dividimos uma história em mocinho e vilão, muito dificilmente criamos um grau de identificação que nos faz perceber o que precisa ser mudado na gente. É possível que nos reconheçamos no bem, nunca no mal. Dessa forma, não avaliamos nosso lado preconceituoso, machista, homofóbico e um monte de coisa mais.

Quando Paulo Freire fala da educação como prática de liberdade, vejo que a arte também tem o poder de educar para liberdade enquanto entretém. Quando uma peça, um filme ou qualquer tipo de narrativa faz isso comunicando para as massas, o poder de transformação social que essa obra pode gerar é grandioso. Como supõe o historiador Yuval Harari, seres humanos evoluíram e estabeleceram laços de cooperação por sua capacidade de criar e acreditar em narrativas. Sendo assim, ao nos entregar uma história de apoio e amor aos filhos, “Minha Mãe é uma Peça” nos diz muito de como precisamos nos comportar socialmente.

Com isso, não quero dizer que “Bacurau” (2019) e “Coringa” (2019) não nos ensinam nada. Ao assistirmos à essas obras pensamos muito profundamente sobre a perversidade do capitalismo, por exemplo. Esses dois filmes, no entanto, falham em dialogar com minha avó, com minha afilhada. A mensagem dos autores não chega a elas. E não digo que a mensagem tem que chegar exatamente a elas. Cada filme tem um papel, um objetivo. O que digo é que narrativas como a de “Minha Mãe é uma Peça” tem um poder de transformação muito representativo. Lembrando que o filme foi uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro.

Dessa forma, em toda a sua obra, Paulo Gustavo não só incentivou mães e pais amarem seus filhos do jeito que eles são, como também retirou alguns tijolinhos do muro da opressão. Em relação a homofobia, na relação de país e filhos mostrando o caminho do amor, e em várias outras questões. E fez isso sem adotar discursos violentos. Não por acaso, o Brasil inteiro se apaixonou por Paulo Gustavo e chorou muito com sua partida. Nesse momento, enquanto nação, estamos destroçados. Em breve atingiremos a marca de 500 mil vidas perdidas para uma doença que já tem vacina. O que vivemos é a própria barbárie e a falta de amor.

Ou seja: ainda há muita revolução a ser feita. Há muito chão a ser conquistado. Muros a ser derrubados. Nesse caminho, é muito importante a gente lembrar que somos o que somos pelos que nos formam. Nos educam. Nossos país, mães, avós, avôs, nossos professores. As histórias, as obras de arte que nos fazem pensar diferente. Como canta Belchior, “amar e mudar as coisas me interessa mais.” Espero que a você também. Sigamos firmes e fortes nesse caminho. A revolução do amor ainda precisa acontecer.

Um Tirano Muito Trapalhão

Gostaria de entender a lógica dos que acham que o mundo inteiro está errado e quem está certo é um cara que corre atrás de ema com uma caixa de cloroquina na mão. Ou então do por que chamam de herói da nação um presidente que deixou de gastar 80 bilhões de reais do orçamento aprovado para enfrentar a pandemia, enquanto o país mergulhava no caos. Quer dizer, ainda mergulha.

O bolsonarismo virou uma espécie de inversão generalizada de valores: compre uma arma (liberando 6 fuzis por pessoa), eduque sem escola (cortando em 2.7 bilhões a verba das escolas e faculdades), coma veneno (liberando 967 agrotóxicos), cace animais (extinguindo o poder do Ibama), corte uma árvores (tentando legalizar a grilagem), mate minorias (são tantos exemplos que nem cabem em parênteses) e viva sem arte (acabando com o ministério da Cultura).

E o pior é que Bolsonaro não está sozinho nessa luta às avessas. Como todo bom tirano, ele tem uma cúpula de ministros-comparsas que a cada dia nos mostram que é possível bradar por moralidade sem ter nenhuma. Como o Ricardo Salles, que deveria se preocupar com o meio-ambiente, mas acha mais importante discutir se a Anitta parece ou não um Teletubbie. Ou então como a Damares, que se veste do manto da hipocrisia e usa o nome de Deus para mentir, falando que “Não precisa comprovar que fez mestrado como apontou no currículo, pois o seu mestrado é bíblico”.

E isso se estende também a sua família, com a primeira dama fazendo um discurso em libras na posse e no dia seguinte teve a secretaria de assistência aos surdos extinguida. E o filho Flávio, zero alguma coisa, que, criticou o isolamento a todo custo e, na hora que a CPI da Covid foi estabelecida para investigar os crimes da gestão do pai, chamou essa investigação de irresponsável por “em algum momento precisarem de sessões presenciais”.

Mas o foco aqui é mostrar como o próprio Jair, que mora na Casa de Vidro, é essa inversão de valor. Ele que se diz tão cristão e tão antipetista, queria falar mal do Lula e dos programas de assistência social de seu governo o comparando a… rufem os tambores… Jesus Cristo. Alfinetando Jesus por dividir o pão e seus seguidores por o seguirem “apenas por eles lhes dar comida”. Quem diria que uma pessoa faminta seria grata a quem lhe deu de comer?

Aliás, quem diria que após esse episódio Bolsonaro ainda teria a coragem de usar a linguagem de matador de aluguel carioca uma semana depois? Sim! Depois de falar que Lula é tipo Jesus, ele foi num programa de TV do Amazonas brincar com a gíria “CPF Cancelado”, zoando aqueles que morrem nas mãos da milícia (que controla 57% do território carioca e recebeu “somente” 37.883 denúncias em 2019).

E é no meio desse mosaico de horrores que Bolsonaro está montando com o nosso país, tem sujeito que está desempreGADO, com imóvel aluGADO, comprando tudo com preço salGADO e ainda apoia o rei do GADO. Para mim, essa pessoa só pode ter um cérebro extra-GADO.

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Ilustrador convidado:

João Rodrigues

Eu tenho 25 anos, sou publicitário de formação e apaixonado por fotografia de arquitetura. Me interesso por todo tipo de arte visual, minha busca como artista é tentar simular o desenho tradicional no digital.

👉  Conheça o trabalho do João no seu instagram.

Mr. Robot: no enquadramento das relações humanas

ATENÇÃO:  POSSÍVEIS SPOILERS ABAIXO

Mr. Robot (2015-2019),criada por Sam Esmail, está longe de ser uma obra perfeita, mas ainda assim tem um lugar entre as grande séries dos anos 2010, como uma produção que, mesmo estando em uma emissora pequena (USA Network), conseguiu chamar a atenção pelo seu tom independente e sua estética marcante.

Estética essa cuja construção está intrinsicamente ligada ao seu trabalho de fotografia, que de forma singular enquadrou as principais angústias e medos da sociedade americana da década passada. Sendo assim, hoje faremos uma analise da fotografia de Mr. Robot e como ela serviu de amplificador para as principais questões da série.

Contato humano e relações sociais:

Agente DiPierro deitada na cama falando com sua Alexa

DiPierro: Alexa, você me ama?
– T02E11: “eps2.9_pyth0n-pt1.p7z”

Fazendo uma dissecação direta, na primeira temporada de Mr. Robot a fotografia segue as seguintes diretrizes:

Ignorando a regra dos terços, os enquadramentos são feitos de forma que jogam os personagens para o canto da tela, usando um quarto ou até mesmo um quinto da tela apenas:

Elliot no metro

Elliot e Tyrell Wellick conversando

Quando se trata de planos próximos a ideia é preferir por câmeras na altura da cabeça dos personagens, deixando seus olhos perto da linha da metade vertical da tela. Já em planos distantes, geralmente os personagens são mostrados da linha do busto para cima, reduzindo seu espaço em tela:

Fernando Vera encarando em direção a câmera

Elliot caminhando pela rua com um olhar suspeito de canto de olho

Além disso, a câmera geralmente se posiciona num ângulo de 45º em relação a direção em que o personagem está olhando. Sempre nos deixando com apenas um lado da face do personagem:

Angela sentada em uma mesa com uma pose argumentativa

Terry Colby sentado na mesma mesa que Angela com uma aparência feliz

Movimentações de câmera são raras e quando aparecem são bem estáveis e tentam manter essas regras de enquadramento:

Uma musicista tocando arpa em meio a uma festa de milhonários

A paleta de cores é sempre pálida independente da cor e a focagem vezes tenta separar o personagem em foco do ambiente quando está perto, vezes tenta mostrar como ele é pequeno diante do ambiente com um foco mais aberto:

Alguns homens desfocados encarando a câmera

Angela, Elliot e Ollie conversando em uma esquina movimentada

Agora, o propósito disso tudo segue alinhado com uma temática que está presente tanto na superfície quanto no subtexto da série: o contato humano e as relações sociais. Primeiramente, é importante falar que o roteiro de Mr. Robot traz uma ideia um pouco paranoica e megalomaníaca abordando como os nossos costumes sociais atuais (com as redes sociais e etc.) tendem a ser meras fabricações rasas. Além do “fato” de sempre existir uma outra faceta mais sombria, as vezes criminosa, que escondemos em meio a internet.

O único “realismo” da série está presente nas questões que envolvem tecnologia, cyber segurança e nosso contato com o digital. Quando se trata de trama, o tom do roteiro se desprende um pouco do compromisso com a reprodução do real, tendo personagens que tendem ao caricato. Muitos desses inclusive representam uma espécie de personificação de instituições e entidades, quase como em um teatro de sociedade.

Tyrell Wellick encarando a tela
Tyrell Wellick (Martin Wallström), personagem que personifica um pouco da parte maníaca do mundo empresarial.

Então, nesse universo cujo pano de fundo é realista e o tom e o recheio mais caricatos, a fotografia estabeleceu essas regras com dois propósitos claros: amplificar o realismo da série – algo que é notável desde o primeiro episódio – e representar as relações humanas de forma mais fria e apática. Uma escolha que por consequência, as desumaniza.

É raro de se ver uma cena em que fique claro o contato entre duas pessoas: O ângulo e o enquadramento da câmera nos fazem ver uma parte da pessoa, sendo que sua face mostra mais um lado do que o outro (representando uma persona talvez). A iluminação deixa a pele mais pálida ao ponto de ser difícil de ver falhas e marcas. É incomum de se ver um dialogo entre duas pessoas sendo expresso por meio de um ângulo sobre o ombro (over the shoulder) ou até mesmo com os dois personagens no mesmo plano.

Tyrell escondendo sua decepção com um sorriso em uma sala de espera
Tyrell, mesmo estando em um cargo alto na E Corp,
Philip Price dialogando com Tyrell na mesma sala de espera
ainda é mostrado em um plano separado de Philip Price (Michael Cristofer), CEO da empresa. Simbolizando que até  entre pessoas de patentes próximas, existe uma distância bem clara.

Porém é nas relações entre Elliot (Rami Malek) e outros personagens (na parte mais próxima da superfície do roteiro), que existe uma exceção: Seja no contato com seus interesses amorosos, como Sheila (Frankie Shaw) e Angela Moss (Portia Doubleday); com sua (esquecida) irmã Darlene (Carly Chaikin); ou até mesmo com sua segunda personalidade inspirada em seu pai, Mr. Robot (Christian Slater).

Elliot e Mr. Robot, sentados na beira de um pier conversando sobre a infância de Elliot
Elliot conversando com Mr. Robot sobre sua infância.

Poder e controle:

White Rose encarando Elliot em meio a fumaça de cigarro

White Rose: Você hackeia pessoas, eu hackeio o tempo.
– T01E08: “eps1.7_wh1ter0se.m4v”

Na segunda e a terceira temporada, o roteiro da série aborda com um pouco mais de profundidade uma outra questão já presente no ano anterior: as relações de poder e controle. Em meio a crise gerada pelo “ataque de 9 de maio” (Five/Nine Hack), a falta de estabilidade econômica e social se intensificam nos Estados Unidos e em outros países do mundo. Nesse contexto, o roteiro e a fotografia da série trabalham com questionamentos de “quem realmente tem o poder na sala”.

Seja numa abordagem macro como na relação entre a E Corp e o governo americano:

Phillip Price encarando os membros do FED
De um lado da mesa,Phillip Price, CEO da E Corp,
Os membros do FED encarando Phillip com uma aparências séria
Do outro membros do FED (Federal Reserve, o banco central americano). Note como o contra luz faz com que eles pareçam figuras poderosas, intocáveis, quase divinas, diante de Philip.

Ou em uma abordagem micro, com as relações entre Mr. Robot e Elliot:

Elliot deitado na cama olhando para o teto do seu quarto de manhã
Alguns dos ângulos do “quarto” de Elliot que se repete em meio a temporada 2.
Elliot e Mr. Robot conversando sentados na cama do quarto de Elliot
Algo mostra a sua batalha pelo controle da realidade que o cerca.

Além disso o vácuo de poder e a desordem estabelecem duas ideias interessantes: a primeira que, se antes havia uma aversão entre os personagens e a sociedade por conta dos costumes sociais que as pessoas praticam, agora existe um medo. Assim, vistas e panoramas antes mostrados para destacar grandiosidade, e até um pouco da monstruosidade, agora retratam o declínio e pavor.

Elliot encarando uma parede com retratos em homenagem, enquanto as ruas estão apagadas sem luz

Vista da cidade de Nova York em meio ao apagão

A segunda ideia, mais ligada a superfície do roteiro, está relacionada à ascensão do grupo hacker Dark Army. Por se tratar de um grupo misterioso que presa pelo anonimato e pode agir de forma inesperada com seus diversos contatos, elementos de suspense e ação são adicionados para retratar o poder de tal entidade e a falta de controle dos personagens.

É possível notar isso na sequência do tiroteio em Pequim (T02E05:eps2.3_logic-b0mb.hc):

E na cena do tiroteio na cafeteria (T02E10:eps2.8_h1dden-pr0cess.axx):

Outro elemento que se soma a esse suspense e a desumanização das relações entre personagens é a representação de algumas cenas por meio de planos zenitais. Neles, o interessante é notar quem está falando com quem e não necessariamente o que é que está sendo dito, algo que nos faz ver os personagens como meros peões em um tabuleiro maior:

Elliot e Darlene num pier a noite

Mobley e Trenton cavando um buraco para esconder um corpo que está jogado perto. Enquanto Leon os observa sentado no capô de um cadillac amassado no meio do deserto

Porém, o mais interessante tanto do texto, quanto da fotografia de ambas a temporadas é a quebra das regras em favorecimento de uma reflexão maior sobre as questões abordadas no começo da série. Em meio ao cenário de crise, Elliot se questiona sobre os reais resultados do projeto que ele começou enquanto tenta reestabelecer contato com pessoas próximas:

Assim, começa um processo de maior contato entre personagens e de aproximação da câmera com eles. Algo que é essencial para a conclusão da série na temporada seguinte.

Mr. Robot: Especial de Natal:

Fernando Vera de casaco amarelo encarando a câmera

Fernando Vera: Está na hora de conversarmos.
– T04E05: 405 Method Not Allowed

Em sua última temporada, o roteiro de Mr. Robot decide abordar de forma mais forte e direta as questões relacionadas ao contato humano. Em meio ao clima natalino, algo que está longe de ter sido uma escolha acidental, o texto da série trata das diferentes facetas das relações sociais enquanto o arco da temporada opera como um grande heist contra a “vilã” da série, White Rose (BD Wong).

É possível ver isso em quase todos os episódios. Porém vale o destaque para os episódios 3, 4 e 7 dos quais as questões relativas ao alcoolismo, à depressão e ao abuso infantil deixam de ser elemento para abordar o lado ruim do contato humano e se tornam uma oportunidade de chamar a atenção sobre essas questões e divulgar ajuda para aqueles que precisam. Sem contar o papel do último como uma questão crucial para o desenvolvimento da série.

Cartela com o numero de contato de emergência para casos de violência domestica que apareceu no final do episódio 7
Cartela com o numero de contato de emergência para casos de violência domestica que apareceu no final do episódio 7

Enquanto isso a fotografia da série rompe com o restante das regras existentes e decide se utilizar do clima de festas como referência para construção das imagens.

A iluminação deixa de ser pálida e passa a ser mais quente e direta, se utilizando bastante das luzes suaves natalinas e das luzes duras dos resquícios de sol que existem durante o inverno:

Olivia Cortez sentada a mesa com Elliot

Fernando Vera encarando Krista Gordon

Os enquadramentos deixam de diminuir a proporção dos personagens em tela, já que o importante agora é entender como a questão do contato humano afeta os personagens.

Versão jovem do ministro Zhang/White Rose encarando seu amante

Elliot em pé ao lado de Darlene que está sentada

Já que os episódios são mais focados no caminho para a conclusão da série, ângulos fixos deixam de ser regra e viram exceção. Assim a câmera se movimenta mais vezes para dar o clima de tensão e ação necessário:

Elliot escapando do prédio

Assim, no quesito roteiro, o final de Mr. Robot pode deixar a desejar um pouco pelas pontas soltas que não foram resolvidas (e sim desviadas) e talvez pelo clímax um pouco frustrante. Porém o que torna a conclusão da série satisfatória é a sua reflexão quanto ao contato humano e as relações sociais. Algo enterrado no amago da série e que só conseguiu emergir na história graças a um texto maduro e aberto a possibilidades e uma fotografia poderosa que pôde conduzir o público até aqui.

Classe Média, Uni-Vos

No curso de publicidade aprende-se a arte do Naming, que é o ato de criar nomes que transmitem uma ideia positiva e impactante sobre um produto, ação ou marca. E apesar desse nome modinha em inglês estadunidense, a prática do Naming é muito antiga. Ela já distorceu ideias como as Grandes Navegações, que, com esse nome glorioso, escravizou mais de 10 milhões de pessoas. Ou então a “Descoberta do Brasil” que disfarça o fato que ninguém descobriu nada.

Embora os exemplos que eu usei são históricos, temos aos montes casos de “Grandes Naming, Pequenas Verdades” na nossa atualidade. Um que eu adoro é a Rachadinha. Esse nome é quase um funk dos anos 2000. É um nome tão inofensivo quanto Atoladinha (que era sobre fazer sexo na praia) e Tiazinha (stripper do horário nobre na década de 90). Você não acha ofensivo Rachadinha ser um esquema de corrupção milionário praticado pelo filho do presidente — talvez O Grande Desvio fosse mais apropriado?

Entretanto, o naming que eu acho mais nocivo para a sociedade hoje em dia é o de chamar a “Classe Média” por esse nome. Ele dá uma sensação de equivalência da distância entre a classe média e a classe rica e a distância entre a classe média e a classe pobre. Ela faz parecer que essa dita “Classe Média” realmente está no meio de alguma coisa (além de um fogo cruzado).

A ideia desse nome é meio ingênua, faz parecer que tem 3 casas, uma do ladinho da outra, e que elas podem se ajudar mutuamente, afinal são vizinhas. Sendo que na verdade, se fossem casinhas, a Classe Rica estaria a cem campos de golf de distância da Classe Média – inclusive da “Classe Média Alta” (a prima esnobe e autoproclamada). Enquanto essa, a casinha “intermediária”, na verdade, estaria coladinha na pobre, sentindo o mesmo mal odor da rua, separadas apenas por um muro cheio de cacos de vidro.

Durante a pandemia do Coronavírus, o patrimônio dos super-ricos brasileiros cresceu 34 bilhões de dólares, um aumento de 30% na riqueza desses 42 bilionários. Nos Estados Unidos, se somarmos as fortunas de Bill Gates, Jeff Bezos e Warren Buffett os três têm mais dinheiro que 50% da parte mais pobre da população americana (que, por si só, já é a população mais rica do mundo). Enquanto isso, o Banco Mundial estima que 50 milhões de latino-americanos estarão abaixo da linha da pobreza até o fim da pandemia.

Então, o poder do Naming em “Classe Média” é o de dar uma falsa sensação de valor, sendo que a desvalorização é cada dia mais presente. Mas eu gostaria de propor que a gente mudasse para um nome mais verdadeiro, que agregasse uma consciência de classe e que, sempre que dito, nos lembrasse de qual lado do campo de golf nós estamos. Por isso, levantei algumas sugestões: Classe Pobre Plus, Classe Povão Prime, Classe Proletário Max, Classe Pobre Vip, Classe Pobre Camarote, Classe Pobre com Benefícios. E aí, com qual você se identifica mais?

* * *

Ilustrador Convidado:

André Terayama

Sou um artista visual nipo-brasileiro interessado nas possibilidades do corpo em representações narrativas em vídeo, performance e desenhos. Atualmente faço uma série de experimentos em fotografias e narrativas gráficas onde eu exploro questões como espaço urbano, identidade e a história dos nipo-descendentes.

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PERFECT SENSE

Tudo começou num desconhecimento. Essa estranheza que podemos sentir em direção a alguém. Estranhes que se cruzam, o olhar que atravessa a tela e esbarra em outre lá do outro lado. Tanta coisa que já foi perdida nessa guerra, mas essa pequena fagulha esses dois estavam tentando não perder. É um novo tipo de tratado de proteção para além da fisiologia do corpo, a proteção dessa delicadeza, desse mistério que o corpo guarda pra ser dividido e que do nada se acende, do nada ataca por dentro. É precioso. É uma constatação de que no meio da perda, da indiferença, da violência, ainda pode aparecer essa pequena delicadeza, o corpo ainda pode querer existir assim manhoso para além de só funcionar bem, para além de garantir que os órgãos e a ordem se mantenham em vigor. É uma desordem possível, isso enche os olhos de uma esperança. A ordem do mundo agora não devia ser objeto de desejo, mas sim desejar o seu desmonte. Os dois estavam propondo um desmonte às avessas, um desmonte íntimo.

Se conheceram assim num acaso, o acaso que ainda pode vir a acontecer na virtualidade. Como quando entrávamos numa festa e éramos apresentades a alguém numa roda de amigues bêbados, ou como quando num show percebíamos alguém encarando nossas costas suadas, ou como quando sobre um balcão do bar alguém apoiava as mãos rentes às suas e comentava “hoje está agitado” e assim um estranho sorriso aparece. Um sorriso que poderia ser jogado à toa, mas também poderia vir pra despertar essa chama, esse chamado. Nem todo chamado é atendido, mas às vezes nos pegamos muito tempo sem de fato sentir esse chamado acontecendo. Os dois sentiram. De início é muito estranho e perigoso. Aprendemos a colocar alarmes e sirenes contra tudo que faz com que talvez não queiramos ser ou proteger apenas nós mesmes. É um novo (ou muito velho) hábito do Eu acima de tudo. Então, quando o chamado acontece, soam os alarmes, balançam bandeiras vermelhas de que tem tubarão no mar e é melhor não mergulhar. Mas o que é exatamente esse tubarão? E se o tubarão for na verdade a resposta de que o oceano ainda não está morto? De que ainda existem peixes em algum lugar no meio do plástico e da merda? Não importa tanto. O fato é que os dois decidiram ser os loucos banhistas que sentem que é preciso aceitar a oportunidade rara de pôr os pés na água. Decidiram se encontrar, na contramão de tudo ou no que poderiam chamar de um ato de juventude ingênua. Quarentenar com uma pessoa que você nunca conheceu. Isso é um tipo de teste de empatia. Mas fizeram planos e malas, entulhando o melhor dentro, pra poder se dar a conhecer. Com que roupa vamos quando queremos ficar nus? Era uma jogada arriscada de querer muito outro corpo na sua realidade, materialidade, estranheza e, também, na sua ameaça. Ir mesmo que seja um tubarão, mesmo que seja.

“Atualmente tudo é contágio e dor”, ele pensava enquanto girava a chave na porta. Uma última tentativa de desacreditar aquele impulso e de abraçar a desesperança que estava assolando o país, o apartamento, suas ideias. Esperar o pior, mesmo que o melhor não seja algo tão impossível. Já ela, enquanto esperava na soleira daquela casa sem passado, pediu muito que ele não fosse mais um motivo para chorar ou para perder assim o paladar pra vida outra vez. Porém, a verdade é que a entrada não foi assim o clichê cinematográfico que imaginaram. Era preciso muito álcool em tudo. Estavam habitados de um nervosismo, não sabiam como se sentar, nem como se portar tão bem. Ela queria tomar um banho, ele ficou parado ao lado da porta fechada sem saber o que fazer. Queria entrar, mas sentiu que não tinham essa intimidade e não queria atropelar as etapas, mesmo sem saber ao certo quais eram. Sempre pensamos que existem protocolos e etapas mesmo que isso não esteja de fato posto. Em algum lugar construímos essa ideia de que a primeira vez que metemos o olho num corpo nu tem que ser especial, sexual, cerimoniosa. Por isso essa incapacidade de abrir a porta e se deparar com o corpo relaxado embaixo do chuveiro. Talvez se ele abrisse, ela também, do outro lado, iria encolher a barriga, empinar a bunda e arrumar os cabelos. Melhor seria, talvez, se demorasse uns segundos para percebê-lo ou se ele entrasse quase sem querer para poder aí ter o conhecimento do corpo inesperado, frágil, tosco, espumoso. Se entra e ela está ensaboando os sovacos ou o cu, se apaixonaria ainda sim? O encantamento é essa aparência? Essa superfície? Ou ele se apaixonaria mais ainda? Não sabemos, pois ele não abriu. Ela também não o convidou para entrar, apesar de ter pensado muito nisso enquanto a espuma caía. Teve outras inseguranças maiores que duraram todo o banho até se enrolar na toalha para finalmente sair e dar de cara com ele parado no corredor numa ansiedade até sedutora. A vida toda fantasiamos com alguém que não podemos evitar. Isso é tantas vezes confundido com alguém que devemos depender. Mas são propostas diferentes, se atente. Ele não conseguiu evitar que todo seu corpo não ansiasse por ela. Ficar esperando ao lado da porta era, na verdade, não se esconder. Não tentar mascarar aquela urgência. A urgência é algo bonito de ver, de expor. O mundo está cheio de urgências, não devemos tentar escapar delas, mas sim reconhecê-las. Essa era uma delas que ele teve a delicadeza de não sufocar.

Parados então no corredor, o cabelo dela ainda pingando, a toalha como elemento intermediário, como o último véu antes do abismo e ele catatônico naquele doce flagra. Queria dizer algo inteligente, mas ela beijou sua boca, sem cantada, sem anúncio, no seco mesmo. Ou melhor, no molhado que ainda escorria de seus cabelos e encharcava a roupa dele. O beijo fez cair a toalha e a queda da toalha fez parar o beijo. Como continuar dando atenção apenas a boca quando tem todo um corpo? Um corpo tão imaginado e que de repente se revela em tamanho, carne, no seu milagre próprio. Todo seio, toda barriga, toda coxa, toda buceta é milagre. Ele quase cai de joelhos, mas sustenta um pouco mais o deslumbramento. Parados assim no corredor, a toalha molhando o chão, as roupas dele perdendo o sentido. Ele percebe que perderam o sentido e começa a tirar devagarinho. Ela mede meticulosamente o abismo do corpo dele, os pelos e tamanhos, a pele e suas marcas. Nada será como antes, essa ilusão deliciosa, e o pau milagroso se ergue numa virilidade silenciosa e densa. A primeira vez que um genital olha outro experimenta suas próprias sinapses, apaixonamentos e desconfianças. Nesse caso um apaixonamento de lábios, buracos e cabeças. As veias pulsam. O que será que sussurram os músculos mais baixos quando começa esse rebuliço? O que dizem às glândulas para que umedeçam tudo e babem assim fogosas? O importante é que a xota baba e o caralho enrijece, ganham os devidos nomes.

No entanto, apesar do frenesi, não há pressa. A graça é justamente o prolongamento e eles levam isso muito à sério. O risco do encontro é alto e por isso tudo merece seu próprio festejo. O cheiro na dobra do pescoço e na dobra das pernas, o gosto do suor nas costas, a textura da bunda e o caimento dos peitos se segurados com a palma da mão. Uma degustação, como se fosse possível degustar um mapa, um solo, provar de uma geografia. O outro é essa viagem, com cantos doces e salgados, ásperos e macios. Seguem em um jogo de mãos aventureiras e de línguas vorazes que se obrigam a passar por tudo antes de chegar nas famosas fontes, as zonas chamadas perigosas – que nada de perigo têm. Mas evitam ir com tanta sede ao pote. Gostam de saber se o caralho ficará ainda mais duro, se a xota poderá se afogar em si mesma. Sobem e descem um no outro. Da boca para o peito, do peito para a bunda, da bunda para as costas, das costas para a nuca, da nuca para as orelhas, das orelhas para as bochechas e para a boca outra vez. Depois, quem sabe, o pescoço ou direto para o umbigo. O único contágio – se é que se pode ainda usar essa palavra – é dessa excitação borbulhante que vai apressando o caminho, mordendo e beijando, acreditando mesmo que o milagre é algo que podemos forjar e engolir no outro. Caem as lágrimas porque o mundo já foi esse subir e descer nas pessoas e agora parece um ato assim tão raro. Não sabem se choram porque agora notam que sempre deveriam ter feito amor desse jeito ou se choram por desatar esse nó, por finalmente destruir essa solidão muralha que tanto se dedicaram a erguer.

Entre as lágrimas percebem que chorar é um facilitador da intimidade. Sentem pela primeira vez que têm algo em comum, aquele desabamento, aquela chuva. Se apertam, abraçam, acariciam os rostos. O beijo fica longo e lento. As mãos finalmente descem pela barriga até tocar, simultaneamente, a xota e o caralho. Um toque delicado, sem muita força ainda. A mão dele cobre toda a xana, toda sua extensão gigante. Depois abre os lábios com a ponta dos dedos, sente o calor entre as pernas, toca o topo, a cabecinha do clitóris. Com o toque as pernas dela abrem mais. Enquanto ele desliza ali naquele pico, ela molha as palmas das mãos e envolve a cabeça do caralho, girando, afagando e depois subindo e descendo. Descendo até as raízes, até apertar as bolas suavemente. O choro não cessa, só piora. Como um surto, choram mais e mais quanto mais gostoso e lento se tocam. Mas não dura, logo aquela tristeza tesuda se esgota e começam a abrir e fechar as bocas chupando o ar. Chupam todo o ar do corredor até caírem ofegantes no chão. Vai subindo um desespero. As bocas tentam se salvar, uma na outra. O pau cruza as coxas e tenta se salvar na buceta. A buceta tenta se salvar sugando o pau. Não tem ar no mundo suficiente pros dois. Não tem água que possa matar aquela sede. De repente tudo é essa falta. Penetram mais fundo. Grudando cada centímetro, o máximo de aderência possível para sufocar aquele vazio. Então, vem a raiva.

Nada é o bastante, o mundo é só aquele apartamento, o ar vai acabar de todo modo, tudo está acabando, “Por que fazer outra coisa?”. Começam a foder forte, furiosos. Ele mete com força, ela quica e arranha, mordem os lábios até quase sair sangue. A raiva os ergue de pé outra vez. Fodem nas paredes, no chão, na mesa, na cadeira. Se olhassem de fora parecia uma porradaria. Os móveis batendo e arrastando no chão. Derrubam tudo. Transar assim com essa força bruta parece dar vazão pra aquela raiva súbita. E de só comer e dar vorazmente, passam a ter prazer em devastar as coisas enquanto transam. Quebram pratos, viram vasos de planta, arrancam o estofado do sofá. Tornam a soltar gemidos e sorrisos maliciosos. Porém, a raiva dá fome.

Abrem a geladeira. Ela entorna restos de macarrão nos peitos, ele chupa. Ele mela todo o pau com um vidro inteiro de mel e ela lambe. Ele vira um saco de açúcar no cu dela e vai passando a língua até limpar. Ela entorna vinho na boca dele e bebe de golinho em golinho. A lambança apazigua a raiva, mas logo se sentem estufados, sujos, caóticos demais. Tornam a se olhar como dois estranhos, não se reconhecem em nada daquilo. Querem dizer que nunca fariam nada assim, que nunca fizeram coisa parecida. Mas ficam mudos. Se afastam um pouco, ainda estão excitados e isso só torna tudo mais esquisito. Vão silenciosos até o banheiro. É um único banheiro. Dessa vez ela tem coragem de fazer o convite para que ele entre. Apesar da estranheza, uma tentativa. Se reconhecem unicamente pelo mesmo desejo ansioso de lavar fora aquele embaraço. Ele entra com ela no box, têm certa desconfiança. É apertado e úmido. A água cai. Nada particularmente excitante acontece, se lavam com certa indiferença. Não ligam se estão se esbarrando, roçando bundas ou braços. Em um ponto, param e se encaram. Tão desconhecidos e dessemelhantes com os cabelos escorridos para trás, a sujeira descendo para o ralo. Para surpresa de ambos, têm uma crise de riso incontrolável. Gargalham como dois loucos. Riem e riem. Se sentem ridículos assim incansavelmente excitados, ridículos assim por pensar que o outro ofereceria alguma resposta ou alívio para aquela loucura. “Eu pensei que iria te amar”, ela diz entre as risadas. “Eu pensei a mesma coisa”, ele responde. Quase se mijam de tanta graça. As bochechas e o abdômen doem um pouco. Porém retornam a se sentir mais simpaticamente estranhos. Se olham assim com a cara vermelha, com os espasmos do riso, percebem o caralho ainda duro e a xana ainda latejando. Acham engraçado. Se beliscam, pela graça. Se beijam, pela graça. Ele aperta os mamilos dela, ela aperta sua bunda. O riso vai diminuindo, vai se aliviando. Continuam se beijando e se apertando debaixo do chuveiro. Não sabem bem o porquê, mas continuam. Sentem então uma estranha alegria. Fecham os olhos. A água segue caindo. Sentem só os beijos, as mãos, o pau, a buceta, o silêncio, a alegria aumentando, o corpo tremendo, o milagre.

Ilustradora convidada:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho da Camila no instagram.

O Jornal de Casa: da casa de Victor Camejo para o mundo

Tragédia ou farsa? Esta é a pergunta que me fica sempre que termino um episódio do “Jornal de Casa” de Victor Camejo. Já com 54 episódios (até o momento em que escrevia esse texto) o jornalzinho, que é postado no canal do YouTube do comediante, é um sucesso. E o motivo todo mundo já conhece, o programa é uma montanha russa de emoções — você vai do riso para o desespero e do desespero para o riso em questão de segundos. Como ele consegue isso? Simples, falando do que se passa no mundo e, principalmente, no nosso Brasil, país que sempre me faz lembrar de um trecho clássico de nosso cancioneiro “você não vale nada, mas eu gosto de você”. Sabe-se lá o porquê.

Victor Camejo se apresenta diante de uma plateia em um clube de comêdia
A cada edição do jornalzinho fico tipo: “e agora quem poderá nos defender?”

De qualquer forma, em seu jornal — muito inspirado no trabalho de John Oliver, já abordado por estas bandas —, Victor comenta, entre uma piada e outra, sobre as principais notícias da semana. Embora o formato não seja novo, o combo apresentador mais roteiro faz toda a diferença. De que outra forma alguém poderia rir de uma “suposta” (não me processem) tentativa de golpe — ainda que fracassada.

Caso uma ameaça patente a democracia seja um tema pesado demais para você, que tal então um programa sobre um personagem caricato, que segundo alguns tem uma voz de marreco resfriado? Divertido, né? O problema é que este suposto marreco foi um juiz. Até aí tudo bem, não tenho nenhum problema com marrecos. Mas e se eu dissesse que esse juiz marreco talvez não só tenha sido parcial em um julgamento, como também serviu como garoto propaganda para uma operação e um processo nada legal. Bad vibe, né? Pois é.

Agora, antes de colocar o ponto final final nesse texto, não posso deixar de mencionar o episódio “A Elite Concursada”, em que Victor Camejo, usando como base a tese “A Nobreza Togada” de Frederico Ribeiro de Almeida, traz questionamentos importantes sobre os motivos para que alguns servidores públicos se achem semideuses além do bem o do mal — e não, não estou falando daqueles que trabalham tanto quanto você e ganham tão mal quanto você, não se façam de sonsos.

Então é isso, acompanhem o canal do Victor Camejo e ria um pouco de nossa própria desgraça. Os vídeos saem (quase sempre) nas quintas, e não quero dizer nada, mas o episódio dessa semana aborda nada mais nada menos do que uma “cpizinha” que tem rolado por aí. É, talvez seja farsa.

Sobre Infâncias Interrompidas

Em março de 2018, estreava no Brasil o drama estadunidense “Florida Project” (2017), de Sean Baker. O filme mostra a rotina das férias de crianças que moram na periferia de Orlando, Flórida, e que, diferentemente das hordas de famílias de turistas que chegam no verão, não tem acesso aos parques e a todo aquele imagético fabuloso do universo Disney. A protagonista, Moone (Brooklynn Prince), é uma menina de seis anos que vive com Halley (Bria Vinaite), uma jovem mãe solo excessivamente rebelde, em uma espécie de hotel de beira de estrada.

Quase um ano depois, “Capharnaüm” (2018), de Nadine Labaki, tinha sua estreia por aqui. A obra libanesa conta a difícil história de vida de Zaim (Zain Al Rafeea), um menino sírio de aproximadamente 12 anos, que vive com sua família refugiado no Líbano. O garoto faz parte de uma longa linhagem de filhos, que sobrevivem todos dias a condição da miséria. O filme começa em um tribunal, com o menino processando os pais por ter nascido, já estabelecendo um tom narrativo interessante que flerta com o realismo fantástico.

Ambas as obras trazem à tona questões ligadas à infâncias interrompidas e em cada uma delas é possível ser transportado para o universo interno dos protagonistas de maneira muito bem construída. A verdade dos personagens é muito presente, o que torna ambos os filmes excelentes. É, justamente, o contraste entre estas duas realidades tão delicadamente retratadas que permite uma análise política muito vasta a partir das diferenças e semelhanças de Moone e Zaim.

Quando comecei a pensar nesse texto, a ideia era falar sobre “Capharnaüm”, antes mesmo de assistir ao filme. Conhecia um pouco da sinopse e fui, finalmente, conhecer a tão falada obra de arte do cinema contemporâneo. Logo nos primeiros minutos de filme, fui tomada por uma sensação estranha de identificação. Estranha por motivos óbvios: é um filme libanês. Em tese, um lugar com uma cultura muito distante da minha. Mas se eu assistisse a cena do grupo de crianças correndo e brincando pelas vielas da favela sem saber onde foi feita, poderia jurar que se tratava do Brasil. Foi aí que caiu a ficha: a gente se encontra no capitalismo periférico. Talvez por isso minha primeira impressão tenha sido a de estabelecer uma relação do filme com o realismo fantástico, um movimento artístico latino-americano.

Sequência inicial de “Capharnaüm”

Em um primeiro olhar, é possível observar as diferentes escolhas estéticas adotadas em cada filme. Enquanto o longa-metragem estadunidense se utiliza o tempo inteiro de uma paleta de cores extremamente vibrante, criando quadros coloridos e vivos em praticamente todas as cenas, em “Capharnaüm” nos deparamos com uma fotografia cinza, de pouca saturação. Até mesmo o parque de diversões onde Zaim vai parar tem um ar deprimente. O que já indica tons bem diferentes que são adotados em cada obra e ilustra um pouco de como opera o imaginário de cada um dos respectivos protagonistas. Moone é um turbilhão de vida, muito energética e divertida, extraordinariamente destemida — daquelas crianças que ensinam as outras crianças a fazer merda. Zaim é um menino triste, que teve que amadurecer muito antes do seu tempo, extremamente carinhoso, protetor, mas que carrega toda a dor de uma criança que já entende um pouco da realidade do mundo.

Zaim e suas irmãs montando a bancada de sucos que preparam
Moone e Halley revendendo perfumes na rua

Depois de um tempo assistindo “Florida Project”, algo começa a incomodar. O tempo inteiro vemos cenas de Moone comendo todo tipo porcaria: waffles com xarope, panquecas, hambúrgueres, pizzas, batata frita, Coca-Cola, milk shake… A dieta comum do cidadão estadunidense. E aquilo parece me chamar especial atenção por alguma razão. Possivelmente por ter acabado de assistir “Capharnaüm” e acompanhar a dor e a desgraça de um menino de 12 anos que teve que vender um bebê por não ter como se alimentar ou alimentá-lo. Que acompanhou um bebê saudável ir definhando e emagrecendo enquanto chorava pela falta de sua mãe. Que se alimentava de gelo com açúcar para matar a fome. É um contraste gritante. Moone é pobre. Sua mãe é desempregada, e também passa por situações degradantes para sustentar o aluguel, a alimentação e necessidades básicas das duas. Mas é inimaginável uma cidadã norte-americana ter que dar gelo com açúcar para sua filha almoçar enquanto a assiste passar fome. Provavelmente é por isso que Moone é um turbilhão de vida enquanto Zaim, com seus 12 anos, já é uma criança cansada. É a falta de energia, de nutrientes mesmo. E possivelmente de esperança.

Zaim (Zaim Al Rafeea)

Essa é a diferença entre a pobreza de um país de terceiro mundo e um país “desenvolvido” — que só recebe esse título justamente por se permitir explorar desde matéria-prima até mão de obra de todos os países “subdesenvolvidos”. É assim que se dá o capitalismo periférico. Todo tipo de violência a humanidade fica escancarado pois quem está à margem simplesmente não importa. Não importa para os órgãos mundiais ou mesmo para os nossos próprios Estados. As crianças perdem seu direito à infância. No caso de Zaim, ele sequer existe para seu Estado. Pouco importa se ele trabalha, estuda ou morre de fome.

Em outros momentos também é possível perceber a relação da miséria com a retirada do direito à infância. Zaim e todas as suas irmãs trabalham desde muito novos. Moone pode até tirar um trocado ou outro fazendo pequenos serviços para os adultos, mas é tudo para ela, e nada de caráter obrigatório. Quem entra com o dinheiro é Halley, sempre. Logo no início do filme, Zaim pede para frequentar a escola e seu pai não deixa. Diz para o menino que ele tem que trabalhar. As garotas, irmãs de Zaim, são vendidas para casar. Ele perde sua “irmã preferida” depois de um estupro conjugal em uma menina de pouco mais de 10 anos. Moone e seus amigos frequentam a escola — ou pelo menos tudo indica que sim, pois o filme se passa no período de férias —, não precisam trabalhar, não passam fome, tem um lugar para morar mesmo que pequeno, então tem sua “pureza” intacta. Nenhum deles tem preocupações de adulto. Tanto é que toda a esperteza de Moone não é suficiente para ela ser dar conta — pelo menos logo de cara — do que uma visita de concelho tutelar representa. Em contrapartida, logo no início de “Capharnaüm”, Zaim identifica sozinho que sua irmã teve sua primeira menstruação e em questão de minutos bola uma estratégia para que seus pais não percebam. Antes mesmo da própria irmã se dar conta do que aquilo significava.

Moone (Brooklynn Prince)
Zaim (Zaim Al Rafeea)

A partir do segundo ato de “Capharnaüm”, o Zaim passa a viver com uma moça, Rahil (Yordanos Shiferaw), também muito pobre, que o encontra no parque de diversões e o bota dentro de sua casa, para cuidar de seu neném, Yonas (Boluwatife Treasure Bankole), enquanto ela trabalha. Pela primeira vez na vida, ele é tratado como um garoto. A moça dá banho nele como dá em seu bebê. Leva bolo para ele. Arruma novas roupas. E, além de tudo, deposita uma enorme confiança nele, cuidando de seu filho. O problema é que Rahil é presa, e acaba desaparecendo sem que Zaim saiba o que aconteceu. Mais uma vez ele se vê colocado numa posição de responsabilidade por um adulto. Torna-se então sua missão cuidar do bebê.

Zaim (Zaim Al Rafeea) e Yonas (Boluwatife Treasure Bankole)

Rahil acaba sendo um contraponto interessante para uma mensagem questionável que pode ser lida nas entrelinhas do discurso do filme. A relação profundamente abusiva entre os pais de Zaim e seus filhos, a condição da fome e as consequências disso podem flertar perigosamente com uma ideia higienista e violenta de que pessoas em situação de pobreza não devem ter filhos. Atribuindo a responsabilidade da condição de vida miserável à quem já nasceu dentro dessa realidade. Porém, quando Rahil, uma moça também muito pobre e que já tinha uma criança sua para se preocupar, leva Zaim pra casa e começa a cuidar dele mesmo sem condições para isso, a mensagem passa a se modificar.

Em paralelo, em “Florida Project”, o personagem de William Dafoe — que inclusive foi indicado para um Oscar de melhor ator coadjuvante —, dono do hotel onde vivem Moone, sua mãe e seus amigos, acaba se tornando quase um pai para Halley, e por extensão, para Moone também. Ele abre exceções para elas. Permite que Moone e os amigos aprontem todo o tipo de problema, sem cercear a liberdade das crianças de simplesmente serem crianças. O que chama muito atenção é justamente perceber a discrepância entre: Zaim, um menino de 12 anos, que tem responsabilidades de adulto, enquanto do outro lado do mundo, Halley, uma mulher adulta e mãe ainda é tratada como uma garota. A miséria leva a adultização das crianças, mas não é como se a cultura dos países ditos “desenvolvidos” esteja criando pessoas preparadas para o mundo. Ou com qualquer tipo de vigor para questioná-lo e transformá-lo.

Bobby (William Dafoe) e Moone (Brooklynn Prince)

Ambas as obras trazem à tona questões ligadas à infâncias interrompidas e em cada uma delas é possível ser transportado para o universo interno dos protagonistas de maneira muito bem construída. A verdade dos personagens é muito presente, o que torna ambos os filmes excelentes. É, justamente, o contraste entre estas duas realidades tão delicadamente retratadas que permite uma análise política muito vasta a partir das diferenças e semelhanças de Moone e Zaim. Duas crianças extremamente criativas e inteligentes, mas com olhares muito diferentes sobre a vida.

O Cair dos Homens

Finalmente a humanidade prosperaria de novo! Passadas pestes, enchentes, fome e séculos do dilacerar das camadas mais pobres, as coisas finalmente haviam se acertado. O Homem dominara a máquina, a química e a medicina. Um dos cientistas da pequena cidade de Golf Club, uma das últimas comunidades fechadas da superfície terrestre, conseguiu criar a fórmula que fez os alimentos voltarem a crescer no solo. O povo estava salvo para sempre, pensaram todos.

A falta de nutrientes na crosta terrestre não impediu a comunicação entre os poucos condomínios de luxo remanescentes. Logo mais da descoberta, Alphaville, Sun Palace e outros abastados povoados estavam cientes do que era necessário para voltarem a produzir comida em larga escala. O racionamento não era mais necessário.

Não que antes a escassez fosse uma ameaça, seus antepassados lhes deixaram estoque para mais de cem gerações. Mas, com essa nova composição química, nem o distante-futuro era mais uma ameaça. “Segurança alimentar para todos já!” bradavam os esplêndidos milionários. Depois de tantos anos.

Pensaram até que poderia ser um presente de Deus — apesar dessa figura ter sido renegada no período conhecido como A Primeira Queda. Mas quem ficou mesmo com a glória foi o Doutor Francisco Barbosa e seu laboratório. A boemia que se sucedeu nos dias seguintes foi repleta de brindes a ele. Diversas taças de Porto e Chandon batidas uma na outra pela honra e vida de Doutor Barbosa — e ainda mais brindes à SuperNatureza, como foi apelidada a “poção mágica” do Doutor.

A ciência abriu as portas daqueles condomínios. Os campos ao redor, outrora famintos, foram alimentados. A SuperNatureza espalhou o verde para além daqueles altos muros. A floresta cresceu até perder a vista.

Não que isso tenha feito com que as diferentes comunidades se conectassem. Seus habitantes não se gostavam. Mas, pelo menos, as paisagens que os separavam já não eram mais compostas de áridos e perigosos desertos e lixões.

Então, o “Nível Delícia” das comidas aumentava a cada ano, a cada década, liberando aqueles chiques-povos de qualquer preocupação. Se alimentavam até não aguentar mais. O conceito de Aproveitar A Vida nunca fora tão presente e tão festivo – o que fazia com que as pessoas enchessem os olhos de emoção, tendo em vista que elas eram as sobreviventes da Sétima Queda (rebatizada de Última Queda depois da chegada da SuperNatureza).

Mas eles não sabiam que não seria para sempre. De seus confortáveis condomínios, não tinham como prever: a SuperNatureza tocou os lixões e, para a surpresa de todos, as criaturas que, dentro deles, sobreviveram todos aqueles anos em meio à miséria.

E como não dispunham de equipamento algum, o contato dos bichos-lixões com a SuperNatureza seria fatal — para os milionários. A química fez com que as criaturas crescessem de um jeito que nunca fora visto. E elas estavam furiosas: a necessidade faz o ódio.

A cada remessa da poção que escoava até seu podre-terreno, elas bebiam como se fosse a mais fresca das águas. E enquanto os condôminos aproveitavam o Nível Delícia, os seres-impuros aumentavam a sua voracidade e tamanho.

E eles se vingaram. Não foi difícil, os portões já estavam abertos. Por mais de cem milhas, ouvia-se o grito das pessoas. Mas não havia nada que podiam fazer. Nem Deus estava do lado delas. “Ó SuperNatureza!” morreram berrando. Do Homem não sobrou uma costela, nem para contar história.

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Ilustradora Convidada:

Bruna Sudosk

Embora a ilustração sempre tenha feito parte da minha vida, foi só durante os últimos anos que encontrei nessa arte uma maneira de refletir e comunicar sobre minha vida e minhas filosofias. Com o tempo, passei a divulgar o que ilustrava, porque percebi que minhas reflexões iam além de mim. Acho que minha arte é isso, é sobre comunicação comigo mesma e, com sorte, também com o outro.

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​3 jogos de cartas para matar o tempo (e se viciar)

Além do vício em jogos de construção (que eu já admiti nesse texto), outra fixação que eu tenho desenvolvido e que decidi compartilhar aqui são os jogos de carta. Não estou falando de carteado, não tem nada a ver com “buraco”, “pôquer” e afins, mas, de jogos mais complexos como Hearthstone, Magic e Gwent.

Gwent:

Inicialmente criado como um mini game dentro do jogo The Witcher 3: Wild Hunt, Gwent é um jogo bem simples, em que a estratégia é bem fácil de se entender no começo. Sua mesa é um campo de batalha em que você “posiciona” cartas na retaguarda ou no front. Cada posição pode dar vantagens e desvantagens. Sendo o objetivo final conseguir o maior somatório de valor possível de cartas.

campo do jogo de carta Gwent

O esquema é o seguinte, você tem que “combar” cartas que ajudem a se somar em valor, evitar danos de inimigos o máximo possível e saber a hora certa de usar tudo que tem ou guardar para depois: as partidas de Gwent funcionam num melhor de três e caso você desista, você inicia a próxima rodada com a mesma mão mais 3 cartas novas. Ou seja, nesse caso, recuar nem sempre é a pior opção.

Partida do jogo de carta Gwent em ação
Se a opção “passar” fosse ativada, o jogador adversário jogaria, alguém levaria essa rodada e o embate se iniciaria de novo

Hearthstone:

O jogo de cartas da Blizzard criado em 2014 é um dos que mais têm crescido. No seu modo normal a ideia é bem simples: escolha um personagem com uma habilidade especial e monte um deck com cartas que se combinam. A cada rodada seu número de mana aumenta e você tem a possibilidade de evocar lacaios, criaturas vindas das cartas, mais poderosos para proteger o seu herói e atacar o inimigo.

Campo do jogo de carta Hearthstone
Este sou eu prestes a tomar um sarrafo já que o adversário conseguiu matar todos os lacaios que eu tinha…

O objetivo é eliminar os lacaios inimigos e tentar manter os seus para poder causar dano no herói adversário. O limite de um deck é de 30 cartas e caso elas acabem, seu personagem perde pontos de vida. Assim, usar cartas de feitiço que evocam outras cartas “extras” fazem com que seu fôlego em jogo aumente.

partida do jogo de carta Hearthstone em ação

A equipe responsável pelo jogo testado outros modos, tais como: a Contenda da Taverna, a Arena, os Duelos e o Campo de Batalha. Esse último se resume a uma disputa com outras 7 pessoas, em que seu objetivo é tentar criar a melhor formação possível para um embate —que funciona de forma automática. É bem divertido e extremamente viciante.

partida do modo Campo de Batalha do jogo de carta hearthstone em ação
presta atenção como os ataques funcionam automaticamente

MTG Arena:

De longe um dos jogos de carta mais complexos, o MTG Arena nada mais é que uma versão online do clássico Magic The Gathering. Tentando pôr de forma simples, o jogo basicamente se trata de construção de decks para um combates entre personagens.

Campo do jogo de carta MTG Arena

A mecânica do jogo se resume ter terrenos suficientes para poder evocar personagens, magias e feitiços. Porém ao contrário de Hearthstone, além do número de cartas por deck ser ilimitado, os tipos de baralho e as combinações é bem maior. Permitindo, assim, que inúmeras estratégias sejam criadas, testadas e modificadas. Dá pra perder horas descobrindo táticas novas para derrotar adversários diferentes.

Partida do jogo de carta MTG Arena em ação

Todos esses jogos estão disponíveis para PC, Mac (com exceção de Gwent), Android e iOS. E você? Curtiu as dicas?

A Metamorfose dos Novos Tempos

Apesar do livro “A Metamorfose”,de Franz Kafka, ter sido escrito em 1912, seu conteúdo fica mais atual a cada dia que passa. Nele, Kafka conta a história de Gregor Samsa, um homem que acorda em sua cama preso no corpo de um inseto gigante e que, a partir daí, tem que lidar com o peso de não conseguir mais sustentar sua família que dependia inteiramente de seu salário. Por mais que o livro seja sobre como os seres humanos descartam tudo aquilo que consideram inútil, nessa minha versão, irei criticar as formas de trabalho do terceiro milênio subvertendo essa obra atemporal em um texto cheio de memes. Me desculpa, Kafka. Vamos lá:

Numa manhã, ao acordar de sonhos inquietantes, vi que Gregor Samsa já não era mais o mesmo. Ele, que antes era caixeiro-viajante, me contou que em algum momento da noite se transformara em um horripilante funcionário de empresa privada. Suas olheiras haviam se aprofundado, o colágeno do rosto estava praticamente esgotado e, como que numa pancada contra a quina de algum móvel, sua lombar doía horrores.

Eu não entendia muito bem como aquilo funcionava. Será que essa transformação afetaria nossa amizade? Num primeiro momento achei que não. As mudanças pareciam apenas superficiais. Por exemplo, no café da manhã, ao invés de suas habituais torradas e suco de laranja, Samsa bebeu litros e litros de café quente. Sem botar um grão de açúcar sequer. Questionei se não faria mal, e ele me explicou “na nossa espécie dos Funcionários é assim que nos alimentamos. No máximo uma barrinha de cereal para dar energia, mas só no fim do dia”.

Até as mudanças mais estranhas aparentavam que não mudaria nada entre nós, como quando saímos de casa que Samsa disparou a correr e me gritou que não controlava mais suas próprias pernas. Elas corriam com vontade própria atrás de um ônibus para que Gregor não chegasse atrasado. Aprendi que bater ponto é uma prioridade biológica para a espécie Funcionária porque o predador deles — também conhecido como Chefe — sempre ataca quando essa meta não é cumprida.

Mas alguma coisa no interior dele havia mudado. Chegou em casa cansado e, por mais que eu tentasse bater papo sobre filmes, músicas e política, Gregor só conseguia falar mal de seus colegas Funcionários. Essa espécie, apesar de viver em bandos, não gosta muito de seus semelhantes. E naquele papo monótono, Gregor só variava o tema quando era para falar do clima que estava fechando.

Apesar da chatice, os primeiros meses foram relativamente tranquilos. Ele não tinha grandes vontades, nem grandes sonhos. O tempo que ficava na empresa não permitia. Eram oito horas por dia, mais uma hora para ir e uma hora para voltar. E o dinheiro era pouco — por mais que ele sonhasse com o aumento, coragem não é um dos atributos da espécie Funcionária. Porém, conforme o tempo foi passando, ele parecia cada vez mais fixado nos números e nos ansiolíticos. Perdeu o ânimo para viver novas aventuras, não conseguia mais se abrir sobre seus problemas e assim foi ficando cada vez mais fechado. Quando me mudei de casa, Gregor já estava num ponto que nem ele se reconhecia mais. As pessoas ao redor até hoje me perguntam: o que é que houve com Samsa? E até hoje eu não sei responder se foi ele que se encaixou no sistema ou se foi o sistema que o fez se encaixar. Só sei que faltaram os memes. Feliz 2020.

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Ilustradora convidada:

Júlia Lole

Júlia Lole é estudante de Produção Multimídia no IFSC Campus Palhoça Bilíngue (Libras/Português). Arte fala por mim. Gosto de fazer bolo e dançar no escuro. @ijustrar é a minha página favorita do Instagram.

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Sinais

Um apartamento de portas sempre trancadas e dentro uma mulher entupida de medos. Todo dia ela faz uma enorme lista de fobias que poderia ter. Acluofobia, Aerofobia, Afefobia, Agliofobia, Agorafobia, Agrizoofobia, Amenofobia, Angrofobia. Hoje, ela adicionou essas oito. Acredita que com o tempo certo passará a ter todas as fobias da lista. Acredita que isso será, de algum jeito, extraordinário. Toda fobia é de alguma forma extraordinária. Ela não suporta mais as coisas ordinárias. Todo dia tenta mover móveis do lugar, virar cadeiras, para sair desesperadamente da rotina, mas até isso se torna um hábito e o modo de virar e mover se padroniza. Não confia em encontrar outras pessoas. Desconfia de tudo cada vez mais. Tem os únicos segundos de paz quando senta embaixo do varal e observa o céu pela área de serviço do apartamento. O céu nunca é exatamente o mesmo, isso é o único conforto que sente, o que lhe garante que a vida está de alguma forma mudando e de alguma forma fora do seu controle. O seu único prazer está nessa passividade acolhedora de estar diante de algo tão terrivelmente maior e imprevisível, de algum modo docemente opressor. Chegou a tal ponto que talvez só pudesse ter prazer diante daquilo que lhe assombra. Foi assim que a ficha caiu, olhando pras nuvens pesadas, vendo tudo relampejar, se sentindo úmida como nunca, ali ela pediu pela primeira vez: “Venham me buscar”.

Naquela noite, o céu continuou o mesmo, mas ela se deitou na cama ansiosa. Existe alguma chance remota entre milhares de outras de alguém ter escutado, de algo aparecer e só isso já é suficiente para fundar uma religião, muito mais que suficiente para deixar essa mulher suando frio na camisola. Não sabia exatamente com quem estava falando, nem o porquê. Mas parecia a oportunidade do fim daquela solidão insustentável. Escolheu sua camisola mais bonita, dormiu pela primeira vez de cabelos penteados e sem calcinha. No entanto, se cobriu até o pescoço. Estava dada, mas ainda um tanto insegura. O cobertor era uma ilusão de proteção. As horas passavam sem que conseguisse pegar no sono. Olhava a janela do quarto de cinco em cinco minutos. Fechava os olhos e pedia de novo e de novo. “Que alguém venha, que algo apareça.” Estava quase adormecendo quando seu celular começou a vibrar sem parar ao lado da cama. Não era nenhuma ligação ou alarme, o aparelho apenas acendia e apagava vibrando e vibrando. Ouviu a televisão da sala ligar e desligar, cada hora em um canal diferente. Logo todos os poucos eletrônicos do apartamento estavam ligando e desligando sozinhos, fazendo barulhos agudos, graves e estridentes. O medo subiu a espinha. Sua pele e todos os fios do cu até o topo da cabeça se arrepiaram. Será que tinha cometido um erro? Agora o pavor parecia crescer. Sua casa estava à beira de um curto-circuito, numa sinfonia eletrônica de enlouquecer. Ela tapava os ouvidos e cerrava bem os outros até que tudo ficou mudo e as luzes todas se apagaram. O breu e o silêncio tomou tudo. Sentiu um forte alívio. Talvez isso tenha sido tudo, talvez agora fosse dormir e tudo seja só um problema na rede elétrica velha do seu prédio. Deitou na cama outra vez, se escondendo embaixo das cobertas, fechando bem as pernas, pensando em rezar baixinho para que tudo continuasse a mesma coisa ordinária. Então veio a luz forte.

Primeiro era como um enorme canhão de luz na sua janela. Depois era como se o canhão de luz ao entrar no quarto se dividisse em milhares de flocos luminosos. Como quando batemos poeira embaixo do sol ou como uma dúzia de vagalumes, só que muito muito brilhantes e com uma cor estranha. Enchiam o teto do quarto, tudo parecia estrelado. Arrepiou-se de novo, mas agora porque achava tudo muito lindo. Era como uma encantaria, como fadas de luz voando à sua volta. Sentou na cama para ver melhor. A luz continuava forte e entrando, virando mais e mais pequenas luzes que tomavam quase tudo. Algumas começaram a cair na cama, iluminando também o lençol e suas dobras. Mas logo percebeu que os flocos luminosos que caiam na cama começaram devagarinho a subir pelo lençol na direção dela. Querendo alcançá-la. Luzes podem querer? Aquelas queriam e quanto mais subiam pelo lençol, mais as outras luzes do teto despencavam na cama. Agora estavam menos para fadas e mais para formigas. Como dúzias de formigas lentas e graciosas procurando um furo ou meio de chegar perto da pele da mulher. Ela se escondeu embaixo dos lençóis, agora sentia as luzes andando sobre ela desesperadas. Fazem cócegas através do tecido. Então furam o tecido e a tocam. É como pequenos choques doces. O corpo fica eletrizado. As luzes grudam na sua pele, os cabelos tornam a ficar de pé, os mamilos ficam duros, os dedos retraem e contraem grudando cerrados. E então, quando percebe que todas as luzes agora estão cobrindo cada centímetro do seu corpo, quando percebe que depois do choque não há na verdade nenhuma dor, ela relaxa os músculos, os dedos tornam a abrir e ela começa a brincar de tocar as luzes, espantá-las com a mão e ver como voam de volta, querendo se fundir nela. É um tipo novo de ser desejada. Pela primeira vez compreende a pele como um só grande órgão. Sente com nitidez toda extensão de sua pele e cada micromovimento que as luzes ou fadas ou o que quer que sejam os flocos luminosos fazem.

Estava já muito concentrada nesse novo jogo, nessa descoberta de uma intimidade veloz e que não lhe demandava nada mais do que se sacudir e arrepiar, quando percebeu que seu corpo começou a levantar da cama. Começou a levantar e não levantou-se, justamente porque aquela ação estava para além do seu controle. Não levantava simplesmente, levitava na cama, como se não pesasse nada, como se tivesse acabado toda a gravidade. “Talvez quando conhecemos uma intimidade assim tão leve, levitamos”, pensou ela enquanto subia. E subia até quase tocar o teto. Pensou que atravessaria o gesso e toda a estrutura do prédio, que seria como um fantasma ou como um herói desses de filme que fica envolto numa bola de fogo e passa indolor rasgando tudo à sua volta. Nem terminou esse pensamento e de fato as suas fadas de luz começaram a brilhar feito chamas e ela atravessou o apartamento e percebeu do alto que na verdade não estava na sua cidade, nem no seu prédio. Estava no alto de um enorme campo verde, feito uma plantação de algum lugar que desconhecia. Mas continuou subindo até sentir que ia de encontro com uma enorme nuvem cinza, molhada, que encharcou sua camisola e lambeu seus cabelos para trás. Através da nuvem chegou numa fenda, um enorme buraco no meio do céu, como uma boca. Talvez deus tivesse escutado, talvez aquilo fosse a morte, talvez aqueles fossem os portões do purgatório. Teve medo, como sempre se deve ter diante de deus. Entrou na enorme fenda, na enorme boca sem dentes. Entrou e lá dentro todas as luzes amigas, que quase pareciam uma nova pele, caíram. Era uma nova nudez, agora, voltar a ser apenas ela mesma. Os pés pousaram no chão, que era como uma rocha fria e lisa. Não conseguia andar, pois era tão lisa que se tentasse se mover, derrapava. Tentou algumas vezes, mas depois se contentou em conseguir ficar de pé. As roupas ainda molhadas revelando os peitos, a barriga, a incompreensão diante daquele estranho destino. Ficou por muito tempo nesse cômodo que era apenas chão, onde seu olho não conseguia distinguir paredes. Ficou lá esperando ansiosa que alguma outra coisa fora do seu controle acontecesse. Estava entregue, como nunca esteve em toda vida. Completamente à mercê. Um corpo que não tinha nem mais a capacidade de correr de nada, nem de espernear. Aquela espera foi lhe dando certa excitação. Cada minuto a mais que se passava, sua cabeça imaginava algo ainda mais terrível e gigantesco se aproximando. Sua buceta ficava úmida, os peitos ainda mais duros, a boca aberta arfava de dificuldade de conseguir respirar normalmente. Respirava assim pela boca como respiramos quando estamos em perigo. O que quer que fosse, deus ou outra fera, gostava de fazê-la esperar. Pelo menos ela sentia que gostava. Então continuava ali imóvel, os olhos passando de um lado pro outro. A excitação crescendo, quase pingando pelo chão. O suor e a baba da sua buceta pingando contra aquela pedra lisa e ecoando como se fossem uma torneira semi-aberta dentro de uma gruta. Quando finalmente sentiu, como que dentro das suas ideias, como que por uma bizarra telepatia, que tinha algo vindo. Que a espera tinha terminado.

A aproximação foi assim, dentro da cabeça. Sentia a presença, sem conseguir ver. Mas ouvia a presença por dentro. Era como ser penetrada por uma existência, pela existência de outro alguém dentro de você. Mas uma penetração dupla, como se na verdade duas criaturas invisíveis estivessem brincando de existir embaixo da sua pele. Ela ficou nervosa outra vez, dentro da cabeça não eram bem palavras que ouvia, mas era uma comunicação ainda sim. Levou alguns minutos para se habituar a aquela invasão. Até que sentiu que devia se masturbar. Percebeu ou decidiram juntes – ela e as existências que não podia classificar qual gênero ou forma tinham. Apenas soube que era hora de se tocar, mesmo com o equilíbrio precário. A excitação só crescia, de dentro pra fora. A mulher apertou um dos mamilos com uma mão e com a outra desceu devagar pela barriga, acariciando do umbigo para baixo até ir friccionar o clitóris, mas era como se sua mão não fosse só sua. Aquela masturbação não era exatamente se masturbar. Não estava sozinha, quando passava os dedos pelos lábios era como outras mãos lá. Mãos dentro da sua mão que guiavam seus dedos, que faziam dos seus dedos canal para outras formas de se tocar. O jeito que fazia era um jeito que nunca teria pensado em fazer. De tão gostoso, os dedos na baba da buceta faziam barulhos, barulhos molhados que ecoavam naquele estranho cômodo sem fim. Um som que se repetia no infinito, amplificado. Então sente carícias por dentro da pele, como se agora recebesse carinhos na carne, nos órgãos. Não consegue mais se masturbar pois os seres ou as presenças dentro dela decidem brincar de surpreender o seu corpo. É como levar lambidas nos ossos, sentir a pele ser beliscada do avesso, beijos no estômago. Tudo dobrado, duplicado, se esbarrando nos interiores dela. Se dividem, vão então em direções opostas. Uma das criaturas invisíveis pega os peitos dela pelo outro lado, chupa a flor de carne oculta atrás dos mamilos. A outra criatura desce e lambe as costas do clitóris, beija e morde sua face escondida, normalmente protegida pela carne dos pequenos e grandes lábios. É a transa mais vulnerável que alguém poderia sonhar. Os peitos formigam, a buceta fica mais quente, latejando e inchada. Os seres continuam. Ela geme um gemido desconhecido. Seu corpo tem espasmos, os músculos tremem, nem sabe se é possível sobreviver a aquele intraorgasmo que parece estar vindo do seu íntimo e pulsando em todas suas veias. Começam então, para além de lamber e chupar, a penetrar ela, de dentro pra fora. Meter ao contrário, do canal pro buraco. Sentem sair dela e voltar, para então sair dela de novo. Nunca ficou tão molhada, parece que vai esguichar pra fora. Os espasmos aumentam. Emite sons novos, estranhos, misteriosos. A coluna parece se sacudir. Os poros de tão abertos ficam ásperos. Os olhos viram pra trás tentando procurar o que está acontecendo interiormente, tentando entender como pode ter tanto prazer incorporado nela. Vão explodir, expandir, se desfazer. Vai gozar. E aqueles movimentos internos não cessam. As criaturas não saem dela, continuam e continuam. Metendo, saindo, acariciando. As veias dilatam. O coração bate alto, pensa que vai deixar surdas as criaturas debaixo da sua pele. Se elas decidem rasgar sua pele? Mas só arranham, de levinho. Só vão deixando marcas invisíveis. Ela não vai aguentar. O orgasmo vem. A buceta esguicha, jorra pra fora. Os peitos latejam, quase mudam de forma. A coluna dobra, abrindo espaço nas vértebras. Vê uma luz vazar do seu umbigo. É um intra gozo, um prazer extra sensorial. É intraduzível. Não emite mais nenhum som. É seco e silencioso. Atravessa o espaço. Dura uma eternidade e num segundo acaba. Saem da sua pele, da sua carne. Um abandono. É indolor, mas é terrivelmente doloroso. Não queria largar seus navegantes inomináveis. Queria que fossem dela, isso sim é demasiado humano. Sente um vazio e, num piscar de olhos, pousa de volta em sua cama.

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Ilustradora convidada:

Laura Pinheiro

Laura Pinheiro, designer gráfica, amante de impressoras e de scanners. Utilizo de processos de design para desenvolver minhas expressões.

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