Minha Mãe é uma Peça: a revolução da comunicação não violenta


A criação mais adorada de Paulo Gustavo para o teatro e cinema

Tenho esse texto pronto na minha cabeça há mais de um ano. Já o narrei para alguns amigos e passamos horas conversando sobre. Ainda não tinha o formalizado em letras. Faço agora numa homenagem a Paulo Gustavo que nos deixou há quase um mês vítima da covid e do horror que tem sido a gestão da pandemia por esse governo nefasto.

Apesar da partida antecipada desse brasileiro tão especial e adorado por todos, sua obra nunca nos deixará. As pontes que Paulo Gustavo construiu são sólidas. Para a gente, ficou uma grande lição de amor. Com sua comédia, com a icônica personagem Dona Hermínia, Paulo Gustavo nos ensinou a importância da família e do amor independente de qualquer estrutura social opressora.

Falando em opressão – para quem me lê com frequência sabe que esse é meu tema por aqui – penso que no teatro e cinema cabem todos os tipos história. Particularmente, tenho um profundo interesse pelas que buscam destituir as lógicas opressoras sem violências. Paulo Gustavo foi um grande mestre na construção de uma narrativa revolucionária adotando a comunicação não violenta. Escolhendo o humor e o amor.

Apesar dos tapas, xingamentos e surtos de Dona Hermínia, “Minha Mãe é uma Peça” é puro afeto. Assisti ao último filme da série duas vezes. A primeira logo na estreia no Rio de Janeiro à convite da querida Malu Valle, atriz que interpreta a personagem Dona Lourdes no filme, que foi minha professora de teatro na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras) e diretora do primeiro espetáculo de Paulo Gustavo com Fábio Porchat chamado “Infraturas”, além sua de grande amiga. A segunda em Olinda com minha avó Lúcia e minha afilhada Giovanna de 10 anos na época. Fiquei realmente impactada com o filme. A um olhar desatento, a obra pode parecer uma simples comédia. Um filme para entreter a família. Mas não é só isso. Tem muito ali.

Elenco na estreia do filme

O filme fala da solidão de uma mãe quando os filhos crescem e saem de casa, da necessidade de controle, do processo de desapego, dos caminhos que cada filho segue na vida, da aceitação desses caminhos, da preocupação se tudo vai dar certo, do amor à família, à todas as famílias. Chorei copiosamente e gargalhei nas duas vezes. E juro que não imaginei que me emocionaria tanto. Nas sessões que fui, o cinema estava lotado e o filme foi bastante aplaudido no final. Não só aplaudido, ovacionado.

Paulo Gustavo não ostentou a maior bilheteria da história do cinema brasileiro em vão. Os mais de 11 milhões de expectadores que foram assistir seu filme na telona não foram só assistir um filme, foram assistir a sua história. A história da sua família, da sua mãe, do seu casamento, do seu amor pelos amigos e a história do nascimento de seus dois filhos. Num país extremamente conservador, isso é grande fenômeno. Isso, por si só, já é revolução.

A ferramenta que Paulo utilizou para alcançar um estrondoso sucesso de público no teatro e no cinema foi a ferramenta da identificação. Ele criou uma narrativa espelho onde nós nos enxergamos de diversas maneiras. Vemos a nós mesmos, nossas mães, tias, avós. Como sempre reforço, não somos contos de fada, finais felizes, corpos perfeitos, bem ou mal, mocinha ou vilão, somos humanos. Sentimos dor, medo, raiva, surtamos, xingamos, nos apaixonamos e amamos. Dona Hermínia é uma mãe real, com defeitos, qualidades e, sobretudo, muito amor. Os dramas vivenciados pelos personagens em “Minha mãe é uma Peça” são dramas do dia à dia. Mas isso não significa que não exista profundidade. Tem muita.

A personagem Dona Hermínia, já inspirada na imitação que Paulo fazia da mãe, começou em um esquete na peça o “O Surto”. Posteriormente, o ator escreveu o monólogo “Minha Mãe é uma Peça”, o produziu e o financiou com empréstimos e ajuda da família. Estreou no Teatro Cândido Mendes no Rio de Janeiro em 04 de maio de 2006, exatamente 15 anos antes de sua partida. O sucesso foi estrondoso e só continuou a crescer.

Como no teatro, Paulo estava sozinho em cena, o artifício para construir os diálogos com os personagens que ganharam vida no cinema foram alguns. Além de falar diretamente com o público, com vozes que o auxiliavam a contar a história, Dona Hermínia dialoga ao telefone e pela janela do cenário com a filha Marcelina (Mariana Xavier), o filho Juliano (Rodrigo Pandolfo), o ex-marido Carlos Alberto (Herson Capri) e a vizinha Dona Lourdes.

Embora no cinema a história tenham ganhado muito mais tons, a narrativa que Paulo criou permaneceu a mesma desde o início. Em entrevista à Jô Soares, três anos após da estreia, ele nos contou o quanto os teatros seguiam lotados. Mencionou sobre uma senhora que foi assistir à peça mais de 180 vezes e diversas outras que foram repetidamente levando as amigas. Percebam o poder de conexão de uma narrativa quando nos reconhecemos nela.

Um amigo comentou comigo que, antes da estreia de “Minha Mãe é uma Peça 3” (2019), Paulo estava sendo criticado porque o filme não ostentaria um beijo gay. Eu já havia assistido e nesse momento fiquei confusa. Não lembrei se havia tido beijo ou não. Porém, depois de tudo que foi entregue, especialmente a cena onde Dona Hermínia leva Juliano ainda criança vestido de Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo para uma festinha infantil e a cena do casamento quando ela faz um lindo discurso de apoio a união do filho com outro homem, um beijo diria mais o que?

Não sei se não colocar o beijo foi uma opção para não violentar quem pudesse se sentir agredido com a cena. Depois do estrondoso sucesso do filme, podemos supor, seja qual foi a razão, que Paulo Gustavo estava certo. Comer pelas beiradas, talvez, ainda seja o mais inteligente a ser feito. Obviamente, nenhum beijo deveria ser censurado. Até conseguirmos esse feito, a gente precisa ensinar as pessoas o porquê beijos não são atos de violência. A vida e a obra de Paulo nos ensinou isso de forma muito bonita.

Quero aqui fazer uma breve comparação de “Minha Mãe é uma Peça” com outros filmes que pode ser considerada um tanto quanto esdrúxula. Talvez seja mesmo. A faço para reforçar o argumento que trago sobre o poder de uma narrativa não violenta. O filme de Paulo Gustavo foi lançando num período de algumas outras obras de sucesso no cinema. Dois longas metragens da época receberam muito destaque nas críticas cinematográficas, sendo apontados como narrativas revolucionárias. Um deles foi o brasileiro “Bacurau” (2019) de Kléber Mendonça e Juliano Dorneles e o estadunidense “Coringa” (2019) dirigido por Todd Phillips. Ambos apresentam construções incríveis. Aspectos artísticos inegáveis tanto é que foram indicados à importantes premiações.

Ambos, porém, no meu entendimento, falam para a bolha. Se comunicam com quem já está habituado a esse tipo de história. Outro aspecto problemático é que tanto “Bacurau” quanto “Coringa” demonstram um certo fetiche com a violência. Da insurgência do oprimido que acaba reproduzindo o lugar do opressor como coloca Paulo Freire. Entendo que esse também é o nosso lado humano. Na falta de alternativa, muitas vezes, não temos saída. A violência se torna o caminho. No entanto, não vejo essas histórias como revolucionárias. Elas tão somente refletem nossa condição de barbárie.

Enxergo narrativas revolucionárias como aquelas capazes de destituir as formas de opressão que ainda estão muito enraizadas no nosso subconsciente. As que tem o poder de nos fazer pensar diferente. De mudar chaves no nosso entendimento da vida. Quando dividimos uma história em mocinho e vilão, muito dificilmente criamos um grau de identificação que nos faz perceber o que precisa ser mudado na gente. É possível que nos reconheçamos no bem, nunca no mal. Dessa forma, não avaliamos nosso lado preconceituoso, machista, homofóbico e um monte de coisa mais.

Quando Paulo Freire fala da educação como prática de liberdade, vejo que a arte também tem o poder de educar para liberdade enquanto entretém. Quando uma peça, um filme ou qualquer tipo de narrativa faz isso comunicando para as massas, o poder de transformação social que essa obra pode gerar é grandioso. Como supõe o historiador Yuval Harari, seres humanos evoluíram e estabeleceram laços de cooperação por sua capacidade de criar e acreditar em narrativas. Sendo assim, ao nos entregar uma história de apoio e amor aos filhos, “Minha Mãe é uma Peça” nos diz muito de como precisamos nos comportar socialmente.

Com isso, não quero dizer que “Bacurau” (2019) e “Coringa” (2019) não nos ensinam nada. Ao assistirmos à essas obras pensamos muito profundamente sobre a perversidade do capitalismo, por exemplo. Esses dois filmes, no entanto, falham em dialogar com minha avó, com minha afilhada. A mensagem dos autores não chega a elas. E não digo que a mensagem tem que chegar exatamente a elas. Cada filme tem um papel, um objetivo. O que digo é que narrativas como a de “Minha Mãe é uma Peça” tem um poder de transformação muito representativo. Lembrando que o filme foi uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro.

Dessa forma, em toda a sua obra, Paulo Gustavo não só incentivou mães e pais amarem seus filhos do jeito que eles são, como também retirou alguns tijolinhos do muro da opressão. Em relação a homofobia, na relação de país e filhos mostrando o caminho do amor, e em várias outras questões. E fez isso sem adotar discursos violentos. Não por acaso, o Brasil inteiro se apaixonou por Paulo Gustavo e chorou muito com sua partida. Nesse momento, enquanto nação, estamos destroçados. Em breve atingiremos a marca de 500 mil vidas perdidas para uma doença que já tem vacina. O que vivemos é a própria barbárie e a falta de amor.

Ou seja: ainda há muita revolução a ser feita. Há muito chão a ser conquistado. Muros a ser derrubados. Nesse caminho, é muito importante a gente lembrar que somos o que somos pelos que nos formam. Nos educam. Nossos país, mães, avós, avôs, nossos professores. As histórias, as obras de arte que nos fazem pensar diferente. Como canta Belchior, “amar e mudar as coisas me interessa mais.” Espero que a você também. Sigamos firmes e fortes nesse caminho. A revolução do amor ainda precisa acontecer.

Compartilhe sua opinião