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Ad Astra: Rumo às Estrelas

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Frequentemente, a ficção científica clássica se utiliza de mundos futurísticos, tecnologia avançada, viagens espaciais e existência de vida alienígena em função de uma análise sociopolítica de sua época. Este talvez não seja o caso de “Ad Astra: Em Busca das Estrelas” (2019), de James Gray — o que não impede ninguém de enxergar tal teor na obra. O filme de Gray me parece seguir um caminho muito mais introspectivo e conciso.

Aliás, essas foram as palavras que me vieram quando terminei de assistir ao longa. Assim que me surgiram na cabeça, causaram certa estranheza. Isso porque a primeira parece indicar um movimento para dentro, um buscar pelo âmago de algo, no caso do filme, pelo âmago de Roy — o personagem de Brad Pitt. A segunda palavra me remete a um sentido “para fora”, a uma estrutura que só pode ser apreendida se olhada a certa distância, a uma questão formal.

Tratando-se de interioridade, não poderia terminar este tópico sem falar do uso da voice-over. Aqui os pensamentos de Roy (ou seriam solilóquios?) são revelados a nós de forma imprecisa. Não há uma definição do seu “eu”, mas uma constante luta consigo mesmo. Assim, a voz interna do personagem não tem a função de narrar, mas de evidenciar uma tormenta escondida por trás de seu rosto impassível.

Mas por mais conflitante que essas duas palavras possam ser, na minha ideia do filme, elas se conectam em uma unidade, se concretizam em uma só obra de arte, estando refletidas em cada um dos seus elementos constitutivos. Essa contradição está contida na própria história narrada, a de um personagem que parte numa jornada ao mesmo tempo externa (espaço sideral) e interna (sua individualidade). Para que eu possa ser melhor compreendido, vou tentar focar em três elementos do longa: o protagonista, aspectos narrativos e aspectos formais.

Protagonista

Em um ótimo texto, Miguel Forlin aborda um pouco a trajetória externa e interna presente no filme, que para o autor parece lembrar tanto a de Telêmaco, quanto a de Ulisses. Mas há uma imagem no texto que chamou muito a minha atenção: a ideia do protagonista como um “homem em queda”, ou seja, um homem solitário e traumatizado. Porém, vou um pouco mais longe, assim como sua existência, Roy é um fantasma, um ser sem forma definida, que se arrasta entre o mundo dos vivos e dos mortos, entre o presente e o passado — o que torna o fato da história ser ambientada no futuro um tanto irônico. Mas essa semi-existência espectral não é suficiente para o personagem — nem nunca foi —, ele busca uma forma corpórea, ainda que não saiba disso.

O Reflexo de Roy se fragmenta
Roy e a indefinição do seu “eu”

Como foi notado por Forlin, em dado momento do filme há uma sobreposição da figura do personagem a de alguns capacetes. Mas, além dessa, há duas outras sobreposições que também merecem destaque. A primeira acontece quando, ao descobrir o ato monstruoso cometido por seu pai por meio de uma gravação, a tela onde o protagonista assiste ao vídeo é enquadrada de tal forma que os rostos de pai e filho se fundem em um só. Outra sobreposição interessante ocorre quando, em um estado de desesperança, Roy flutua no espaço. Neste momento seu rosto é eclipsado pelo reflexo da escuridão sem fim do universo.

Roy assiste a um vídeo de seu pai, os rostos dos dois se sobrepõem
O rosto de Roy e de seu pai são sobrepostos
Roy flua pelo espaço sideral
O rosto de Roy é completamente eclipsado pelo vazio do espaço

Dessa forma, o personagem de Brad Pitt é uma alma sem corpo e um corpo sem alma, em uma existência precária. Roy é um indivíduo em busca de si. Para ele, encontrar seu pai é encontrar um sentido para a sua condição. De certa forma, esta foi a mesma busca empreendida por seu progenitor. H. Clifford McBride e Roy McBride, pai e filho, são indivíduos em busca de um significado, de um propósito. Por esse motivo, a não existência de vida inteligente fora da Terra (o nada) é insuportável para o personagem de Tommy Lee Jones.

H. Clifford McBride acuado em um canto da nave
H. Clifford McBride se comporta muitas vezes como um animal acuado, contrastando em muito com a imagem heroica propagada pelo poder constituído

Outra possibilidade que me ocorreu é que, não aceitando a sua condição de simples mortal, Clifford queria para si o papel de herói ao molde clássico, onde seus grandes feitos o imortalizariam na História. Mas sua falha é não notar que ele, talvez, já tivesse atingido tudo o que almejava. Já Roy queria ser o herói que seu pai era — uma figura parte real, parte fabricada pelo poder oficial —, mas nota que alguns feitos sobre-humanos, como a própria palavra já diz, são impossíveis de serem realizados por seres humanos. O espaço é a fronteira final que talvez nunca seja ultrapassada.

Aspectos narrativos

Para um filme que conta uma jornada ou odisseia espacial, “Ad Astra” é relativamente curto. Seus 123 minutos são menores que os 149 minutos de “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968) de Stanley Kubrick e os 167 minutos de “Solaris” (1972) de Andrei Tarkovsky. Sem dúvida, assim como nos filmes mencionados, no longa de Gray há uma sensação de lentidão — para além do teor existencial —, mas ao contrário destes dois últimos, a dilatação temporal se dá menos numa tentativa de reproduzir uma percepção do tempo (no espaço, o tempo “passa” mais devagar) na mise-en-scène do que num tempo subjetivo construído na montagem e no design de som.

Roy olha para cima e deixa cair um lágrima
O momento em que Roy encontra seu pai

Em “Ad Astra – Rumo às Estrelas” a nossa percepção de tempo está ligada a percepção de Roy, por isso há mais variação e dinamismo neste aspecto no filme de Gray. Mas a temporalidade aqui não diz respeito apenas a duração das cenas, mas também como o passado se faz presente em “Ad Astra”. Flashbacks, elementos diegéticos e não diegéticos, surgem e duram conforme o tempo interno do protagonista. Algumas situações do passado surgem de formas imprecisas e abruptas — assim como algumas memórias invadem nossa mente — desorientando o público. Há momentos em que fotos e “vídeos-memória” de Roy (ou seriam apenas mais flashbacks?) aparecem rapidamente na tela. A própria virtualização dos seus entes queridos, nas telas dos aparelhos futurísticos têm um caráter fantasmagórico e imaterial, apenas reforçando suas ausências.

Uma criança admira uma paisagem, a imagem parece fazer parte de um vídeo caseiro

Uma criança abraçada a uma mulher olha pela janela, , a imagem parece fazer parte de um vídeo caseiro

Uma foto antiga do personagem de Tommy Lee Jones

Foto do personagem de Tommy Lee Jones vestido como astronauta

A memória de Roy materializada em elementos não diegéticos

Tratando-se de interioridade não poderia terminar este tópico sem falar do uso da voice-over. Aqui os pensamentos de Roy (ou seriam solilóquios?) são revelados a nós de forma imprecisa. Não há uma definição do seu “eu”, mas uma constante luta consigo mesmo. Assim, a voz interna do personagem, não tem a função de narrar, mas de evidenciar uma tormenta escondida por trás de seu rosto impassível. Isso leva a um outro aspecto interessante.

Aspectos formais

Em “Ad Astra”, os planos fechados predominam. São poucos os planos mais abertos, que nos revelam o espaço ao redor com clareza. A câmera sempre está muito perto dos rostos dos personagens, nos detalhes, nos fragmentos. Os planos amplos são poucos e breves, quase sendo utilizados para a função pragmática de localização e orientação espacial. Já nos planos médios, muitas vezes as figuras humanas são parcialmente reveladas ou destacadas do ambiente por escolhas de enquadramento, movimentação de câmera e mise-en-scène.

Roy sozinho na nave espacial
A solidão em uma imagem

Obviamente, há exceções durante o filme. Mas estas opções formais são um tanto curiosas se pensarmos não só nos filmes de viagens espaciais já citados anteriormente. O que interessa a Gray não é a grandiosidade do universo, mas a do rosto humano. Dessa forma, “Ad Astra” está mais para “A Paixão de Joana d’Arc” de Dreyer ou “Luz de Inverno” de Bergman, do que “2001: Uma Odisseia no Espaço”.

Olhos tristes de Roy

Uma foto do personagem de Tommy Lee Jones em meio a outras fotos e documentos

Roy dentro de uma sala, anda de uma lado para o outro

Helen caminha em direção a câmera
A câmera frequentemente busca a proximidade ou a fragmentação

Outro ponto interessante é o uso do som, ou melhor, a sua quase ausência em situações específicas. O silêncio do espaço e a claustrofobia dos trajes espaciais são utilizados para intensificar a realidade interna de um personagem. Nesse sentido, há uma cena evidencia muito bem esse procedimento. Quando, na Lua, rumo a nave que o levará mais próximo de seu destino, Roy e sua escolta são atacadas por criminosos (um bang-bang em plena Lua?). Aqui ouvimos o que ele ouve, ou seja, não muita coisa. O foco dessa cena de ação não é o confronto, mas o controle e frieza com que o protagonista lida com as circunstâncias. Seu comportamento é algo entre instintivo e mecânico, agindo quase como um autômato. Esse artifício, que está presente em outros momentos do filme, apenas nos isola do mundo externo e nos lança cada vez mais no seu universo interno.

Um pequeno desvio antes do fim

Confesso que essa pequena secção me surgiu enquanto escrevia esse texto, por esse motivo as ideias que expressarei aqui funcionam quase como um parênteses. Uma parada antes do fim da jornada. Na segunda vez em que assisti a “Ad Astra”, uma personagem me deixou intrigado. Apesar de sua breve aparição, suas ações são fundamentais para o desenrolar da narrativa. Falo aqui de Helen, interpretada pela atriz Ruth Negga.

Roy está em um longo corredor

Helen surge no corredor e vai em direção a Roy

Plano mais fechado em Roy

Helen se vira na direção de onde ela veio. O corredor começa a ficar escuro.

Plano fechado em Roy, o corredor fica cada vez mais escuro.
Primeira vez em que Helen e Roy se encontram, há nesta cena um prenuncio de algo por vir

Desde sua primeira aparição, a personagem parece se destacar em meio ao elenco secundário. Assim como Roy, ela está imersa em sua atividade, em sua função na base em Marte. Helena funciona quase como um duplo e uma antítese de Roy. Assim como o protagonista, alguns de seus entes queridos estavam abordo no Projeto Lima — no caso, seus pais. Mas ao contrário dele, seus pais estão mortos, assassinados justamente por Clifford. Assim, os dois foram afetados pelo projeto e pelas escolhas de um só homem. Mas ao contrário do personagem de Brad Pitt, Helen conhece os fatos.

Helen e Roy caminha por um corredor
Helen leva Roy até os seus superiores

Essa relação estranha de simetria e dissonância entre os dois está muito clara na mise-en-scène. Primeiro por que Helen é uma das poucas personagens enquadradas de corpo inteiro ou em sua quase completude. A sequência em que ela revela toda a verdade para Roy é fundamental para entender esse ponto.

Plano médio de Helen

Plano americano de Helen

Close lateral de Helen

Close lateral de Helen

Close Brad Pitt

Close de Helen que encara o personagem de Brad Pitt

A mise-en-scène dessa cena se diferencia e muito do restante do filme, desde das cores, aos enquadramentos e até a relação entre os dois personagens

Acima, a cena em que Helen se aproxima de Roy com a intenção de revelar a ele toda a verdade. Em seguida, ela o leva para outra sala, um local mais sigiloso.

Helen e Roy caminham em um corredor escuro

Roy e Helen estão sentados um de frente para o outro

Helen encara Roy, que está fora de quadro

Helen se levanta

Helen caminha até um lugar

Plano detalhe de Helen pegando um tablet futurístico

Plano detalhe de Helen entregando o objeto para Roy

Close de Roy olhando surpreso para Helen

Plano americano de Helen que observa apreensiva

Obviamente esses são apenas alguns frames da cena, mas valem por revelar essa estranha simetria na decupagem e na mise-en-scène

Como dito anteriormente, Helen é fundamental para a jornada de Roy. Não só por lhe revelar quem de fato é seu pai, mas também por ter possibilitado que ele se infiltre dentro da nave que o levará até o Projeto Lima. Talvez, esse meu rápido momento de devaneio não sirva para grande coisa, já que parece ser apenas um acidente dentro de uma linha de pensamento que vinha construindo. Sem dúvida, essa sessão é uma pequena anomalia que, quem sabe, no futuro possa me ajudar a enxergar algo que ainda não fui capaz de ver neste longa de James Gray, algo ainda a ser desvendado.

Uma conclusão parcial

Brad Pitt sorri para alguém fora de quadro
O personagem de Brad Pitt após encontrar um sentido para sua vida

“Ad Astra – Em Busca das Estrelas” talvez possa decepcionar muitos, pelos mais diversos motivos. Mas trata-se de uma obra muito rica, que fala sobre a luta eterna que travamos com nós mesmos para descobrir quem somos e qual o propósito de nossa existência. Ao fim, o filme não nos responde a essa questão, mas nos indica que, talvez o que buscamos possa não estar onde poderíamos imaginar. Deixando claro que o “nós” aqui pode ser entendido tanto como uma ideia de um “coletivo” de indivíduos, quanto como uma generalidade: nós, a humanidade. Ou talvez este filme exista para nos lembrar que às vezes é importante nos deparáramos com o abismo, mas que não podemos nos deixar sermos tragados por ele. Ou ainda, talvez nada do que tenha dito faça sentido. Por qual motivo as coisas têm que ter um propósito, afinal?

Para Nóias & Para Grafos

O português às vezes pode ser uma língua muito imprecisa. Um dia disseram no trabalho que eu era como uma avalanche. E, apesar do tom amigável que veio junto àquela comparação, não tinha certeza se era um elogio. Muito menos se era uma ofensa. Como as pessoas conseguem ser tão inexatas?

Sentado no ônibus voltando para casa (no antigo normal), olhava para a janela e refletia sobre tudo o que uma avalanche poderia significar. “Uma avalanche nada mais é que um monte de flocos de neve aglomerados”, pensava. Vale ressaltar que a palavra “aglomerados” ainda não era tão pejorativa.

E um floco de neve é lindo de se ver. Tem um formato único e curioso. É bom. Mas a avalanche… Ela é destrutiva, é fria demais. Ninguém quer uma avalanche por perto. Ela é como se fosse um rio congelado (ou seria mais uma cachoeira?).

Nessas horas dá inveja da língua escocesa que possui 412 palavras para neve, superando os esquimós que possuem “só” 50. Quem diria que morar num país tropical teria desvantagens linguísticas. Não tem como confiar num idioma que a frase “não tenha clemência” tem o significado oposto de “não, tenha clemência”. É poder demais para uma mísera vírgula.

Outra prova cabal dessas esquizofrenias sintáticas do português é a expressão “empolgado”, que é um termo que pode ser usado tanto para o bem, quanto para o mal. Se você falar em tom áspero que uma pessoa é “empolgada”, quer dizer que ela é sem noção, mas, com nuances de alegria, é um super elogio, a pessoa é alto-astral.

A mesma palavra, duas verdades muito diferentes. Se bem que isso é até natural né? Uma gota d’água tem esse mesmo esquema: um pouco pode até ser agradável, mas, em grande quantidade, consegue te afogar. Talvez a língua portuguesa só esteja se adaptando às irregularidades do mundo. Mar calmo nunca fez bom alfabeto.

E o ditado afirma que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas, no meu caso, foi neve fria em cabeça dura tanto bate até que pira. Os dias que se decorreram foram de intensa análise.

Na terça-feira, falei demais na hora do cafezinho com os colegas. Pensei que poderia estar “empurrando” uma massa de informação neles. Avalanche. Na quinta, falei de menos. Talvez estivesse sendo gelado, sem vida. Não que ficar quieto é necessariamente ruim, mas, quando se é uma avalanche, você tem que ficar atento.

Fiquei sofrendo com o que aquilo queria dizer por mais uns 10 dias e cheguei à seguinte lista: frio, insuportável, grandioso, raro, avassalador, incontrolável, interessante, gelado, exótico e magnífico. Então, depois de todos esses dias pensando, encarei o medo do pejorativo e decidi perguntar à minha colega de trabalho o que ela queria dizer com aquela maldita expressão.

— Nem lembro. Ela me respondeu.

Até hoje morro um pouco por dentro quando me lembro dessa história.

* * *

Ilustradora convidada:

Gabrielly Rosário

 

Desenhista digital e tradicional, apaixonada pela expressão artística. Futura estudante de artes visuais e completamente fascinada em teatro, quadrinhos e histórias de fantasia. Amo assistir animações e de vez em quando até faço algumas. Pretendo trabalhar com arte e viver dela, em diversas áreas durante minha vida e as texturas e cores vibrantes são as características que mais me encantam num desenho. 🙂

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Rashomon

Um padre, uma enfermeira e um ambulante sentam na área de fumantes de um hospital. Chove. Parece início de piada, mas não é. O padre torce as mãos, agoniado. A enfermeira olha para os próprios pés, sem dizer nada. O ambulante guarda um pequeno e debochado sorriso.

Padre: Eu nunca vi algo tão grotesco em toda minha vida. Eu já recebi todos os tipos de loucos, maníacos, narcisistas. Já ouvi todo tipo de confissão. Pensei que já tinha ouvido às histórias mais inusitadas e despudoradas que alguém pudesse ouvir sobre o sexo, sobre a carne e o desejo. Nunca pensei que fosse me deparar com tamanha lasciva, assim, num leito de morte. Das confissões, essa foi de longe a mais estranha. O que é capaz a humanidade torturada pela luxúria? Eu conhecia essa mulher. Ela frequentava minha igreja com seu marido. Tinha um sorriso doce, palavras gentis e um rosto impossível de se esquecer. Tal qual esculpido por anjos. Ou por demônios, como posso vir a suspeitar. Eram tão generosos, os dois, que na pandemia doaram comida lado a lado comigo. Eu nunca poderia imaginar ouvir sobre eles um relato tão terrível, tão pecaminoso. Eis que um homem entra pra se confessar – agora recebemos uma alma perturbada ou outra para confissões durante a pandemia – e o homem entra, os olhos arregalados, suando frio. Ele senta-se e começa a discorrer sobre seus últimos dias. Diz que é devoto, mas não sabe mais em que pé pode andar sua fé depois do seu feito. Que separou de sua mulher, inclusive, de tão horrorizada que ela ficou com sua história. Me contou que era motorista de ambulância num hospital na periferia da cidade. Disse que no fatídico dia, transportava em sua ambulância uma paciente com covid e uma enfermeira. A paciente, ele disse, já quase não tinha ânimo e estava sendo transferida para outro hospital. Até aí, além do semblante triste e pálido, parecia uma cena corriqueira. Atravessavam pela manhã bem cedo uma estrada que liga a periferia à cidade, fugindo do trânsito. Um caminho sempre muito tranquilo e de rotina e que, naquela manhã em especial, não havia nenhum outro carro. Eis que, diz o motorista, um carro os corta em alta velocidade e para, bloqueando a via. Impedindo totalmente a passagem. Ele desceu, indo indagar o motorista de tamanha covardia em bloquear o caminho de uma ambulância, quando um homem desce do carro. Sozinho, o rosto tomado por uma tristeza sem tamanho, os olhos cheios de lágrimas e lhe diz que quem ele está transferindo é a sua esposa e que ele precisa vê-la imediatamente. O motorista, apesar de comovido com a imagem daquele homem apaixonado, diz que não pode permitir que os dois se encontrem e pede pra ele liberar passagem. No entanto, pra sua surpresa, as portas do fundo da ambulância se abrem e a mulher – que ele jurava estar completamente desfalecida – desce do carro, correndo, aos gritos. “Está forte, vigorosa, como que por um milagre” – diz o motorista. Milagre, ele usa essa palavra. Ela corre até os braços do marido, a enfermeira de trás, insistindo que ela volte. Mas a mulher a ignora. Agora, o motorista confessa, que a olhando assim fora do soro, da maca, ela era realmente muito bonita. A mulher abraça firme o marido, que agora chora emocionado. Eles se dizem coisas que o motorista não consegue entender. Com medo da doença, ele recua. Ficando a alguns metros do casal. O marido se ajoelha diante da mulher, como que lhe pedindo perdão por algo. Ela então se ajoelha também. E agora, o que relata o motorista, torna-se ainda mais absurdo. Ajoelhados, e o Senhor sabe que não estou mentido sobre o que ouvi, ajoelhados o casal começa a trocar beijos, muito íntimos. Beijos que logo se tornam mãos, sedentas. Que arrancam as roupas fora, no meio da estrada, entre dos carros. E que consumam o maldito ato ali, diante do Senhor, do motorista e da enfermeira. O motorista diz, que a cena, estranhamente, não simplesmente o excita – ele se defende dizendo que das últimas coisas que lhe passaram foram perversões, como se eu fosse acreditar -, mas que se sentiu profundamente emocionado. Porém, eventualmente a emoção deu lugar à lasciva, vendo os corpos nus pecando entrelaçados. Nas finais do famigerado ato, a mulher torna a desfalecer e começa a se despedir do marido. E, como se não pudesse ficar ainda mais ultrajante, o motorista – e agora ele confessa cada vez mais baixo e mais envergonhado – o motorista se aproxima do marido naquele leito de morte maculado. “O marido parece com o luto até apaziguado”, diz o motorista. “Não soluça, não grita, apenas olha apaixonado o corpo de sua esposa em seus braços.” O motorista estranha e tenta se aproximar mais, esquecendo o protocolo, a doença, a decência. Ele aproxima e se senta na estrada de terra ao lado do homem em luto. Os dois se olham e ele fala que pela primeira vez em toda a sua vida, ele sente desejo por um homem. Diz que nunca sentiu nada parecido por nenhum outro homem no mundo. Retira a máscara e o beija. Os dois homens se beijando diante da mulher morta. A mulher de um deles, morta. Quando percebe o que está fazendo, se afasta, incrédulo. O homem agradece sorrindo, feito o próprio demônio, eu penso. Parece que tiveram que chamar a polícia para avaliar a gravidade do caso e que o hospital se encarregou de levar o corpo para o necrotério. O motorista de nada foi acusado além do seu despudor. E nunca mais viu o marido homicida. Eu não posso entender por quais linhas escreve, Senhor. Eu não consigo compreender…

Ambulante: Olha Padre, se me permite. O seu motorista não te contou a verdade. Tem muito caroço nesse angu que ele deixou de fora, talvez pra poupar seus castos ouvidos. Eu não posso lhe dizer muito do romance, mas posso te falar do ato. Eu moro bem perto dessa estrada e apesar do teu motorista não ter me visto, eu o vi bem. Estava nas minhas caminhadas matinais quando vi o alvoroço. O carro parado, a ambulância ainda com sua sirene aos berros. Eu cheguei há tempo de ver as portas abrindo, ou melhor, eu vi quando a enfermeira abriu as portas e a mulher desceu, com aquelas roupas de hospital mesmo. As veias ainda furadas. Mas o rosto da mulher chamou também minha atenção. Linda, parecia saída de uma novela, de uma passarela, eu não sei. Eu talvez corresse atrás dela se fosse casada comigo. Ela desceu, gargalhando. Um sorriso de orelha a orelha, assim como ficou o seu marido. Mal ela chegou perto dele, já começaram a se beijar. E uma roupa de hospital padre, já revela muita coisa, ela quase caiu sozinha. Os dois nem perceberam. Mas eu vi e o motorista, como eu, deve ter ficado surpreso quando a roupa caiu, feito um véu expondo o corpo gostoso da mulher. A bunda, os peitos, tudo ali, olhando pro céu. Me perdoa se ele ficou emocionado, eu fiquei excitado mesmo. As ancas dela ali, brilhando no sol. O marido logo tirou a roupa. Acho que eles tavam tão loucos um pelo outro que nem importava mais se tinha gente, se não tinha. Se a televisão tivesse lá, mil câmeras, eles iam fazer do mesmo jeito. A mulher se jogou no homem, tenho que dizer, que ela que puxou o macho pelo pescoço, botou a cara dele entre os peitos grandes dela. Se tava chorando, ou rindo, eu não sei, mas sei que começou a chupar os peitos, a lamber as marcas dos furos na veia, metia a língua no umbigo dela, até então meter a cara na buceta. Eu digo, no sexo dela, padre. Meteu a cara ali, entre as duas pernas, chupando como um filhote esfomeado. Eu nunca vi um homem, vou lhe dar esse mérito, chupar uma mulher assim. Fiquei encabulado. Até aí, eu só tinha reparado na beleza e gostosura daquela mulher – que eu pensei que também não devia tá assim tão doente, porque tava bem ativa. Eu só via e ouvia, né? Ela gemendo e gemendo e suando e sorrindo e mal segurando a cabeça do homem, que não largava da xota dela. Desculpe, do sexo, do órgão. O mais chocante, porque eu já vi muita coisa, mas o mais chocante foi que em dado momento a mulher vira, se apoia no carro, abre as pernas e empina a raba pro marido. Não é possível, a pessoa saí de uma ambulância e vai dar o cu? Pois sim! Abriu a raba ali, as duas mãos apoiadas no capô do carro. O marido, em quem eu só fui reparar agora, com o pau de fora – não vou entrar no tamanho do jumento, mas era vigoroso – , nem mesmo o marido acredita que a mulher tá abrindo assim a porta de trás pra ele. Não sei, me pareceu surpreso e um pouco hesitante. Primeiro beijou uma banda, depois a outra banda. Passou a língua nas costas. E ela reclamava, dizia: “Mete homem. É isso que eu quero.”. Ele botou a cara na bunda dela mais um pouco, ela se tremendo, fazendo graça. E ele se afastava de novo e ela pedia: “Mete homem”. Eu quase me apresentei, nesse ponto, já tava animado, já tava pensando na desfeita da mulher sair da ambulância e não conseguir se satisfazer, né? Isso aí nem Deus pode perdoar. Uma mulher tão bonita dessa. O buraco ali brilhando, pulsando. Mas o marido, claro, atendeu. Começou a meter nela e ela, safada, se masturbando com uma das mãos. Tava bem viva, eu vou te falar. Não teve nada de marido homicida ali não. A mulher tava viva e aproveitando o dote do marido entrando e saindo de sua raba. Ele metia com força, a mulher gemia agudo assim. Ele apertava os peitos dela. Ela gemia mais. O carro quase balançando. O homem era bem parrudo, não era magrelo não, porque tinha que ser muito parrudo pra ficar ali o tempo que eles ficaram. E não parou, ela virou pra ele e falou: “Agora de frente”. Nunca vi uma mulher com tanta certeza, tanta firmeza na voz. Parecia uma fera. O homem ergue ela, levanta ela do chão, apoia as costas dela no carro, abre as duas pernas – que ficam assim meio pro alto, meio na cintura dele – e começa a meter olhando fundo no olho dela. Ela continua se masturbando, os peito balançando quase batendo na cara do marido. O cara já suando que nem um condenado, mas ali metendo. Foi ficando mais lento, claro, ele era humano. Não sei como não quebrou aquele carro. Mas ele seguiu, mais lento, ela abraçada nele e gozou, porque gritou como nunca. Os dois gritaram. Podia tá mais lento, mas a coisa foi intensa. Só depois do grito, um grito de gozo mesmo, é que eles se abraçaram e ela começou a falar umas coisas, que eu não consegui ouvir. Ela falou bem no ouvido do marido, mas eu acho que o motorista – que agora tava bem perto – ouviu. Porque o motorista começou a chorar. E o marido começou a chorar. E ela beijando a orelha do marido, ele chorando, abraçando ela forte. E aí ela começou a empalidecer, ficar com cara mais fraquinha. O marido deitou ela no chão, com muito cuidado, ficou olhando pra ela, ela ainda olhando pra ele. Então o motorista chegou perto, falou alguma coisa. A mulher deu a mão pro motorista e morreu. O motorista ficou lá, né? Um tempo segurando a mão da mulher morta, olhando nos olhos do marido. Quando ele soltou a mão da mulher, deu um beijo assim na testa dela. Eu já tava pensando em ir embora, enfim. Já tinha história suficiente pra ninguém acreditar em mim, mas aí o marido se aproximou do motorista e o motorista beijou a boca dele. Mas beijou forte. Não foi um selinho, foi um beijo. Depois deram as mãos, um aperto de mão meio formal. Esquisito. E o marido, num sei se pegou o carro ou se voltou pra perto da mulher, sei que eu fui embora. Se era de Deus, ou não, eu não sei padre. Mas as pessoas tão ficando doidas. O mundo tá muito esquisito. Eu não me surpreendo. Não tem jeito fácil de perder uma pessoa. Cada um tem o seu negócio, entendeu? Ela morreu feliz, eu posso afirmar. Porque se aquilo ali não é feliz, eu não sei o que é. Aquilo era prazer. O marido, coitado, eu vi ele depor. Quer dizer, um amigo meu que trabalha na justiça viu, falou que o homem em luto, completamente apaixonado, contou uma história meio doida. Falou que teve um sonho com ela em que ela pediu isso. Só sabia dizer o quanto amava sua mulher e o quanto ela o amava, que ela que pediu e insistiu pra ele fazer isso. Do sonho, eu não sei. Mas ela quis ele antes de morrer e quis com muita vontade. No lugar dele, eu… Vai saber? Seria sorte a minha se uma mulher um dia me quiser assim.

Enfermeira: Vocês não sabem, vocês não viram o que eu vi. Eu tava na ambulância com a mulher. Eu cuidei dela todos os dias no hospital. Ela nem respondia direito. O marido vivia batendo lá na sala de espera, me pedindo notícias, desesperado. Mas a coisa tava precária, a gente teve que transferir. Nos últimos dias antes da transferência, ela começou a falar umas coisas enquanto dormia. Chamava o nome do marido. Eu tinha muita pena. Mas até aí achava normal. No dia da transferência ela segurou firme na minha mão, com toda firmeza que tinha e me disse que queria ir pela estrada mais tranquila. Eu disse que era por onde sempre íamos e ela sorriu. Levamos ela pra ambulância, informamos o marido que ela ia ser transferida. Mas não dissemos nada do caminho, que eu lembre. Tudo muito estranho. Quando instalei ela na maca, ela parecia mais pálida, ela olhou nos meus olhos e me disse que ia morrer. Que era seu último dia. Que ela sabia. E que nem valia a viagem. Eu tô acostumada a ouvir coisas assim. Disse pra ela não ter medo, que eu ia com ela e que o outro hospital era melhor e ela teria mais oxigênio e recurso pra melhorar. Ela riu de mim. Disse que não era mais uma luta. Que estava ganha. Mas que precisava ver o seu marido. Eu não entendi. Entramos na ambulância. Ela pareceu adormecer. Eu relaxei. A coisa ficou mais esquisita quando chegamos na estrada. Eu não sei se consigo colocar em palavras. Começou a ventar forte. Entramos na estrada e o vento bateu na janelinha da parte de trás da ambulância e, com o barulho, ela abriu os olhos. Os olhos dela pareciam brilhar. As máquinas todas começaram a apitar. Eu fui checar o que estava acontecendo, de repente tudo ficou mudo. Como se a energia tivesse caído. Eu vi os pulmões dela subindo e descendo, fortes. Como nunca. Ela pediu preu afrouxar o cinto da maca. Eu, burra, me aproximei pra afrouxar. No que desfivelei, ela soltou os braços e me empurrou pra longe. Começou a tirar o soro, o respirador, tudo. Eu tentei pará-la. Ela segurou minha mão, olhou no fundo dos meus olhos e me disse: “Eu sinto muito, talvez um dia você possa entender. Talvez você não tenha a dimensão que isso tem para mim. Eu só pude ver com clareza agora. Toda minha vida eu nunca soube o que eu queria. Eu pensava desejar coisas. Pensava que sabia sobre meus desejos e vontades. Mas verdade é que eu nunca realmente entendi. Eu nunca realmente tive prazer. É muito triste perceber isso num leito de morte. Realizar que toda a sua vida – e olha, meu marido me ama profundamente – mas eu realizei que eu nunca soube o que era o prazer ou como consegui-lo porque não sabia desejar. E ele me amava como sabia. Mas não era bom pra mim. E eu não tinha ideia de que devia fazer algo sobre isso. Numa noite, em sonhos, no hospital, eu descobri. Eu entendi o que eu quero. Eu não posso morrer, moça, sem ter provado um orgasmo. Eu não quero viver. Mas eu sei como preciso e desejo morrer. Eu não posso morrer sem nunca ter gozado. Eu não vou. Tem coisas em que botamos o nosso limite. Eu não vou findar como essa mulher que nunca soube o que quer, que nunca gozou e morre assim. Esse será o meu inferno. Por isso, se meu marido for o homem que o penso que ele é, essa ambulância vai parar e você não vai ser mulher de me negar um único gozo em vida antes da morte. Eu não posso fazê-lo sozinha, mas sei que com a ajuda dele, eu vou. E assim morrerei em paz. Terei meu paraíso. Agora, seja sincera. Eu tenho medo de nem saber reconhecer se estou perto. Me diga. Como é ter um orgasmo?” Eu estremeci. Mas respondi. “É diferente para algumas mulheres, mas o coração acelera, os músculos contraem, tudo fica mais quente pelo fluxo sanguíneo. Algumas pessoas têm espasmos. Choram ou riem. Depois parece que fico mais leve. Como uma descarga, sabe? Um pequeno transe e um alívio. Profundo.” Lágrimas escorriam dos olhos dela. ” Você nunca nem se tocou? Colocou a mão no clitóris, massageou, nada? Nem o seu marido? Nada parecido com esse êxtase?”. “Não”, ela respondeu. Eu quase me esqueci do marido. Eu queria dizer pra ela se tocar ali, agora mesmo. Que eu viraria de costas ou sairia da ambulância pra ela ter privacidade, caso ele não fosse. E eu juro que ambulância parou na mesma hora, quando ia propor, antes deu abrir a boca. Eu não podia acreditar. Eu não tinha reação possível para tudo aquilo. A determinação e clareza que ela tinha e ao mesmo tempo os seus olhos cheios de água enquanto eu descrevia. Eu me compadeci dela. Eu não sei, eu não pude não me comover. Eu pedi pra checar os sinais vitais, estavam ótimos. Milagrosamente ótimos. Eu tentei lhe pedir que fosse e retornasse. Mas sabia, de algum jeito estranho, que não aconteceria. Ela ia ter seu ápice – com sorte – e aquilo pra ela tinha uma importância tamanha que o resto parecia menos relevante. Eu sei que parece absurdo. Mas eu abri a porta e ela correu vigorosa como nunca vi ninguém correr. E o meu maior medo era ela não conseguir. Era ter todo aquele último esforço para acabar se decepcionando consigo e com seu marido. Fui olhar e o marido estava lá e, de algum jeito, eu fiquei feliz que ele estava. Era menos um fardo para mim. Se ele não estivesse eu não sei o que iria fazer. Acho que ele tão pouco imaginava o que ela estava prestes a lhe pedir. Eu os ouvi conversar. Ela foi franca. Disse que ele devia isso a ela. Que de todas as milhares de transas, ela sempre fez tal como ele gostava e queria. E que nunca, nem uma vez, sentiu nada parecido com o prazer. Sentia apenas uma certa satisfação altruísta de ter proporcionado algo bom, mas que a vagina dela nem ficava molhada, nem pulsava. “Estava morta”, ela disse pra ele. “Morta em vida. E agora, pelo menos na morte, quero viver. Você precisa me fazer gozar.” O homem empalideceu, como se tivesse visto um fantasma. Primeiro colocou o pau pra fora, meio em desespero, meio sem entender o que ela queria que ele fizesse. Ela fez que não. Tirou sim o traje hospitalar e puxou o rosto dele pra perto dos peitos. Ele começou a chupá-los. Mas estava perdido. Olhava para mim e para o motorista, aflito. Ela tentava o indicar, mas pareciam fugir as palavras. Eu estava mais longe e um pouco estupefata, mas o motorista logo se aproximou. Ele começou a dizer tudo e como o marido devia fazer. Parecia hipnotizado. Sentou-se próximo deles e lhes dizia tudo. Dizia como chupar, indicava pra abrir mais ou menos a boca, para beijar ou sugar devagar, para apertar um dos peitos ou pressionar levemente o mamilo. Ia corrigindo nos detalhes, com muito carinho e precisão. Os dirigindo em direção ao orgasmo. Dizia-lhe: “Agora beija o pescoço dela, molhado, devagar” ou “Enquanto chupa o peito, com uma das mãos você vai tocar o clitóris dela , com o indicador e o do meio, em pequenos círculos.” Depois, ela já gemendo e gemendo, suando, virando os olhos, o motorista seguia. Dizia para apertar sua bunda, para ficar muito tempo mesmo chupando, sugando a buceta. “Cuidado com os dentes!”, “Tenha calma”. Como uma espécie de mestre. Eu trabalhei ao lado dele minha vida inteira e nunca poderia imaginar. Nunca o ouvi falar sobre sexo uma única vez. Mas ele estava lá os guiando com primor. O marido se exauria empenhado. De alguma forma, feliz em ter alguma ajuda naquela estranha missão. A mulher aos poucos ia entendendo como pedir ajuda. Dizia ao motorista quando cansava de determinada posição, ou quando a língua do marido fazia cócegas ou ficava muito dura. O motorista então mudava a forma de falar e os guiava para outro caminho. Ela logo chocou o marido dizendo que queria dar o cu. O marido teria sim metido ali de qualquer jeito, mas o motorista interrompeu. Disse que precisava ter calma e carinho. Pediu que beijasse toda a bunda dela primeiro. Depois beijasse e lambesse seu cu. Para que ela relaxasse e confiasse nele. Ela ia gemendo e relaxando apoiada no carro. O motorista disse que poderia ajudar se ela se tocasse. E depois indicou pro marido como inclinar, de que ângulo meter. Primeiro os dedos. E tudo com muita saliva, na falta de um lubrificante. O marido foi metendo os dedos devagar. Ele pediu então que metesse só a cabeça e deixasse parada lá dentro pra ela se acostumar. E depois metesse um pouco mais. E um pouco mais. E então tirasse e colocasse devagar. Com cuidado. Acariciando as costas enquanto metia. E ela se masturbando, ou melhor, imitando como o motorista tinha dito pro marido a tocar. Gemia mais e mais. Aí o motorista disse pra ela parar. Disse pros dois virarem de frente. O marido já exausto, dizia que não sabia se poderia continuar. O motorista disse que podiam continuar devagar, sem pressa, suavemente. Que era importante que se olhassem para que o marido sentisse como ela gostava que ele metesse. Mais ou menos fundo. Com mais ou menos pressão. Que ela devia continuar se tocando e gemer livremente. Como quisesse. Que a buceta e a garganta eram ligadas e que era importante ela gritar se sentisse que devia. E os dois começaram outra vez. O marido penetrando ela devagar, rebolando, achando nuance. Ela gemendo mais alto, rindo e gemendo. As pernas dela começaram a tremer. O motorista pediu pro marido meter ainda mais lento e segurar no pescoço dela. Ela tremia toda. Até eu me tremia toda. O marido continuou, arfando, sem dizer mais nada. E o motorista começou a falar como se fosse ele metendo nela. Dizia coisas como “estamos quase lá”, “eu te sinto inteira em mim”, ” A sua buceta é tão gostosa e quente. É a buceta mais gostosa que já senti em toda a minha vida”. Ela teve o orgasmo olhando no fundo dos olhos do motorista. Pareceu errado continuar ali. Os três se olhavam agora com tanta ternura. Quando ela empalideceu, eu quis me aproximar, mas ela pediu que eu me afastasse. Chamou os dois. Se despediu dos dois como se os amasse igualmente. Como se o motorista fosse parte deles. Eu acordei daquele transe e me afastei. Tentando tornar a colocar o senso na cabeça. Fiquei com medo. Um medo de ter participado de alguma coisa errada, de ser punida de alguma forma. Chamei a polícia e o hospital. Mas não entrei nos detalhes. Pareceu justo poupá-los. Ninguém que não estivesse lá poderia entender. Ela teve seu doce orgasmo e de algum jeito, isso me deu um profundo alívio. Cada pessoa sabe o paraíso que merece.

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Ilustradora:

Carolina Morales

graduanda em pedagogia pela PUC-Rio, cenógrafa e caracterizadora do Grupo Fúria, coletivo teatral, trabalha com artes plásticas e é tatuadora iniciante – Carolina Morales é cientista.

👉  Conheça o trabalho da Carol no instagram.

Take a walk on the B side dos Quadrinhos

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Acho que posso dizer com certa segurança que hoje quadrinhos são pop e — talvez não tanto quanto o agronegócio — têm seus entusiastas e defensores. Por isso, não é à toa que ótimos blogs, revistas digitais e canais de YouTube têm surgido. Estes são lugares onde fãs, colecionadores e até estudiosos expões suas visões, análises e opiniões sobre HQs. No quesito vídeo, atualmente não tem como não mencionar canais como 2quadrinhos, Comix Zone e Pipoca & Nanquim — estes dois últimos têm suas próprias editoras, com um catálogo muito diverso e interessante. Porém não são desses canais maiores que escreverei hoje, mas sobre aqueles menos conhecidos que valem muito a pena serem assistidos. Neles se fala da nona arte com a paixão necessária para cativar alguém que, como eu, cresceu lendo gibis.

Ministério dos Quadrinhos

Apresentado por Alessandro Garcia, o canal Ministério dos Quadrinhos aborda quadrinhos de todos os tipos: tem comics americanos, quadrinhos europeus, mangás etc. Em sua maioria, os vídeos são resenhas de obras específicas, mas, ao contrário do que muito frequentemente acontece na internet, não se limita ao apenas a dar as velhas opiniões formadas sobre tudo. Em vez disso, Alessandro, além de dar uma contextualizada básica, dá suas impressões e leituras das HQs abordadas. Deixo aí o vídeo em que ele fala sobre “O Eternauta 1969” de Héctor Germán Oesterheld e Alberto Breccia, dois nomes importantíssimos da história dos quadrinhos argentinos.

Quadrinhos Na Sarjeta

Quadrinhos Na Sarjeta é um canal igualmente interessante, mas, por Alexandre Linck ter um pé na academia, tem uma abordagem um pouco diferente. Nos seus vídeos, mesmo quando voltados para uma obra específica, o apresentador parece mirar questões mais abrangentes. Por exemplo, no vídeo que está aí em cima, onde a partir do quadrinho “Ocultos” de Laura Pérez, Alexandre defende como muitas vezes o silêncio pode dizer melhor sobre uma obra do que chavões e elogios vazios.

Ilha Kaijuu

Ilha Kaijuu, de Rafael Machado Costa, é um canal bem pequeno. Contendo ainda poucos vídeos e se focando mais no conteúdo do que no visual, os quadrinhos são abordados de forma muito particular. Rafael se utiliza de conceitos próprios da história e teoria das artes visuais, fugindo do formato de “vídeos resenhas” e perseguindo um fazer crítica. Sei que talvez isso faça algumas pessoas bocejarem, mas recomendo a elas que, ao acabarem, vão assistir alguns vídeos do canal. Deixo aí em cima um vídeo longo — para os padrões do YouTube — onde são abordados os conceitos do naturalismo e do realismo na história das artes visuais e nos quadrinhos.

Rapha Pinheiro

Rapha Pinheiro também estuda quadrinhos e tem grande carinho por eles, mas, sem dúvida, o seu diferencial é o fato de que ele não só lê, mas também produz HQs. Por isso, seu canal pode ser uma ótima pedida para quem — mas não só — quer se aventurar profissionalmente nesse universo. Há vídeos onde ele dá dicas, ou em que fala sobre o mercado nacional, ou ainda outros em que ele analisa páginas de quadrinhos dando ênfase a sua narrativa gráfica. No vídeo acima Rapha fala um pouco sobre o livro “Escrevendo Para Quadrinhos” do, já bem conhecido roteirista de comics, Brian Michael Bendis.

Ocultos de Laura Pérez

Os canais citados são apenas alguns que acompanho, há muitos outros por aí que valem a pena serem assistidos. Inclusive, deixei de fora dessa lista dois em especial, que apesar de terem excelentes vídeos, não lançam nada já tem um tempo. Mas, como seria uma pena as pessoas não conhecerem o que foi produzido neles, decidi deixar aqui como menções honrosas. São os canais Traços Negros de Andreia Fernades e Papo Zine de Carlos Neto, ambos recomendados principalmente para quem tem interesse pela produção nacional. Esse post é dedicado a todos os amantes da nona arte.

Notas e comparações sobre The Office

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Quando se trata de comédia, é interessante pensar como o desconforto (muitas vezes referenciado pelo anglicismo cringe) pode ser uma ferramenta para provocar risos. O melhor experimento sobre isso na televisão, é a série The Office. Seja sua versão britânica (2001-2003) ou americana (2005-2013), ambas seguiram um formato ficcional mascarado de documentário (mockumentary) e foram abre-alas de um subgênero da comédia que perpetua até hoje (vale dar uma olhada no texto sobre documentários falsos feito pela Magdalena).

Vinda de uma ideia entre dois escritores amadores da BBC, a série inglesa tinha como tom uma comédia mais ácida, na qual o roteiro dava deixas bem claras para reação do público. Sempre havia um momento de silêncio depois de uma frase constrangedora ou situação embaraçosa, e a leitura que era feita da comunicação corporal dos personagens era um gatilho para o desconforto do público.

Já na versão estadunidense do programa, o tom foi preservado ao máximo, mas com algumas adaptações. O desconforto era a principal ferramenta, porém as deixas dos roteiros eram mais precisas, o que abria mais possibilidade para os atores e faziam as piadas mais impactantes. A linguagem corporal era mais aparente e o constrangimento mais repentino.

Porém o que é interessante de notar sobre ambas as séries, é de que mesmo se utilizando do desconforto como campo aberto, cada uma delas seguiu um caminho completamente diferente para conquistar certa empatia de seu publico e provocar questionamentos. Tudo isso sendo um reflexo de duas diferentes abordagens de comédia, vinda de três roteiristas diferentes, de um lado Ricky Gervais e Stephen Merchant e do outro Greg Daniels.

The Office (RU):

The Office original é um grande laboratório sobre o desconforto e como conseguimos lidar com ele. Suas situações são mais secas e mais angustiantes, levando o publico a ficar com mais pena do que necessariamente desgosto por aqueles personagens com uma teoria de mente fraca. Garreth (Mackenzie Crook) e Finchy (Ralph Ineson) por exemplo, são personagens que claramente criam desconforto no escritório pelo tom de suas piadas (Finchy) e seriedade em certos assuntos (Garreth).

Garreth apontando para a cintura de Paula enquanto Jamie observa

Garreth: “Uma adição. Se você for até o fim com o Tim e você espera que eu vá ai dentro depois, certifique-se que ele use uma camisinha. Meio que é a regra.”
– T02E02: Apprassials

O melhor exemplo de um personagem que passa do desgosto para a pena é o chefe do escritório David Brent (Ricky Gervais). Pelo seu tom egoísta David sempre querer chamar a atenção da câmera, sempre levar as adversidades como um resultado positivo e sempre tentar fazer graça com seus empregados para parecer um cara legal. Como resultado ele acaba manifestando seu lado mais irritante e preconceituoso, o que faz com que aos poucos seu personagem se torne um pária no escritório e nos faça ter pena dele.

Esse comportamento tem dois motivos, o primeiro é que parte da experiência e assistir The Office é ver os personagens sendo postos em situações errôneas e vê-los, do seu jeito, admitir o erro. David, por ser um personagem de mente fraca, só passa por isso no final da série, quando recebe uma proposta para sair da empresa pela sua incompetência e como resultado implora para ficar no cargo. Já Tim (Martin Freeman), um dos únicos com uma teoria de mente forte, passa por isso inúmeras vezes ao longo da série graças ao seu desejo de ficar com Dawn (Lucy Davis), que já está comprometida.

Lee empurrando separando a dança entre Tim e Dawn
Tim passando por um situação embaraçosa…

O outro motivo é mais pela visão de comédia que Gervais tem. Enquanto para muitos o riso é uma descontração, para Gervais pode ser interpretado como um ato de concordância. Por isso, muitas vezes ele é referenciado por trazer uma comédia mais ácida e muitas vezes encarada como grosseira, pois fala de um tabu que nem sempre a audiência está pronta para se manifestar sobre o assunto (vale ver seu discurso de abertura no Globo de Ouro 2020 e também ver o texto do José sobre diferentes abordagens de stand-up).

“Eu acho que existe uma grande diferença entre comédia e senso de humor e eu acho que o trabalho de um comediante não é fazer as pessoas rirem, isso é fácil, isso pode ser um reflexo. Quero dizer, você vê alguns comediantes… É o ritmo, eles podem lançar uma frase falsa e ainda sim conseguir uma risada. Eu acho que é sobre fazer as pessoas pensarem naquilo e porque aquilo é engraçado e eu acho que comédia é sobre empatia. Eu não rio de quem eu não gosto. Eu não acho que você deva estar acima do público. Não tem nada de engraçado em ver pessoas invencivelmente bonitas, inteligentes surgindo e te dizendo porque elas são bonitas. Eu quero ver elas perdendo suas partes, caindo se levantando e se limpando.” – Ricky Gervais

Fonte: BigThink

Pois então quando David Brent (Ricky Gervais) se manifesta de forma racista, por exemplo, ele põe em questionamento os valores e convicções de quem assiste e nos faz refletir sobre a suposta graça da situação.

David Brent apontando o polegar para Oliver ao seu lado

Phillip: “Eu não sou novo e eu achei bem ofensivo.”
David Brent: “Okay, mas ele não achou.”
Brenda: “E o que ele tem a ver com isso?”
David Brent: “Bem, se ele não se incomoda de rirmos dele, que mal tem?”
Trudy: “E por que só pessoas negras têm que se ofender com racismo?”
David Brent: “Bom ponto. Primeira coisa sensível que você disse o dia inteiro…”
– T02E01: Merger

Além disso, quando algum personagem encara que cometeu um erro, sentimos empatia por ele e refletimos sobre a própria vergonha e desconforto que passamos em situações similares nas nossas vidas.

Tim se acalmando e se sentando em sua mesa após o empurrão
…Tim reagindo a situação.

The Office (EUA):

Quanto a versão norte-americana, o humor mais ácido fora mantida desde o começo da série com o intuito de preservar o objetivo de incomodar o público. Para tanto, seu episódio piloto é uma direta adaptação do piloto britânico.

Porém, no final do episódio, já era possível notar uma mudança de direcionamento que a série faria:

David Brent tenta desviar da culpa depois de fazer uma peça com Dawn que tenta se recuperar.
Jim põe a gelatina com a caneca de Michael em sua mesa.

Em vez de se focar apenas no erro dos personagens como uma ferramenta de empatia e questionamento, o The Office americano decidiu adotar uma filosofia diferente: Se a vida é o caos que é trabalhar naquele escritório, vamos também mostrar que existe um lado bom na vida.

“Houve muitas metáforas para The Office e a metáfora visual que Greg [Daniels] nos deu sobre o programa em geral foi: um pavimento de concreto, de aparência tediosa, como um estacionamento de escritório, com uma pequena flor crescendo em uma rachadura. E o ponto dele era, isso é uma sátira sobre o mundo moderno de estacionamentos de escritórios, luzes fluorescentes e tetos falsos, mas a alma do programa é aquela pequena flor que de alguma forma achou seu caminho. Aquele pequeno pedaço de luz que achou seu caminho pela rachadura desse universo pavimentado, entende? E essa era uma metáfora muito forte, eu penso nela toda hora.” – Michael Schur, roteirista da sérieFonte: Vox

Assim aos poucos, as situações de desconforto foram se balanceando com os momentos de alegria, esperança, motivação e humor. Cada vez mais vemos diferentes dimensões dos personagens, que nos fazem tanto encará-los como loucos como também criar empatia por eles independente do nível de teoria da mente deles: Jim (John Krasinski) se mostra mais confiante do que acovardado quanto a Pam (Jenna Fisher), Pam (Jenna Fisher) se mostra mais confiante quanto a sua habilidade de desenho e Dwight (Rainn Wilson) se mostra mais empático e preocupado do que individualista, mas a principal mudança vem com Michael (Steve Carell).

Michael Scott tinha sido planejado para ser idêntico a sua versão britânica, porém a adição de Steve Carrell para interpretar o protagonista provocou uma mudança na forma como os roteiristas estavam trabalhando o personagem. No fim da primeira temporada, o filme estrelado por Steve, O Virgem de Quarenta Anos (2005), estreou, revelando um arquétipo bem diferente do que o comediante interpretou na série. O protagonista, Andy era muito mais puro e brincalhão do que Michael e, com o sucesso do filme, os executivos da NBC decidiram sugerir aos roteiristas mudanças para o personagem.

Michael Scott falando com Jim no deck do barco no episódio Booze Cruise

Michael: “É, é. A Pam é legal”
Jim: “Ela é divertida, é calorosa e ainda por cima… eu sei lá.”
Michael: “Se você gosta tanto dela, não desiste.”
Jim: “Ela tá noiva.”
Michael: “E dai? Noiva não é casada. Nunca, nunca, nunca desista.”
– T02E11: Booze Cruise

Assim, a partir da segunda temporada, Michael mostraria suas outras facetas, deixando de ser um chefe cruel e meramente preconceituoso para alguém que age sem ter a intenção de ser errado. Aos poucos ele se mostra um bom vendedor, um homem mais bem-humorado, em sintonia com outros personagens (Erin e Holly) e principalmente um líder que em parte é admirado pelo seu escritório.

“… uma das partes de ‘americanizar’ era que para alcançar o status de um programa americano, você precisava gostar dos personagens principais e a versão britânica tinha um pouco de… Você se importava com a história de amor mas […] o personagem de David Brent era um estudo de personagem do cara que constantemente faz escolhas ruins e, sabe, parte do que mudou para a temporada dois era como manter as partes cômicas do personagem, mas também torna-lo alguém que você se importa e você torce. E quando eu entendi que o desafio era esse, eu fiz uma lista de coisas, de momentos que eu queria que Michael Scott tivesse na série […] Eu queria que ele desse bons conselhos a alguém, e isso virou o final do episódio ‘Booze Cruise’, quando ele fala para o Jim nunca desistir e, eu queria que as pessoas o apoiassem ele como a ideia de ‘nós podemos perturbar o nosso irmão, mas se qualquer outra pessoa tentar nós vamos [nos juntar contra ela]’, e essa foi a essência do final do episódio ‘The Dundies’, o primeiro episódio da segunda temporada […] Ah, e tem um episódio chamado ‘The Client’, quando Jan acha que ele não sabe o que está fazendo quanto a uma grande venda e ai ele fecha a grande venda e se mostra como bom vendedor…” – Greg Daniels

Fonte: Televison Acadamy

Tendo tudo isso em vista, ficam os questionamentos: Qual das séries é a melhor afinal? Qual delas é a mais desconfortável? Qual delas é a mais engraçada? E a única resposta possível é: depende. Assistindo ambas as séries é interessante notar que tanto o humor, o desconforto quanto a empatia são fatores diretamente ligados ao ponto de vista das pessoas que assistem. Existem situações em The Office (Reino Unido) que tem o mesmo nível de desconforto do que episódios inteiros da versão americana. Enquanto episódios marcantes da versão ianque são muito mais icônicos e engraçados do que qualquer um da versão britânica. Além disso, é importante ressaltar que independente do gosto, existem várias maneiras de você conquistar a empatia do publico, mesmo que isso custe um pouco (ou muito) do nosso conforto.

Pelo Bem Geral da Nação, Diga ao Povo que Não Poste

Conforme entramos no 4º mês de quarentena, fica impossível não perceber que o tempo está cada vez mais vagaroso. Os subterfúgios para lidar com o tédio já são escassos. A oficina do diabo se instalou e deu lugar às modas como Tik Tok e o filtro no Instagram chamado “Gincana do Gugu”, onde você tem 15 segundos para achar algum objeto sorteado (numa homenagem às brincadeiras do saudoso intérprete de Meu Pintinho Amarelinho).

Vale tudo para evitar que esse confinamento prolongado leve as pessoas a se jogarem no abismo do vazio existencial, visto que não é todo mundo que tem piscina em casa. Pelo menos, com o caos dessa prisão domiciliar em que vivemos, a solidariedade também virou tendência. Pessoas estão se ajudando a sobreviver, pensando cada vez mais no próximo. Porém, infelizmente, não são todos que vão nessa direção do bem.

Tem gente que é tão egoísta e tão sem coração que se recusa a entrar no jogo da improdutividade coletiva por puro narcisismo. Esses perversos desalmados estão o tempo todo tentando nos deixar mal por passarmos horas vendo memes sobre a separação do Padrasto do Neymar e assistindo o Chão É Lava do Netflix. Estou falando dos monstros que postam fotos com seus livros gigantes, cheios de mensagens filosóficas e marcadores de página que indicam que a leitura já está quase no fim (e assim mostrando que o Ser Postante é tão melhor que você que leu tudo aquilo e só agora resolveu expor nas redes a sua superioridade literária).

Eles nem ao menos param para pensar que aquele story inútil de livro vai atrapalhar toda a programação de rolagem de feed dos outros. O Hugo Gloss posta foto às 11 da manhã e o Chapolin Sincero posta às 18h. Aí a pessoa vem do nada e me põe uma foto lendo Dom Casmurro em plena quarta-feira, como se o mundo estivesse normalíssimo e todos aguentassem viver o isolamento lendo algo maior que um post sobre a Gretchen.

A conta não fecha. Não há mais serotonina no mundo para alguém “botar a leitura em dia” —como falávamos nos velhos tempos. Não existe mais “dia”. Agora tudo é um emaranhado de horas onde escolhemos entre Ifood, feeds alheios e plataformas de streaming. E o que mais me choca é que eles querem tanto escancarar a nossa inutilidade, que esses vis leitores nunca postam um livro normal.

É sempre algo entre O Apanhador No Campo de Centeio e os Irmãos Karamazov. Quanto mais do Leste Europeu melhor. Eles querem que todos saibam que não estão perdendo tempo com qualquer jogo derivado do Programa do Gugu, desmerecendo suas décadas de contribuição com a cultura nacional ao colocar gente malhada e seminua para pegar sabonetes em uma banheira.

Tem uns desse bando que até botam na foto só a ponta do livro para a gente não entender qual é e assim eles parecerem ainda mais intelectuais. Ou então que postam o livro no colo com um pouco da perna malhada aparecendo, para nos humilhar sugerindo que eles além de tudo ainda têm disposição para malhar enquanto o resto da humanidade se parece a cada dia mais com um saco de batatas.

O tédio desperta o pior na gente. Tem gente que grava Tik Tok. Tem gente que lê. E tem gente que escreve. Eu sou do tipo que escreve. E, se você chegou até aqui, é porque é do tipo que lê. E, como já leu isso tudo, talvez esteja pensando: hum, será que eu faço um story mostrando que li essa crônica? Mas, pelo bem geral da nação, peço que não postem essa crônica nas redes! Clemência aos pobres internautas! Fora Bukowski! E um viva aos memes da Vice Miss Bumbum!

* * *

Ilustrador convidado:

Junno Sena

Negro e LGBT+, sou ilustrador, escritor, procurando contar histórias que ecoem com corpos como eu. Com 24 anos, formado em jornalismo e mestrando em antropologia, estou sempre em busca de perguntas, porque todos já estão procurando respostas. Moro em Petrópolis, RJ.

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SIMPLESMENTE ALICE

Ela os ouvia tocando, como num filme. Enquanto suas mãos ensaboavam pilhas e pilhas de pratos, podia ouvir o piano, alguém cantando, risadas e piadas sobre música que ela não entendia. Os talheres escorregando de suas mãos metidas na pia, a alegria do cômodo ao lado invadindo seu silêncio. A única coisa que ela gostava em lavar louça era poder escutar seus pensamentos se afogando na espuma. Mas agora com o maldito jazz ela era incapaz de afoga-los e os pensamentos ficavam presos na cabeça. Irritando-se com as notas. Dando dores na sua coluna de tão pesados que ficavam lá dentro. Não que ela não gostasse da família da sua mulher. Mas tinha algo naquele gesto de alegria barulhenta que a irritava. Talvez por não saber tocar absolutamente nada e se sentir idiota nos assuntos sérios que tinham. Talvez porque sua mulher nunca usava o piano quando estava apenas ela e as crianças, como se apenas ela e as crianças não fosse motivo suficiente para ser barulhentamente feliz. Eram essas as ideias que a fazia quase quebrar os pratos, começar a inflar um mau humor e se tornar a pessoa que ela mais temia: a esposa neurótica cheia de dores de cabeça, incapaz de acompanhar a festa. Mas acabava sendo assim, tornava a sala já com as mãos nas têmporas, fazendo uma certa cena – confessava. Franzindo a testa e pedindo para que baixassem um pouco o volume de tudo, de suas vidas e instrumentos. Sua mulher revirava os olhos, debochada. Depois, a abraçava pedindo que fosse checar se as crianças tinham dormido e quem sabe tomar seu remédio e dormir também. Tinham se mudado para uma casa maior na Barra durante a pandemia e agora os parentes de sua esposa apreciam raramente, mas era suficiente para ela se sentir esgotada e ainda ser obrigada a ouvir sua mulher a mandar pra cama com seus remédios num tom de desdém.

Apesar de dizer que as dores adivinham de pensamentos pesando na cabeça, elas eram reais. Fisicamente reais. Na pandemia foi acometida por inúmeras, novas e violentas dores. Atacavam sua coluna, sua cabeça, seu estômago. Fazia testes e testes de covid, todos negativos. Fazia exames de sangue, ultrassonografia e raio-x, nada aparecia. Rezava e rezava todas as noites, mas sua fé – ainda que fervorosa – não a atendia. Então juntava receitas psiquiátricas com receitas de florais, com óleos essenciais caros e ainda sim, nada parecia mudar. As dores continuavam. Com as dores, sua libido não andava muito bem. Se já transava pouco com sua mulher depois de casadas, agora quase nunca transavam. No início, sua esposa se empenhava, tentava fazer longas massagens, comprava brinquedos, mas depois começou a se irritar. Até que estranhamente se apaziguou. O que soava como mais uma desistência e infestava sua mente de desconfiança e da sensação de que aquela súbita satisfação e compreensão deveria vir de algum tipo de pulo de cerca, meticulosamente orquestrado. Nos últimos meses, sua mulher alugou um escritório onde trabalhava sozinha “para facilitar o home office”. Ela imaginava o que isso poderia implicar. Mas não aguentava demandar mais atenção. Se habituou às tardes longas com as crianças correndo e pulando e demandando coisas. Desempregada, como muitos nesse período, só podia aceitar a benevolência de sua mulher em sustentá-la com tanto luxo na criação de seus filhos.

Era um final de semana, sua mulher estava de folga em casa e ela teve o desejo de fazer uma pequena caminhada para um parque vazio que tinha por perto do seu condomínio. Queria tentar ler um livro e aliviar a pressão que sentia nas vértebras. Sua mulher cedeu facilmente, não suportava mais ficar ouvindo sobre seus novos sintomas e mazelas, preferia mesmo que ela debandasse da casa para meter as crianças nos seus videogames e fazer suas próprias coisas. Saiu então, com sua mais nova roupa de jogging – que por mais ridículo que parecesse combinava com sua máscara – e o livro embaixo do braço. Atravessou o condomínio, com todas as suas grandes e luxuosas casas com grandes muros, feito fortalezas esnobes, até chegar no pequeno parque, meio abandonado com velhos brinquedos de criança, longas árvores e alguns canteiros, agora em sua versão mais rústica devido a falta da frequência das podas. Pelos bancos, algumas filipetas velhas, adesivos rasgados, bitucas de cigarro e possivelmente chicletes colados nas partes baixas. Sua neurose a fez limpar meticulosamente o banco escolhido, sprayzando álcool por toda sua superfície e derrubando as filipetas e bitucas de cigarro pelo chão. Não era como um sonho hollywoodiano de lugar para espairecer, como ela no fundo queria que fosse, mas era sua versão possível. Muitas vezes sentava-se por ali, entre os brinquedos e as plantas, sonhando com acontecimentos fantasiosos. Sonhos onde era descoberta no meio da praça para ser atriz de televisão, ou onde uma ex-namorada de sua infância aparecia entre as árvores com buquês floridos e um pedido de desculpas por não ter a assumido. Um pedido acompanhado de uma enorme dedicatória romântica sobre como queria eternizar o encontro delas para sempre, algo sobre como queria permanecer naquela festa aos 15 anos em que dançaram e se beijaram pela primeira vez. Sonhava tanto que quase nunca realmente lia o livro que levava para ler. Tinha vezes que até fantasiava que era mesmo a sua esposa quem vinha correndo atrás dela para lhe dizer coisas bonitas e pedir desculpas por ter se esquecido tantas vezes de lhe beijar a boca antes de dormir. Em seguida, passado sua dose de fantasias românticas, sentia vontade de chorar e se convencia que não havia coisa mais ridícula que uma mulher da sua idade, com a sua vida, ficar sentada num parque moribundo sonhando com fábulas amorosas tão tolas e juvenis.

“Você não precisa ter medo, eu posso ir embora se estou te atrapalhando com o livro”, a mulher disse rompendo o silêncio. “Não! Fica”, ela respondeu imediatamente. Ok, agora sim podemos dizer que foi o seu maior ato de coragem até agora. A mulher sorriu, maliciosamente. Ela começou a pensar que talvez tivesse feito uma insinuação horrível e queria contar logo que era casada, com uma mulher sim, mas casada e felizmente casada e que, por isso, era impedida de qualquer coisa com aquela mulher dos lábios tão bonitos, mas maconheira. E que se fosse trair não seria com uma mulher que fuma maconha e que não deve ter nada melhor pra fazer do que ir fumar na praça e por isso nunca jamais seria a pessoa com quem ela teria um caso, ainda que nunca fosse ter um caso, pois acreditava fielmente na monogamia – Porém nada disso, nem perto disso, saiu de sua boca. Ficou em silêncio e pro seu maior e estrondoso espanto, tirou a máscara e sorriu. A desconhecida, agora sentada alguns centímetros mais perto, lhe passou o baseado. Ela aceitou, apesar das vozes na sua cabeça estarem à beira de um ataque de nervos, ela aceitou e tomou um enorme trago, longo e profundo, enchendo os pulmões e obviamente culminando numa tosse de iniciantes. A desconhecida riu, pegou de volta o baseado e segurou gentilmente na sua mão, num gesto carinhoso, como alguém que diz que está tudo bem, que aquilo iria passar, que não precisava ter vergonha de tossir feito uma adolescente. Ao sentir o toque em sua mão, sua coluna – cheia de dores – tremeu. Sua pele se arrepiou inteira. Sentiu sua buceta pulsar. “Maldita maconha”, pensou. Agora seu corpo ia ficar todo desinibido, todo querendo aquela mulher estranha que – se olhasse bem – tinha peitos muito bonitos quase aparecendo pela roupa larga, onde podia ver o sutiã de bojo marcando, sutiã rosa choque, uma coisa que ela achava totalmente brega e sem nenhum charme, até mesmo muito vulgar, mas que agora não poderia dizer isso, afinal seus próprios mamilos estavam ficando duros e ela não sabia mais há quanto tempo estava fitando os peitos da mulher sentada do outro lado do banco de quem ela nem sabia o nome. “Eu devia te alertar, essa maconha é da boa” disse a mulher, que agora ela tinha certeza que tinha percebido sua estranha fixação por seus peitos, os encarando como um homem babaca. Que imagem devia ter dela? A imagem de uma mulher careta com roupa de jogging que recusa a maconha pra depois aceitar e que, quando chapada, fica olhando ela assim. No entanto, se interrompeu e abriu a boca e as palavras que saíram pareceram sair sem nenhum controle, como que faladas quase por outra pessoa, quase como uma intervenção divina que a fez falar com o tom mais calmo e sincero do mundo: “Eu sou casada. Mas eu quero desesperadamente ter um caso com você”.

“Você é uma figura hein?” respondeu a mulher da maconha. O quê a assustou, pois não sabia ler o que essa resposta significava. Mas o susto deve ter durado apenas alguns segundos, pois logo a mulher da maconha já estava colada nela, sentada assim pertinho, a boca quase na sua boca, os olhos enormes olhando no fundo dos seus olhos, os peitos quase tocando seu peito, num quase beijo em que proferiu suavemente, sedutoramente, em um tom baixo, quase gemido: “Mas você tem certeza? Porque eu vou aceitar”. E se beijaram, pois era insuportável não beijá-la. Mesmo ela tendo um cheiro de hidratante de baunilha que ela nem mesmo gostava e sua boca toda tinha um gosto de maconha, um gosto de verde, um gosto de coisas serenas e calmas. Seu corpo relaxou completamente no banco, agarrando forte aquela mulher que não conhecia. Apertando sua bunda, quase a engolindo, enquanto pensava no que diabos estava fazendo com outra mulher no meio da praça? Mas sua buceta não queria saber do que a sua cabeça parecia pensar, pois agora estava úmida e encharcada, como não ficava em anos. Molhando a calcinha, dando a sensação de molhar a legging. O cheiro iria ficar preso naquele banco da praça, como um testemunho de que sua xota estava enlouquecidamente encantada. Não conseguia parar o beijo, não conseguia se convencer de que havia outra coisa a ser feita que não ficar com aquela mulher ali mesmo. Quando percebeu, sua própria mão estava se enfiando embaixo da camisa larga e apertando aquele lindo peito no terrível sutiã rosa e quão delicioso era o peito dela na sua mão. Mas logo foi interrompida, a mulher ofegante se afastou, como que pegando ar, pronta pra tirar a camisa ali bem no meio do parque.

Aquela interrupção parecia a sua chance de voltar a ter bom senso e terminar logo com aquela sacanagem sem sentido. Ela pegou tudo que julgava ser sua coragem pra dizer: “Não, eu não posso. Isso foi errado, eu preciso ir pra minha casa. Eu não posso mesmo continuar com isso, e se alguém nos ver? Pelo amor de deus! No meio da praça? Eu sou conhecida aqui no condomínio e assim também é a minha mulher, alguém pode ver, reclamar, zombar de mim…” a estranha logo a interrompeu: “Escuta, escuta com carinho: ninguém liga pra você e pra sua esposa. Ninguém vai falar nada, ninguém passa aqui. Eu sei”. “Como ninguém liga?”, ela queria responder, “As pessoas ligam pra mim. Elas se importam. Eu tenho uma imagem a zelar, eu lutei por ela e não posso jogar ela fora por uma qualquer que conheci na praça. Eu nunca nem te vi em nenhuma reunião de condomínio, vai saber sua reputação e a minha mulher, ela se preocupa comigo, ela vai vir me procurar se eu demorar muito…”, mas nada disso – mais uma vez – saiu da sua boca. A mulher tirou a camisa larga, revelando os suculentos peitos apertados no sutiã rosa, a linda barriga e pele quase inteira tatuada. Aquela visão da mulher radiante sentada no pequeno banco do parque tirou sua voz. Ela ficou insegura. Quis, pela milionésima vez ir embora. Mas, agora, não queria ir pelo adultério e sim por vergonha de si mesma. Por se sentir uma mulher sem graça com roupas que combinavam com sua máscara, com ideias horríveis sobre música, apagada e insossa, definida apenas por seus filhos que nem eram tão bem educados assim, do contrário, eram até mimados e chatíssimos e tudo isso lhe doía muito agora. Muito mais do que as dores na coluna. Não sabia se podia ser a mulher que tem uma amante como aquela, a mulher que transa com uma outra mulher tão cheia de coragem no meio da praça. Ficou paralisada como uma criança no primeiro dia de aula: frágil e imóvel. Não sabia ser a mulher que pede desesperadamente por um caso, mesmo tendo o feito. Não podia continuar numa coisa em que não se reconhecia. Mas sua amante corajosa e misteriosa se aproximou delicadamente, deitando-a no banco. Ergueu sua blusa de ginástica, começando com delicados beijos por toda sua pele, peitos, barriga. Como se cada pedaço dela valesse um beijo terno e molhado. Foi descendo sua boca até puxar a calça legging nova. Despiu a calça com certa dificuldade. Quando olhou para sua buceta, coberta pela fina calcinha de renda branca, abriu um enorme sorriso. Malicioso e salivante. Como que diante de uma descoberta preciosa. Sua xota molhada pulsava mais e mais. Nunca a tinha sentido pulsar assim. Ritmada. Tinha o próprio ritmo, forte e vigoroso. A sua amante passou a língua no contorno de sua calcinha, podia sentir a respiração quente dela atravessando o tecido. Beijava todos os cantos do interior de sua coxa. Passa os dedos delicados da coxa até sua bunda. Beijou então a buceta por cima do tecido, que já estava molhado e agora misturava sua lubrificação na baba dela. A amante lhe beijava, sem pressa. Sem ansiedade. Deitada no banco, ela relaxava mais e mais. A boca abrindo e fechando, respirando cada vez mais fundo. Querendo a outra cada vez mais fundo. O livro caído no chão junto com as máscaras, as roupas, tudo. A amante então puxou a calcinha com a boca. Subiu sobre ela no banco, pegou sua mão e colocou por baixo da sua enorme e larga saia. A mulher misteriosa estava sem calcinha alguma. A buceta já lá exposta, como se já soubesse. Como se já tivesse ido para aquela praça sabendo. Ela enfiou os dedos na buceta da amante e tocou seu grelo inchado. Não sabia se o banco iria aguentar o peso das duas, mas não se importava. Encaixou uma buceta na outra e a mulher rebolava sobre ela. Agora, ela sentia como se tivesse a confiança de fazer o que quisesse. Lambia os peitos da amante, arrancava eles pra fora do sutiã e lambia até sua língua tocar sua axila. Não tinha nojo algum do seu suor, do gosto de baunilha. Mordia seu pescoço, apertava sua bunda por baixo da saia, que parecia cobrir as duas como um enorme véu. Cobrindo as bucetas grudadas, se arrastando uma na outra, se encaixando, quentes, muito quentes. Suando no banco. A mulher gemia alto, ignorando a praça, ignorando a decência. Como se fossem invisíveis, no melhor dos sentidos. Poderosamente invisíveis. A amante então se levantou, ajoelhando-se no chão diante dela. Ela sentou-se no banco, seus pequenos peitos também expostos, assim como a buceta. A amante segurou seus joelhos e abriu delicadamente suas pernas, enfiando o rosto entre as suas coxas nuas. A amante começou a chupá-la na praça, sugando seu grelo, depois beijando, depois chupando suavemente. Usando língua e dedos misturados, ora metendo enquanto lambia, ora apenas lambendo e pressionando o clitóris em círculos, em movimentos vibratórios. Ela chupava melhor do que todas as bocas que já tinham lhe chupado na adolescência, melhor que sua mulher, que todas as mulheres do mundo deveriam chupar. Trocaria todas as antigas fantasias por aquela boca entre suas pernas lhe chupando assim. Gemia e gemia alto. Segurava os cabelos da amante, que com sua boca com gosto de maconha, agora, abocanhava sua buceta. Chapada sentia ainda melhor a respiração, o toque da língua úmida, onde era mais macia, onde mais áspera. Onde tocavam dedos. As coxas tremendo. A amante parou. Em seguida subiu para os seus pequenos peitos, chupando forte para então meter seus dedos carinhosamente na sua xota. Metendo enquanto chupava os mamilos duros. Pela primeira vez, sentiu os peitos quase formigando, uma sensação nova que nunca sentiu antes. Os mamilos pareciam pulsar e formigar em ondas que iam crescendo e crescendo. Sua musculatura contraía e a amante não parava. Continuava incessante chupando e sugando seu mamilo, indo de um pro outro, arrastando o rosto nos dois peitos. Apertava um deles com uma mão, fazendo movimentos circulares e firmes com o polegar. Pressionava e pressionava e então voltava a sugá-los outra vez. Ia ficando toda molhada, suada, escorrendo pelo peito até a barriga e a onda parecia crescer e crescer colossalmente. Formigava outra vez e tinha espasmos e tudo ficava quente e quanto mais gostoso era, do contrário do que costumava viver com sua esposa, quanto mais gostoso era, mais presente ela ficava. E aquela sensação foi descendo dos seus peitos até o seu clitóris, culminando no orgasmo mais forte e completo que sentiu em sua vida. Um orgasmos que descia ali do próprio coração pra buceta. Um orgasmo livre.

Gargalhou, alto. Gargalhou numa crise incontrolável de riso. Mas a amante não cessou totalmente. Tornou a dar beijos leves em sua buceta e coxas, o que fazia mais cócegas e a fazia gargalhar mais e mais. E gargalhar era como gozar mais. Então o riso cessou. O corpo tornou a relaxar, quase mole em cima do banco. A mulher sentou ao seu lado, acariciando seu rosto, doce e gentil. Ela não conseguia parar de sorrir. Se sentia leve. Como se tivesse arrancado um peso gigantesco de cima dos seus ombros. Sorria e não pensava em mais nada. Sorria. Sem realizar que algumas horas tinham se passado e que sua esposa nem se deu conta. Que o mundo dela nem se dava conta da sua ausência, do seu gozo. Sorria. Simplesmente. Porque não importam as outras coisas. Importa é aquela onda doce. Depois da onda – eu desejo e acho que ela devia também desejar – as coisas não serão mais as mesmas. Depois da onda, vem a coragem. Pura, gozada e verdadeira.

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Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

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I May Destroy You: quando nosso sofrimento se torna palco

Encontrei outra série preferida da vida. Fiquei impactada com a construção de I May Destroy You (2020). A forma como a narrativa da original da HBO caminha é brilhante. A criadora e atriz principal Michaela Coel pinta um quadro muito realista dos conflitos contemporâneos, principalmente a forma como os temos debatidos nas redes sociais. Em meio a diversos burburinhos do Big Brother Brasil, temas como: cancelamento, relacionamentos tóxicos e o uso de traumas e dores como forma de palco estão na série. Não só isso, como muito mais.

Como a estreia aconteceu em julho do ano passado e como sei que a maioria das minhas leitoras ainda não assistiu, não haverá spoilers aqui. Trarei apenas algumas reflexões e incômodos. Para quem ainda não conseguiu ver, deixo o convite. Porém, aviso: será impossível você não pensar nas suas próprias feridas. Há uma série de gatilhos. Principalmente se você é mulher ou homem gay. Mesmo assim, vale a pena. Prometo!

I May Destroy You (2020), como Fleabeg (2016-2019), é uma série londrina, produzida, roteirizada, encenada por sua criadora. No caso de Michaela, ela também assina a direção junto com Sam Miller. Sou super fã desse formato centralizado no autor. Meu sonho é chegar lá (me contrata, HBO!). As séries construídas assim costumam ter muita personalidade. Não tem como a expressão do criador não se sobressair. Outra que tem a mesma fórmula é a estadunidense Girls (2012-2017) da HBO. Apesar de algumas controvérsias, também a acho fantástica.

Mas vamos a trama! I May Destroy You (2020) gira em torno da personagem Arabella (Michaela Coel), uma escritora de carreira promissora que surgiu no twitter e seu grupo de amigos, em especial a best friend forever Terry (Weruche Opia) e o doce Kwame (Paapa Essiedu). Para quem entende de astrologia, eu diria que Arabella é nitidamente uma pisciana. Terry com certeza leonina. E Kwane, muito provavelmente, um canceriano. Como boa pisciana, Arabella é criativa, sensível, amorosa e precisa urgentemente ficar longe das drogas. O que não acontece. Logo no primeiro episódio, numa noite pesada – conto porque está no trailer – acontece uma das piores violências que uma mulher pode sofrer: um estupro.

É esse abuso que conduz a narrativa do início ao fim. Nesse processo, Arabella precisa se reinventar enquanto mulher, enquanto escritora e em seus relacionamentos. E o principal: precisa aprender a lidar com esse e outros traumas que se apresentam no caminho. O machismo é o conflito central da obra. Porém, também é tratado a própria lógica capitalista onde a colonização, incluindo a da mente, é um caminho.

Dentro dessas lógicas, usar nossas dores para engajar tem sido a estratégia adotada por muitos influenciadores. As redes sociais têm favorecido a prática. Enquanto isso pode ajudar na cura coletiva e no debate de questões que antes não estavam na mesa, acaba transformando nossa vida num grande muro de lamentações. Dentro de uma perspectiva, acredito que precisamos questionar até onde ficar no lugar de vítima pode nos dar alguma sensação de poder. Ou até nos mover a um certo revanchismo onde acabamos, sem perceber, ocupando o lugar de quem nos feriu (reproduzindo o lugar do opressor).

São questões sutis, não há respostas. O segredo é apenas pensar a respeito. Levanto esses pontos justamente porque a série joga no nosso colo esses confrontos. Nos últimos anos, com o uso mais frequente das redes sociais, sinto que utilizar nossas dores como forma de palco tem se intensificado. Os “algozesritmos” (gosto de chamar algoritmos assim) tem engajado basicamente tretas e ódios. Não por acaso, nos tornamos combativos, reativos. E, principalmente, iludidos. Achando que sozinhos temos a capacidade de mudar de mudar o mundo. Não temos reconhecido nossa impotência e fragilidade. No fim, somos humanos. Frágeis humanos.

Nesse processo, temos afundado e nos tronado patologicamente ansiosos, vulneráveis e carentes. Extremamente carentes. E a moeda de troca para aliviar nossas dores egóicas tem sido os likes, as menções, os compartilhamentos. Os engenheiros das redes sociais não são burros, eles sabem como nos escravizar. Como nos manter ultra conectados para lucrar.

Por isso mesmo, I May Destroy You (2020) é um tapa muito bem dado no meio da nossa fuça. Eu mesma já fui uma grande iludida. Com as primaveras organizadas pelas redes sociais no início da década passada – as jornadas de julho de 2013 no Brasil, por exemplo – jurava que o mundo iria se transformar. Que a sociedade unida conseguiria derrotar o descaso, o poder. Ao contrário disso, temos experimentado grandes movimentos de retrocesso em diversas partes do globo. Hoje tenho consciência que o poder segue controlando as narrativas. Afinal, quem cria os algozesritmos? Calar discursos divergentes, talvez, nunca tenha sido tão fácil.

Pensando na perspectiva da opressão, I May Destroy You (2020) trabalha de forma magnífica a interseccionalidade. Explico o que isso significa caso você ainda não saiba. A interseccionalidade diz o seguinte: as formas de opressão não atuam de maneira isolada, elas trabalham em conjunto. Por exemplo, uma mulher negra sofre opressão por ser negra e por ser mulher. E pode ainda viver a opressão por sua condição financeira, por sua orientação sexual, entre outros modos.

Na série, dentro do recorte que assistimos, Arabella se ferra muito mais por ser mulher. Experimenta ainda problemas financeiros e profissionais relacionados as lógicas de trabalho contemporâneas e algumas questões se inserem dentro do debate racial. O que achei foda na narrativa, onde a maior parte do elenco é negro, é que o racismo não é o conflito central. Penso que, urgentemente, precisamos sair do lugar onde negros só devem falar das dores de ser negro, transexuais das dores de ser trans e assim sucessivamente. Não é que devamos ignorar esse lugar. Até porque seria impossível. Mas é que tem outras coisas que atrapalham nosso sono. Se somos diversos enquanto humanos, guardamos em nós muitas semelhanças. Mais até do que podemos imaginar.

Todos queremos amar. Queremos ser amados. Na verdade, precisamos amar e ser amados. Somos animais sentimentais como canta Renato Russo. Como escritora e dramaturga o tema dos relacionamentos tem sido central para mim. Para minha vida inclusive. I May Destroy You (2020) aprofunda bem nessa temática. Mostra a nossa superficialidade. O quanto nos tornamos abusivos e tóxicos. Como nós, a chamada geração millennial, tem usado as redes para satisfazer nossos desejos imediatos, usando e objetificando o outro. Se hoje compreendemos a impossibilidade do amor romântico, nosso grande desafio é se encontrar com o amor real, com o amor saudável. Percebo que temos feito isso muito mais através de nossas relações de amizade. Nos relacionamentos afetivos ainda precisamos comer muito arroz com feijão. Todo mundo anda meio bugado.

Arabella e Biagio na praia juntos

Falando sobre questões técnicas, pirei no roteiro. A forma como a série termina é incrível. Bastante realista. Como Arabella é escritora, é um processo de escrita. Outro tabefe na nossa cara que estamos acostumados com pirofagias, dramas shakespearianos onde há uma satisfação do nosso desejo humano de vingança ou finais felizes. Prometi que não haveria spoilers. Espero não ter quebrado a promessa com essa pequenina informação. Acho que não. A vida de Arabella apenas continua, assim como a minha, como a sua.

Como sou bem amante do real, adoro diálogo poderosos, conteúdos narrativos. Então, me satisfiz bastante. Gozei de verdade com a série. Inclusive, com o fato de que não haverá segunda temporada. Ela foi pensada como um livro com começo, meio e fim. Continuar, se esgaçar, seria apenas uma estratégia capitalista para lucrar. A arte não precisa disso. Ao menos, não deveria precisar. Também fiquei apaixonada pela sensibilidade das interpretações. A direção de arte, os figurinos, a fotografia. Sério, para quem ainda viu, assista. Depois me contem. Para quem já mergulhou nela, espero comentários. Tô bem ansiosa para compartilhar impressões.

Arabella, Terry, Kwame e Theodora e um amigo sentados no sofá assinto televisão

O mais marcante em todo o percurso, para mim, foi se deparar com a nossa vulnerabilidade enquanto mulher. Por mais que a sociedade tenha avançado, por mais que hoje tenhamos certa liberdade e independência ainda somos presas fácies. E pior: estamos ainda sendo caçadas. Não temos direito de ficar bêbadas, perder um pouco do controle, da sanidade. Mesmo sem isso, podemos ser dopadas, violentadas. A todo tempo estupradas. Assistir a isso é doloroso.

Pensei em várias situações da minha vida. Identifiquei alguns abusos. Um caso de estupro bem similar ao que ocorre com Arabella num segundo momento. Inclusive, I May Destroy You (2020) foi criada porque Michaela, a criadora, foi realmente estuprada num contexto semelhante ao do primeiro episódio. Isso aconteceu enquanto ela estava gravando sua primeira série Chewing Gum (2015-2017) da Netflix. Assistindo a série lembrei também de um experimento social que foi filmado em Madrid, na Espanha, no ano de 2015. Nele, uma atriz fingia estar bêbada, perdida e sem bateria no celular. Enquanto ela pedia ajuda, o que se desejava era observar a reação dos homens a sua volta. Se haveria algum tipo de solidariedade. O que você imagina que aconteceu? Assista abaixo:

Eu posso te destruir, a tradução do seu título em inglês, é em bem expressiva sobre o conteúdo da obra. O que pode nos destruir? Como nós podemos nos destruir? Como o outro pode nos destruir? Por que homens precisam tanto nos destruir? De que doença social eles padecem? Qual necessidade eles têm de acessar uma forma de poder através de uma violência tão bruta como o estupro? Como Arabella, podemos e devemos a todo tempo nos questionar. Mas não nos resta outra opção a lidar com essa terrível realidade, trabalhar nossos traumas e seguir.

Quem Vê Barba Não Vê Coração (Nem Currículo)

“Você sabe que não vai mais poder usar calça jeans, né?” A gerente do RH perguntou olhando para minha calça. Era uma entrevista para a vaga de estágio no marketing de uma grande rede de varejo. O Michel Temer havia acabado de lançar a proposta da Reforma da Previdência e o medo de trabalhar na velhice me assolava — e me forçava a ficar disposto a vestir terno diariamente. “Ah, sei” respondi mentindo para a gerente.

“E tem problema para você?” disse ela num momento . Tensão no ar. É claro que tem problema (e ela sabe disso). A gente mora no Rio de Janeiro. Como que é não tem problema andar engravatado o dia inteiro numa das cidades mais quentes do mundo? ELA também se importa, só não fala. Mente para si mesma. Nessa hora você chega até a duvidar do caráter da mulher e questiona o porquê dela mentir: dissimulação ou necessidade de “entrar no jogo”?

Tentei continuar na disputa pela vaga. “Não tem problema não”. Silêncio na sala. O arrependimento bate. “VOCÊ DEVIA GOSTAR DE CALOR” meu subconsciente grita para que eu recodifique o cérebro e passe a não me importar tanto com as altas temperaturas. Porém, assim como Judas dedurou Jesus e a falta de playback dedurou Britney Spears, meu sorriso sem graça me entregou à inquisidora. Naquela hora não importava mais experiência prévia, intercâmbio ou topar coar o café para todos da empresa.

Eu tinha certeza que ela me descartaria. Porém, ainda tentou me trazer para a farsa. “É que terno passa mais credibilidade! Você vai ter que lidar com muita gente” disse ela mostrando a calça social que vestia apesar do calor de 300 graus do verão carioca. Reparei que a mulher tinha uma leve camada de suor na testa embora o ar-condicionado da sala estivesse forte.

Quando pequeno, eu observava os advogados engravatados subindo e descendo no calor quase desértico de Goiânia e me perguntava o porquê de não usarem uma roupa mais apropriada. Acabei na possibilidade de ter que me vestir no mesmo dress code — só que ganhando menos. É estranho como uma profissão pode sofrer tamanha interferência por causa de detalhes do vestuário.

Claro que não acho que você pode ir para o trabalho do mesmo modo que iria à praia ou ao casamento daquele primo que você odeia. Mas porque um pedaço de pano pode desmerecer tanto um profissional? Qual a diferença entre comandar uma equipe vestindo uma roupa de tecido jeans ou linho? Algodão ou poliéster? Biquíni ou terno? Não, péra.

“Você teria problema em tirar a barba também”? Ela me perguntou já sem graça com o meu semgracismo. Sorri de novo dizendo que não. “É que caso você tenha que lidar diretamente com clientes, alguns deles podem não gostar ” terminou ela. No fim das contas, eu fiquei achando que a gerente era dissimulada mesmo. Não tem como ela achar que eu acredito que ela gosta de trabalhar com aquela roupa pesada. A gente está no Brasil, o país tropical que Deus abençoou um pouco demais quando fez o Verão (ele esqueceu dos advogados de Goiânia, coitados).

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Ilustradora convidada:

Letícia Lima

Letícia Lima é recém-formada em Comunicação Visual pela UFRJ.
Procura expressar em suas experimentações o que capta de questões sensíveis do cotidiano.
Assim como disse Clarice Lispector: “Um dia virá em que todo o meu movimento será criação”

👉  Conheça o trabalho da Letícia no seu instagram.

Mikey e Nicky: Caim e Abel no mundo Máfia

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Elaine May, sem dúvidas, faz parte de uma longa lista de diretores e diretoras injustiçadas por Hollywood. O fracasso comercial de seu quarto filme, Ishtar (1987), sepultou sua carreira como realizadora (leia este artigo para saber um pouco mais), tendo a última possibilidade de retorno, até o momento, sido noticiada em 2019. Na realidade, sua relação com os estúdios nunca foi as das melhores, a própria produção de Mikey e Nicky (1976) não foi fácil para a realizadora (este artigo fala um pouco sobre isso). Mesmo assim, Elaine pôde nos deixar obras muito interessantes.

A princípio, Elaine nos faz acreditar que Mikey e Nicky se trata de um filme sobre amizade, onde Nicky (John Cassavetes), um sujeito marcado para morrer, pede ajuda a única pessoa com quem pode contar — Mickey (Peter Falk), seu amigo de infância. Mas logo percebemos que a diretora e roteirista toma uma direção muito diferente. Aliás, há durante todo longa uma constante aura de imprevisibilidade, onde tudo pode acontecer.

Estas relações movediças já estavam presentes em outros filmes de máfia anteriores, não há como não mencionar “O Poderoso Chefão I e II” que foram lançados alguns anos antes, respectivamente, em 1972 e 1974. Mas no longa de May, não há nem a opulência ou laços de sangue para disfarçar as coisas como são. A traição está escancarada para o público desde o início e a falta de glamour está expressa nos ambientes decadentes ou sem brilho pelos quais os dois personagens vagueiam.

Já na cena inicial, não sabemos bem o que se passa, estamos tão desnorteados quanto Nicky, os planos se sucedem nos dando, pouco a pouco, uma noção do panorama. As primeiras imagens que vemos são uma porta, um homem armado, um jornal que noticia que alguém foi assassinado. Há nessa cena um reflexo do desespero de Nicky, os planos — ao contrário de uma concepção mais clássica de decupagem, encenação e montagem — não nos guia dentro daquele universo, mas nos joga nele o que nos deixa desorientado. Neste sentido, o filme não só parece estar muito em sintonia com as mudanças que ocorriam na arte cinematográfica de sua época, como também estar ligado a um universo ficcional específico.

Depois de se instaurado essa atmosfera de desconfiança, Mikey entra na jogada. Para Nicky este é seu salvador, ou assim deveria ser. Porém logo que eles iniciam sua fuga pela noite, descobrimos que ele o traiu. Mas os “porquês” e o “como” não nos são dados de início, mas revelados pouco a pouco a nós. Quanto mais eles se embrenham pelas ruas da cidade, mais percebemos que entre os dois personagens há uma desconfiança constante e disputas de força. Por mais que eles se conheçam há trinta anos, o universo ao qual eles pertencem não existe porto seguro, apenas a “negociação” e a força podem garantir algum sossego. Isso se reflete no quanto Nicky desconfia do amigo e o quanto este se recente de Nicky, há entre eles uma constante troca de garantias. A palavra no submundo da máfia não tem nenhum valor, apenas mediante a provas se pode confiar minimamente em alguém.

 Uma porta fechada

Nicky preocupado olha para fora de quadro

Uma porta fechada

Nicky se ajeita na cama, ele está com as roupas amarrotadas e cada vez mais preocupado

Nicky segura uma arma

Nicky com um cigarro na boca, olha para algo fora de quadro.

Uma manchete de jornal anuncia a morte de alguém

Nick completamente acabado, com o cigarro na boca e uma arma na mão, pega o telefone.

Frames da primeira cena do filme, há uma desorientação espacial estimulada pela montagem e pela decupagem

Estas relações movediças já estavam presentes em outros filmes de máfia anteriores, não há como não mencionar “O Poderoso Chefão I e II” que foram lançados alguns anos antes, respectivamente, em 1972 e 1974. Mas no longa de May, não há nem a opulência ou laços de sangue para disfarçar as coisas como são. A traição está escancarada para o público desde o início e a falta de glamour está expressa nos ambientes decadentes ou sem brilho pelos quais os dois personagens vagueiam. Se a dúvida da traição já é descartada logo no início, então somos lavados a pensar que a questão é o que acontecerá quando ela for descoberta por Nicky, já que para ele Mikey é como um irmão. Mas novamente somos surpreendidos, ele saber ou não saber é o de menos, o que verdadeiramente importa é como os dois chegaram a esse ponto.

Mikey e Nicky em um cemitério a noite, diante de uma lápide
Mikey e Nicky diante da lápide da mãe deste

Apesar de não haver flashbacks em Mikey e Nicky, o passado está sempre presente, opressivo. O que vemos na tela são reverberações de acontecimentos anteriores, que estão para além do que vemos. Durante toda a sua jornada, Nicky está ora tentando se redimir por atos passados ora tentando fugir das suas consequências. Pois, como ele mesmo deixa claro no início do filme, ele sabe que está condenado. Mas apenas mais para o fim da narrativa, entendemos que Mikey também tem suas questões não resolvidas.

Mikey e sua esposa estão sentados frente a frete, eles estão uma sala de estra de uma casa classe média
Mikey conta a sua esposa a história de seu irmão

Mikey, assim como Caim, se sente usurpado de seu papel de primogênito. Em seu passado, ele viu seu irmão mais novo, antes da morrer, ser presenteado por seu pai com um relógio, objeto que agora ele usa quase como um totem. Quando, ao final do filme, ele conta essa história para sua esposa, ele não cansa de repetir que Izzy, seu irmão, só recebeu o relógio pois estava para morrer. Tudo o que sua esposa pode dizer é “isso é triste”. Mas pela forma como a cena é filmada e encenada, talvez a compaixão não esteja direcionada ao irmão morto, mas ao vivo, ou seja, ao seu marido. De qualquer forma, Mikey prossegue a história e revela que Nicky também era mais querido por seu pai do que ele próprio.

Nicky em frente de uma casa, bate em uma porta e grita para que o deixem entrar
Antes de morrer, Nicky implora para que o amigo o deixe entrar em sua casa

Mikey se recente de Nicky, que sem esforço conseguiu a afeição de seu pai, dos chefões da máfia e das mulheres. Mikey sente que o outro tem a vida que era sua por direito. Assim, o que parecia um filme sobre a relação de amizade (ou a deterioração dela) entre dois homens, se revela uma obra que versa sobre traição, rancor e vingança. Algo que está claramente expressa na cena final. Depois de Nicky compra algumas guloseimas e gibis para o filho de Mikey, ele vai até a casa do amigo. Mas, por ironia do destino, depois de passar uma noite inteira fugindo da morte, é justamente diante da porta deste que, depois de implorar para que seu amigo o deixe entrar, a morte finalmente o encontra.

Apesar de como diretora Elaine ter lançado apenas mais um filme depois de Ishtar — um documentário sobre Mike Nichols, com quem no início de carreira formara um duo de comédia —, ela teve uma carreira mais frutífera como atriz e roteirista de TV e cinema.

Só o Sylvester Stallone Pode nos Salvar

Ele tem questões mal resolvidas com seu passado. Talvez um filho que lhe foi tirado. Talvez uma mulher que foi assassinada. A vida o fez implacável, durão e um tanto rude. Ele não costuma ter muitas falas e muito menos ser agradável com os outros. Nas primeiras cenas, fica bem claro para os telespectadores a seriedade com que ele leva a vida. Entretanto, depois de alguns minutos de filme, surge um problema. Qualquer força exterior o obriga a embarcar numa missão. Matar alguém. Recuperar o dinheiro de um traficante. Prender um traficante. Algo desse gênero.

A jornada na qual ele embarca é recheada de tiros e explosões. Os carros de luxo e as mulheres hipersexualizadas são alguns dos adereços que servem como auxílio para que o herói resolva o que o roteiro do filme lhe propôs. As armas com munição infinita também — ele quase nunca erra um tiro.

Assim, depois de perder algum parceiro durante a jornada (provavelmente aquele que era o alívio cômico da trama e, mais provável ainda, que ele era negro: Hollywood é o racismo disfarçado em forma de roteiros) e quase morrer duas vezes, o herói consegue resolver os problemas da trama e voltar para o início do filme. Só que com lições que fazem ele evoluir e sanar as questões internas que possuía devido ao seu passado obscuro.

Agora, vem cá. De que filme estou falando?

Com certeza passou na sua cabeça: Jack Bauer, Arnold Schwa(não sei o sobrenome), Sylvester Stallone, Jet Lee e tantos outros que se encaixam nessa sinopse de filme. E sabe qual o pior? Qualquer um estaria certo. Esses filmes de ação são compostos basicamente pela mesma fórmula e apenas pequenos detalhes são alterados de um para o outro. Pois, assim, pode haver uma perpetuação deles nas telas de cinema.

No início do século XX, Henry Ford revolucionou o mundo com um novo sistema de produção que focava no consumo em massa e em produzir o máximo de carros no menor espaço de tempo possível. Essa técnica foi chamada de Fordismo e gerou inúmeros problemas para os trabalhadores daquela época, que faziam apenas uma função durante toda sua vida na empresa. Se você não acha que isso é um problema, confira Tempos Modernos (não a música do Lulu Santos, o filme do Charles Chaplin).

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Ilustradora convidada:

Helena Coelho

Helena é designer, ilustradora e estudante de animação e seu maior objetivo é contar histórias por meio de imagens. Nascida e criada no Rio de Janeiro, é apaixonada por tudo relacionado às artes gráficas e em movimento.

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CIDADÃO ILUSTRE

O prêmio tinha lhe deixado muito feliz, era impossível não conter sua arrogância. Se já tinha seus traços egóicos, com o reconhecimento europeu se sentia ainda mais potente e viril. A idade já era avançada, mas agora podia se gabar que não existia velho demais para literatura erótica. Que os jovens e as jovens, com seu tesão incansável, trocariam um “50 tons de Cinza” para falar a língua dos adultos. E mais que isso, a academia tinha recompensado seu legítimo esforço de escrever tantos bons e primorosos livros tesudos fora de seu país. Sabia, claro, que havia certo fetiche na imagem do autor latino e suas palavras lascivas, mas quem se importava. Ele queria mesmo era o tamanho do cheque que entraria gordo em sua conta. A pandemia tinha fodido a todes, mas assim como os vibradores, seus livros vendiam aos montes direto para as casas isoladas da Europa. Ficou surpreso quando os emails da editora começaram a chegar do Brasil. Pedidos e mais pedidos para que retornasse a sua cidade natal no interior do sul do país, onde queriam fazer uma espécie de célebre homenagem. A mesma cidade que o chutou pra fora como um devasso vagabundo, agora queria fazer uma menção honrosa ao seu sacana preferido. O prefeito e toda a população com enormes cartas pedindo encarecidamente que viajasse de volta pra lá por 15 dias, testes PCR pagos, hotel pago e tudo quanto é serventia que se possa oferecer a um homem tão querido e desejado. Ele tinha todos os motivos para negar o fogoso convite, mas como disse antes, a sua arrogância e seu narcisismo estavam especialmente aflorados e lhe parecia muito confortante poder mandar à merda os poucos habitantes que tinham feito da sua infância e adolescência um pequeno inferno. Poder lhes olhar com soberba e ostentar seu sucesso europeu e sua solidão fria. Assim como se gabar por ter sido o motivo de milhares de siriricas e punhetas raivosas dos cidadãos invejosos a partir dos seus livros. Principalmente o famigerado e premiado livro, inspirado na vida sexual de uma cidade pequena cheia de pudor e hipocrisia. Sua cidade. E isso apenas ele e os poucos habitantes sabiam.

Adiou o tempo que conseguiu, mas acabou, agora recebendo ainda um cachê especial pra isso, viajando para a pequena cidade. No avião, entre as máscaras e o álcool gel que passava nervosamente em tudo, teve o primeiro frio na barriga em de fato encarar todo aquele passado que tanto renegou. Imaginava toda a cidade se aproximando dele, como abutres, querendo tomar o seu sucesso e essa imagem lhe dava calafrios. Mas agora era tarde demais para desistir. Tomava uma dose de calmante, pedia para a aeromoça outra dose de whisky e trancava suas inseguranças no fundo de sua alma. Se dizendo que naquela idade não precisava mais delas.

Ao chegar no aeroporto mais próximo, se deparou com o ensolarado dia típico de verão. Sendo recebido pelo calor que os europeus tanto invejavam em seus contos. Suava, como se ele mesmo não soubesse mais suportar um dia quente comum. Por outro lado, não podia evitar em alimentar certo saudosismo de olhar aquele mundo abandonado, como um baú de memórias melancólicas e amorosas. Como belas ruínas vivas do seu passado, agora deteriorando-se com políticas genocidas e valores repugnantes. Pensava que poderia passar por essa viagem como mero observador daquele mundo que não mais lhe dizia respeito, alienado dele. Apenas julgando sobriamente e colhendo anedotas para fazer rir seus colegas portugueses. Mas nós sabemos que não será assim. Enquanto esperava o carro, não se abismou com as várias pessoas sem máscara ou com os tolos comentários anti-vacina dos pedestres. Não queria lhes dar nem o valor do seu descontentamento. Ria e seguia em frente. Um carro bonito veio então lhe buscar para a curta viagem até a cidade. O motorista era um velho conhecido da escola. Parecia muito animado, tentava se aproximar o tempo todo, querendo tocá-lo. Ele se desvencilhava constrangido. Começava falando que estava muito honrado, que nunca imaginou que teria estudado com alguém tão famoso internacionalmente. Depois perguntava sobre as bucetas na Europa, um desejo inconveniente de saber de suas transas, se tinham putas, assumindo que sua vida deveria ser um frenesi despudorado. Cortado esse assunto, que até mesmo para o autor tinha conotações vulgares e baixas demais, o motorista então fez a estranha proposta que deixou tudo ainda mais confuso. Passaram já da entrada da cidade com seu enorme e brega letreiro, faltavam alguns minutos para chegar no único pequeno hotel, quando o motorista parou inesperadamente o carro. Se virou para ele e num tom baixo lhe falou: “Olha, minha mulher e eu gostamos muito do que você escreveu. Ela também era da nossa turma, não sei se você lembra? — Ele lembrava. — Nós temos um acordo. Eu disse que se você aceitasse mesmo vir, eu deixava você comer ela. Desde que eu possa assistir, claro. Não sou só cornudo também!” E começou a rir nervoso. O autor não conseguia falar nada, sem acreditar na proposta que o aquele antigo colega, valentão e bruto, agora lhe fazia com as faces coradas e as mãos ansiosas. “Quer que eu coma a sua mulher?” perguntou, pensando que podia ser algum tipo de sacanagem. “Quero”, o motorista respondeu vermelho. Puxou uma foto dela da carteira e o entregou. “Ó, é bonita ela. Você vai gostar. E o cu dela…”, mas foi interrompido pelo autor, agora sério. “Querido, eu não vou fazer isso. Vamos cortar essa conversa aqui. Eu sinto muito. Eu posso ser um autor de histórias eróticas, mas é meu trabalho. Eu não me disponho a esse tipo de serviço. Mande felicidades a sua mulher.” O motorista retomou o caminho, calado, deixando-o na porta do hotel sem lhe dizer mais nenhuma palavra, magoado. O escritor, agora com as malas embaixo do braço, ria sozinho pensando que amigo nenhum no mundo iria acreditar no ocorrido. Convencido de que tinha acabado de viver o desperdício de uma estapafúrdia história. Mas ela estava apenas começando.

Na recepção, todos os cinco funcionários do hotel lhe esperavam com flores e um cartaz de boas vindas. A recepcionista quase derrubou os papéis do pequeno balcão tentando se aproximar dele. Um jovem adulto alto e malhado tomou as malas de suas mãos e o seguiu quase colado em seu ombro. O dono do hotel se apresentou e lhe ofereceu de beber alguma coisa no bar, segurando sua mão firme por um tempo constrangedoramente alongado. “Vocês aqui não tem covid? Estão vacinados?” Perguntou se afastando, com ácido deboche. Todos gargalharam. Ele ficou sério. A recepcionista então, debruçada outra vez no balcão, pressionando os peitos apertados no decote, ficou subitamente séria e concordou com a cabeça. Numa tentativa de mudar radicalmente de lado, embora sua máscara ainda estivesse pendurada na orelha. O autor agradeceu a estranha recepção e informou que queria tirar um tempo no quarto até se habituar ao novo fuso. Nenhum deles conseguiu conter a expressão decepcionada. Mas lhe entregaram as chaves e o rapaz forte o seguiu, carregando suas malas.

O quarto era pequeno, porém agradável. Tudo cheirando a novo. O rapaz deixou suas malas ao lado da cama e permaneceu parado. O escritor começou a higienizar uma ou outra coisa, abrindo a bolsa de mão, até se dar conta que o rapaz não tinha ido embora. Permanecia com os olhos vidrados no autor. Sedentos. O escritor o encarou, interrogativo. Nisso o rapaz fechou a porta e começou a desabotoar as calças. “Ei, ei, ei” disse o escritor, “o que você está fazendo?”. “Tenho um pau bonito, veiudo, caceta grande mesmo, igualzinho do seu conto. Eu queria te mostrar”. E colocou a pica pra fora, de algum modo estranhamente fiel a descrição. O autor o achou — e se reprovava moralmente por isso — excitante. O rapaz se aproximou com o pau balançando entre as pernas. “Quer tocar? Passa a mão nele.” O autor tocou o pau do rapaz, duro que nem pedra. Os olhos do jovem brilharam, emocionados. “Eu não posso acreditar que é mesmo você” ele disse. “Não vamos entrar nessa” respondeu o escritor. O rapaz beijou sua boca, tinha gosto daquelas balas mentex. Os dois se beijaram, o autor apertando a bunda empinada do jovem, o jovem metendo a mão nas calças do autor. “Eu quero chupar você” ele pediu ao rapaz. Aquele pau lustroso diante dele pedia sua boca. Não parecia tão ruim estar metido naquela cidade e ser recebido assim tão fervorosamente. Puxou uma camisinha e colocou na pica do jovem, que já estava quase gozando de antecipação. “Você vai mesmo fazer isso?” perguntava e perguntava ansioso. O escritor começou a chupá-lo. O jovem em pé, ele sentado na cama. O abdômen malhado exposto e suado em sua frente. As mãos calejadas segurando seus fios grisalhos. Chupou e chupou até ouvir batidas fortes na porta. Ignorou por um tempo e seguiu com a boca engolindo aquele suculento pau, da cabeça à base. Lambendo a glande e segurando nas bolas, com seus lindos pelos loiros. Até que a porta abriu num grito agudo, feminino.

O rapaz se afastou no susto. O escritor mal teve tempo de fechar a boca. Virou boquiaberto e um tanto assustado para a mulher de seus 40 anos parada diante da porta. “Eu devia imaginar que você gostaria de ser recebido assim” ela lhe disse. Era uma antiga namorada. Usava um batom rosa, os cabelos escovados e tingidos de ruivo. Nunca foi ruiva. Mas se a tivesse conhecido agora poderia pensar que sempre foi assim. Gorda, com os belos peitos num decote florido, poderia dizer que ainda mais bonita do que tinha sido antes. “A idade lhe cai bem” falou o escritor, secando a baba do próprio queixo. O rapaz virou para ele como se nada houvesse, como se o susto tivesse sido um estranho reflexo. “Não vai terminar? Sua boca é tão gostosa” disse o jovem. Ele olhou incrédulo, pra sua surpresa a mulher — sua ex que uma vez lhe repreendeu por ter escrito sobre como seu cu era lindo dentro de um poeminha de amor, ela mesma — entrou e fechou a porta atrás de si. “Termine. Eu quero olhar. Depois o garoto sai, que é a minha vez.”

Enquanto terminava de chupar o rapaz, agora chorando de emoção e gemendo — quase performando — diante da mulher, o escritor não conseguia pensar que mais uma vez a vida lhe parecia sair das páginas e que naquela cidade que imaginava olhares hipócritas e vexatórios, pudicos, agora o recebia salivante e lasciva. “Pobre motorista”, pensou quando o rapaz gozou e a ex-namorada corada de tesão começou a tirar a camisa, ” ele bem poderia ter vindo e trazido sua esposa. No final não parecia mais tão absurdo assim”. Apesar de que gostaria que o reencontro com aquele velho amor fosse em outros termos, como já tinha imaginado tantas vezes antes, seu retorno, uma longa conversa sobre como a vida dava voltas, onde falaria orgulhoso que escrever sobre cus lindos como o dela lhe levaram muito longe e ela iria rir sem graça. Essa fantasia, no entanto, parecia romântica demais agora diante dela e do rapaz que não ia embora. A ex nem se preocupou em enxotá-lo. Já estava de calcinha e sutiã subindo de quatro na cama. A lingerie de oncinha, os cabelos ruivos balançando, o autor quis agradecer. Era uma visão muito linda. Não que o rapaz não fosse, mas por ela existia as cores de um velho afeto. Levantou, começou a beijar as costas da mulher. Sua pele salgada, incrivelmente macia. Passava a língua por seu pescoço, descia beijando e lambendo até chegar na sua bunda, ignorando o rapaz que bebia um copo de água e tocava o próprio pau mole tentando despertá-lo. Ignorando também a pandemia, de alguma forma os ares negacionistas da cidade pareciam ter também afetado seu cérebro, ou talvez fosse seu pau que não fazia tanto sucesso na Europa e que agora queria ser coroado a qualquer custo. Desceu a fina calcinha de oncinha que cobria as nádegas grandes e suculentas da mulher. Olhou seu lindo e famoso cu, que recordava com tanto carinho de sua adolescência. Continua lá, esplêndido. Lambeu delicadamente, a ex-namorada soltou uns gritinhos de prazer. Segui então, descendo o rosto pela sua bunda até chegar em sua buceta. Num contorcionismo quase jovem, com uma virilidade que esquecera que tinha. Beijava e tocava a buceta carnuda na sua antiga e nova amante, úmida e gotejante. “Meta logo em mim homem, eles vem vindo” ela disse. E ele meteu sem se dar conta exatamente do que ela estava dizendo. Pensava só na sua bunda enorme lhe olhando. Segurou ela pela cintura, se recompondo em pé diante dela. Meteu seu pau na sua buceta, tão quente que parecia abraçar sua pica. Metia sentindo a raba dela contra seu quadril. Ela rebolava a bunda, animada. Fodiam de quatro, eram lindos. O jovem, com sua rápida recuperação viril, já batia uma punheta pros dois. Quanto mais metia fundo dentro dela, mais ela gritava. Ele se apoiou um pouco por cima dela, tentando segurar seus peitos enormes que balançavam mais e mais. Sentia a teta saindo do sutiã, o mamilo se revelando. O jovem delirava, chegando mais perto. Tocava os cabelos dela, ora roçava nas costas do escritor. Beijava a nuca suada do escritos, que agora também gemia. Tudo era quente. Então ela começou a dizer coisas estapafúrdias “Você escreveu pensando em mim, não escreveu? Diz que escreveu tudo pensando em mim”. O autor dizia que sim, mentia que sim. Um pouco decepcionado. Voltando a fantasiar que aquele encontro poderia ter alguma intimidade menos nervosa. Tristemente confessando que não era tão delirante assim aquela cena toda como pensou que seria. Mas isso não o impedia de ir se aproximando mais e mais do gozo. O jovem gozava melando todo seu belo abdômen, um jorro voraz, alto. Feito champagne. A mulher agora virou de frente, de modo que ele podia penetrá-la e chupar seus peitos. Podia olhá-la nos seus olhos cintilantes e apaixonados. O amor parecia ter seus resquícios ainda no olhar dela, mesmo naquela insana situação. Ela pegava sua mão e chupava os seus dedos. O autor ia gozar. Sentia o gozo vindo. Seu prêmio, o verdadeiro prêmio. Foi neste momento que a porta, pela terceira vez, foi violada.

Mais uma vez interrompido, agora por quatro pessoas. A secretária, o dono do hotel, mais um homem e uma mulher que não se recordava de ter conhecido. Não pareciam surpresos. “Você precisa vir com a gente” disse o dono do hotel. Ele riu, achando tudo um tanto arbitrário. “Cadê a decência? Não vê que estou no meio de algo?” respondeu. Sua amante gemia como se não tivesse parado. Quase em transe. “Você tem coisas maiores pra fazer. Fique tranquilo, você vai terminar.” Disse a secretária, entusiasmada. Tirou o pau fora das belas coxas da sua ex, que beijou sua boca agradecida e bizarramente sem nenhum espanto ou pudor diante das pessoas na porta. Agora todos do quarto fitavam a pica amolecida do escritor. Ele tentou se vestir mas foi segurado pela amante e pelo rapaz. “Não precisa” diziam todos e o arrastaram pra fora.

Deveria estar apavorado, mas por algum motivo gargalhava. Não é possível que aquelas pessoas queriam lhe levar nu para praça pública, deveria ser a pegadinha mais absurda de todas as pegadinhas já pregadas. Imaginava se deparar com um pastor ou uma rede muito tosca de televisão, com uma enorme equipe pronta para gravar seu pau mole na pequena cidade sulista. A imagem perfeita do traidor dos seus valores puritanos, um autor lascivo e sua pica nada viril. Mas quando as portas da hotelaria se abriram, se deparou com todos ou quase todos -possivelmente os poucos mil habitantes pareciam estar ali, mas não tinha como ter toda certeza – todos nus. Velhas senhoras e senhores enrugados até jovens cheies de espinhas, nus em unanimidade. Tudo quanto é peito e xota e caceta exposta ali na luz do dia. Reconhecia algumas pessoas, professoras do Colégio, o motorista e sua esposa, o prefeito, a garota do posto de gasolina, cinco colegas de classe, duas tias, três primos de algum grau. Muita gente e toda a gente nua com os olhos nele. Os olhos brilhando e as bocas salivando. Uma enorme placa dizendo bem-vindo com uma série de desenhos obscenos. Ele ficou imóvel e as pessoas começaram a se aproximar devagar. Atrás dele, o rapaz e sua ex amante se beijavam e diziam coisas como “Provem, ele é mesmo delicioso”. As mãos esticadas. Uma mulher magra de cabelos curtos gritava para se organizarem em filas enquanto pulava sacudindo os pequenos peitos. Um senhor barrigudo com seu pau grosso, surpreendentemente ereto, oferecia pílulas azuis gratuitamente. Algumas pessoas se pegavam entre si, outras se masturbavam olhando para ele fixamente. “Olhem”, o escritor finalmente gritou pra multidão excitada, “Eu não posso dar conta de todos de uma vez. Eu sinto muito. Eu sou só um velho escritor”. O prefeito lhe olhou sério: “Temos uma semana e você não vai a lugar nenhum”. A cidade comemorou em uníssono. As mil mãos, tetas, picas, cus e bucetas se aproximando. “Será uma longa semana”, pensou.

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Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

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