Quem Vê Barba Não Vê Coração (Nem Currículo)


Ilustradora convidada: Letícia Lima

“Você sabe que não vai mais poder usar calça jeans, né?” A gerente do RH perguntou olhando para minha calça. Era uma entrevista para a vaga de estágio no marketing de uma grande rede de varejo. O Michel Temer havia acabado de lançar a proposta da Reforma da Previdência e o medo de trabalhar na velhice me assolava — e me forçava a ficar disposto a vestir terno diariamente. “Ah, sei” respondi mentindo para a gerente.

“E tem problema para você?” disse ela num momento . Tensão no ar. É claro que tem problema (e ela sabe disso). A gente mora no Rio de Janeiro. Como que é não tem problema andar engravatado o dia inteiro numa das cidades mais quentes do mundo? ELA também se importa, só não fala. Mente para si mesma. Nessa hora você chega até a duvidar do caráter da mulher e questiona o porquê dela mentir: dissimulação ou necessidade de “entrar no jogo”?

Tentei continuar na disputa pela vaga. “Não tem problema não”. Silêncio na sala. O arrependimento bate. “VOCÊ DEVIA GOSTAR DE CALOR” meu subconsciente grita para que eu recodifique o cérebro e passe a não me importar tanto com as altas temperaturas. Porém, assim como Judas dedurou Jesus e a falta de playback dedurou Britney Spears, meu sorriso sem graça me entregou à inquisidora. Naquela hora não importava mais experiência prévia, intercâmbio ou topar coar o café para todos da empresa.

Eu tinha certeza que ela me descartaria. Porém, ainda tentou me trazer para a farsa. “É que terno passa mais credibilidade! Você vai ter que lidar com muita gente” disse ela mostrando a calça social que vestia apesar do calor de 300 graus do verão carioca. Reparei que a mulher tinha uma leve camada de suor na testa embora o ar-condicionado da sala estivesse forte.

Quando pequeno, eu observava os advogados engravatados subindo e descendo no calor quase desértico de Goiânia e me perguntava o porquê de não usarem uma roupa mais apropriada. Acabei na possibilidade de ter que me vestir no mesmo dress code — só que ganhando menos. É estranho como uma profissão pode sofrer tamanha interferência por causa de detalhes do vestuário.

Claro que não acho que você pode ir para o trabalho do mesmo modo que iria à praia ou ao casamento daquele primo que você odeia. Mas porque um pedaço de pano pode desmerecer tanto um profissional? Qual a diferença entre comandar uma equipe vestindo uma roupa de tecido jeans ou linho? Algodão ou poliéster? Biquíni ou terno? Não, péra.

“Você teria problema em tirar a barba também”? Ela me perguntou já sem graça com o meu semgracismo. Sorri de novo dizendo que não. “É que caso você tenha que lidar diretamente com clientes, alguns deles podem não gostar ” terminou ela. No fim das contas, eu fiquei achando que a gerente era dissimulada mesmo. Não tem como ela achar que eu acredito que ela gosta de trabalhar com aquela roupa pesada. A gente está no Brasil, o país tropical que Deus abençoou um pouco demais quando fez o Verão (ele esqueceu dos advogados de Goiânia, coitados).

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Ilustradora convidada:

Letícia Lima

Letícia Lima é recém-formada em Comunicação Visual pela UFRJ.
Procura expressar em suas experimentações o que capta de questões sensíveis do cotidiano.
Assim como disse Clarice Lispector: “Um dia virá em que todo o meu movimento será criação”

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