CIDADÃO ILUSTRE


“É possível foder com uma cidade?”

O prêmio tinha lhe deixado muito feliz, era impossível não conter sua arrogância. Se já tinha seus traços egóicos, com o reconhecimento europeu se sentia ainda mais potente e viril. A idade já era avançada, mas agora podia se gabar que não existia velho demais para literatura erótica. Que os jovens e as jovens, com seu tesão incansável, trocariam um “50 tons de Cinza” para falar a língua dos adultos. E mais que isso, a academia tinha recompensado seu legítimo esforço de escrever tantos bons e primorosos livros tesudos fora de seu país. Sabia, claro, que havia certo fetiche na imagem do autor latino e suas palavras lascivas, mas quem se importava. Ele queria mesmo era o tamanho do cheque que entraria gordo em sua conta. A pandemia tinha fodido a todes, mas assim como os vibradores, seus livros vendiam aos montes direto para as casas isoladas da Europa. Ficou surpreso quando os emails da editora começaram a chegar do Brasil. Pedidos e mais pedidos para que retornasse a sua cidade natal no interior do sul do país, onde queriam fazer uma espécie de célebre homenagem. A mesma cidade que o chutou pra fora como um devasso vagabundo, agora queria fazer uma menção honrosa ao seu sacana preferido. O prefeito e toda a população com enormes cartas pedindo encarecidamente que viajasse de volta pra lá por 15 dias, testes PCR pagos, hotel pago e tudo quanto é serventia que se possa oferecer a um homem tão querido e desejado. Ele tinha todos os motivos para negar o fogoso convite, mas como disse antes, a sua arrogância e seu narcisismo estavam especialmente aflorados e lhe parecia muito confortante poder mandar à merda os poucos habitantes que tinham feito da sua infância e adolescência um pequeno inferno. Poder lhes olhar com soberba e ostentar seu sucesso europeu e sua solidão fria. Assim como se gabar por ter sido o motivo de milhares de siriricas e punhetas raivosas dos cidadãos invejosos a partir dos seus livros. Principalmente o famigerado e premiado livro, inspirado na vida sexual de uma cidade pequena cheia de pudor e hipocrisia. Sua cidade. E isso apenas ele e os poucos habitantes sabiam.

Adiou o tempo que conseguiu, mas acabou, agora recebendo ainda um cachê especial pra isso, viajando para a pequena cidade. No avião, entre as máscaras e o álcool gel que passava nervosamente em tudo, teve o primeiro frio na barriga em de fato encarar todo aquele passado que tanto renegou. Imaginava toda a cidade se aproximando dele, como abutres, querendo tomar o seu sucesso e essa imagem lhe dava calafrios. Mas agora era tarde demais para desistir. Tomava uma dose de calmante, pedia para a aeromoça outra dose de whisky e trancava suas inseguranças no fundo de sua alma. Se dizendo que naquela idade não precisava mais delas.

Ao chegar no aeroporto mais próximo, se deparou com o ensolarado dia típico de verão. Sendo recebido pelo calor que os europeus tanto invejavam em seus contos. Suava, como se ele mesmo não soubesse mais suportar um dia quente comum. Por outro lado, não podia evitar em alimentar certo saudosismo de olhar aquele mundo abandonado, como um baú de memórias melancólicas e amorosas. Como belas ruínas vivas do seu passado, agora deteriorando-se com políticas genocidas e valores repugnantes. Pensava que poderia passar por essa viagem como mero observador daquele mundo que não mais lhe dizia respeito, alienado dele. Apenas julgando sobriamente e colhendo anedotas para fazer rir seus colegas portugueses. Mas nós sabemos que não será assim. Enquanto esperava o carro, não se abismou com as várias pessoas sem máscara ou com os tolos comentários anti-vacina dos pedestres. Não queria lhes dar nem o valor do seu descontentamento. Ria e seguia em frente. Um carro bonito veio então lhe buscar para a curta viagem até a cidade. O motorista era um velho conhecido da escola. Parecia muito animado, tentava se aproximar o tempo todo, querendo tocá-lo. Ele se desvencilhava constrangido. Começava falando que estava muito honrado, que nunca imaginou que teria estudado com alguém tão famoso internacionalmente. Depois perguntava sobre as bucetas na Europa, um desejo inconveniente de saber de suas transas, se tinham putas, assumindo que sua vida deveria ser um frenesi despudorado. Cortado esse assunto, que até mesmo para o autor tinha conotações vulgares e baixas demais, o motorista então fez a estranha proposta que deixou tudo ainda mais confuso. Passaram já da entrada da cidade com seu enorme e brega letreiro, faltavam alguns minutos para chegar no único pequeno hotel, quando o motorista parou inesperadamente o carro. Se virou para ele e num tom baixo lhe falou: “Olha, minha mulher e eu gostamos muito do que você escreveu. Ela também era da nossa turma, não sei se você lembra? — Ele lembrava. — Nós temos um acordo. Eu disse que se você aceitasse mesmo vir, eu deixava você comer ela. Desde que eu possa assistir, claro. Não sou só cornudo também!” E começou a rir nervoso. O autor não conseguia falar nada, sem acreditar na proposta que o aquele antigo colega, valentão e bruto, agora lhe fazia com as faces coradas e as mãos ansiosas. “Quer que eu coma a sua mulher?” perguntou, pensando que podia ser algum tipo de sacanagem. “Quero”, o motorista respondeu vermelho. Puxou uma foto dela da carteira e o entregou. “Ó, é bonita ela. Você vai gostar. E o cu dela…”, mas foi interrompido pelo autor, agora sério. “Querido, eu não vou fazer isso. Vamos cortar essa conversa aqui. Eu sinto muito. Eu posso ser um autor de histórias eróticas, mas é meu trabalho. Eu não me disponho a esse tipo de serviço. Mande felicidades a sua mulher.” O motorista retomou o caminho, calado, deixando-o na porta do hotel sem lhe dizer mais nenhuma palavra, magoado. O escritor, agora com as malas embaixo do braço, ria sozinho pensando que amigo nenhum no mundo iria acreditar no ocorrido. Convencido de que tinha acabado de viver o desperdício de uma estapafúrdia história. Mas ela estava apenas começando.

Na recepção, todos os cinco funcionários do hotel lhe esperavam com flores e um cartaz de boas vindas. A recepcionista quase derrubou os papéis do pequeno balcão tentando se aproximar dele. Um jovem adulto alto e malhado tomou as malas de suas mãos e o seguiu quase colado em seu ombro. O dono do hotel se apresentou e lhe ofereceu de beber alguma coisa no bar, segurando sua mão firme por um tempo constrangedoramente alongado. “Vocês aqui não tem covid? Estão vacinados?” Perguntou se afastando, com ácido deboche. Todos gargalharam. Ele ficou sério. A recepcionista então, debruçada outra vez no balcão, pressionando os peitos apertados no decote, ficou subitamente séria e concordou com a cabeça. Numa tentativa de mudar radicalmente de lado, embora sua máscara ainda estivesse pendurada na orelha. O autor agradeceu a estranha recepção e informou que queria tirar um tempo no quarto até se habituar ao novo fuso. Nenhum deles conseguiu conter a expressão decepcionada. Mas lhe entregaram as chaves e o rapaz forte o seguiu, carregando suas malas.

O quarto era pequeno, porém agradável. Tudo cheirando a novo. O rapaz deixou suas malas ao lado da cama e permaneceu parado. O escritor começou a higienizar uma ou outra coisa, abrindo a bolsa de mão, até se dar conta que o rapaz não tinha ido embora. Permanecia com os olhos vidrados no autor. Sedentos. O escritor o encarou, interrogativo. Nisso o rapaz fechou a porta e começou a desabotoar as calças. “Ei, ei, ei” disse o escritor, “o que você está fazendo?”. “Tenho um pau bonito, veiudo, caceta grande mesmo, igualzinho do seu conto. Eu queria te mostrar”. E colocou a pica pra fora, de algum modo estranhamente fiel a descrição. O autor o achou — e se reprovava moralmente por isso — excitante. O rapaz se aproximou com o pau balançando entre as pernas. “Quer tocar? Passa a mão nele.” O autor tocou o pau do rapaz, duro que nem pedra. Os olhos do jovem brilharam, emocionados. “Eu não posso acreditar que é mesmo você” ele disse. “Não vamos entrar nessa” respondeu o escritor. O rapaz beijou sua boca, tinha gosto daquelas balas mentex. Os dois se beijaram, o autor apertando a bunda empinada do jovem, o jovem metendo a mão nas calças do autor. “Eu quero chupar você” ele pediu ao rapaz. Aquele pau lustroso diante dele pedia sua boca. Não parecia tão ruim estar metido naquela cidade e ser recebido assim tão fervorosamente. Puxou uma camisinha e colocou na pica do jovem, que já estava quase gozando de antecipação. “Você vai mesmo fazer isso?” perguntava e perguntava ansioso. O escritor começou a chupá-lo. O jovem em pé, ele sentado na cama. O abdômen malhado exposto e suado em sua frente. As mãos calejadas segurando seus fios grisalhos. Chupou e chupou até ouvir batidas fortes na porta. Ignorou por um tempo e seguiu com a boca engolindo aquele suculento pau, da cabeça à base. Lambendo a glande e segurando nas bolas, com seus lindos pelos loiros. Até que a porta abriu num grito agudo, feminino.

O rapaz se afastou no susto. O escritor mal teve tempo de fechar a boca. Virou boquiaberto e um tanto assustado para a mulher de seus 40 anos parada diante da porta. “Eu devia imaginar que você gostaria de ser recebido assim” ela lhe disse. Era uma antiga namorada. Usava um batom rosa, os cabelos escovados e tingidos de ruivo. Nunca foi ruiva. Mas se a tivesse conhecido agora poderia pensar que sempre foi assim. Gorda, com os belos peitos num decote florido, poderia dizer que ainda mais bonita do que tinha sido antes. “A idade lhe cai bem” falou o escritor, secando a baba do próprio queixo. O rapaz virou para ele como se nada houvesse, como se o susto tivesse sido um estranho reflexo. “Não vai terminar? Sua boca é tão gostosa” disse o jovem. Ele olhou incrédulo, pra sua surpresa a mulher — sua ex que uma vez lhe repreendeu por ter escrito sobre como seu cu era lindo dentro de um poeminha de amor, ela mesma — entrou e fechou a porta atrás de si. “Termine. Eu quero olhar. Depois o garoto sai, que é a minha vez.”

Enquanto terminava de chupar o rapaz, agora chorando de emoção e gemendo — quase performando — diante da mulher, o escritor não conseguia pensar que mais uma vez a vida lhe parecia sair das páginas e que naquela cidade que imaginava olhares hipócritas e vexatórios, pudicos, agora o recebia salivante e lasciva. “Pobre motorista”, pensou quando o rapaz gozou e a ex-namorada corada de tesão começou a tirar a camisa, ” ele bem poderia ter vindo e trazido sua esposa. No final não parecia mais tão absurdo assim”. Apesar de que gostaria que o reencontro com aquele velho amor fosse em outros termos, como já tinha imaginado tantas vezes antes, seu retorno, uma longa conversa sobre como a vida dava voltas, onde falaria orgulhoso que escrever sobre cus lindos como o dela lhe levaram muito longe e ela iria rir sem graça. Essa fantasia, no entanto, parecia romântica demais agora diante dela e do rapaz que não ia embora. A ex nem se preocupou em enxotá-lo. Já estava de calcinha e sutiã subindo de quatro na cama. A lingerie de oncinha, os cabelos ruivos balançando, o autor quis agradecer. Era uma visão muito linda. Não que o rapaz não fosse, mas por ela existia as cores de um velho afeto. Levantou, começou a beijar as costas da mulher. Sua pele salgada, incrivelmente macia. Passava a língua por seu pescoço, descia beijando e lambendo até chegar na sua bunda, ignorando o rapaz que bebia um copo de água e tocava o próprio pau mole tentando despertá-lo. Ignorando também a pandemia, de alguma forma os ares negacionistas da cidade pareciam ter também afetado seu cérebro, ou talvez fosse seu pau que não fazia tanto sucesso na Europa e que agora queria ser coroado a qualquer custo. Desceu a fina calcinha de oncinha que cobria as nádegas grandes e suculentas da mulher. Olhou seu lindo e famoso cu, que recordava com tanto carinho de sua adolescência. Continua lá, esplêndido. Lambeu delicadamente, a ex-namorada soltou uns gritinhos de prazer. Segui então, descendo o rosto pela sua bunda até chegar em sua buceta. Num contorcionismo quase jovem, com uma virilidade que esquecera que tinha. Beijava e tocava a buceta carnuda na sua antiga e nova amante, úmida e gotejante. “Meta logo em mim homem, eles vem vindo” ela disse. E ele meteu sem se dar conta exatamente do que ela estava dizendo. Pensava só na sua bunda enorme lhe olhando. Segurou ela pela cintura, se recompondo em pé diante dela. Meteu seu pau na sua buceta, tão quente que parecia abraçar sua pica. Metia sentindo a raba dela contra seu quadril. Ela rebolava a bunda, animada. Fodiam de quatro, eram lindos. O jovem, com sua rápida recuperação viril, já batia uma punheta pros dois. Quanto mais metia fundo dentro dela, mais ela gritava. Ele se apoiou um pouco por cima dela, tentando segurar seus peitos enormes que balançavam mais e mais. Sentia a teta saindo do sutiã, o mamilo se revelando. O jovem delirava, chegando mais perto. Tocava os cabelos dela, ora roçava nas costas do escritor. Beijava a nuca suada do escritos, que agora também gemia. Tudo era quente. Então ela começou a dizer coisas estapafúrdias “Você escreveu pensando em mim, não escreveu? Diz que escreveu tudo pensando em mim”. O autor dizia que sim, mentia que sim. Um pouco decepcionado. Voltando a fantasiar que aquele encontro poderia ter alguma intimidade menos nervosa. Tristemente confessando que não era tão delirante assim aquela cena toda como pensou que seria. Mas isso não o impedia de ir se aproximando mais e mais do gozo. O jovem gozava melando todo seu belo abdômen, um jorro voraz, alto. Feito champagne. A mulher agora virou de frente, de modo que ele podia penetrá-la e chupar seus peitos. Podia olhá-la nos seus olhos cintilantes e apaixonados. O amor parecia ter seus resquícios ainda no olhar dela, mesmo naquela insana situação. Ela pegava sua mão e chupava os seus dedos. O autor ia gozar. Sentia o gozo vindo. Seu prêmio, o verdadeiro prêmio. Foi neste momento que a porta, pela terceira vez, foi violada.

Mais uma vez interrompido, agora por quatro pessoas. A secretária, o dono do hotel, mais um homem e uma mulher que não se recordava de ter conhecido. Não pareciam surpresos. “Você precisa vir com a gente” disse o dono do hotel. Ele riu, achando tudo um tanto arbitrário. “Cadê a decência? Não vê que estou no meio de algo?” respondeu. Sua amante gemia como se não tivesse parado. Quase em transe. “Você tem coisas maiores pra fazer. Fique tranquilo, você vai terminar.” Disse a secretária, entusiasmada. Tirou o pau fora das belas coxas da sua ex, que beijou sua boca agradecida e bizarramente sem nenhum espanto ou pudor diante das pessoas na porta. Agora todos do quarto fitavam a pica amolecida do escritor. Ele tentou se vestir mas foi segurado pela amante e pelo rapaz. “Não precisa” diziam todos e o arrastaram pra fora.

Deveria estar apavorado, mas por algum motivo gargalhava. Não é possível que aquelas pessoas queriam lhe levar nu para praça pública, deveria ser a pegadinha mais absurda de todas as pegadinhas já pregadas. Imaginava se deparar com um pastor ou uma rede muito tosca de televisão, com uma enorme equipe pronta para gravar seu pau mole na pequena cidade sulista. A imagem perfeita do traidor dos seus valores puritanos, um autor lascivo e sua pica nada viril. Mas quando as portas da hotelaria se abriram, se deparou com todos ou quase todos -possivelmente os poucos mil habitantes pareciam estar ali, mas não tinha como ter toda certeza – todos nus. Velhas senhoras e senhores enrugados até jovens cheies de espinhas, nus em unanimidade. Tudo quanto é peito e xota e caceta exposta ali na luz do dia. Reconhecia algumas pessoas, professoras do Colégio, o motorista e sua esposa, o prefeito, a garota do posto de gasolina, cinco colegas de classe, duas tias, três primos de algum grau. Muita gente e toda a gente nua com os olhos nele. Os olhos brilhando e as bocas salivando. Uma enorme placa dizendo bem-vindo com uma série de desenhos obscenos. Ele ficou imóvel e as pessoas começaram a se aproximar devagar. Atrás dele, o rapaz e sua ex amante se beijavam e diziam coisas como “Provem, ele é mesmo delicioso”. As mãos esticadas. Uma mulher magra de cabelos curtos gritava para se organizarem em filas enquanto pulava sacudindo os pequenos peitos. Um senhor barrigudo com seu pau grosso, surpreendentemente ereto, oferecia pílulas azuis gratuitamente. Algumas pessoas se pegavam entre si, outras se masturbavam olhando para ele fixamente. “Olhem”, o escritor finalmente gritou pra multidão excitada, “Eu não posso dar conta de todos de uma vez. Eu sinto muito. Eu sou só um velho escritor”. O prefeito lhe olhou sério: “Temos uma semana e você não vai a lugar nenhum”. A cidade comemorou em uníssono. As mil mãos, tetas, picas, cus e bucetas se aproximando. “Será uma longa semana”, pensou.

* * *

Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho da Camila no instragram.

Compartilhe sua opinião