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Feios Felizes

Nunca me achei o mais bonito dos meus amigos. Embora seja um pouco narcisista e até mesmo suavemente egoísta, jamais tive a pretensão de querer ser o mais atraente da minha roda. Contentava em “ter que conhecer a pessoa primeiro” e lutar para sair da “friendzone” para poder ter alguma chance de conquistar a batalha na faixa de Gaza do amor. Não que pudessem me apelidar de patinho feio ou Shrek, também não chegava a tanto. Mas não dá para negar que levei alguns foras ao longo da vida.

Em negociação com a minha auto estima, acho que Afrodite, Inês ou alguma outra Deusa do amor me deu mais acertos que foras quando o assunto era pegação. Talvez o fato de saber que nunca seria o Brad Pitt do lugar fez com que eu me tornasse mais comunicativo, e isso tenha me ajudado a desenvolver aquilo que os cariocas tanto gostam de chamar de “malandragem”. Cada um vai à luta com o que tem e minha arma do sex appeal sempre esteve mais para uma daquelas lanças medievais do que para uma AK47.

Conheço um casal onde ambos são dignos de estampar uma campanha de perfume da Carolina Herrera de tão bonitos. Certa vez, através de amigos, cometi o erro de ir para a balada com eles. Enquanto meu grupo e eu dançávamos, ríamos e bebíamos, eles continuavam lá: lindos e intocáveis. Posso dizer que a balada inteira ia até o chão ao som genérico de qualquer diva pop, menos o casal de bonitos. Eles se recusavam a mexer mais de dois membros por vez. Rebolar? Jamais. Twerk? O que é isso. Minha bisavó se moveu mais no próprio funeral que aqueles dois lindos na pista de dança.

O que realmente me incomodava eram as pessoas que alimentavam o voraz ego dos dois. Como eles gostavam de se sentir olhados. A sensação que ambos tinham quando outros grupos fitavam seus rostos e corpos esculturais era orgástica, muito mais prazerosa que qualquer ecstasy conseguiria proporcionar. Sentiam-se desejados a cada olhar mais cerrado que recebiam e amavam isso. Só que esse júbilo era tão internalizado que não dava pra ver sequer uma gota de alegria transpirando por suas glandes. Nunca vi a cor do marfim dos dentes deles.

Imagino que na cabeça deles quanto mais blasé você for, mais atraente você é, quanto mais monótono, mais sexy. Talvez os dois estivessem brigados? Não sei. Talvez eles só sejam extremamente sem graça? Com certeza. O que posso falar é que, para mim, a festa foi ótima: fiz vários amigos, beijei alguns deles e me diverti mesmo não sendo a reencarnação de Apolo, o deus grego da Beleza. Como diria minha vó “Quem não tem cão caça com gato e quem não tem KY fode com azeite”. Alguém me traz mais azeite.

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Ilustrador convidado:

Eduardo da Matta

Designer carioca com diversas frentes de atuação; fotografia analogica, digital, audiovisual e artes plásticas. Minha meta é captar as peculiaridades do cotidiano e do zeitgeist e aplicá-las no projeto que estiver atuando, almejo um ponto de vista fora do convencional. Em cada trabalho que eu faço, fica um pouco de mim.

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Crônicas da Quarentena:

Imaginem por um momento um náufrago, que preso em uma ilha deserta, lança ao mar infinito mensagens em garrafas. O que esse indivíduo busca? Salvação ou apenas um motivo para ter esperança? Sobre as motivações dessa figura imaginária nada se pode dizer. No entanto, nós do TREVOUS sabemos que algo desse quadro se conecta com o nosso novo projeto “Crônicas da Quarentena: O Isolamento do Processo”. Logo logo começará a rolar, já que há algum tempo as engrenagens estão girando.

A ideia do “Crônicas”, surgiu em meio a esse momento traumático, onde estamos acuados tanto pela pandemia quanto pelo caos político. Mas mesmo vivendo esses tempos tão estranhos, tão loucos, tão surreais, há aqueles que ainda insistem, contra todas as possibilidades, a prosseguir. Como a história já nos mostrou uma e outra vez que nenhuma crise foi capaz de apagar o desejo humano pela vida e pelo exprimir que, dentre outras formas de manifestações, pode se concretizar no fazer artístico. Sim, há ainda uma, ou melhor muitas, chamas a brilhar em meio as sombras que nos cercam.

Mas obviamente, a arte tem mil formas e faces, e nós do TREVOUS não seriamos, no momento, capazes de abraçar a todas. Por isso, pelo amor compartilhado que todos sentimos pela 7ª arte — o nosso próprio “norvana” —, optamos por no universo do audiovisual. Assim, por meio de mensagens, não em garrafas, mas por Whatsapp, e-mail e afins; convidamos cineastas amadores e profissionais para que, em um voto de confiança, não só nos enviassem alguns trabalhos e experiências gerados em plena quarentena, como também compartilhassem, em forma de texto, um pouco dos seus processos de criação, para que nós pudéssemos compartilhar com vocês. Não podemos negar que todos ficamos muito surpresos e felizes com o quanto as pessoas — algumas que nem conhecíamos — abraçaram a ideia. Isso foi realmente muito estimulante.

Por isso agradecemos, não só por terem encontrado nossas mensagens flutuantes, ou por terem depositado tanta confiança em nós, mas sobretudo por nos mostrar que o medo e o horror não são suficientes para deter essa vontade por criar, por se expressar e por viver. Aqueles que não estão inteirados não se preocupem. Neste sábado, dia 07, vocês poderão testemunhar com seus próprios olhos. Assim, esperamos que tanto os que embarcaram nessa nossa viagem, talvez um tanto megalomaníaca, e aqueles que estarão dispostos a acompanhar aos sábados, semana a semana, a exposição desses curtas e processos, gostem o resultado final. No fim, temos esperança que com o “Crônicas da Quarentena” mostrar que esse mar infinito que insiste em nos distanciar, talvez não seja tão infinito assim.

Bom dia, Verônica – uma obra necessária

Ninguém passa por Bom dia, Verônica imune. Impossível não sentir um monte coisas ao assistir a série. Principalmente, horror. Formatada como um suspense policial, a original da Netflix usa de diversas alegorias para mergulhar no tema da violência contra a mulher, na podridão do sistema e na corrupção policial.

Antes de tudo, queria contar como surgiu a obra. É importante para entendermos suas minúcias. Tudo começou com um match inesperado no festival literário de Extrema, Minas Geras onde Raphael Montes, já renomado escritor de ficção policial, conheceu a criminóloga Ilana Casoy, dedicada a estudar a mente criminosas, principalmente crimes de família como os do Richthofen e assassinatos em série. Depois de um acalorado debate no evento, Raphael fez um convite para os dois escreverem juntos uma obra ficção. Foi a primeira de Ilana (para conhecer melhor da história por trás do livro vale ver a entrevista de Ilana Casoy no instagram).

 

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Uma publicação compartilhada por Manuela Xavier (@manuelaxavier) em

Com esse casamento, a narrativa foi desenhada para unir o tema central do trabalho de cada um: psicopatas pelo lado de Raphael e assassinos em série pelo lado de Ilana. Inicialmente, o livro foi publicado com o pseudônimo de Andrea Kilmore, uma policial que não poderia revelar sua identidade. A ideia era ampliar o mistério e testar a estória além dos já conhecidos nomes dos autores.

Pela qualidade narrativa e minúcias descritivas que já fornecem ao leitor uma série de imagens prontas, o livro acabou chegando na mão dos produtores da Netflix e tornou-se série. E que série! Possivelmente a série brasileira mais eletrizante de todos os tempos.

Para entender o processo de sua transformação num produto Netflix, li o livro antes. Precisava sentir o sabor da adaptação. Nesse ponto, já que sou nova por aqui, preciso me apresentar: me chamo Daniella Burle, gosto de dizer que sou escritora porque já abarca tudo que pode ser escrito (literatura, dramaturgia, roteiro) e também cineasta que já engloba tudo do universo audiovisual. Sou muitas coisas, talvez, porque ainda não seja muito nada. Ou porque somos múltiplos mesmo. Ainda estou descobrindo. Escrever sobre esse universo, por isso mesmo, é uma delícia para mim. Então, muito prazer!

Voltando a adaptação, confesso que gostei mais da série. Normalmente os livros são mais amados. Nesse caso, como os dois autores fizeram a adaptação, penso que a obra evoluiu bastante. A mudança de caráter da personagem Verônica (na série interpretada por Tainá Müller), por exemplo, foi fundamental para o que propõe a trama. No livro ela não é tão boa moça, nem tão dedicada à família. Outra novidade é o surgimento do conflito do Cosme Damião que envolve a delegada Anita (Elisa Volpatto), personagem inexistente no livro. Com esse gancho, os autores conseguiram abrir a narrativa, criando espaço para aprofundar nas próximas temporadas.

Em termos técnicos, a série surpreende e coloca o mercado brasileiro num patamar elevado. Chega a dar orgulho de ver uma produção nacional tão rica em detalhes!

O roteiro é fluido, bem costurado, com poucas pontas soltas. A única que encontrei foi a comunicação através de bilhetes pela lata do lixo entre Verônica (Tainá Müller) e Janete (Camila Morgado). Como a escrivã saberia que seria Janete a trazer o lixo para fora de casa? Ainda mais depois de Brandão (Eduardo Moscovis) lhe trancafiar em casa? Para mim, não colou muito. Ficou meio irreal. Por outro lado, palmas infinitas para os roteiristas não fazerem recurso de explicação narrativa por meio voice over. Depois de José Padilha exagerar no recurso e diversos autores o imitarem, como ocorre na série O Negócio da HBO, criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, parecia que o mercado brasileiro só sabia escrever séries assim. Ou seja: grande vitória!

Outro ponto alto é a fotografia. O jogo de luz e contraste entre planos é bem excitante. Assim como a montagem. A opção estética se volta para contrapor sequências de planos fechados, com ultra abertos mostrando panoramicamente a cidade. Os quadros são muito bem escolhidos e a saturação varia de acordo com a narrativa, não há um preciosismo, que considero um tanto quanto desnecessário, de manter a fotografia num tom similar. Só o excesso de close up cansou um pouco, confesso.

Uma visão aproximada dos olhos de Janete, sendo que o seu esquerdo tem uma marca roxa de agressãouma visão do alto da zona oeste da cidade de São Paulo

Também fiquei apaixonada pela direção de arte. Janete (Camila Morgado) é muito bem compreendida pela cenografia da sua casa e pelos figurinos. Pirei na copa de azulejos azuis, grades de ferro retorcidos e filtro com botijão de água rosa. E as camisolas da personagem? Elas são um elemento aparentemente tão simples, mas capaz de comunicar tão bem a inocência de uma mulher atraída e aprisionada pelo clássico conto do príncipe encantando.

Verônica conversando com Janete que usa uma camisola. Ambas estão sentadas na mesa da sala de Janete.Janete, a noite, perto da estante da sala onde se encontra uma cruz.

Falando desse casal assombroso, Camila Morgado e Eduardo Moscovis constroem uma interpretação realista, precisa, expressando magnificamente bem o horror dessa união. Não há exageros, os movimentos e expressões são naturais. Camila não cai no lugar de uma interpretação vitimista, enquanto Moscovis não apela para uma brutalidade gratuita. Tudo é comunicado com o olhar. Inclusive, essa é tática de todos os personagens. Bonito de ver essa teatralidade de base Stanislávski.

Apesar de uma tema indigesto e cheio de gatilhos para as mulheres – a série não deixa nenhum ar de esperança, o sistema é podre assim como vemos nos noticiários – Bom dia, Verônica é uma obra necessária. Não podemos mais permanecer inertes diante de tantos abusos, corrupções e um Estado que não protege as mulheres. Ontem mesmo assistimos com horror o vídeo da audiência de uma jovem estuprada e a sugestão por parte do Ministério Público de um crime inexistente – o estupro culposo. Bom dia, Verônica é sobre isso. É o grito de justiça de uma mulher que está dentro do sistema e resolve agir sozinha porque ela mesma, como todas nós, estamos aprisionadas.

E você, me conta: o que achou de Bom dia, Verônica? Assistiu de uma só vez? Passou mal assistindo? Sentiu sede de vingança?

Laranja Mecânica

É um fedorento e velho mundo. Um mundo antigo travestido de futuro, mas doloroso e velho, cada vez mais e mais moribundo. Os homens que amamos não são homens, muito menos são capazes de amar, eu pensava. Como podemos viver o tempo todo apavorados? Sempre assombrados pela ideia de que abriremos a porta para um lobo vestido de cordeiro. Então deixamos de abrir as portas. Eu deixei, eu não abria mais portas. Queria existir entre minhas paredes, com meu pequeno grupo, meu pequeno inferno. Minha família e nosso pequeno inferno. Eu queria segurança. Queria ser bom. Todos queremos ser bons e nos empenhamos muito. Nos sentimos doentes e perdidos e queremos o paraíso. Queremos o fim da sujeira e da dor. Mas é tão insuportavelmente difícil. E eu acreditava, até então, que era impossível, que eu deveria ser indigno do deleite, da beleza, do sublime. Ou melhor, que para alcançar era preciso um enorme sacrifício, uma enorme resignação, uma re-educação. Meus pais não sabiam amar, meus irmãos não sabem amar e os meus sobrinhos vão nascer igualmente brutos e estúpidos sem nunca saber. Você sabe amar, meu caro ou cara leitore? Eu estava fodido. Pensava que estava destinado a sofrer e sofrer e no final encontrar com alguém que me fizesse sofrer mais um pouco. Quando vi o mundo se trancafiar mais ainda, se fechar mais ainda, me confinar mais ainda no pequeno apartamento com meus pais, eu percebi: o pior parecia estar começando. A justiça era um sonho alvejado demais, desbotado demais, inútil demais. Não tocamos mais nesta palavra. Estava confinada às palavras proibidas do nosso pequeno reino. Ou melhor, do nosso pequeno país. Futurista e rastejante. Com ideias novas e decrépitas.

Todos os dias eu, o narrador a quem vos fala, me perguntava como poderia me tornar mais e mais pervertido? Mais e mais distante do que algum dia pensei que poderia experimentar de sublime, de doce, de formoso. Enquanto meus amigos, cada vez mais, se tornavam igualmente violentos e irritadiços. O ódio parecia nossa nova pátria, nossa língua mãe. Era o ódio quem jorrava leite doce em nossas bocas frustradas. Só sabíamos falar através dele, cantá-lo e cantá-lo em todos os meios que podíamos acessar dentro do nosso triste confinamento. Xingar e humilhar, rugir ultraviolência em todas as redes, para todas as pessoas, em suas caixas privadas, nos comentários abertos. Só nos importava dar vazão à aquela sensação perturbadora de que era preciso saber caçar ou ser caçado.

Eu, nessa época, tinha apenas um curto período de liberdade no mundo real, quando minha mãe – definhando de pavor – me dava uns poucos trocados e uma breve lista de compras que eu deveria buscar no mercado. Nesses dias, ela e meu pai, incapazes de pôr os pés na rua, confiavam a mim um punhado de dinheiro e a chance de ver o céu. Confiança que acontecia apenas uma ou – quando com muita sorte – duas vezes por mês. Nessa especial ocasião, me vestia com minhas melhores vestes – que quase apodreciam em meu armário – e minha mais bela e higienizada máscara para desbravar o mundo inóspito do lado de fora.

No caminho até o mercado, eu experienciava um misto de encantamento e pavor. Olhar a cidade, mais e mais abandonada às moscas, era como observar um velho amigo a se decompor. Do outro lado, a brisa forte contra meu rosto, o calor do sol, o céu que ainda insistia em existir grandioso entre os prédios – apesar de existirem tão poucas pessoas dignas de admirá-lo – eram o mais próximo que eu podia chegar do prazer. No mercado em si, todas as pessoas se evitavam, feito ratos correndo paranóicos. Eu brincava, vez ou outra, de tossir desenfreadamente na fila de espera do caixa e olhar como as pessoas fugiam e me xingavam, como se pudesse ser eu mesmo a encarnação do demônio, da doença, da dor. Às vezes, era arrastado para fora nas mãos duras dos seguranças. O que era, de algum modo, uma forma de ser tocado. Tentava, no entanto, manter alguma prudência ou cautela. Afinal, com o passar dos meses, percebia que caso o mercado decidisse não abrir mais as portas para mim, seria obrigado a reportar pros meus pais e provavelmente perderia a chance de ir à rua pelo menos uma vez por mês. E aquilo era algo que domava todos os meus impulsos de discórdia, de ceder ao caos e a desconfiança que cresciam nas ruas. Aquilo era motivo para tentar, ao máximo, parecer correto e bom. Depois do mercado, eu retornava apressado à minha casa e higienizava cuidadosamente as compras enquanto ouvia meu pai resmungar sobre como minhas roupas eram ridículas, ou como minhas escolhas profissionais não levariam a lugar algum, como afinal toda a juventude era responsável pela praga e pela desordem do país. Ofensas, das quais minha mãe só sabia fazer coro e chorar, e que se estendiam ininterruptas pelos dias seguintes ao mercado, até apagar totalmente a pequena paz do silêncio terrível das ruas.

Um belo dia, no entanto, após receber a quantia exata de dinheiro para as compras, descia minha rua, como sempre costumava descer, quando ouvi uma música forte saindo de dentro de uma das janelas. A música veio me resgatar. Me puxava pra fora daquela rua vazia e estúpida. Como uma enxurrada de saudade batendo contra meu peito, como um turbilhão de palavras que eu esqueci que era capaz de pensar. Uma sensação violenta parecia me rasgar por dentro, me deixando um tanto tonto, quase nauseado com tamanha beleza. Eu me apoiei num poste, tentando de alguma forma recuperar a sensatez, mas a música inspirava em mim a vontade violenta de não existir mais naquele mundo, de não ser mais aquela pessoa covarde, incapaz de digerir aquela música e aquela saudade. Sentia minha cabeça pesar, gotas e gotas de suor pingavam da minha testa, minha visão ficava turva. Tudo escurecia, eu pensei que ia desmaiar no asfalto, que tudo iria se apagar até só restar aquela música ecoando e ecoando em minha cabeça. Então a música cessou. Uma mão firme, coberta por uma luva de plástico, puxou a gola da minha camisa. “Você está bem rapaz? Não está com falta de ar, está? Devo chamar um médico?” dizia o homem velho de óculos redondos e máscara branca. “O senhor devia ter mais cuidado em se aproximar de alguém em tempos como esse, pode ser contagioso. E alguém da sua idade não se sairia muito bem, seu velho idiota!”, retruquei e o empurrei pra longe. Ele caiu tropeçando pela calçada. Dei-lhe em chute nas costas antes que pudesse ir embora, ele urrou de dor e correu de volta para dentro de algum prédio de onde nunca devia ter saído. O meu momento tinha acabado. Minha paz foi interrompida. Eu agora precisava voltar à vida, à ida ao mercado e depois à volta pra casa, pro inferno. E aquele homem queria saber se eu estava bem? Alguém está bem, bom senhor? Que pergunta mais estúpida. Tudo parecia novamente perdido, a música já não era nem algo que poderia lembrar ou reproduzir pra alguém que quisesse saber qual era, como era ou de onde vinha. Eu recuperei o fôlego e a raiva enquanto cambaleava para longe da rua e do homem velho, de volta ao meu caminho e minha lista de compras.

Dobrando a esquina que me levaria ao mercado, o inesperado – novamente – me aconteceu. Agora, no entanto, o extraordinário apareceu entre as ruínas depravadas da cidade, de forma silenciosa. Nenhuma trombeta ou trombone soando, nenhuma sinfonia. Apenas um jovem caminhando em minha direção, quase que flutuando, quase que dançando. Talvez estivesse cantarolando algo embaixo da máscara, mas não podia ouvi-lo. Apenas o vi aparecer do outro lado da rua, brilhando, como se iluminado por um enorme holofote que ofuscava tudo em seu entorno. Se movia gracioso e leve diante dos meus olhos e era impossível não me paralisar na presença dele. Ele então me olhou, com olhos luminosos e determinados de rapina. Senti calafrios, senti todos os meus pelos levantando, minha pele ficou áspera. “Cordeiro ou lobo?”, eu me perguntava: “Cordeiro ou lobo?” Mas com aquela determinação, eu já podia imaginar a resposta. Pedia que Deus fosse bom comigo, que não tivesse posto em meu caminho um anjo exterminador. Sentia que deveria fugir, mas não conseguia tirar os olhos daquele jovem, sereno e belo, marchando formoso até mim. Quando me alcançou, parou em minha frente e apontou para uma ruela abandonada. Eu só pude segui-lo para dentro da pequena rua, para longe do mercado, das pessoas paranóicas, de tudo. A ruela era sombria, cercada por grandes prédios cinzas com grandes muros altos que impediam a incidência do sol e sem portas, o que indicava ser apenas os fundos esquecidos da privacidade de alguém. Uma noite no meio da tarde. Um canto escuro em que podíamos ser esquecidos. Um terreno abandonado, cheio de entulho, com um ou outro animal peçonhento dormindo enfiado nos buracos. Mas o jovem dançava pelas poças, agora mais vigoroso, como se fosse familiarizado com aquele palco maltrapilho. Chegando ao final da rua, como que para coroar seu corajoso número , ele se virou para mim e retirou, em um só gesto, a máscara. Eu gritei, espantado. Minha face tomada de um horror absoluto. Era o homem mais bonito que já tinha visto em toda minha vida.

As náuseas voltaram outra vez, comecei a suar frio. Ele era tão doce e bonito que sentia como se fosse vomitar. Ele me abraçou forte contra seu corpo, seu rosto sem máscara grudado no meu. Soltei meu peso nos braços daquele homem desconhecido enquanto meu peito era novamente invadido pela vontade de não existir mais naquele mundo. O homem, então, retirou a máscara do meu rosto e secou delicadamente as lágrimas que escorriam em minha face. Tive o impulso de lhe dizer que estávamos fazendo uma coisa terrivelmente errada e que, se fôssemos pegos, eu talvez não pudesse mais sair ou talvez fôssemos multados, ou agredidos, ou mesmo mortos. Que ninguém seria capaz de compreender e que eu mesmo era incapaz de compreender o que estávamos fazendo. “Eu não sei mais dançar, eu não sei mais ser bom”, as palavras escaparam da minha boca, chorosas, como um pequeno garoto mimado. Me senti ridículo. Mas a boca do homem tocou a minha em um beijo gostoso e quente. Eu não sentia um beijo há milênios. Nenhum lábio nem roçou nos meus. Não tinha nem mais a memória da última vez que tinha sido beijado. Desesperado e ansioso, eu me agarrei nele, bruto, puxando seu rosto pra perto, entranhando meus dedos em seu cabelo. Precisava sugá-lo, ter ele inteiro e rápido, antes que ele fugisse, antes que desaparecesse, antes que ele percebesse que eu não sabia fazer nada, que eu havia desaprendido tudo sobre doçura, sobre sexo, sobre prazer. E sentia que era preciso correr, pois logo ele perceberia e eu ficaria sozinho outra vez. Minha sede era tanta que ele respondeu se afastando: “Não é assim. Deixa eu te conduzir. Eu vou lhe ensinar.” E aquelas palavras tiravam o peso nefasto dos meus ombros de precisar saber tudo. Finalmente alguém me cedia a mais doce ignorância. Eu poderia imitá-lo sem medo. Gaguejar e tremer, sem sofrer ameaças. Não precisava ser único, memorável, original. Poderia depender dele, acompanhar ele, apenas. Ele passava a mão suave em meu rosto, eu o replicava. Ele tirava devagar minha camisa, eu tirava delicado sua calça. Respirávamos cada vez mais juntos, sincronizados. Eu aprendia a ser cada vez mais gracioso, inspirado na leveza dele. Quando finalmente ficamos nus, completamente indefesos e expostos, senti novamente como se ele se iluminasse. Como se toda a quinquilharia a nossa volta reluzisse. Até a pior sujeira ficava bela ao lado dele. Ali, naquele clarão que ele emanava, eu podia querer existir. Eu poderia quase esquecer que deveria viver sofrendo.

Eu recuei deslumbrado com seu corpo, sua barriga, suas coxas, seu pau duro e vigoroso diante de mim. Queria mordê-lo, arrancar um pedaço dele, algo que pudesse ficar pra sempre comigo. Algo para nunca esquecê-lo. Ele primeiro colocou dois dedos em minha boca para que eu a abrisse. Senti o gosto de sua pele em minha língua. Principiei a chupar seus dedos, querendo mostrar que tinha sede, tinha fome, que estava pronto. Então me colocou de joelhos no chão de asfalto. Meus joelhos nus doíam contra o chão duro, mas eu não me importava desde que ele acariciasse gentilmente meus cabelos. Agora estava diante do seu pau, grande e ereto. Comecei lhe beijando, bem na cabeça e lambi sua glande devagar. Com minhas mãos segurava na base, firme. Seu pau ia ficando mais e mais molhado com minha saliva. Em seguida, fui subindo e descendo minha mão por todo comprimento dele. Tudo que era tensão e defesa em mim, agora relaxava. Abri bem minha boca e tentei chupá-lo até a base. Quando senti sua piroca inteira dentro da minha boca foi como se a gravidade fosse deixada pra trás. Meus joelhos não mais doíam. Eu estava em êxtase. O tocava vigorosamente, passava as mãos por todo seu pau, apertava também suas bolas. Eu estava de volta, vivo, presente, confiante. Brincava de lamber suas coxas e ir lambendo cada vez mais entre suas pernas. Descia a língua por seu pau, suas bolas, até quase alcançar seu cu. Seu lindo cu que estava a poucos toques de distância. Ele se agarrava a mim, curvando-se sobre meu corpo. Gemendo, tremendo, sorrindo. A graça divina caia sobre mim. As pernas dele bambeavam. Eu voltei a colocar seu pau dentro da minha boca, o segurando com as duas mãos. Queria seu leite. Queria o sentir jorrar em mim. Me limpar. Me curar de tudo que estava errado, de tudo que era dor. Ele estava quase, eu podia sentir o gozo vindo. A porra pronta para explodir em minha boca. Quando ouvimos o barulho de alguém se aproximando.

Ele me puxou forte, violento para trás de uma caçamba de lixo. Chutando nossas roupas para perto, agora imundas. Ficamos escondidos, ele me cobrindo com seu corpo, até ouvir os passos da pessoa se afastando novamente. Talvez tivéssemos feito muito barulho. Talvez aquela ruela tivesse algum tipo de vigília. Percebi que meus joelhos sangravam um pouco, ralados, em carne viva. Sacrifícios necessários. Ele verificou se a pessoa havia saído. Meu coração ainda palpitava de nervoso. Eu tentava não ceder a toda a raiva que queria voltar a tomar minha cabeça. Tentava segurar meus pés de correrem embora, de esmurrá-lo pra longe. Eu queria o amor, droga. Eu queria queimar minha casa, eu queria queimar minha rua. Eu queria sinfonias e tardes intermináveis com o caralho dele na minha boca. Com as mãos dele me tocando. Eu lutei contra a náusea que parecia querer me dominar. Eu lutei contra o ódio. Ele então me segurou por trás, começou a beijar e mordiscar minhas costas. Meus pelos se arrepiaram novamente, calafrios voltaram pra minha coluna. Minha visão tornou a ficar turva. Ele abriu minha bunda com suas mãos, apertando minhas nádegas. Eu tremi, meu cu latejava. Primeiro me deu um beijo doce. Depois senti a piroca dele roçando devagar nas minhas costas. O meu pau estava cada vez mais duro. Ele subiu e beijou meu pescoço enquanto metia um dedo devagar no meu cu. Eu relaxava mais e mais. Ele metia outro, e mais outro. Eu comecei a bater uma enquanto ele me dedava. Ele me pediu permissão para meter. Eu quase gritei: “Sim! Por favor! Imediatamente!”

O que vou descrever agora beira o indescritível. E você leitore pervetide, que assim como eu quer se aproximar do amor sereno que foi roubado de nós, você não poderá com nenhuma palavra no mundo compreender como é ser penetrado por um homem como esse. O que é senti-lo metendo e metendo em você, poderoso, triunfante, grandioso. Seu quadril batendo contra minha bunda, eu cada vez mais curvado, entregue. Como ele podia ser tão molhado e delicioso? Senti o gozo vindo, para nós dois. Não podia gritar, mas cantava por dentro. Minha alma dançava. A cidade não mais existia. Nossos pés não tocavam mais o chão. O ultragozo, o ultraprazer, agora eu entendia. E eu gozei, jorrei pra fora. Poderia pintar a cidade com minha porra. Poderíamos macular o mundo com nosso triunfo. Gozados e suados, nos abraçamos. Ele abriu um sorriso malicioso. “Por favor, não me machuque”, eu pedi. “Eu não sou esse tipo de monstro”, ele respondeu. Ficamos um bom tempo pelados e abraçados. Eu permiti que tudo em minha cabeça ficasse quieto novamente. Tentando permanecer um pouco mais longe da minha vida medíocre e dolorosa. Da minha luta inútil por ser bom, quando não ser parecia tão mais maravilhoso. Ele então se vestiu e me ajudou a me vestir. Nossas roupas imundas. Nossas máscaras suadas. O dia já estava indo embora, o sol já descia do céu e a rua ficava mais e mais sombria. Eu continuei paralisado um tempo enquanto ele marchava para fora da ruela. Ele cantarolava e dançava, outra vez, pisando em poças de lama. Depois, ele desapareceu da minha vista.

Eu não posso ser mais o mesmo, leitore. Eu não posso suportar mais toda a merda que era despejada sobre mim. A farsa que era obrigado a forjar. Eu peguei o dinheiro do mercado e entrei em uma antiga loja de música. Comprei um velho walkman que – para quem assim como eu desconhecia – é um pequeno aparelho, como um celular ou ipod, onde se pode colocar um cd para tocar. Veja bem, um cd e um walkman era tudo que podia comprar com aquele surrado dinheiro. Eu encontrei a música que ouvi da janela. Ela agora tocava clara na minha cabeça, bastava cantarolar para que a atendente, debochada e desanimada, me indicasse qual era. Era a Nona sinfonia de Ludwig Van Beethoven. Comprei um disco antigo com um compilado de músicas dele. A mulher de máscara da loja continuou tirando sarro de mim, mas no final acabou me oferecendo um desconto. Ninguém mais comprava nada daquela velharia abandonada. Eu coloquei os fones em meus ouvidos. Eu marchei para dentro da escuridão. Nunca mais minha casa. Nunca mais a náusea. Nunca mais o horror. As pessoas fugiam de mim enquanto eu caminhava. Eu estava pronto. Eu podia escolher. Eu me disse que a virtude vem de nós mesmos. É uma escolha que só a nós pertence. E quando um homem perde a capacidade de escolher, deixa de ser homem. Eu não vou me mecanizar. Eu vou procurar por ele.

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Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho Camila no Instagram.

A Apple que matou Shakespeare

A tecnologia atual é uma coisa incrível. Através dela, a humanidade consegue explorar planetas nos quais jamais vai colocar o pé, espalhar fofocas para o outro lado do mundo em menos de um segundo e fazer análises das profundezas de oceanos que, se colocasse o pé, seria esmagada pela pressão. A comunicação foi encurtada de maneira inimaginável há 20 anos. Os celulares viraram praticamente um órgão avulso de cada indivíduo, sendo motivo inclusive de doença — já viu alguém com a tela quebrada? O bicho pega.

A Apple é a líder desse movimento de integração humano-mobile. Seus aparelhos vêm a cada ano mais sofisticados (e os antigos param no lixo cada vez mais rápido). No entanto, por mais avançado que o Iphone seja, parece que alguns defeitos são impossíveis de serem corrigidos pela empresa que é referência em inovação. Muda o tamanho, o processador, a qualidade da tela, da câmera, dos nudes, das fake news, mas todo mundo sabe que a bateria vai sempre continuar horrorosa. Já tive 3 Iphones e posso garantir que, mesmo que agora eles tenham câmera frontal, 4G, rastreador, asa, transfusão de sangue, cozinhar risoto de frutos de mare outros itens surpreendentes, a característica semelhante aos 3 que tive é a curtíssima bateria de todos eles.

Não sei se é por identificação com a marca, gostar do processador ou só seguir a moda mesmo, mas não mudo a marca dos meus celulares há mais de 4 anos e posso afirmar com toda certeza que, em apenas alguns meses, a bateria de todos eles viram mais viciadas que a Grazi Massafera naquela novela que ela fazia uma cracuda. E não adianta mandá-lo para reabilitação, quando você menos esperar, ele vai estar vendendo os móveis da sua casa e fugindo à noite para alguma boca de carga.

Meu maior problema com isso tudo é que sou viciado em celular. Aguento ficar sem um rim, mas não sem ele. Principalmente por ser escritor. Pois, como todos que já tentaram passar suas ideias para o papel (ou para o bloco de notas) sabem, a inspiração é tão rara quanto àquele cometa que só é visível da Terra uma vez a cada 84 anos. E eu devo ser como a Dory de Procurando Nemo e ter perda de memória recente. Se não escrevo a ideia naquela hora em que ela bateu em minha porta, a danada desaparece, vai embora sem dar tchau e tenho que esperar o próximo cometa passar.

Como todo bom escritor, não posso me dar ao luxo de ser “somente” isso. Preciso de um emprego “normal” que pague as contas. Então, quando a nossa amiga Inspiração aparece, nunca estou na frente do computador pensando sobre o que escrever. Estou no trabalho tentando conseguir a grana para sobreviver o próximo mês. A solução é fingir que vai ao banheiro, escrevê-la no celular e depois passar para o Word torcendo para que fique boa. Se o lindo do Iphone está sem bateria, bye bye texto.

Apple, você não vê quantos livros o mundo está perdendo por sua causa? Imagina o tanto de Shakespeares e Nerudas espalhados pelo globo que não vão poder escrever suas ideias no banheiro da firma porque a bateria acabou. Picasso disse que “a chegada da inspiração não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando”. No meu caso, só espero que ela me encontre com mais de 20% de bateria.

* * *

Ilustrador convidado:

João Vieira

Estudante de animação, ilustrador e futuro artista conceitual. Amante de séries, desenhos e livros. Trabalho (e vivo) ouvindo música, e desenhando sempre quando tem tempo. Entrando no mundo da pintura digital.

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Veludo Azul

Tem pessoas que são como se fossem feitas de matéria sonâmbula, como aparições do que escapa de dentro de nós, do que temos de mais terrível e de mais maravilhoso. Foi assim que ela se sentiu quando viu a mulher cantar pela primeira vez. Era um vídeo pouco iluminado, a maquiagem era quase brega, mas a precariedade não era capaz de desfazer o encantamento. A voz da mulher na tela parecia um canto de sereia, o lamento de um passarinho, a anunciação de um anjo, ecoando nas caixas de som de seu computador. Entre tudo que era viral, aquela mulher era um oásis. Ouvi-la era quase meditativo, parecia alumiar as profundezas do seu pensamento. Apresentava uma passagem, uma abertura pra um outro mundo dentro do nosso, pra uma outra coisa, uma raridade. E ela, como todes deveríamos nos sentir diante de raridades, decidiu que estava incumbida de proteger, de zelar por aquele canto. Quase religiosamente. Precisava permanecer perto, vigilante, em defesa da beleza preciosa daquela dama azul.

Nas primeiras semanas, se ateve a acompanhar seus rastros pela internet. Vídeos e mais vídeos, lives e mais lives. A cada sensação de um “ao vivo”, seu coração acelerava, seu peito parecia que ia explodir. Era como se ao falar com a câmera, a mulher falasse com ela. Apenas com ela. Suas faces ficavam rubras só de pensar. Fantasiava que ela lhe fazia serenatas, que as duas estavam sozinhas entre as paredes do seu quarto quando a cantora se enroscava em seu corpo e cantava docemente em seu ouvido. Sonhava que sentia os seus quadris colados um no outro, sua coxa entre suas pernas e que dançavam, bem devagarzinho, pelo cômodo. Aos poucos, foi conseguindo criar alguma familiaridade, como uma espécie de fã cativa. Começou a descobrir detalhes sobre a vida daquela cantora misteriosa. Pequenos gostos, como um determinado vinho que bebia sempre direto da garrafa, ou o nome de seu filho que às vezes a chamava do lado de fora da câmera. Informações nas quais ela se agarrava fervorosamente, como sinais do início de uma intimidade. Mas a virtualidade, com o passar dos dias, se tornava mais e mais frustrante. Era terrível saber que ela não escutava seus aplausos, não vislumbrava seu sorriso, não tinha dimensão da admiração que tinha e muito menos tinha consciência de como a defendia para todas as pessoas, em todas as oportunidades. Do outro lado, os incentivos para a cantora pareciam apenas decair. O número de fãs diminuía, ela falava cada vez mais em dívidas, se tornava mais ansiosa, mais furtiva e em consequência, bebia cada vez mais e mais garrafas de vinho. Apesar do esforço contínuo em divulgar e propagar aquela artista encantadora dentro do seu círculo, ela se sentia impotente em não poder confortá-la de nenhuma forma, de nem ao menos conversar com ela. E o perigo de que aquela mulher com voz de anjo acabasse abandonando as lives, abandonando o canto, abandonando-a completamente, parecia mais real e próximo. Ela não queria ser abandonada. Não podia. Não saberia conviver mais consigo mesma sabendo que tinha fracassado em zelar por aquele canto, em dar palco para aquela figura tão rara e importante.

O primeiro impulso foi lhe escrever e-mails, como cartas de agradecimento por manter sua arte em um momento tão difícil. Parecia algo nobre, razoável, até de práxis na relação ouvinte e cantora. Depois, começou a mandar pequenos presentes, como flores ou uma embalagem de chocolates. Sentia-se um pouco envergonhada de cortejar uma mulher estranha desse modo, mas não podia evitar. Na tela, a cantora começou a agradecer pelos enviados, a dedicar canções para a mulher maravilhosa que lhe presenteava. Seu orgulho foi crescendo. Agora tinham uma espécie de relação, agora ela existia dentro daquele mundo tão encantador. Ela tinha um propósito. Aquele orgulho lhe enchia de coragem. Os presentes ficaram mais ousados. Mandava pra cada show uma garrafa do vinho que ela bebia sempre, acompanhada de alguma coisa que tinha comido no dia, pra que pudessem compartilhar uma refeição em comum. Como se comessem juntas da mesma comida. Depois, mandou brinquedos para o seu filho na data próxima ao dia do seu aniversário. Gestos que começavam a denotar um tipo de paixão, uma atenção carinhosa. A cantora, do outro lado, parecia continuar encorajando-a. “Sua mecenas adorável”, dizia, agradecendo a sua fã delicada que acendia uma luz no fim do túnel daquelas relações frias da internet. Ouvi-la falar assim fazia seus olhos brilharem, seu coração parecia tentar sair por sua boca, suas mãos tremiam, sua buceta latejava. Sua cantora, sua ídola, lhe adorava. Cantava e dizia que lhe adorava. Era uma vitória, a paixão ganhava terreno. Então, segura de que estava sendo bem recebida e, mais do que isso, excitada por ser tão calorosamente encorajada, lhe enviou um tipo diferente de presente. Como que numa extravagância, num despudor. Ela lhe enviou uma caixa, muito elegante e nitidamente valiosa, com uma lingerie de renda azul.

Depois da encomenda enviada, o terror da dúvida cresceu em seu pensamento. Poderia ter feito algo muito esdrúxulo. A cantora poderia se assustar, poderia achar vulgar demais receber assim roupas íntimas de uma completa desconhecida. Poderia cortar de vez aquela estranha relação que criavam. Poderia ser a corrupção definitiva de todo o carinho, manchando sua inocência. De fã adorável para uma tarada sem controle, uma idiota. Esperou ansiosa pela live, pela resposta. Roeu todas as suas unhas. Quase arrancou todos os pelos de sua sobrancelha. Quando a dama começou o vídeo, cantou duas canções seguidas. Nada de falar dela, nada de mencionar o novo presente. Tinha traído sua dama, ela teve certeza. Queria chorar de vergonha, se enfiar em um buraco. Foi quando, para sua deliciosa surpresa, percebeu a alça azul de renda por baixo da camisa. Percebeu o pequeno sorriso nos lábios. Ela estava vestindo seu presente. Ela tinha aceitado sua oferta. Em algum lugar do outro lado da câmera, entre as coxas dela, sobre a buceta dela, estava a delicada renda azul que tinha escolhido. Ela era mesmo sua dama azul. Tudo não estava perdido afinal.

Naquela noite, não conseguia dormir de tanta excitação. O tesão daquele prazer vedado, daquela permissão silenciosa, lhe consumia. Sua testa ardia, sua buceta ardia. E nada que ela fazia podia acalmar aquela vontade incendiária. Só de pensar que a outra poderia estar deitada em sua cama vestindo apenas sua lingerie, tocando-se por baixo da calcinha que ela tinha escolhido, gozando na calcinha que ela havia escolhido, aquilo era insuportavelmente maravilhoso. Era impossível continuar sendo a mesma pessoa a viver a mesma vida patética e sem importância. Aquele tesão era sua importância, sua relevância, seu testemunho. Tinha sido aceita por um anjo. Ela usar seu presente era quase como poder tocá-la, roçar nela. Um “quase” esmagador. Não era mais suficiente. Era óbvio que nunca seria suficiente estar quase com ela. Precisava conhecê-la, romper a barreira, a parede, a divisa. Ela iria vê-la. Mesmo que parecesse loucura, mesmo que soasse como um atentado. Ia seguir o canto da sereia, corajosamente, enlouquecidamente, até o fundo do oceano, ou melhor, até a porta de sua casa. Não tinha mais escolha. Estava enfeitiçada.

No táxi, a caminho do endereço, voltou a sentir a dúvida mordendo sua consciência. Poderia ser uma estupidez chegar assim sem nenhum convite na porta do apartamento de alguém. Uma invasão, sem dúvida muito pior do que mandar calcinhas, ou qualquer outra coisa. Se entregar, assim, era um tipo de loucura. Era assumir uma obsessão perigosa. Era querer deitar com uma deusa: uma heresia. E poderia, claro, levar a todo tipo de punição. Policiais, humilhações, pragas, poderia cair tudo sobre ela, num segundo. O medo arrepiava seus cabelos, mas era incapaz de dar meia volta. Sentia que de todas as covardias que já tinha se permitido, ao longo de sua vida, não ir seria a única irreparável. Não poderia conviver com não ter ao menos tentado, sem saber o que é ficar de joelhos na porta do paraíso. A cidade passava pela janela do carro, tudo parecia quieto e perfeito. Pensava ver rosas e tulipas brotando nos canteiros, passarinhos cantando na madrugada. Na escuridão do céu, um tom púrpura parecia reluzir entre as estrelas, os postes piscavam em direção ao prédio. Estava diante da morada de sua amada, o único lugar que sentia ser destinada a ir.

Tocou algumas vezes o interfone, sem obter resposta. A noite púrpura a circundava. Ninguém na rua, ninguém no prédio, nenhum porteiro, nenhum vigia, nenhuma alma viva. O portão, como uma fortaleza, permanecia sólido e imóvel. Ela quase desistia, quando viu as luzes da portaria se acenderem. Duas silhuetas apareceram no hall de entrada. Ouvia alguém chorar e ganir. Se aproximou das grades e distinguiu, na pouca luz da portaria, um homem alto e bruto com uma mulher agarrada, aos prantos, em seu braço. Ele tentava se desvencilhar dela, violento. Até que a mulher, num esgotamento, desistiu e o deixou ir embora. O portão abriu em sua frente, o homem atravessou apressado, deixando uma brecha aberta, sua brecha pra entrar na fortaleza, na morada de sua sereia. Quando entrou, para sua surpresa, reconheceu a mulher soluçando na penumbra da portaria. Era a cantora, sua sereia sonhada, que agora se apoiava nas paredes imundas, derrotada, chorosa e descabelada. Num impulso estranho, tentou abraçá-la. A mulher se afastou, assustada. “O que você pensa que está fazendo? Quem diabos é você?” perguntou a cantora. “A mulher dos presentes”, ela respondeu e sentiu-se imediatamente envergonhada. Sua ídola lhe fitou friamente com seus olhos borrados de maquiagem: “O que você faz na minha casa?” retrucou, áspera. “Precisei vê-la”, ela respondeu. Suas mãos tremiam, a cantora podia notar como suas mãos tremiam, como suava de nervoso. Nunca esteve tão perto. Podia sentir seu perfume, seu hálito. A sereia, que agora parecia quase com uma mulher qualquer, caminhou até uma porta de serviço exclamando: “O elevador não funciona, temos de ir de escada”. A fã a seguiu. Subiram sete longos lances de escada, em silêncio. Chegando na porta do apartamento, a fã, incrédula de estar cada vez mais e mais perto de sua adorada, preferiu esperar na soleira do porta. Como que aguardando um convite, uma permissão. “Agora você quer formalidades? Só higienize suas mãos e não entre de sapatos”, disse a cantora entrando na sala, quase como se estivesse sozinha.

A sala era rosada, mal iluminada, com poucos móveis e um carpete felpudo, manchado de vinho, que cobria todo o chão. Não parecia tanto o império sonhado, mas tinha algo que fazia com que ela, a fã, se apequenasse. Logo, ela se sentou timidamente no sofá, sem saber exatamente como se portar ou que etiqueta deveria ter diante da sua dama misteriosa. Quando ousou abrir a boca para se apresentar, sentiu a mão doce da cantora cobrir seus lábios. Um tanto ameaçadora, a cantora disse: “Nós não vamos conversar. Eu não vou fazer nenhum capricho de fã. Você me deu uma calcinha, eu gostei, mas não é por isso que vou transar com você. Eu não sou puta, entendeu?” Ela fez que sim com a cabeça, tentou manter a calma, mas sentia que suas pernas voltaram a tremer. Não parecia estar bem diante de um anjo, mais para um demônio, ou talvez algum tipo de entidade devoradora de mulheres. “Você vai fazer como eu falar”, continuou a cantora: “Não me pergunta muito e, em nenhuma hipótese, fala do meu filho.” Só então tirou a mão da sua boca. Agora, a fã pôde perceber que a cantora vestia um longo robe de veludo, com – apenas – sua lingerie embaixo. Seus olhos não podiam se afastar daquele corpo, da brecha de pele por baixo do robe, do formato dos seus peitos quase saindo do sutiã. Ela tinha acertado o tamanho do sutiã só de olhar, mas nem nos sonhos imaginou um corpo tão bonito. Teve o impulso de tocar no veludo, mas se reteve. Então, pela primeira vez, a cantora pegou na sua mão e a colocou contra o tecido, bem em cima de sua barriga. Sua palma era quente e, do contrário da imagem angelical que tinha dela, o seu toque era firme, quase bruto. Não havia mais nada de mole ou soluçante naquela mulher sereia agora, era serena e assertiva enquanto pressionava seus dedos contra seu corpo. Foi subindo devagar com a sua mão até entrar por baixo do robe e tocar seu seio. A pele dela era macia e estranhamente fria. A admiradora pôde então roçar no mamilo duro da cantora, segurar o bico entre seus dedos, sentir o seu coração batendo ansioso, como o coração de um pássaro assustado. “Você está tão ameaçada quanto eu” disse para cantora, que agora abriu um pequeno sorriso. Era impossível não ceder à sedução daquela mulher de veludo. Beliscou seu mamilo, a dama soltou um gemido. Num impulso, a fã tentou abrir o robe, mas a cantora a interrompeu: “Tira sua roupa primeiro. Eu quero te ver nua.”.

Ela só sabia obedecer às ordens da sua sereia, queria fazê-la cantar, gemer, gritar. Apagar aquela imagem aflita, escorrida, infeliz. Sua entrega era total aos cuidados daquela musa, quer fosse demônia ou deusa, sabia que iria servi-la até o final. Nua diante dela, percebeu sua dama abrir novamente um sorriso. Sentiu vergonha, tentou cobrir seu corpo de mera mortal, ao que a outra, seca, respondeu: “Não seja boba. Você é muito mais bonita do que eu imaginava”. A cantora puxou uma cadeira, sentou diante dela e deixou o robe cair devagar sobre o chão, revelando lentamente seus peitos, sua barriga, sua virilha, suas coxas. Quando ficou toda exposta, fez um sinal, chamando-a com a cabeça. A fã avançou sobre a mulher sentada, começou beijando seus pés em reverência, com certa parcimônia e delicadeza, e subiu em seguida por sua perna. Lambia e acariciava suas coxas, passeando a língua por toda sua pele. Queria deixar sua deusa toda molhada. A dama então ergueu seu rosto e puxou-a pra cima de si, sentando-a em seu colo. Suas pernas envolviam a cantora, seus peitos eram apertados um contra o outro. A cantora, pra sua surpresa, colou os lábios em seu pescoço. Começou beijando-a fervorosamente, subindo e descendo de sua clavícula até sua orelha. Passou a língua delicadamente pelo seu ouvido. Nesse momento, podia ouvi-la respirar quase que dentro de sua cabeça, quase como se pudesse soprar em seus pensamentos exatamente como a sua súdita deveria adorá-la. Ela colocou a mão por baixo da calcinha azul da cantora, sentindo finalmente sua buceta, a buceta tão desejada, completamente úmida. O clitóris latejava, molhado, inchado, chamando por ela. A masturbou, primeiro devagar, dedilhando lentamente. Sentiu a boca da cantora morder sua orelha, como se quisesse arrancá-la fora. Ouviu-a gemer baixinho. Tocou-a com mais pressão e mais velocidade. As pernas se abriam mais e mais pra ela entrar. Sentia seu quadril se movendo contra o seu. Com uma mão dedava a sua dama, com a outra mão apertava seu peito. A cantora gemeu, pela primeira vez um arfar alto, frouxo, entregue. Sentiu as mãos da sereia pegarem sua cintura e descerem até sua bunda, apertando-a. E, de súbito, com as mesmas mãos que agarravam sua bunda, empurrou a fã pra longe. “Eu não quero quebrar minha cadeira”, lhe disse, “vamos pro chão. Deite-se”. Ela deitou, deixou o carpete felpudo acariciar suas costas. “Abra bem a boca”, disse a sereia. Ela abriu e viu sua dama agachar, lentamente, aproximando a buceta úmida de sua cara. A visão do paraíso, toda aberta em sua direção. Queria devorá-la. Chupá-la até a última gota. Absorver todo o gosto dela. Tomar ela inteira, escorrendo pra dentro de si. Arrancar um pedaço do céu pra si. A cantora sentou em sua cara, rebolando de início bem devagar contra sua língua. Toda sua face agora estava impregnada com o cheiro dela. Sentia as pernas da deusa tremerem, começou a chupar e lamber com mais ímpeto. Podia vê-la acima de si, gemendo e gemendo cada vez mais. E quanto mais a cantora se empolgava, mais forte rebolava contra sua cara. A fã, já enlouquecida, tentou se masturbar com uma das mãos, mas a cantora lhe repreendeu: “Você só faz o que eu mandar e você só para se eu te pedir pra parar, entendeu?”, a admiradora obedeceu e voltou a chupá-la mais firme, energética, destemida. Sentia o clitóris em sua boca, tudo na dama era doce. Se fechasse os olhos, podia ver o céu púrpura estrelado em sua cabeça. As luzes pareciam piscar. Uma brisa quente parecia bater contra o corpo das duas. Ela sentia o carpete quase arranhar sua pele. Sua língua começava a ficar dormente, sua face parecia formigar, mas não podia parar. Não até que ela tivesse satisfeita. Tinha vendido seu prazer pra aquela encarnação de mulher, aquela besta com voz de anjo. Toda a agilidade que tinha, todo o tesão que tinha, eram fogo para fazer emergir o orgasmo daquela dama. Via os peitos dela balançando, via sua boca pendendo pra trás, se preparando para alçar voo, se agitando contra a língua ágil de sua adoradora. Até que soltou o grito. Um grito estrondoso, horripilante, que parecia ecoar no apartamento, rasgar o apartamento, a rua, a cidade. Como um som vindo de outro mundo. Era o som do orgasmo, o orgasmo dos anjos.

Um apito forte tomou seus ouvidos, a fã podia sentir seus lábios dormentes, sua cara toda molhada. Fechou os olhos e ouviu a cantora cantar baixinho. O canto a envolvia, apaziguava a dormência, acariciava sua alma. Podia gozar com aquele canto assim tão perto. Sentiu então uma chuva de lágrimas salgadas caindo em sua direção. A cantora, sentada em cima dela, chorava e lhe pedia desesperada: “Me segure, eu estou caindo, eu estou caindo.” A olhando agora, a cantora parecia outra vez frágil, como um pássaro ferido. Num gesto de doçura e coragem, a fã acariciou os seus cabelos e sussurrou carinhosa nos ouvidos divinos da sua adorada: “Nos sonhos, eu ando com você. Nos sonhos, eu falo com você. Nos sonhos, você é minha. Estamos juntas, nos sonhos. Sempre em sonhos. Durma bem agora. É uma pena que essas coisas só possam acontecer nos meus sonhos”. E assim, a dama, outra vez tristonha, se retirou, deitando no chão de carpete, entregue ao seu próprio império. A fã a cobriu, delicadamente, com o robe de veludo azul, antes de sair. O canto ainda parecia ecoar enquanto ela saía silenciosa do apartamento. O dia raiava no caminho pra casa. Cachorros latiam em sua direção. Nenhum táxi parecia querer parar. Ela foi andando, serena, satisfeita, vitoriosa. Percebeu que um pouco de sangue escorria pra fora de suas orelhas, mas não conseguia parar de sorrir. Ainda tinha o gosto dela em sua boca, o gosto doce e triste da sua adorável dama azul.

* * *

Ilustradora:

Rayane Damasceno

Estudante de pintura na UFRJ, artista e pesquisadora, envolvida com experimentações de diferentes materiais dentro e fora do universo artístico e agora se envolvendo com o ramo da ilustração.

👉  Conheça o trabalho Rayane no Instagram.

Três vezes Jackie Chan

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Sempre gostei do Jackie Chan. Lembro de quando eu, ainda criança, assistia aos seus filmes. As coreografias de luta mirabolantes somadas ao seu carisma eram, para mim, a receita do sucesso. Depois que vi o desenho “As Aventuras de Jackie Chan”, então. Me tornei um grande admirador do ator, artista marcial, diretor, produtor e roteirista honconguês. Logo, empreendi uma busca incessante por outros de seus filmes. Com os dois primeiros “Police Story” — convenhamos, são os que valem —, notei que Jackie Chan era muito mais do que um rostinho bonito e simpático. Mas por que todo esse blá blá blá sem fim? Simples, gostaria de indicar alguns de seus filmes menos conhecidos, mas que me diverti muito assistindo.

O Jovem Tigre (1973)

Jackie Chan em início de carreira.
Jackie Chan em início de carreira.

Depois de terminar esta obra de arte do cinema honconguês, não soube como defini-la. Vamos dizer que se trata de um filme conscientemente — assim espero — trash. Nele, Jackie em início de carreira é apenas um coadjuvante, sendo a estrela do longa o ator Charlie Chin. “O Jovem Tigre” é uma boa opção para aqueles dias em que você se encontra desmotivado, porque se o Jackie Chan chegou onde está depois desse filme, você também pode. O longa está disponível, até o momento, na Netflix.

Perdedores e Vencedores (1983)

John Shum Kin-Fun, Richard Ng, Sammo Hung, Charlie Chin e Stanley Fung.
John Shum Kin-Fun, Richard Ng, Sammo Hung, Charlie Chin e Stanley Fung.

Outro filme do Jackie Chan que não é do Jackie Chan é “Perdedores e Vencedores”. Apesar de dele ter um papel de maior destaque como um policial rebelde, que sempre traz muitos prejuízos para os contribuintes — a cena em que ele causa um engavetamento de carros é incrível — as verdadeiras estrelas do filme são esses camaradas aí em cima — a propósito, além de atuar no longa, Sammo Hung também o dirigiu e o co-roterizou. O longa é uma comédia bem engraçada, sendo a trama apenas uma desculpa esfarrapada para um apanhado de gags cômicas e lutas bizarras. “Perdedores e Vencedores” está atualmente no catálogo do Prime Video da Amazon.

Dragões Para Sempre (1988)

Sammo Hung, Yuen Biao e Jackie Chan.
Sammo Hung, Yuen Biao e Jackie Chan.

Novamente temos a dupla Jackie Chan e Sammo Hung, que juntos a Yuen Biao formam um super grupo das artes marciais. Em “Dragões para Sempre”, Sammo Hung, com a colaboração de Corey Yuen, novamente exerce a função de diretor. Mas não posso deixar de dizer também que esse é o primeiro filme da lista em que Jackie Chan é de fato um protagonista. Ele interpreta um advogado malandro e mulherengo, que não teme em usar meios duvidosos para conseguir vencer nos tribunais; mas acaba escolhendo fazer a coisa certa por amor. O filme vai na mesma linha que os anteriores, mesclando o humor e cenas de ação. No entanto, esse é, sem dúvidas, o mais “bem organizado” narrativamente dos três. O longa também está disponível no streaming da Amazon.

Jackie Chan te lembrando que ele não fez só comédias.
Jackie Chan te lembrando que ele não fez só comédias.

Então, é isso. Esse texto despretensioso não tem outro objetivo do que indicar alguns filmes de um de meus action heroes favoritos da infância. Que ao contrário de outros como Stallone, Schwarzenegger ou Van Damme, consegue demostrar uma incrível versatilidade em sua carreira. Além é claro de ser um verdadeiro Mr. Nice Guy.

Jerry, carros e conversas sobre nada

Nesses últimos dias, não tenho tido vontade de escrever nada. Minto, havia iniciado um texto sobre Purgatório Heroica (1970) de Yoshishige (ou Kiju) Yosiha, mas a falta de ânimo me atingiu em cheio, mas quem pode culpá-la. Depois de gastar muito tempo em uma empreitada fadada ao fracasso, decidi que em vez de continuar dando murro em ponto de faca, escreveria sobre “Comedians in Cars Getting Coffee” (2012) de Jerry Seinfeld, alguém habituado a lidar com o nada a dizer.

Quem conhece um pouco da trajetória do comediante, já deve ter entendido a conexão. Mas para aqueles que nunca ouviram falar de Seinfeld, série co-criada e estrelada por Jerry, só posso dizer “sinto muito, eu não ligo”. É esse mesmo ar de “i don’t care” que permeia a série e os outros trabalhos do comediante, e esse fator os torna tão interessantes.

O programa parece revelar algo muito interessante dessa espécie tão incomum: pessoas que escolheram (ou não) trabalhar com comédia. Muitos deles parecem ser, em algum nível, indivíduos desajustados e que veem o mundo de forma muito peculiar.

Mas do que se trata “Comedians in Cars”? Basicamente, Jerry, em um carro, busca seus convidados (comediantes ou simpatizantes) em casa, os leva para tomar café, e passeia um pouco com eles. Talvez você pense “que idiota”, você estaria certo… se não fosse você o idiota. Brincadeiras a partes, o que torna tudo tão diferente, é que o programa, mais do que um talk show, é uma série de conversas que giram em torno de… isso mesmo, nada. Agora, você que é um pouco mais desinformado ou lento conseguiu entender a ligação. Parabéns!

Jerry Seinfield olhando pela janela do carro para a câmera com um ar irônico de surpresa
Jerry está impressionado com minha perspicácia.

A engenhosidade do programa está no fato de Jerry não ter pensado o seu programa como “Comediantes em Carros, Tomam Café e Falam de como Fazem Comédia”. Nope, ele preferiu um outro caminho. O que acontece entre ele e seus convidados um tanto “especiais”, é um bate-papo que não leva a lugar nenhum. Essa é mágica. É quase como um documentário antigo da National Geographic, só que em vez animais, vemos comediantes interagindo em seu habitat natural.

Jerry Seinfield entrevistando Jerry Lewis em seu escritório
Comediantes: Onde vivem? O que comem? Como mantêm a sanidade?

Embora o que disse possa parecer uma piada e é… o programa parece revelar algo muito interessante dessa espécie tão incomum: pessoas que escolheram (ou não) trabalhar com comédia. Muitos deles parecem ser, em algum nível, indivíduos desajustados e que veem o mundo de uma forma peculiar. Por exemplo, em um dos episódios, Jerry solta a seguinte fala:

“Só os comediantes riem das cenas horríveis de morte e destruição. A maioria das pessoas só se incomoda com a ideia.”

Lendo essa frase descontextualizada, parece realmente terrível — mas quando Beckett ria do absurdo da existência, ninguém reclamou. Como eu disse em um texto anterior, os comediantes estão constantemente em uma corda bamba. Algo que eles têm noção, tanto que em algumas entrevistas fica claro o quanto assustador pode ser encarar o julgamento da plateia.

Jerry Seinfield e Alec Baldwin conversando em uma esquina
Jerry Seinfeld e Alec Baldwin conversam sobre nada importante.

Embora, a primeira vista possa parecer entediante assistir conversas — algo bem cotidiano — alguns fatores as tomam diferentes daquele nosso prosear diário:

1) Todos os envolvidos são engraçados, eles trabalham com isso. Está no sangue. Embora uma ou outra “entrevista” possa ser um pouco morna, acredite eles estão atentos e prontos para transformar qualquer situação cotidiana em piada. Ou seja, são conversadores melhores do que eu ou você.

2) Jerry, como eu disse, tem uma certa indiferença que somada a sua aparente ausência de ego (qual é, ele deve estar lá em algum lugar), tornam o programa em um “anti-tenho-desesperadamente-que-dizer-algo-profundo-e-inteligente”. Isso torna tudo tão assistível.

3) O programa é editado. Preciso dizer mais? Ah, sim tem aquelas pessoas… então, basicamente, a edição pode cortar todos os momentos chatos inevitáveis nas interações entre humanos, selecionando os momentos mais engraçados, constrangedores ou leves. Aí está o segredo, cortar os tempos mortos ou, pelo menos, usa-los da melhor forma possível.

No entanto, há um ingrediente extra. Na aparente trivialidade de tudo o que vemos e ouvimos, existe algo além, que pode muito interessar àqueles que ou lidam diretamente com a comédia ou, como eu, gostam dela um pouquinho demais da conta. No dito se pode pescar verdadeiros insights sobre o humor e a arte de fazer rir. No não dito, se pode observar comediantes em ação, quando improvisam uma piada ou, em outros casos, intervém um na piado do outro, estendendo mais um pouco o efeito cômico de um comentário engraçado ou banal.

Jerry Seinfield e Melissa Villaseñor sentados em uma bancada comendo em frente a um fogão com um cozinheiro mexendo uma massa na panela, tudo ao lado de uma exposição
Jerry e Melissa Villaseñor passando pela estranha experiência de comer em uma atração de um museu.

Antes de encerrar o texto. Devo lembrar que a seleção de convidados — tão variados — parece abarcar comediantes de todas as gerações, de veteranos como Don Rickles (o rei dos Roasts, como se pode ver nesse vídeo ou neste) , Mel Brooks, Carl Reiner e Jerry Lewis; passando por nomes como Eddie Murphy, Jim Carrey, Steve Martin e Martin Short; até chegar a uma geração mais recente com Kate McKinnon, Melissa Villaseñor, Seth Rogan e Kristen Wiig. Mas de longe os melhores episódios são os que Jerry se encontra com antigos colaboradores ou amigos, Larry David, Julia Louis-Dreyfus, Michael Richards (depois de ter se afastado do show business por um tempo), Ted L. Nancy, George Wallace etc.

O Elenco de Seinfield posando para foto
Elenco de Seinfeld: Michael Richards, Jerry, Julia Louis-Dreyfus e Jason Alexander.

Ver um grupo tão eclético de convidados, me deixa fascinado com a capacidade da comédia ser tão multifacetada, ao mesmo tempo que se metem essencialmente imutável. Ao assistir todos os episódios e poder ouvir todas essas conversas, noto que algo, para além do humor, parece unir essas pessoas tão diferentes e estranhas. Um certo “je ne sais quoi” que é bem misterioso, que, imagino eu, seja a capacidade de encontrar algo interessante em pleno nada.

Nota 1: “GeorgeCostanza: The Over-Cheer”, onde Jason Alexander revive seu personagem mais famoso, não está disponível na Netflix. Isso se deve por questões contratuais, já que este foi um episódio especial de Comedians in Cars Getting Coffee” para o Super Bowl.

Nota 2:  Dos comediantes veteranos citados no texto, apenas Mel Brooks ainda permanece vivo. Infelizmente, Don Rickles, Jerry Lewis e Carl Reiner já faleceram.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Ela sabia que estavam se apagando um do outro. Mas nunca imaginou que sua última transa com ele seria assim. O fenômeno do esquecimento começou fazia alguns meses, devagar, nos detalhes. Percebiam uma ou outra foto que não se recordavam de terem tirado, ou aquele livro – com uma enorme e romântica dedicatória – que nenhum dos dois se lembrava de ter escrito. Até mesmo começaram a ter dificuldade de lembrar o nome ou a autoria de um ou outro poema que gostavam muito. Nas primeiras vezes culpavam o tempo, o desgaste natural de suas mentes, cheias de preocupações corriqueiras. “Não era como esquecer o endereço de casa ou datas importantes”, pensavam. Parecia apenas um reflexo de um desgaste, um desgaste inevitável. Foi quando aquela pequena névoa começou a empoeirar tudo.

Desde então, quando brigavam por um acontecimento já era impossível encontrar um ponto comum, ou saber quem estava realmente certo. Nenhum dos dois era capaz de assumir que, simplesmente, não sabiam afirmar o que tinha acontecido exatamente naquela vez na casa dos seus pais, ou no outro dia na praia. Apesar de sentirem que era algo importante, algo como uma violência terrível que precisasse ser combatida, acabavam apenas com uma tristeza embaçada. De forma que só podiam tirar o corpo fora e inflamar argumentos arrogantes de que aquela culpa com toda certeza não era sua. Só se deram conta de que aquele embaraço nebuloso era algo preocupante quando ele confessou, constrangido, que vez ou outra, no meio da tarde, a olhava sentava na poltrona trabalhando em seu computador e não conseguia chamá-la de nenhuma forma carinhosa. Como se os doces apelidos que tiveram sumissem todos da sua boca. Ele ficava alguns minutos fitando-a, perplexo, pra acabar dizendo o seu nome inteiro de forma estupidamente formal e grosseira. Do pior, pra sua surpresa, ela confessou envergonhada que às vezes acordava de manhã e tinha por alguns segundos um pavor profundo de não saber com quem tinha dormido. Quando finalmente o reconhecia, sorrindo amigável entre as cobertas, duvidava se estava em sua casa ou na dele, como se não morassem juntos. Como se fosse alguém que ela acabou de conhecer e teve um caso ou algo do tipo. Procuraram médicos, terapeutas, acupunturistas, erveiros, pais de santo. Mas não conseguiam ter nenhuma resposta, ou não eram levados tão a sério. Nas poucas vezes que lhes receitavam algo, não surtia efeito.

A cada tentativa frustrada de procurar ajuda pareciam desbotar mais e mais as cores das paredes e das roupas de cama. Algo se perdia todos os dias. Sentiam-se caminhando mais e mais pra dentro do nevoeiro. Com o medo, cada vez maior, de um dia acordarem sem saber mais absolutamente nada e incapazes de lembrar de absolutamente nada sobre aquele estranho amor. Escreviam bilhetes pela casa, cartas com descrições de acontecimentos que ainda podiam lembrar. Algumas calorosas transas, tardes familiares, um filme importante que assistiram juntos, aquela vez que choraram muito abraçados no sofá, ou uma briga que julgavam com desfecho importante. Coisas de todo tipo. E, principalmente, com o avançar do tempo, começaram a escrever seus nomes, apelidos, recados como: “não chamar a polícia pelo homem em sua cama, é seu parceiro” ou “não se assustar com a mulher que volta do trabalho às seis da tarde, ela mora com você”. Até que a inconstância era tamanha que decidiram começar o movimento pra separação, cada vez mais próxima e necessária. Porém quando começavam a separar suas coisas eram incapazes de distinguir o que deveria ser de quem, ou o que era mesmo que compraram juntos. Acabavam discutindo por horas, certos de que a escrivaninha tinha vindo de seu antigo apartamento ou que determinado quadro era algo que tinha comprado numa feira antes de se conhecerem. Às vezes algum amigo ou familiar conseguia tirar a prova, mas em alguns casos – até mesmo pra quem estava fora – os dois eram quase indivisíveis. Costurados um no outro, para o mútuo infortúnio. No final, com ajuda de advogados, concordaram em fazer uma repartição igualitária de bens. Por mais patético que fossem seus patrimônios, por mais que se sentissem igualmente fracassados e roubados. Um fracasso que os fazia odiarem cada vez mais suas próprias cabeças pela incompetência de ter protegido aquele amor. Um amor que sentiam que deveria ter resistido, que deveria ser estimado. Volta e meia, os dois tinham lapsos de memória, como flashes de momentos juntos; uma noite rindo em algum bar ou dos seus corpos nus colados em baixo da coberta, trocando juras, querendo filhos, viagens, estupidamente felizes e indefesos. Diante dessa visões, ambos choravam copiosamente. Se prometiam proteger aquele vislumbre de felicidade e carinho, em vão, pois horas depois não sabiam mais porque estavam chorando ou porque se abraçavam tão fortemente, terminando por se acharem inconvenientes e esquisitos.

Um dia, exausta daquela maratona emocional, ela finalmente conseguiu uma casa de uma amiga pra ficar. E sabia muito bem que aquele movimento deveria ser o último movimento, já que a distância física provavelmente fosse selar a cruel sentença às poucas coisas que restavam entre os dois. Ele também sabia disso, mas estava deprimido demais pra tentar pedir que ela ficasse. Afinal, não tinham nenhuma resposta do porquê que viravam cada vez mais e mais desconhecidos. Quando ela levou as caixas pra perto da porta, ele teve a sensação de que seu rosto se embaçava, como se ficasse, a cada segundo, um pouco mais fora de foco. “Eu vou esquecer até o seu rosto” lhe disse, num último apelo. E ela beijou suas bochechas, sem entender porque mereciam tanta indiferença. Tentava se dizer que deviam ter se causado muito mal, ou talvez que tivessem algo tão genuíno que suas almas fossem incapazes de suportar. Mas os motivos não importavam. Cada segundo diante dos olhos do outro era algo parecido com se ver morrer lentamente. Como cavar uma sepultura pra si mesmo no jardim de alguém. Era melhor dar um passo pro vale do esquecimento total e acabar de vez com a tortura em que se encontravam. Ela saiu e ele ficou sentado de pijamas diante das coisas que deveriam ser dele, dos bilhetes que deveria jogar fora, do apego indevido por uma pessoa que, algum dia, soube que deveria amar. E adormeceu de cansaço ali mesmo, na poltrona. Cansado de lutar uma luta perdida contra seu cérebro, contra o inevitável.

Acordou, em torno das três da tarde do dia seguinte, com batidas fortes em sua porta. Assustado, sem nem entender como havia dormido tanto em uma poltrona tão desconfortável, perguntou quem era a pessoa que estava esmurrando a porta tão violentamente e se surpreendeu com a voz de uma mulher. Ela, do outro lado, quase aos berros pedia que ele abrisse a porta: “Você já me esqueceu? Não é possível que já tenha me esquecido, merda”. Quando ele abriu, ela o olhou incrédula. Não sabia se era com ele que ela estava falando. Não reconhecia nada, não podia ser aquele homem em pijamas ridículos. Logo, perguntou se ele tinha um colega de quarto e depois se envergonhou ao perceber que tinha esmurrado a porta de um estranho. Ele lhe ofereceu uma xícara de café que ela aceitou, tentando um gesto de cortesia pra reparar o terrível engano, e entraram no apartamento juntos – novamente e ao mesmo tempo pela primeira vez.

Os dois sentaram frente a frente na pequena mesa, a perna dela tocava a dele sem querer devido ao espaço apertado. Ele se excitava, a achou incrivelmente linda, mas ficou tímido demais pra lhe dizer. E ela lhe enchia de perguntas inconvenientes, se vivia sozinho, ou há quanto tempo estava solteiro, por que é que estava solteiro, num tom investigativo irritante. Inquisitório. Ele quis dizer que não era o homem que ela estava procurando, mas teve medo de afugentá-la. Em algum lugar, preferia sê-lo. Não queria que ela fosse embora. Então cedeu, se esforçando pra discorrer um pouco sobre sua vida. Depois de poucas palavras, teve o estranho desejo de falar sobre seus pais. O casamento frustrado da sua mãe, a casinha de paredes floridas que tinham na serra, a doença que obrigou seu pai a permanecer com ela, o fato de que nunca estavam satisfeitos com nenhuma namorada que apresentava. E ela riu agradecendo por não ser sua namorada. E ele riu também. Ela evitava lhe dizer porque tinha vindo até sua casa ou como tinha o endereço. Em algum momento, sem aviso prévio, ele segurou sua mão. Os dedos se entrelaçaram carinhosamente. Havia entre os dois uma infelicidade comum que parecia atraí-los, como um tipo de cumplicidade tristonha. Perceberam que não precisavam continuar entulhando o silêncio com historietas sobre seus passados. Que de nada lhes servia mais o passado ou todas as dores surradas que não lembravam mais há quanto tempo eram obrigados a carregar. O silêncio se instalou confortavelmente. Uma excitação familiar crescia nos dois. Um percebia no outro os primeiros sinais do tesão. As palmas suadas dele, a respiração com a boca entreaberta dela, como fagulhas brilhando no escuro, como um tipo novo e velho de esperança. Atentos e muito interessados em não perder o tom, nem por um segundo, daquela sedução tão detalhista, esperavam o primeiro impulso pra virar a mesa, quebrar as xícaras, estraçalhar todo e qualquer impedimento. Deixando a tensão beirar o insuportável, como uma provocação a si mesmos pra descobrir por quanto tempo permaneceriam apenas se desejando. Mas alguém devia dar o primeiro passo. Ela se debruçou sobre a mesa e o beijou.

O beijo começou muito delicado, os lábios abrindo e fechando, com medo de roubar totalmente o ar, com um pudor de iniciantes. Então entraram as línguas. Pelo toque de uma na outra, as mãos começaram a tomar coragem. Ela levantou a camisa dele, ele tocou o interior das coxas dela. Logo, a intimidade crescia, florescia, como se tudo que precisasse ser feito fosse simplesmente regá-la. As roupas foram abandonadas sem nenhum constrangimento. Ela se deitou na cama dele como se fosse em algum lugar (ainda) sua. Ele subiu sobre ela. Os dois sorriam, uma alegria travessa marejava os seus olhos. Espiavam a nudez do outro maravilhados. Como que arrebatados por um deslumbramento apaixonante. Quando ele começou a chupar o bico do seu peito, ela teve a impressão de que ao olhá-lo, ali tão próximo dela, ela podia ver o tempo passar por ele. Como se pudesse, por algum motivo fantástico, ver o brilho jovem nos seus olhinhos, que procuravam os dela vez ou outra tentando entender se estava no caminho certo, cheio de inocência. Assim como, na direção contrária, podia vislumbrar os anos passando por ele enquanto ela colocava as mãos em seus cabelos. Podia sentir sua barba crescendo fazendo cócegas em sua pele, os cabelos ficando grisalhos entre os seus dedos, marcas de idade e maturidade em sua testa. Precisou se afastar, por um segundo, pra tentar entender o que estava acontecendo. Mas ele estava de volta, como quando o viu abrir a porta: apenas o homem encantador dos pijamas ridículos. E sem entender, ela deixou aquela fantasia molhá-la ainda mais. Tinha a sorte de poder ter uma vida com alguém em uma única tarde, pensou.

Então desceu as mãos por sua barriga até segurar seu pau duro entre suas palma suadas. As mãos dela eram quentes, úmidas e macias. Tocavam a cabeça devagar, o envolviam. Ele retribuía beijando-lhe a orelha, quando pensou escutar ela dizer que sentia sua falta, que sentia falta de ter ele dentro. Ele a olhou, confuso, seus lábios mal se mexiam, ela parecia apenas respirar com ele, gemer com ele e no entanto, era como se ele pudesse ouvir ela lhe dizer coisas. Sua voz dentro de sua cabeça lhe falava palavras tão lindas que seus olhos se enchiam de água. “Como ela sabia? Como ela podia saber lhe dizer coisas tão secretas, tão singulares? Como diabos podia ouvi-la sem que ela estivesse falando?”, pensava. Ele recuou para pegar uma camisinha, ela o abraçou por trás e beijou sua costas. Ele sentiu os peitos dela conta sua pele. Ele se lembrou.

Virou e puxou-a pra perto, abriu as pernas dela devagar. A buceta dela pulsava, úmida. Primeiro passou os dedos por seu clitóris e sussurrou: “Sou eu, eu não quero esquecê-la”. Sentiu as unhas dela cravarem em suas costas. “Eu sabia”, ela respondeu. Ele meteu nela. Estava tão molhada que quase conseguia sentir escorrer por suas pernas. As pernas dela abraçaram a sua cintura. Se reconheciam. Ele metia devagar, mais cada vez mais fundo. Quanto mais fundo, mais pareciam lembrar um do outro. Como se inundados por memórias preciosas. Os dois riam. O riso saía por entre os gemidos, contagiado pela corrente de lembranças doces, dos sonhos perdidos, da cumplicidade. Um novo tipo de esperança tomou os dois. Ele começou a meter mais rápido, ela se masturbava enquanto ele penetrava cada vez mais forte. Pareciam engolir um ao outro. Suavam. Os gemidos então venceram o riso. A vinda do orgasmo triunfou sobre a memória. Não pensavam em mais nada. Apenas podiam sentir o prazer impossível do agora. O gozo iminente, a pele arrepiada. Ele gozou num grito profundo, mas ela ainda não estava satisfeita. Precisava de mais dele, precisava permanecer naquela lucidez. Ele afundou sua boca nela. Chupou e chupou sua buceta. Os espasmos eram tantos que suas pernas tremiam freneticamente. Quase que eletrizadas. Ele amava como ela ficava antes de gozar. Quando o orgasmo tomou o corpo dela, tudo ficou calmo. Ouviam apenas a respiração ofegante um do outro. Ele deitou ao seu lado. As pernas se cruzando, os rostos colados, se olhando. Ia acontecer novamente, pressentiram. Quanto mais calmo tudo ficava, mas sentiam a presença do inevitável, a névoa retornando sobre suas cabeças, as memórias desbotando, seus rostos ficando turvos. “Eu aceito lhe perder um milhão de vezes”, ele disse baixinho. E se beijaram. Um beijo longo, sereno, molhado.

Os olhos se fecharam e quando tornaram a abrir, eram desconhecidos novamente. Ela se levantou e se vestiu apressada. O luto parecia a única coisa que tinham em comum. Os vestígios da felicidade soavam completamente indevidos. “Que perda de tempo ficar com alguém pra descobrir que ele é apenas um estranho”, ela lhe disse. “Que amor de merda você deve ter vivido”, ele respondeu. Ela desapareceu pela porta, ele desapareceu entre as cobertas, entregues ao esquecimento outra vez, à névoa.

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Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho Camila no Instagram.

O otimista nunca sofreu tanto

Era uma vez um Otimista. Ele vivia no lindo mundo do Zeca Pagodinho, onde os dias eram regados a longas sessões de dança com os amigos e as noites (quando a cerveja pós-dança já havia subido sua cabeça) embaladas por agradecimentos pela vida. Porém, em mais um desses dias onde o Otimista andava distraído em suas alegres festanças, uma nuvem de sofrimento gigantesca se alastrou pelo planeta. O breu foi completo.

O Otimista olhou aquela pesada e inebriante fuligem com sua habitual alegria-ignorante e, quando deu por si, estava do lado de fora de seu maravilhoso mundo abastecido de tira gostos e canções animadas. E, pela primeira vez na vida, ele não poderia fugir para lá: as fronteiras foram fechadas por questões de amarguras estratosféricas. Sem previsões de volta.

Ninguém adivinharia que um dia o Otimista perderia seu alienante talento de ver o lado bom (e quase ingênuo) da vida. Ficou triste pensando que a Dona Terra talvez tivesse feito isso de propósito. Logo ela, que o feliz-coitado tanto agradeceu em músicas de axé-baiano. Será que alguma canção da Ivete poderia ajudá-lo nesse derradeiro momento? Quantas letras da Beth Carvalho ele teria que cantar até que tudo voltasse ao normal?

E, nesse susto-que-virou-medo, o Otimista acabou se lembrando que a vida não era tão alegre no mundo normal – e isso o machucava com a força de 100 berimbaus metalizados. Prometeu a si mesmo que daria o seu melhor para pensar somente em coisas leves até que pudesse ouvir Deixa a Vida Me Levar bebendo uma cervejinha sossegado na varanda.

Começou passeando por páginas de moda masculina no Instagram. Se imaginou experimentando aquelas peças numa loja de shopping cheia de gente bonita. Tudo agradabilíssimo. Porém, quando deu por si, vários pensamentos negativos tentavam invadir seu devaneio fashion. Será que ficou algum resquício da fuligem tóxica nela? Será que vou ficar doente? Será que vou precisar de cuidados?

E, por mais que sua mente de Bobo Alegre quisesse pensar que a última pessoa que experimentou aquela imaginária jaqueta provavelmente não carregava nenhum fragmento de nuvem, já era tarde demais. Sua doce capacidade de não ver o que não queria estava corrompida. Ele atingiu o fundo do poço quando o primeiro domingo bateu em sua porta.

Esse dia, outrora momento de churrasco-com-sertanejo, agora poderia lhe oferecer no máximo algumas solitárias sessões de shows Live no Instagram. O que, para o Otimista, não era de todo mal: se sentia menos sozinho ao ver os números indicando que outras 3.7 milhões de pessoas também estavam assistindo àquela transmissão. “Show bom né? O pessoal deve estar se divertindo” comentava ele ignorando que não havia mais ninguém ali.

Foram dias e dias isolado em suas tentativas de não ver nada ruim. Passeou por perfis de blogueiras fitness, por plataformas de streaming e até por sites de pornografia sadomasoquista, mas nada adiantou: o Otimista realmente sentia falta da doce batucada e do papo-furado. Não conseguiu conter as lágrimas ao perceber que não fazia um quadradinho há um trimestre.

De tanto abstrair, chegou um ponto em que ele não sabia mais em qual dos mundos estava. A falsa-alegria havia fritado a sua cabeça. E, quando as coisas finalmente melhoraram, o Otimista já não conseguia calibrar o que sobrara de seus miolos. Morreu sem saber que o normal para ele é que era o maior dos problemas. Pelo menos fez a passagem ao som de “Você sabe o que é caviar?”.

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Ilustradora convidada:

Myrnna Ramuch

Estudante de Agronomia na UFRRJ e estagiária no Centro de Arte e Cultura da Universidade, no seu tempo livre gosta de desenhar e faz isso desde pequena. Tem o sonho de misturar arte e plantas se especializando em Paisagismo, criando obras de arte vivas.

👉  Conheça o trabalho da Myrnna no instagram.

Os ódios que envolvem The Last of Us Parte II

*ALERTA DE SPOILERS DE THE LAST OF US E THE LAST OF US PARTE II*

Nos meses recentes, houve uma grande polêmica acerca do último lançamento do estúdio de jogos Naughty Dog, The Last of Us Parte II. A continuação do exclusivo da Playstation lançado em 2013, gerou uma onda de revolta na internet que foi desde o “protesto” de jogadores quebrando os discos do jogo, até mesmo perseguição e comentários preconceituosos direcionados ao elenco e equipe de criação, nas redes sociais. O motivo de tamanha indignação não vem por nenhuma polêmica em si, visto que o jogo não traz nenhuma posição controversa ou coisa do tipo. Na verdade, boa parte desses ataques, que puderam ser sentidos nas suas avaliações, vieram de pessoas que mal jogaram The Last of Us Parte II e que ao ver cenas vazadas, não souberam lidar com a contradição de expectativas que sua história traz.

Quando The Last Of Us foi lançado, o jogo se destacou bastante na indústria pelo avanço gráfico e por uma utilização de mecânicas interessante, mas seu real atrativo era uma história profunda e comovente. Existia muitas camadas em seu protagonista, Joel (Troy Baker), e sua jornada com Ellie (Ashley Johnson) era digna de nossa compaixão e admiração, mesmo que isso custasse a nós apagar algumas de suas dimensões (requisito que já foi abordado em outro texto meu). Principalmente quando se trata da escolha que Joel faz no final do jogo.

The Last of Us Parte II: Joel sendo segurado contra a parede por dois homens da WLF enquanto Mel faz um torniquete em sua perna e Owen aponta uma escopeta para o seu rosto
“O Julgamento de Joel Miller”

A contradição das expectativas quanto a The Last of Us Parte II começa nas primeiras duas horas de gameplay: Somos testemunhas da morte de Joel pelas mãos daquela que seria a “vilã” dessa história, Abby (Laura Bailey*). O que nos resta é apenas observar a despedida de nosso então “herói” pelos olhos e gritos de raiva de sua companheira e filha de consideração, Ellie. É um momento muito cruel e por mais que seja estranho pensar nisso, é normal sentirmos ódio a partir dele. Esse é o sentimento que foi pensado para ser carregado por nós em meio ao jogo. É ele que conduz a narrativa adiante e, mesmo que não queiramos aceitar, é o que nos motiva a matar cada NPC ao longo da jornada. O que pra Ellie é um ato de sobrevivência (seja contra infectados ou humanos), para nós é parte do jogo, é somente um personagem randômico sem vida, e sendo assim é só um empecilho no caminho. O único fardo que temos é a tensão que cada “fase” traz e o que nos alivia disso é justamente os momentos de amor e doçura da história, que no primeiro jogo era a inocência de Ellie com Joel e nesse são os carinhos e conversas entre Ellie e Dina (Shannon Woodward*). Esses momentos têm seu papel no conjunto de emoções que a narrativa trás, mas infelizmente eles duram pouco.

The Last of Us Parte II: Dina admirando Ellie enquanto ela toca Take on Me
“Take on Me”

Em comparação a primeira parte, a cada capitulo de The Last of Us Parte II, não só sentimos a dificuldade aumentar, como também vemos com mais clareza as dimensões mais contraditórias da sua protagonista, e que nesse caso são quase impossíveis de serem apagadas da memória. Mesmo que a decisão de Joel no primeiro jogo, tenha vindo de boas intenções – e que muitos de nós provavelmente faríamos o mesmo — temos que reconhecer que foi um ato egoísta e as consequências do começo do segundo jogo, provam isso. Assim, a segunda parte também nos faz ter essa visão sobre Ellie, mas ao invés de somente repensarmos suas ações após analisarmos as consequências, nosso auto questionamento surge já em meio ao ato. Isso, considerando principalmente as ações das quais não temos escolha (como o assassinato de Owen [Patrick Fugit] e Mel [Ashly Burch] que estava gravida) e os quais temos que realizar para continuar a história (como a tortura de Nora [Chelsea Tavares] ). Dessa forma, o jogo se utiliza do fenômeno da empatia que geramos, pra nos fazer questionar sobre os atos de violência que cometemos, como também nos lembrarmos que somos coautores deles.

The Last of Us Parte II: Ellie indo em direção á Nora que esta sufocando pelos esporos da sala
“O que eu tive que fazer”

O segundo momento de contradição vem quando assumimos o controle de Abby, algo que de cara nos dá desgosto. Quando botamos em perspectiva as consequências das ações de Joel na vida da “vilã”, o jogo se utiliza do incomodo que sentimos para começar a levantar algumas questões morais. Se antes nos questionamos sobre a violência, agora temos que deixar o restante das nossas convicções em dúvida. Para fazer isso uma narrativa pode optar por varias ideias diferentes, desde a construção de um personagem para ser um modelo, ou na conclusão de sua história onde sua argumentativa fica mais clara. Mas nesse caso, a ideia de The Last of Us Parte II é justamente gerar desconforto quanto as contradições da história. E por mais que seja uma manobra arriscada, pode ter um efeito bastante impactante em quem assiste, ou nesse caso, quem joga.

“(…) Sabe, quando você se sente desconfortável. Quando algo é tão verdadeiro que você realmente se sente desconfortável, sabe o que isso significa? Isso significa que seu cérebro está passando por uma experiência de aprendizagem. É por isso que é tão desconfortável, porque isso é algo com que seu cérebro realmente prefere não ter que lidar, essa verdade é demais, certo? E, portanto, é atraente, você não consegue desviar o olhar!” – Robert Mckee para o London Real.

Depois de jogar toda a metade de Abby, e vivenciar o conflito com Ellie sobre a perspectiva da “vilã”, talvez possamos nos sentir satisfeitos com a lição de que sempre existe mais de um lado da história. Porém a resolução de um final mais pacífico, onde existe um pleno entendimento entre os personagens, infelizmente não parece viável no mundo de The Last of Us. A terceira e última contradição da história vem justamente quando Ellie não consegue viver sua vida com Dina sem pôr um ponto final em sua questão com Joel, e decide abandona-la para ir atrás de Abby novamente. O embate final entre as duas protagonistas é uma luta sem sentido no qual já estamos transtornados o suficiente a ponto de não querermos mais jogar. E ao invés da determinação que tínhamos no começo do jogo, cada soco que damos tem a única intenção de terminar logo aquela luta fútil. Por fim, seja para aqueles mais abertos ou aqueles que ainda carregavam alguma mágoa de Abby, as consequências que Ellie tem depois desse embate se tornam uma lição mais do que suficiente.

The Last of Us Parte II: Ellie sentada no raso da praia em Santa Barbara, segurando sua mão que sangra
“As nossas marcas”

No micro ou no macro, toda narrativa que o jogo quer nos trazer é justamente sobre como o ódio e a vingança são algo sem sentido, que nos deixa indefesos aos seus efeitos colaterais e que pode acabar criando um ciclo de violência sem fim. No micro, isso se dá justamente pela perseguição de Abby contra Joel e de Ellie contra Abby. Se todos conseguissem seus objetivos, de aliados em aliados, vinganças por vinganças, todos terminariam mortos. Já no macro, isso é mostrado pela disputa entre O Exército de Libertação de Washington (WLF) e os Serafitas, cujo empenho e cegueira são tão grandes, que seu projeto de “pacificação” de Seattle acaba virando uma matança sem sentido, e rende uma das cenas mais simbólicas do jogo.

The Last of Us Parte II: Abby e Lev cavalgando em meio ao incêndio provocado pelo ataque da WLF contra os Serafitas
“Então o mundo todo será consumido pelo fogo”

Enfim, esse é apenas um relato de quem jogou The Last of Us Parte II e seguiu a sua história aberto as suas possibilidades e contradições. Entendo que é triste encarar o luto por Joel, mas infelizmente é necessário para entendermos que ele não era nosso herói, e que ninguém naquele mundo deveria ser. E entendo que deve ser incômodo tentar ver o lado de Abby (eu mesmo fiquei em negação no começo de sua metade), mas se não formos capazes de pensar pelas duas protagonistas do jogo, se não formos capazes de termos empatia, muito provavelmente só estaremos aptos a cometer os mesmos erros que elas, mesmo que em menor escala. Porém muitas dessas questões provavelmente só serão entendidas por alguns, visto que muitos ainda vão preferir seguir a via do ódio (mesmo sentimento que o jogo aborda) e não darão uma chance as questões que The Last of Us Parte II traz.

*No total três pessoas contribuíram para a criação de Abby em The Last of Us Parte II: a desenvolvedora de jogos Jocelyn Mettler, como modelo de rosto, a atleta Collen Fotsch como modelo de corpo e a atriz Laura Bailey, responsável por dar voz e interpretar a personagem em captura de movimento. Enquanto Dina, contou com a atriz Cascina Caradonna como modelo de rosto e a atriz Shannon Woodward dando voz e interpretação a personagem.

Janela Indiscreta

O isolamento aflorou o voyeurismo em todes nós, gradativamente. Você disse pra si que não deveria ser motivo de embaraço ficar tantas horas olhando e olhando a vida de outra pessoa se abrir diante de você. Ninguém mais fecha as cortinas pra quase nada hoje em dia. Pela tela do seu celular, você já conhecia intimamente tantas pessoas que nunca sequer conheceu. Sabia o interior de suas casas detalhadamente, o que comiam, como prendiam o cabelo ou como era a relação com suas mães. Quando percebeu, pela primeira vez, a janela da vizinha aberta bem na frente do seu prédio, você se convenceu que olhá-la um pouco não seria assim tão diferente. Não era como se pudesse extrair informações bancárias, ou grandes segredos. Era em algum lugar até menos invasivo do que stalkeá-la, era menos revelador. Havia uma distância segura, um ponto que seu olho era fisicamente incapaz de adentrar, coisas que você com nenhum hacker no mundo poderia descobrir. Logo, era algo seguro, pensou. Algo passível de certo deleite. Algo que poderia se permitir.

Na primeira vez que a viu foi pela janela da sala. Ela voltava com sacolas e sacolas de compras pesadas do mercado, que carregava com algum esforço, uma a uma, pra dentro do apartamento. Você tinha acabado de acordar e se surpreendeu com a produtividade daquela mulher em já ter feito compras antes mesmo de você tomar café. E você sentou-se com a pequena xícara na mão e ficou olhando enquanto ela apoiou as compras ao lado da porta da rua e começou a higienizar item por item da sacola. Você a observou agachada, os cabelos presos, um tanto descabelada, limpando as compras no chão da sala com um frasco de álcool ao lado. E você se simpatizou com aquela imagem tão estranhamente cotidiana, com aquele esforço solitário. Aquela imagem, de tão ordinária, tinha algo que lhe seduzia. Algo nas suas mãos, na forma com que os braços dançavam de uma sacola pra outra. Quando ela finalmente terminou a maçante tarefa, ali entre as compras espalhadas pelo chão, você viu ela retirar, num gesto aliviado, o sutiã e arremessá-lo sob o sofá. Por alguns minutos você pode ver um dos peitos escapar pra fora de sua camisa. Ela secava o suor na testa com o peito pra fora e, pra sua surpresa, sorria. Você se pegou sorrindo também, correspondendo a ela de alguma forma. Querendo dividir aquela realização, aquela tola vitória. Decidiu que aquilo era uma mensagem, como um episódio motivacional de produtividade serena, de que o sublime pode aparecer entre as coisas mundanas. De que você devia retomar suas próprias obrigações, limpar suas próprias coisas e sorrir.

Apenas na tarde do dia seguinte você tornou a olhá-la. Se convenceu de que por curiosidade apenas. Procurou pela janela e percebeu que não só sua sala dava pra sala dela, mas como seu quarto também via o quarto do apartamento dela. E a tentação de adentrar aquele quarto era maior que você. Quase como se pudesse grudar no parapeito como crianças que colam o rosto no vidro de um aquário. Um aquário cheio de pequenas surpresas, peixes coloridos saindo entre pedras e flores de plástico, baús cheios de bolhas, luzes fluorescentes. Os detalhes daquele quarto se materializaram pra você, no modo que alguns livros e papéis ficavam sobre a cômoda. Na forma que algumas roupas estavam estiradas pelo chão, colorindo o piso de madeira. Até mesmo pelo descuido tão cuidadoso em deixar um copo abandonado ao lado de um vaso de plantas como um lembrete de que era preciso regá-las. Você teve uma leve sensação de déjà-vu enquanto mergulhava nas paredes rosadas do quarto. Talvez fosse apenas seu cérebro tentando diminuir ainda mais a distância terrível da rua, tentando ocultar o terrível fato de que espiava por uma fechadura que nunca foi convidade a espiar. Quando essa ideia vinha a sua cabeça, como uma torrente de vergonha batendo violenta contra seu peito, você sentia raiva de nunca ter tido a oportunidade, em todas as vezes que caminhou por sua rua, de nunca ter visto aquela mulher, de nunca ter lhe oferecido ao menos um sorriso, um par de palavras, lhe feito um convite. Foi quando uma porta se abriu e ela entrou no quarto, até agora vazio, enrolada em uma toalha. Você quis sair e preservar aquela privacidade, mas não conseguiu. Ela, com seus cabelos molhados escorrendo, a grande e possivelmente macia toalha mascarando suas curvas, aquela visão fisgou você. Queria poder abraçá-la de costas, sentir a toalha contra sua pele, sentir as gotas molhadas de seu cabelo pingarem contra seu rosto. Saber se seu corpo estava quente ou frio e que cheiro deveria ter. Ela se sentou na beira da cama, de costas, e deixou a toalha pender em cima dos lençóis. Você teve calafrios, salivou vendo suas costas nuas, sua silhueta se revelando, sua bunda parcialmente a mostra pressionada contra a cama. Ela deslizava os dedos por entre o cabelo, desembaraçando-o, até que, como num susto, levantou. Você reagiu, levantando-se também. Apavorade. Algo está errado. Ela tinha lhe visto. Você teve certeza, mas não podia se mexer. Rezou e rezou pra que ela não se virasse, pra que ela não lhe fitasse, pra que você não fosse violade pela descoberta dela. Ela caminhou nua pelo quarto e atendeu um celular. Você respirou fundo num alívio tremendo, sua visão quase embaçava de nervoso. A realidade mais uma vez lhe acordou pra fora daquele sonho. Você se afastou, jogou água contra seu rosto, com uma sensação um tanto indigesta sobre si mesme. Existem limites, você quis se dizer. Aquele era o limite. Ela poderia nunca querer que você fosse tão longe. Ela poderia nunca se quer deixar ninguém ir tão longe. Você precisava se afastar daquela nova perversão, voltar ao feed e a todas as pessoas que se davam pra você voluntariamente, que aceitaram os termos de uso pra este apetite pela privacidade. Ela poderia só não ter cortinas, poderia nem ao menos ser uma escolha. Ela não tinha escolhido você. Ela não tinha escolhido você, repetia e repetia. E essa verdade era uma faca cravada em seu peito. Você quis chorar, por mais ridículo que isso parecesse. Ela nem sabia que você existia, pensou e deixou vergonhosas lágrimas descerem por seu rosto.

Nesse mesmo dia, na madrugada, você acordou com um barulho terrível. Um estrondo na rua, com barulho de carros colidindo e vidraças quebrando. Você correu para a janela e no asfalto viu um carro amassado contra um poste. A luz da rua piscava. Você viu algumas outras pessoas debruçadas em suas janelas por um tempo, até que uma pessoa desceu do carro. Você não podia ver muito bem, mas parecia ligar pra alguém. Gesticulava e gesticulava diante do carro completamente devastado. Você sentiu algo estranho e quando levantou o olhar da rua, notou que a mulher na janela a frente da sua – sim, ela mesma, sua paixão desconhecida – olhava diretamente pra você. Você olhou no fundo dos olhos dela. Seu coração batia aterrorizado. Você pensou que iria morrer naquele olhar. Era um privilégio do destino, as janelas abertas uma pra outra lhe parecia uma espécie de pacto íntimo arquitetonicamente elaborado. Você quis agradecer à construtora, à imobiliária. Agradecer a seja lá quem foi que te convenceu que esse aluguel valia seu surrado dinheiro. Agora você sabia que valia. Mas você não conseguia nem sorrir, nem acenar, nem nada. Aquilo pareceu deixar tudo suspenso, não sabia dizer por quanto tempo se olharam, não sabia se ela tinha de fato visto você no escuro do seu quarto, mas tinha a sensação de ter visto ela sorrir. Você correu pra acender a luz e quando voltou ela não estava mais lá, nem mesmo sua luz estava mais acesa, e a pessoa do carro batido já falava com o motorista de um caminhão de guincho que arrastou ruidosamente o carro embora. Mas a pessoa permaneceu embaixo do poste, por um tempo, ao telefone. Você já tinha perdido o sono e então percebeu a luz do quarto dela se acender. Ela atendeu apressadamente o telefone. Você voltou a olhá-la, agora precisava saber se ela voltaria a procurar por você. Ela correu pra janela, você correu também, tomade por uma súbita esperança. Então, pra sua decepção, ela olhou pra pessoa na rua e acenou. A pessoa atravessou o escuro e entrou no prédio. Você sentiu um pouco de raiva ou talvez pudesse dizer ciúmes. Seja quem for que lhe acordou de madrugada, a conhecia. Mais do que isso, estava subindo para o apartamento dela bem na noite que você e ela se olharam pela primeira vez. Você precisava saber se tinha chance, se iria testemunhar o amor que daria fim a toda sua fantasia. Talvez aquilo fosse lhe curar de alguma forma, fosse parar de vez aquela obsessão vulgar e esquisita que crescia em você. Lhe permitir voltar a normalidade, a se sentir razoável, decente, comum.

Você se lembrou da sala e da porta da rua por onde viu ela entrar pela primeira vez. Correu para outra janela e lá estava ela abrindo a porta. Você pensou que fosse desmaiar, começou a suar frio, como se diante da visão mesma do inferno, do monstro mais horrendo que uma criança podia imaginar, do pior fantasma de todos, de um espelho. Ela abria a porta pra você. Ou melhor, para alguém extraordinariamente igual a você. Os mesmos cabelos, o mesmo rosto, o mesmo nariz, as mesmas mãos. Aquilo era impossível. Você devia estar sonhando, ou teria enlouquecido completamente. Era você. Ou parecia você. Mas não podia. Ela abraçou seja lá quem fosse e puxou a pessoa pela mão até o quarto. A pessoa, aquela intrusa na sua sanidade, caminhava atrás dela com um sorriso malicioso nos lábios. O seu sorriso malicioso. Furtado de você. Mas lhe dotando de algum tipo estranho de presença. Era algo como estar lá. Era algo melhor do que estar apenas ali, em sua casa, confinade e sozinhe. Era uma espécie de sorte, de loteria. Você seguiu até o seu quarto, incapaz de fugir do que estava acontecendo.

Você observou enquanto ela e você – aquele maldito duplo seu – sentaram na cama, ela lhe beijou forte, as mãos agarradas em seu cabelo, firme. Como se fosse algo há muito desejado, há muito esperado ou até como se tivesse medo de perder-lhe de alguma forma. Havia uma urgência, estavam ansiosos, ameaçados, suas palmas eram quentes e vocês suavam ou você imaginava que suavam. Ficaram com os lábios colados por um bom tempo, seu duplo passava as mãos pelo corpo dela. Descia pelo pescoço, roçava seus peitos, cruzava sua barriga, até tocá-la por baixo da camisola. Você sentiu raiva. Queria saber como era, como ela estava, de seu quarto não podia ver tão longe. Não podia saber se estava úmida, se usava calcinha ou não, como deveria ser tocá-la com seus dedos, por onde você começaria? Ela se levantou e tirou devagar sua camisola branca, revelando tudo, como que para lhe responder, como que pra deixar você tocá-la junto. Reiterando o convite pra você adentrar. Pela primeira vez você viu a buceta dela em sua frente. E você soube. Estava úmida. Estava linda. Você poderia ter ficado um tempo só observando o corpo dela diante do seu, como uma fotografia valiosa, nunca poderia imaginar um corpo tão bonito, nunca poderia imaginar como seria o gosto daquele pele, daquele suor. Você via gotas de suor escorrendo embaixo dos seus seios, você queria lambê-las, você queria lamber ela inteira. Mas antes de poder elaborar qualquer coisa, antes mesmo de abrir a boca, aquela outra pessoa – que era quase você, ou a versão ideal de você – derrubou ela na cama e começou a beijar suas coxas. Ela ria graciosa e quando começou a chupá-la, com o rosto enfiado entre suas pernas, ela olhou pra você. Sim, você do outro lado do prédio. Ela lhe olhou. Ela também sabia. Ela lhe olhava enquanto era chupada e você via ela tremendo e agarrando violentamente os lençóis e lhe olhando. Você, agora grudade na janela, tremia também e teve a sensação de sentir um gosto doce em sua boca. Como uma febre, você alucinava. Era quase como se pudesse fechar os olhos e se ver com a cara entre as pernas dela. Quase como se pudesse sentir suas coxas quentes contra suas orelhas, os pés delicados dela sobre suas costas. Ouvir os gemidos dela. Você sabia que ela gemia, via sua boca aberta, seu peito arfando e se você ficasse muito quiete podia ouvir. Então, ela ergueu sua cabeça com as mãos, alguns fios do seu cabelo com o suor grudavam em sua pele, ensopada. Ela ergueu seu rosto e beijou sua boca, sua boca toda molhada dela, ela queria sentir o próprio gosto e passeou sua boca por seu rosto. Você podia sentir os lábios contra sua pele, beijando cada canto da sua boca, a língua dela na sua língua. E a coisa mais mágica aconteceu, ela colou a boca em seu ouvido e você pode ouvir ela lhe chamar, pelo seu nome. Ela lhe chamava e pedia pra você vir correndo. Dizia que estava quase gozando e precisava de você ali. Perguntava se você estava mesmo ali? E você respondeu que sim. Você estava. Você estava. Você podia se ver lá no quarto dela, era real. Não sabia como. Mas estava lá com ela. Era mesmo você com as mãos na cintura dela, enfiando os dedos nela. Ela subiu em cima de você e começou a lhe chupar, você via a bunda dela na frente da sua cara enquanto ela estava com o rosto entre as suas pernas. Você sentia os dois corpos se fundindo, se roçando. Você a chupava também. Não havia mais intermediários, não havia janela. Vocês se chupavam. Sentia o peso dela sobre você e a boca úmida dela, tanto quanto ela podia sentir sua boca. Seu coração batia cada vez mais rápido. Suas mãos se agarravam nela, você lambia, sentia o grelo dela pulsando, tudo nela pulsava e tudo em você também. Não precisavam respirar, não precisavam mais abrir os olhos. Estavam perfeitamente encaixades, perfeitamente entregues. Suas pernas tremiam novamente, um calor doce tomou você, você ia gozar, ia gozar com ela. Gozar assim com alguém é a coisa mais extraordinária que pode acontecer e você tinha certeza que poderia acreditar em coisas extraordinárias. Vocês gozaram, uma febre orgástica, calafrios, cócegas, espasmos. Você só sabia gemer e gemer enquanto tudo ficava mais e mais molhado. E então você ouviu um grito, como um gemido histérico, alto, alucinado. E percebeu que não era bem um gemido e mais como um grito de horror vindo do outro lado da rua. Um grito dela. Lhe despertando.

Você abriu os olhos e percebeu que se tocava em pé diante da janela e que aquela outra pessoa – que parecia você, surrealmente igual você – levantou apressadamente da cama e com um sorriso perverso, como o sorriso do demônio, fechou as cortinas. Haviam cortinas afinal. O sonho tinha acabado e você estava do lado de fora. De volta ao seu confinamento, à sua própria solidão, à todas as pessoas que se revelavam virtualmente e só. Uma dor horrível tomou seu peito. Você quis gritar, mas tinha muita vergonha em assumir o que tinha feito. Você queria saber o nome dela pra gritar por ela. Mas ela nunca lhe havia dito. Então você se rendeu ao silêncio e o dia raiou sobre sua cabeça. E todas as outras pessoas tornaram a ocupar a rua, com seus trajetos cheios de preocupações, com seus carros e ônibus e suas máscaras. As cortinas ficaram eternamente fechadas. Como uma sentença, um decreto. O elo havia sido rompido, sua permissão havia expirado. Ninguém lhe explicou como aquele jogo deveria funcionar, não conhecia a ética do voyeurismo pra saber o que havia feito de errado, se havia feito algo de errado. Você não tinha a quem recorrer. Tinha se perdido vendo um mundo pelo buraco da fechadura e agora precisava aceitar que o buraco estava selado e aquela era uma vida da qual você não fazia parte. E que, por pura sorte, ninguém estava acusando você, ninguém havia lhe pego ou recriminado. Por sorte você estava de volta em uma vida decente, sem nada de extraordinário, com o enorme vazio em ser apenas você mesme, de saber apenas sobre si, de aceitar que haviam coisas sobre outres que você nunca poderia acessar. “Viramos mesmo uma raça de xeretas”, concluiu. “Ou viramos logo hackers ou compramos malditos binóculos.”

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Ilustradora:

Rayane Damasceno

Estudante de pintura na UFRJ, artista e pesquisadora, envolvida com experimentações de diferentes materiais dentro e fora do universo artístico e agora se envolvendo com o ramo da ilustração.

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