Janela Indiscreta

Janela Indiscreta


Um conto erótico hitchockiano sobre o voyerismo no isolamento

O isolamento aflorou o voyeurismo em todes nós, gradativamente. Você disse pra si que não deveria ser motivo de embaraço ficar tantas horas olhando e olhando a vida de outra pessoa se abrir diante de você. Ninguém mais fecha as cortinas pra quase nada hoje em dia. Pela tela do seu celular, você já conhecia intimamente tantas pessoas que nunca sequer conheceu. Sabia o interior de suas casas detalhadamente, o que comiam, como prendiam o cabelo ou como era a relação com suas mães. Quando percebeu, pela primeira vez, a janela da vizinha aberta bem na frente do seu prédio, você se convenceu que olhá-la um pouco não seria assim tão diferente. Não era como se pudesse extrair informações bancárias, ou grandes segredos. Era em algum lugar até menos invasivo do que stalkeá-la, era menos revelador. Havia uma distância segura, um ponto que seu olho era fisicamente incapaz de adentrar, coisas que você com nenhum hacker no mundo poderia descobrir. Logo, era algo seguro, pensou. Algo passível de certo deleite. Algo que poderia se permitir.

Na primeira vez que a viu foi pela janela da sala. Ela voltava com sacolas e sacolas de compras pesadas do mercado, que carregava com algum esforço, uma a uma, pra dentro do apartamento. Você tinha acabado de acordar e se surpreendeu com a produtividade daquela mulher em já ter feito compras antes mesmo de você tomar café. E você sentou-se com a pequena xícara na mão e ficou olhando enquanto ela apoiou as compras ao lado da porta da rua e começou a higienizar item por item da sacola. Você a observou agachada, os cabelos presos, um tanto descabelada, limpando as compras no chão da sala com um frasco de álcool ao lado. E você se simpatizou com aquela imagem tão estranhamente cotidiana, com aquele esforço solitário. Aquela imagem, de tão ordinária, tinha algo que lhe seduzia. Algo nas suas mãos, na forma com que os braços dançavam de uma sacola pra outra. Quando ela finalmente terminou a maçante tarefa, ali entre as compras espalhadas pelo chão, você viu ela retirar, num gesto aliviado, o sutiã e arremessá-lo sob o sofá. Por alguns minutos você pode ver um dos peitos escapar pra fora de sua camisa. Ela secava o suor na testa com o peito pra fora e, pra sua surpresa, sorria. Você se pegou sorrindo também, correspondendo a ela de alguma forma. Querendo dividir aquela realização, aquela tola vitória. Decidiu que aquilo era uma mensagem, como um episódio motivacional de produtividade serena, de que o sublime pode aparecer entre as coisas mundanas. De que você devia retomar suas próprias obrigações, limpar suas próprias coisas e sorrir.

Apenas na tarde do dia seguinte você tornou a olhá-la. Se convenceu de que por curiosidade apenas. Procurou pela janela e percebeu que não só sua sala dava pra sala dela, mas como seu quarto também via o quarto do apartamento dela. E a tentação de adentrar aquele quarto era maior que você. Quase como se pudesse grudar no parapeito como crianças que colam o rosto no vidro de um aquário. Um aquário cheio de pequenas surpresas, peixes coloridos saindo entre pedras e flores de plástico, baús cheios de bolhas, luzes fluorescentes. Os detalhes daquele quarto se materializaram pra você, no modo que alguns livros e papéis ficavam sobre a cômoda. Na forma que algumas roupas estavam estiradas pelo chão, colorindo o piso de madeira. Até mesmo pelo descuido tão cuidadoso em deixar um copo abandonado ao lado de um vaso de plantas como um lembrete de que era preciso regá-las. Você teve uma leve sensação de déjà-vu enquanto mergulhava nas paredes rosadas do quarto. Talvez fosse apenas seu cérebro tentando diminuir ainda mais a distância terrível da rua, tentando ocultar o terrível fato de que espiava por uma fechadura que nunca foi convidade a espiar. Quando essa ideia vinha a sua cabeça, como uma torrente de vergonha batendo violenta contra seu peito, você sentia raiva de nunca ter tido a oportunidade, em todas as vezes que caminhou por sua rua, de nunca ter visto aquela mulher, de nunca ter lhe oferecido ao menos um sorriso, um par de palavras, lhe feito um convite. Foi quando uma porta se abriu e ela entrou no quarto, até agora vazio, enrolada em uma toalha. Você quis sair e preservar aquela privacidade, mas não conseguiu. Ela, com seus cabelos molhados escorrendo, a grande e possivelmente macia toalha mascarando suas curvas, aquela visão fisgou você. Queria poder abraçá-la de costas, sentir a toalha contra sua pele, sentir as gotas molhadas de seu cabelo pingarem contra seu rosto. Saber se seu corpo estava quente ou frio e que cheiro deveria ter. Ela se sentou na beira da cama, de costas, e deixou a toalha pender em cima dos lençóis. Você teve calafrios, salivou vendo suas costas nuas, sua silhueta se revelando, sua bunda parcialmente a mostra pressionada contra a cama. Ela deslizava os dedos por entre o cabelo, desembaraçando-o, até que, como num susto, levantou. Você reagiu, levantando-se também. Apavorade. Algo está errado. Ela tinha lhe visto. Você teve certeza, mas não podia se mexer. Rezou e rezou pra que ela não se virasse, pra que ela não lhe fitasse, pra que você não fosse violade pela descoberta dela. Ela caminhou nua pelo quarto e atendeu um celular. Você respirou fundo num alívio tremendo, sua visão quase embaçava de nervoso. A realidade mais uma vez lhe acordou pra fora daquele sonho. Você se afastou, jogou água contra seu rosto, com uma sensação um tanto indigesta sobre si mesme. Existem limites, você quis se dizer. Aquele era o limite. Ela poderia nunca querer que você fosse tão longe. Ela poderia nunca se quer deixar ninguém ir tão longe. Você precisava se afastar daquela nova perversão, voltar ao feed e a todas as pessoas que se davam pra você voluntariamente, que aceitaram os termos de uso pra este apetite pela privacidade. Ela poderia só não ter cortinas, poderia nem ao menos ser uma escolha. Ela não tinha escolhido você. Ela não tinha escolhido você, repetia e repetia. E essa verdade era uma faca cravada em seu peito. Você quis chorar, por mais ridículo que isso parecesse. Ela nem sabia que você existia, pensou e deixou vergonhosas lágrimas descerem por seu rosto.

Nesse mesmo dia, na madrugada, você acordou com um barulho terrível. Um estrondo na rua, com barulho de carros colidindo e vidraças quebrando. Você correu para a janela e no asfalto viu um carro amassado contra um poste. A luz da rua piscava. Você viu algumas outras pessoas debruçadas em suas janelas por um tempo, até que uma pessoa desceu do carro. Você não podia ver muito bem, mas parecia ligar pra alguém. Gesticulava e gesticulava diante do carro completamente devastado. Você sentiu algo estranho e quando levantou o olhar da rua, notou que a mulher na janela a frente da sua – sim, ela mesma, sua paixão desconhecida – olhava diretamente pra você. Você olhou no fundo dos olhos dela. Seu coração batia aterrorizado. Você pensou que iria morrer naquele olhar. Era um privilégio do destino, as janelas abertas uma pra outra lhe parecia uma espécie de pacto íntimo arquitetonicamente elaborado. Você quis agradecer à construtora, à imobiliária. Agradecer a seja lá quem foi que te convenceu que esse aluguel valia seu surrado dinheiro. Agora você sabia que valia. Mas você não conseguia nem sorrir, nem acenar, nem nada. Aquilo pareceu deixar tudo suspenso, não sabia dizer por quanto tempo se olharam, não sabia se ela tinha de fato visto você no escuro do seu quarto, mas tinha a sensação de ter visto ela sorrir. Você correu pra acender a luz e quando voltou ela não estava mais lá, nem mesmo sua luz estava mais acesa, e a pessoa do carro batido já falava com o motorista de um caminhão de guincho que arrastou ruidosamente o carro embora. Mas a pessoa permaneceu embaixo do poste, por um tempo, ao telefone. Você já tinha perdido o sono e então percebeu a luz do quarto dela se acender. Ela atendeu apressadamente o telefone. Você voltou a olhá-la, agora precisava saber se ela voltaria a procurar por você. Ela correu pra janela, você correu também, tomade por uma súbita esperança. Então, pra sua decepção, ela olhou pra pessoa na rua e acenou. A pessoa atravessou o escuro e entrou no prédio. Você sentiu um pouco de raiva ou talvez pudesse dizer ciúmes. Seja quem for que lhe acordou de madrugada, a conhecia. Mais do que isso, estava subindo para o apartamento dela bem na noite que você e ela se olharam pela primeira vez. Você precisava saber se tinha chance, se iria testemunhar o amor que daria fim a toda sua fantasia. Talvez aquilo fosse lhe curar de alguma forma, fosse parar de vez aquela obsessão vulgar e esquisita que crescia em você. Lhe permitir voltar a normalidade, a se sentir razoável, decente, comum.

Você se lembrou da sala e da porta da rua por onde viu ela entrar pela primeira vez. Correu para outra janela e lá estava ela abrindo a porta. Você pensou que fosse desmaiar, começou a suar frio, como se diante da visão mesma do inferno, do monstro mais horrendo que uma criança podia imaginar, do pior fantasma de todos, de um espelho. Ela abria a porta pra você. Ou melhor, para alguém extraordinariamente igual a você. Os mesmos cabelos, o mesmo rosto, o mesmo nariz, as mesmas mãos. Aquilo era impossível. Você devia estar sonhando, ou teria enlouquecido completamente. Era você. Ou parecia você. Mas não podia. Ela abraçou seja lá quem fosse e puxou a pessoa pela mão até o quarto. A pessoa, aquela intrusa na sua sanidade, caminhava atrás dela com um sorriso malicioso nos lábios. O seu sorriso malicioso. Furtado de você. Mas lhe dotando de algum tipo estranho de presença. Era algo como estar lá. Era algo melhor do que estar apenas ali, em sua casa, confinade e sozinhe. Era uma espécie de sorte, de loteria. Você seguiu até o seu quarto, incapaz de fugir do que estava acontecendo.

Você observou enquanto ela e você – aquele maldito duplo seu – sentaram na cama, ela lhe beijou forte, as mãos agarradas em seu cabelo, firme. Como se fosse algo há muito desejado, há muito esperado ou até como se tivesse medo de perder-lhe de alguma forma. Havia uma urgência, estavam ansiosos, ameaçados, suas palmas eram quentes e vocês suavam ou você imaginava que suavam. Ficaram com os lábios colados por um bom tempo, seu duplo passava as mãos pelo corpo dela. Descia pelo pescoço, roçava seus peitos, cruzava sua barriga, até tocá-la por baixo da camisola. Você sentiu raiva. Queria saber como era, como ela estava, de seu quarto não podia ver tão longe. Não podia saber se estava úmida, se usava calcinha ou não, como deveria ser tocá-la com seus dedos, por onde você começaria? Ela se levantou e tirou devagar sua camisola branca, revelando tudo, como que para lhe responder, como que pra deixar você tocá-la junto. Reiterando o convite pra você adentrar. Pela primeira vez você viu a buceta dela em sua frente. E você soube. Estava úmida. Estava linda. Você poderia ter ficado um tempo só observando o corpo dela diante do seu, como uma fotografia valiosa, nunca poderia imaginar um corpo tão bonito, nunca poderia imaginar como seria o gosto daquele pele, daquele suor. Você via gotas de suor escorrendo embaixo dos seus seios, você queria lambê-las, você queria lamber ela inteira. Mas antes de poder elaborar qualquer coisa, antes mesmo de abrir a boca, aquela outra pessoa – que era quase você, ou a versão ideal de você – derrubou ela na cama e começou a beijar suas coxas. Ela ria graciosa e quando começou a chupá-la, com o rosto enfiado entre suas pernas, ela olhou pra você. Sim, você do outro lado do prédio. Ela lhe olhou. Ela também sabia. Ela lhe olhava enquanto era chupada e você via ela tremendo e agarrando violentamente os lençóis e lhe olhando. Você, agora grudade na janela, tremia também e teve a sensação de sentir um gosto doce em sua boca. Como uma febre, você alucinava. Era quase como se pudesse fechar os olhos e se ver com a cara entre as pernas dela. Quase como se pudesse sentir suas coxas quentes contra suas orelhas, os pés delicados dela sobre suas costas. Ouvir os gemidos dela. Você sabia que ela gemia, via sua boca aberta, seu peito arfando e se você ficasse muito quiete podia ouvir. Então, ela ergueu sua cabeça com as mãos, alguns fios do seu cabelo com o suor grudavam em sua pele, ensopada. Ela ergueu seu rosto e beijou sua boca, sua boca toda molhada dela, ela queria sentir o próprio gosto e passeou sua boca por seu rosto. Você podia sentir os lábios contra sua pele, beijando cada canto da sua boca, a língua dela na sua língua. E a coisa mais mágica aconteceu, ela colou a boca em seu ouvido e você pode ouvir ela lhe chamar, pelo seu nome. Ela lhe chamava e pedia pra você vir correndo. Dizia que estava quase gozando e precisava de você ali. Perguntava se você estava mesmo ali? E você respondeu que sim. Você estava. Você estava. Você podia se ver lá no quarto dela, era real. Não sabia como. Mas estava lá com ela. Era mesmo você com as mãos na cintura dela, enfiando os dedos nela. Ela subiu em cima de você e começou a lhe chupar, você via a bunda dela na frente da sua cara enquanto ela estava com o rosto entre as suas pernas. Você sentia os dois corpos se fundindo, se roçando. Você a chupava também. Não havia mais intermediários, não havia janela. Vocês se chupavam. Sentia o peso dela sobre você e a boca úmida dela, tanto quanto ela podia sentir sua boca. Seu coração batia cada vez mais rápido. Suas mãos se agarravam nela, você lambia, sentia o grelo dela pulsando, tudo nela pulsava e tudo em você também. Não precisavam respirar, não precisavam mais abrir os olhos. Estavam perfeitamente encaixades, perfeitamente entregues. Suas pernas tremiam novamente, um calor doce tomou você, você ia gozar, ia gozar com ela. Gozar assim com alguém é a coisa mais extraordinária que pode acontecer e você tinha certeza que poderia acreditar em coisas extraordinárias. Vocês gozaram, uma febre orgástica, calafrios, cócegas, espasmos. Você só sabia gemer e gemer enquanto tudo ficava mais e mais molhado. E então você ouviu um grito, como um gemido histérico, alto, alucinado. E percebeu que não era bem um gemido e mais como um grito de horror vindo do outro lado da rua. Um grito dela. Lhe despertando.

Você abriu os olhos e percebeu que se tocava em pé diante da janela e que aquela outra pessoa – que parecia você, surrealmente igual você – levantou apressadamente da cama e com um sorriso perverso, como o sorriso do demônio, fechou as cortinas. Haviam cortinas afinal. O sonho tinha acabado e você estava do lado de fora. De volta ao seu confinamento, à sua própria solidão, à todas as pessoas que se revelavam virtualmente e só. Uma dor horrível tomou seu peito. Você quis gritar, mas tinha muita vergonha em assumir o que tinha feito. Você queria saber o nome dela pra gritar por ela. Mas ela nunca lhe havia dito. Então você se rendeu ao silêncio e o dia raiou sobre sua cabeça. E todas as outras pessoas tornaram a ocupar a rua, com seus trajetos cheios de preocupações, com seus carros e ônibus e suas máscaras. As cortinas ficaram eternamente fechadas. Como uma sentença, um decreto. O elo havia sido rompido, sua permissão havia expirado. Ninguém lhe explicou como aquele jogo deveria funcionar, não conhecia a ética do voyeurismo pra saber o que havia feito de errado, se havia feito algo de errado. Você não tinha a quem recorrer. Tinha se perdido vendo um mundo pelo buraco da fechadura e agora precisava aceitar que o buraco estava selado e aquela era uma vida da qual você não fazia parte. E que, por pura sorte, ninguém estava acusando você, ninguém havia lhe pego ou recriminado. Por sorte você estava de volta em uma vida decente, sem nada de extraordinário, com o enorme vazio em ser apenas você mesme, de saber apenas sobre si, de aceitar que haviam coisas sobre outres que você nunca poderia acessar. “Viramos mesmo uma raça de xeretas”, concluiu. “Ou viramos logo hackers ou compramos malditos binóculos.”

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Ilustradora:

Rayane Damasceno

Estudante de pintura na UFRJ, artista e pesquisadora, envolvida com experimentações de diferentes materiais dentro e fora do universo artístico e agora se envolvendo com o ramo da ilustração.

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