O rosto de Ellie manchado de sangue com uma expressão de raiva The Last of Us Parte II

Os ódios que envolvem The Last of Us Parte II


Uma análise em forma de desabafo sobre as contradições presentes no ultimo jogo de Neil Druckmann

*ALERTA DE SPOILERS DE THE LAST OF US E THE LAST OF US PARTE II*

Nos meses recentes, houve uma grande polêmica acerca do último lançamento do estúdio de jogos Naughty Dog, The Last of Us Parte II. A continuação do exclusivo da Playstation lançado em 2013, gerou uma onda de revolta na internet que foi desde o “protesto” de jogadores quebrando os discos do jogo, até mesmo perseguição e comentários preconceituosos direcionados ao elenco e equipe de criação, nas redes sociais. O motivo de tamanha indignação não vem por nenhuma polêmica em si, visto que o jogo não traz nenhuma posição controversa ou coisa do tipo. Na verdade, boa parte desses ataques, que puderam ser sentidos nas suas avaliações, vieram de pessoas que mal jogaram The Last of Us Parte II e que ao ver cenas vazadas, não souberam lidar com a contradição de expectativas que sua história traz.

Quando The Last Of Us foi lançado, o jogo se destacou bastante na indústria pelo avanço gráfico e por uma utilização de mecânicas interessante, mas seu real atrativo era uma história profunda e comovente. Existia muitas camadas em seu protagonista, Joel (Troy Baker), e sua jornada com Ellie (Ashley Johnson) era digna de nossa compaixão e admiração, mesmo que isso custasse a nós apagar algumas de suas dimensões (requisito que já foi abordado em outro texto meu). Principalmente quando se trata da escolha que Joel faz no final do jogo.

The Last of Us Parte II: Joel sendo segurado contra a parede por dois homens da WLF enquanto Mel faz um torniquete em sua perna e Owen aponta uma escopeta para o seu rosto
“O Julgamento de Joel Miller”

A contradição das expectativas quanto a The Last of Us Parte II começa nas primeiras duas horas de gameplay: Somos testemunhas da morte de Joel pelas mãos daquela que seria a “vilã” dessa história, Abby (Laura Bailey*). O que nos resta é apenas observar a despedida de nosso então “herói” pelos olhos e gritos de raiva de sua companheira e filha de consideração, Ellie. É um momento muito cruel e por mais que seja estranho pensar nisso, é normal sentirmos ódio a partir dele. Esse é o sentimento que foi pensado para ser carregado por nós em meio ao jogo. É ele que conduz a narrativa adiante e, mesmo que não queiramos aceitar, é o que nos motiva a matar cada NPC ao longo da jornada. O que pra Ellie é um ato de sobrevivência (seja contra infectados ou humanos), para nós é parte do jogo, é somente um personagem randômico sem vida, e sendo assim é só um empecilho no caminho. O único fardo que temos é a tensão que cada “fase” traz e o que nos alivia disso é justamente os momentos de amor e doçura da história, que no primeiro jogo era a inocência de Ellie com Joel e nesse são os carinhos e conversas entre Ellie e Dina (Shannon Woodward*). Esses momentos têm seu papel no conjunto de emoções que a narrativa trás, mas infelizmente eles duram pouco.

The Last of Us Parte II: Dina admirando Ellie enquanto ela toca Take on Me
“Take on Me”

Em comparação a primeira parte, a cada capitulo de The Last of Us Parte II, não só sentimos a dificuldade aumentar, como também vemos com mais clareza as dimensões mais contraditórias da sua protagonista, e que nesse caso são quase impossíveis de serem apagadas da memória. Mesmo que a decisão de Joel no primeiro jogo, tenha vindo de boas intenções – e que muitos de nós provavelmente faríamos o mesmo — temos que reconhecer que foi um ato egoísta e as consequências do começo do segundo jogo, provam isso. Assim, a segunda parte também nos faz ter essa visão sobre Ellie, mas ao invés de somente repensarmos suas ações após analisarmos as consequências, nosso auto questionamento surge já em meio ao ato. Isso, considerando principalmente as ações das quais não temos escolha (como o assassinato de Owen [Patrick Fugit] e Mel [Ashly Burch] que estava gravida) e os quais temos que realizar para continuar a história (como a tortura de Nora [Chelsea Tavares] ). Dessa forma, o jogo se utiliza do fenômeno da empatia que geramos, pra nos fazer questionar sobre os atos de violência que cometemos, como também nos lembrarmos que somos coautores deles.

The Last of Us Parte II: Ellie indo em direção á Nora que esta sufocando pelos esporos da sala
“O que eu tive que fazer”

O segundo momento de contradição vem quando assumimos o controle de Abby, algo que de cara nos dá desgosto. Quando botamos em perspectiva as consequências das ações de Joel na vida da “vilã”, o jogo se utiliza do incomodo que sentimos para começar a levantar algumas questões morais. Se antes nos questionamos sobre a violência, agora temos que deixar o restante das nossas convicções em dúvida. Para fazer isso uma narrativa pode optar por varias ideias diferentes, desde a construção de um personagem para ser um modelo, ou na conclusão de sua história onde sua argumentativa fica mais clara. Mas nesse caso, a ideia de The Last of Us Parte II é justamente gerar desconforto quanto as contradições da história. E por mais que seja uma manobra arriscada, pode ter um efeito bastante impactante em quem assiste, ou nesse caso, quem joga.

“(…) Sabe, quando você se sente desconfortável. Quando algo é tão verdadeiro que você realmente se sente desconfortável, sabe o que isso significa? Isso significa que seu cérebro está passando por uma experiência de aprendizagem. É por isso que é tão desconfortável, porque isso é algo com que seu cérebro realmente prefere não ter que lidar, essa verdade é demais, certo? E, portanto, é atraente, você não consegue desviar o olhar!” – Robert Mckee para o London Real.

Depois de jogar toda a metade de Abby, e vivenciar o conflito com Ellie sobre a perspectiva da “vilã”, talvez possamos nos sentir satisfeitos com a lição de que sempre existe mais de um lado da história. Porém a resolução de um final mais pacífico, onde existe um pleno entendimento entre os personagens, infelizmente não parece viável no mundo de The Last of Us. A terceira e última contradição da história vem justamente quando Ellie não consegue viver sua vida com Dina sem pôr um ponto final em sua questão com Joel, e decide abandona-la para ir atrás de Abby novamente. O embate final entre as duas protagonistas é uma luta sem sentido no qual já estamos transtornados o suficiente a ponto de não querermos mais jogar. E ao invés da determinação que tínhamos no começo do jogo, cada soco que damos tem a única intenção de terminar logo aquela luta fútil. Por fim, seja para aqueles mais abertos ou aqueles que ainda carregavam alguma mágoa de Abby, as consequências que Ellie tem depois desse embate se tornam uma lição mais do que suficiente.

The Last of Us Parte II: Ellie sentada no raso da praia em Santa Barbara, segurando sua mão que sangra
“As nossas marcas”

No micro ou no macro, toda narrativa que o jogo quer nos trazer é justamente sobre como o ódio e a vingança são algo sem sentido, que nos deixa indefesos aos seus efeitos colaterais e que pode acabar criando um ciclo de violência sem fim. No micro, isso se dá justamente pela perseguição de Abby contra Joel e de Ellie contra Abby. Se todos conseguissem seus objetivos, de aliados em aliados, vinganças por vinganças, todos terminariam mortos. Já no macro, isso é mostrado pela disputa entre O Exército de Libertação de Washington (WLF) e os Serafitas, cujo empenho e cegueira são tão grandes, que seu projeto de “pacificação” de Seattle acaba virando uma matança sem sentido, e rende uma das cenas mais simbólicas do jogo.

The Last of Us Parte II: Abby e Lev cavalgando em meio ao incêndio provocado pelo ataque da WLF contra os Serafitas
“Então o mundo todo será consumido pelo fogo”

Enfim, esse é apenas um relato de quem jogou The Last of Us Parte II e seguiu a sua história aberto as suas possibilidades e contradições. Entendo que é triste encarar o luto por Joel, mas infelizmente é necessário para entendermos que ele não era nosso herói, e que ninguém naquele mundo deveria ser. E entendo que deve ser incômodo tentar ver o lado de Abby (eu mesmo fiquei em negação no começo de sua metade), mas se não formos capazes de pensar pelas duas protagonistas do jogo, se não formos capazes de termos empatia, muito provavelmente só estaremos aptos a cometer os mesmos erros que elas, mesmo que em menor escala. Porém muitas dessas questões provavelmente só serão entendidas por alguns, visto que muitos ainda vão preferir seguir a via do ódio (mesmo sentimento que o jogo aborda) e não darão uma chance as questões que The Last of Us Parte II traz.

*No total três pessoas contribuíram para a criação de Abby em The Last of Us Parte II: a desenvolvedora de jogos Jocelyn Mettler, como modelo de rosto, a atleta Collen Fotsch como modelo de corpo e a atriz Laura Bailey, responsável por dar voz e interpretar a personagem em captura de movimento. Enquanto Dina, contou com a atriz Cascina Caradonna como modelo de rosto e a atriz Shannon Woodward dando voz e interpretação a personagem.

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