poster da série com Verônica ao lado de Claudio Brandão e Janete ao centro com uma caixa entre aberta na direita

Bom dia, Verônica – uma obra necessária


Original Netflix surpreende os espectadores brasileiros com a elevada qualidade técnica

Ninguém passa por Bom dia, Verônica imune. Impossível não sentir um monte coisas ao assistir a série. Principalmente, horror. Formatada como um suspense policial, a original da Netflix usa de diversas alegorias para mergulhar no tema da violência contra a mulher, na podridão do sistema e na corrupção policial.

Antes de tudo, queria contar como surgiu a obra. É importante para entendermos suas minúcias. Tudo começou com um match inesperado no festival literário de Extrema, Minas Geras onde Raphael Montes, já renomado escritor de ficção policial, conheceu a criminóloga Ilana Casoy, dedicada a estudar a mente criminosas, principalmente crimes de família como os do Richthofen e assassinatos em série. Depois de um acalorado debate no evento, Raphael fez um convite para os dois escreverem juntos uma obra ficção. Foi a primeira de Ilana (para conhecer melhor da história por trás do livro vale ver a entrevista de Ilana Casoy no instagram).

 

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Com esse casamento, a narrativa foi desenhada para unir o tema central do trabalho de cada um: psicopatas pelo lado de Raphael e assassinos em série pelo lado de Ilana. Inicialmente, o livro foi publicado com o pseudônimo de Andrea Kilmore, uma policial que não poderia revelar sua identidade. A ideia era ampliar o mistério e testar a estória além dos já conhecidos nomes dos autores.

Pela qualidade narrativa e minúcias descritivas que já fornecem ao leitor uma série de imagens prontas, o livro acabou chegando na mão dos produtores da Netflix e tornou-se série. E que série! Possivelmente a série brasileira mais eletrizante de todos os tempos.

Para entender o processo de sua transformação num produto Netflix, li o livro antes. Precisava sentir o sabor da adaptação. Nesse ponto, já que sou nova por aqui, preciso me apresentar: me chamo Daniella Burle, gosto de dizer que sou escritora porque já abarca tudo que pode ser escrito (literatura, dramaturgia, roteiro) e também cineasta que já engloba tudo do universo audiovisual. Sou muitas coisas, talvez, porque ainda não seja muito nada. Ou porque somos múltiplos mesmo. Ainda estou descobrindo. Escrever sobre esse universo, por isso mesmo, é uma delícia para mim. Então, muito prazer!

Voltando a adaptação, confesso que gostei mais da série. Normalmente os livros são mais amados. Nesse caso, como os dois autores fizeram a adaptação, penso que a obra evoluiu bastante. A mudança de caráter da personagem Verônica (na série interpretada por Tainá Müller), por exemplo, foi fundamental para o que propõe a trama. No livro ela não é tão boa moça, nem tão dedicada à família. Outra novidade é o surgimento do conflito do Cosme Damião que envolve a delegada Anita (Elisa Volpatto), personagem inexistente no livro. Com esse gancho, os autores conseguiram abrir a narrativa, criando espaço para aprofundar nas próximas temporadas.

Em termos técnicos, a série surpreende e coloca o mercado brasileiro num patamar elevado. Chega a dar orgulho de ver uma produção nacional tão rica em detalhes!

O roteiro é fluido, bem costurado, com poucas pontas soltas. A única que encontrei foi a comunicação através de bilhetes pela lata do lixo entre Verônica (Tainá Müller) e Janete (Camila Morgado). Como a escrivã saberia que seria Janete a trazer o lixo para fora de casa? Ainda mais depois de Brandão (Eduardo Moscovis) lhe trancafiar em casa? Para mim, não colou muito. Ficou meio irreal. Por outro lado, palmas infinitas para os roteiristas não fazerem recurso de explicação narrativa por meio voice over. Depois de José Padilha exagerar no recurso e diversos autores o imitarem, como ocorre na série O Negócio da HBO, criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, parecia que o mercado brasileiro só sabia escrever séries assim. Ou seja: grande vitória!

Outro ponto alto é a fotografia. O jogo de luz e contraste entre planos é bem excitante. Assim como a montagem. A opção estética se volta para contrapor sequências de planos fechados, com ultra abertos mostrando panoramicamente a cidade. Os quadros são muito bem escolhidos e a saturação varia de acordo com a narrativa, não há um preciosismo, que considero um tanto quanto desnecessário, de manter a fotografia num tom similar. Só o excesso de close up cansou um pouco, confesso.

Uma visão aproximada dos olhos de Janete, sendo que o seu esquerdo tem uma marca roxa de agressãouma visão do alto da zona oeste da cidade de São Paulo

Também fiquei apaixonada pela direção de arte. Janete (Camila Morgado) é muito bem compreendida pela cenografia da sua casa e pelos figurinos. Pirei na copa de azulejos azuis, grades de ferro retorcidos e filtro com botijão de água rosa. E as camisolas da personagem? Elas são um elemento aparentemente tão simples, mas capaz de comunicar tão bem a inocência de uma mulher atraída e aprisionada pelo clássico conto do príncipe encantando.

Verônica conversando com Janete que usa uma camisola. Ambas estão sentadas na mesa da sala de Janete.Janete, a noite, perto da estante da sala onde se encontra uma cruz.

Falando desse casal assombroso, Camila Morgado e Eduardo Moscovis constroem uma interpretação realista, precisa, expressando magnificamente bem o horror dessa união. Não há exageros, os movimentos e expressões são naturais. Camila não cai no lugar de uma interpretação vitimista, enquanto Moscovis não apela para uma brutalidade gratuita. Tudo é comunicado com o olhar. Inclusive, essa é tática de todos os personagens. Bonito de ver essa teatralidade de base Stanislávski.

Apesar de uma tema indigesto e cheio de gatilhos para as mulheres – a série não deixa nenhum ar de esperança, o sistema é podre assim como vemos nos noticiários – Bom dia, Verônica é uma obra necessária. Não podemos mais permanecer inertes diante de tantos abusos, corrupções e um Estado que não protege as mulheres. Ontem mesmo assistimos com horror o vídeo da audiência de uma jovem estuprada e a sugestão por parte do Ministério Público de um crime inexistente – o estupro culposo. Bom dia, Verônica é sobre isso. É o grito de justiça de uma mulher que está dentro do sistema e resolve agir sozinha porque ela mesma, como todas nós, estamos aprisionadas.

E você, me conta: o que achou de Bom dia, Verônica? Assistiu de uma só vez? Passou mal assistindo? Sentiu sede de vingança?

1 Comentário

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Fabíola Barbosaresponder
5 de novembro de 2020 em 2:05 PM

Amei seu texto. A série ainda está sendo digerida por mim. E penso que o tema ser ‘necessário’ segue indicando a atualidade e a estrutura violência institucional e patriarcal na vida simbólica e real das mulheres. Tive orgulho da produção brasileira, estou aguardando a segunda temporada.

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