O otimista nunca sofreu tanto


Ilustradora convidada: Myrnna Ramuch

Era uma vez um Otimista. Ele vivia no lindo mundo do Zeca Pagodinho, onde os dias eram regados a longas sessões de dança com os amigos e as noites (quando a cerveja pós-dança já havia subido sua cabeça) embaladas por agradecimentos pela vida. Porém, em mais um desses dias onde o Otimista andava distraído em suas alegres festanças, uma nuvem de sofrimento gigantesca se alastrou pelo planeta. O breu foi completo.

O Otimista olhou aquela pesada e inebriante fuligem com sua habitual alegria-ignorante e, quando deu por si, estava do lado de fora de seu maravilhoso mundo abastecido de tira gostos e canções animadas. E, pela primeira vez na vida, ele não poderia fugir para lá: as fronteiras foram fechadas por questões de amarguras estratosféricas. Sem previsões de volta.

Ninguém adivinharia que um dia o Otimista perderia seu alienante talento de ver o lado bom (e quase ingênuo) da vida. Ficou triste pensando que a Dona Terra talvez tivesse feito isso de propósito. Logo ela, que o feliz-coitado tanto agradeceu em músicas de axé-baiano. Será que alguma canção da Ivete poderia ajudá-lo nesse derradeiro momento? Quantas letras da Beth Carvalho ele teria que cantar até que tudo voltasse ao normal?

E, nesse susto-que-virou-medo, o Otimista acabou se lembrando que a vida não era tão alegre no mundo normal – e isso o machucava com a força de 100 berimbaus metalizados. Prometeu a si mesmo que daria o seu melhor para pensar somente em coisas leves até que pudesse ouvir Deixa a Vida Me Levar bebendo uma cervejinha sossegado na varanda.

Começou passeando por páginas de moda masculina no Instagram. Se imaginou experimentando aquelas peças numa loja de shopping cheia de gente bonita. Tudo agradabilíssimo. Porém, quando deu por si, vários pensamentos negativos tentavam invadir seu devaneio fashion. Será que ficou algum resquício da fuligem tóxica nela? Será que vou ficar doente? Será que vou precisar de cuidados?

E, por mais que sua mente de Bobo Alegre quisesse pensar que a última pessoa que experimentou aquela imaginária jaqueta provavelmente não carregava nenhum fragmento de nuvem, já era tarde demais. Sua doce capacidade de não ver o que não queria estava corrompida. Ele atingiu o fundo do poço quando o primeiro domingo bateu em sua porta.

Esse dia, outrora momento de churrasco-com-sertanejo, agora poderia lhe oferecer no máximo algumas solitárias sessões de shows Live no Instagram. O que, para o Otimista, não era de todo mal: se sentia menos sozinho ao ver os números indicando que outras 3.7 milhões de pessoas também estavam assistindo àquela transmissão. “Show bom né? O pessoal deve estar se divertindo” comentava ele ignorando que não havia mais ninguém ali.

Foram dias e dias isolado em suas tentativas de não ver nada ruim. Passeou por perfis de blogueiras fitness, por plataformas de streaming e até por sites de pornografia sadomasoquista, mas nada adiantou: o Otimista realmente sentia falta da doce batucada e do papo-furado. Não conseguiu conter as lágrimas ao perceber que não fazia um quadradinho há um trimestre.

De tanto abstrair, chegou um ponto em que ele não sabia mais em qual dos mundos estava. A falsa-alegria havia fritado a sua cabeça. E, quando as coisas finalmente melhoraram, o Otimista já não conseguia calibrar o que sobrara de seus miolos. Morreu sem saber que o normal para ele é que era o maior dos problemas. Pelo menos fez a passagem ao som de “Você sabe o que é caviar?”.

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Ilustradora convidada:

Myrnna Ramuch

Estudante de Agronomia na UFRRJ e estagiária no Centro de Arte e Cultura da Universidade, no seu tempo livre gosta de desenhar e faz isso desde pequena. Tem o sonho de misturar arte e plantas se especializando em Paisagismo, criando obras de arte vivas.

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