Bate e volta


Em uma festa de pessoas desconhecidas, enquanto eu me esforçava em disfarçar a vergonha de pegar salgadinhos e cervejas, acabei reencontrando um velho conhecido. Seguimos o protocolo: como vai a vida, o que tem feito, e você, beleza. Conversa vai, conversa vem, ele me atualizou sobre sua fracassada tentativa de entrada na Espanha. Mesmo com a crise apavorando os locais. Corajoso.  Paraibano, o cabra descende de uma linhagem de povo aguerrido e sem fronteiras. Diz por aí que até em Glasgow encontra-se Severinos. Bem, o irmão desse meu conhecido, fiquei sabendo, mora em Madri e trampa como entregador. Fez família por lá; quer dizer, levou daqui a mulher, mas o filho nasceu madrileño. Já arrasa no idioma, reclama do clima e adora a culinária. Aventurou-se noutro momento, de maior abertura e menor tensão. Em comparação com a vida no Brasil, galgou uns degraus na escala social: de nordestino radicado na capital, para imigrante ilegal na Europa. Seus pais, junto com seus outros quatro irmãos, são oriundos da fuga da seca. Envelheceram e se estabeleceram no Rio de Janeiro, pelejando na aridez de empregos e de moradia. A oportunidade de melhor vida no exterior surgiu através de um tio garçom. Não pensou duas vezes. Isso foi há quatro anos. Com o razoável sucesso da empreitada ganhou confiança o suficiente para atrair os outros irmãos. Plano que só no fim do último ano pôde concretizar. Decidiu começar trazendo o mais novo. Juntando esforços e empréstimos de outros familiares, conseguiram o montante necessário para o projeto. E Raí, apelido de Raimundo, o meu conhecido, ignorando o histórico de relações tempestuosas do país com turistas latinos e africanos, meteu-se num vôo para São Paulo e de lá para Madri. Com uma cara de quem não sabe bem o que está fazendo, ao chegar à Espanha, foi interpelado pela imigração. Devido a má qualidade de seu portunhol, não conseguiu argumentar com os guardas. Foi arrastado a uma salinha onde se encontravam outros infelizes. Argentinos, paraguaios, alguns brasileiros e um grupo de mexicanas – segundo ele, “pegáveis”. Nosso herói ficou durante 20 horas detido, sem nenhum tipo de informação ou esclarecimento. Em sua posse os agentes encontraram um pacote de biscoitos, meia garrafa dágua e uma modesta mala. Apesar da convincente história de visita ao sobrinho recém-nascido, assim sem muita conversa, foi mandado de volta. Ouvindo seu relato, na hora me veio a cabeça o filme de Costa-Gravas, “Éden a Oeste”, que narra as desventuras de um náufrago imigrante e seu intuito de chegar a França. O filme é bom, verossímil, mas trata-se de ficção. Vira uma jornada envolvendo personagens interessantes, situações cômicas e sexo com alemãs. A realidade é um pouco menos carinhosa. Chegando de volta a São Paulo, Raí já não possuía dinheiro suficiente para terminar a viagem de regresso. Gastou seus últimos R$ 20,00 comprando um cartão telefônico e mais biscoitos. Sentou-se desolado no meio-fio, esperando que um raio o iluminasse com a solução. Tentou em vão os números que trazia anotado em um papelzinho amassado, um disque-emergência, caso tudo desse errado. Depois de quase ficar sem créditos, conseguiu armar um esquema com o primo de uma amiga, caminhoneiro que o levaria em segurança até a rodoviária e de lá o colocaria em um ônibus. Aportou na Novo Rio às 15:45 de um dia chuvoso. Da Espanha, gravado em sua memória, só o frio no aeroporto e a beleza das mexicanas.

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