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Tuca & Bertie: O Surrealismo e a Comicidade na Animação

Original da Netflix e dos mesmos criadores do sucesso “BoJack Horseman” (2014-2020), a série “Tuca & Bertie” (2019- ) é uma sitcom animada que conta a história de duas melhores amigas: Tuca, uma tucana, e Bertie, uma passarinha. A série fala principalmente sobre a amizade das personagens e explora a comicidade dentro da profunda intimidade entre duas mulheres. Os episódios trazem um pouco da relação das duas amigas, que, apesar de muito ligadas, possuem personalidades diametralmente diferentes. Tuca (Tiffany Haddish) é rebelde, extrovertida e aventureira. Bertie (Ali Wong), é tímida, carinhosa e delicada.

Bertie e Draca, a vizinha planta

A série propõe uma linguagem bastante surrealista, desde protagonistas pássaros com corpos e comportamentos humanos a cenários que misturam o mundo animal a paisagem das grandes cidades. É claro que o universo da animação permite que a realidade seja um pouco “estilizada” ou exagerada, mas o humor em Tuca & Bertie se dá no campo do nonsense, do absurdo. No primeiro episódio, as amigas acidentalmente assam um bolo com as cinzas do namorado de Bertie e o bolo toma vida com o espírito da avó, que implora para ser comida.

“Ultrasam” – EP 07 (1ª Temporada)

Apesar de sua linguagem nonsense, a animação também consegue propor narrativas relacionáveis, com conflitos reais que fazem parte da vida adulta. A nova temporada em especial começa justamente tratando de uma questão muito real na amizade de Tuca & Bertie. O primeiro episódio aborda a relação de codependência que Tuca tem com Bertie e o quanto isso aos poucos vai atrapalhando o desenvolvimento de outras relações, românticas ou afetivas, que ela pode vir a ter. O conflito que já vem sendo desenvolvido desde o início da primeira temporada, ganha ainda mais espaço e traz tons mais realistas e relacionados a psique das personagens.

Além disso, Tuca luta pela sobriedade. A série já se passa em um contexto de reabilitação da personagem, mais uma vez explorando um lado mais profundo e intenso da psique humana, e trazendo para sua narrativa temáticas mais densas, ainda que apresentadas em um tom leve e cômico. Os desafios diários para a sobriedade de Tuca se tornam conflitos do dia-a-dia das amigas.

Tuca & Bertie tem a mesma equipe de criação e produção que “BoJack Horseman” (2014-2020) e, não à toa, as duas séries conversam bastante — desde a proposta estética até a linguagem cômica. Para quem é fã da segunda, vale a pena conhecer a primeira. Infelizmente, Tuca & Bertie não tiveram o mesmo tempo que Bojack para conquistar seu público na Netflix. Felizmente, após o cancelamento da plataforma de streaming, a animação ganhou sobrevida no Adult Swim e vem aí com uma nova temporada que promete ser tão boa ou até melhor que a primeira.

O Direito do Mais Forte é a Liberdade

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Muito frequentemente a obra de Rainer Werner Fassbinder é interpretada segundo a sua biografia. Apesar de não ser uma abordagem melhor ou pior, mas apenas uma escolha, tentarei trilhar outro caminho. Após ter lido o artigo “I Only Want You to Love Me: Fassbinder, Melodrama, and Brechtian Form” de Thomas E. Erffmeyer, me senti impelido a ver a obra do diretor alemão com outros olhos. Embora não haja nenhuma novidade em relacionar à obra de seu conterrâneo Douglas Sirk ou a cineastas “Brechtianos” — como Godard em início de carreira ou Straub/Huillet —, o texto me chamou pelo seu didatismo e simplicidade. No entanto, ao contrário do autor, não abordarei o longa “Eu Só Quero que Vocês Me Amem” (1976), mas “O Direito do Mais Forte é a Liberdade” (1975), seu filme anterior.

À primeira vista, esta aproximação feita pelo autor pode soar no mínimo inusitada, uma vez que existe uma grande contradição entre o projeto teatral de Brecht e o melodrama. O primeiro, em seu processo de amadurecimento estético-político, se afastou cada vez mais do ilusionismo naturalista e da identificação sem restrições entre público e personagens, duas coisas essenciais para o segundo. Embora acredite que essa aproximação não é tão “pacífica” como Erffmeyer faz parecer em seu texto, não é tão descabida, uma vez que desde sua origem o melodrama uniu o “sentir” e o “pensar”, algo que o próprio Fassbinder queria alcançar (pelo menos nesta entrevista de 1974).

Você foi influenciado por muitos filmes americanos na época?

Algumas vezes sim. Metade dos meus primeiros filmes foram ‘sobre’ minhas descobertas no cinema americano; de uma forma que eles transplantaram o espirito dos filmes americanos para os subúrbios de Munique. “Precauções Diante de uma Prostituta Santa” [1970] é especificamente sobre tentar viver e trabalhar como um grupo.

A outra metade não tinha não, eram influenciados. Eles eram investigações sobre atualidades alemãs: trabalhadores imigrantes, a opressão de uma classe média de escritório, nossa própria situação como cineastas.

A entrevista prossegue:

Você acredita que esses filmes são provocativos?

Não tão provocativos quanto pensado para provocar pensamentos. Na época eu pensava que se você botasse as pessoas contra sua própria realidade, elas reagiriam contra ela.

Eu não penso desse jeito mais. Hoje em dia eu penso que a necessidade primaria de um filme é satisfazer o publico, e depois lidar com conteúdo politico. Primeiro, você tem que fazer filmes que são sedutores, bonitos, sobre emoções e etc (…)

Talvez a oposição entre entre o melodrama — pelo menos em alguns deles — e o teatro brechtiano não seja tanto quanto ao fim, mas quanto ao método. Como Erffmeyer salienta, o primeiro, já em sua origem teatral, muitas vezes tecia, em meio ao exagero e as narrativas aparentemente banais, comentários político-sociais. Esta ideia é também compartilhada por Luiz Carlos Oliveira jr. em “Defesa do Melodrama” presente no catálogo da mostra “Douglas Sirk: o príncipe do melodrama”:

O lar burguês, a casa, o ambiente familiar — marcado pela presença mais constante da mulher que do homem — torna-se, portanto, o campo de forças do melodrama. É nesse ambiente doméstico, privado, que o elemento perturbador se infiltra, quase como uma mancha ou uma mácula que perverte o retrato plácido da família burguesa convencional. O modelo do melodrama familiar e doméstico, com suas rivalidades, suas brigas por herança, seus conflitos geracionais, suas personagens reprimidas, suas divisões de classe e sexo — e também com suas vibrações misteriosas que colocam a realidade cotidiana sob a permanente influência de uma dimensão enigmática e oculta —, é o que fundamentará os principais melodramas do cinema hollywoodiano dos anos 1950, tais como os de Douglas Sirk, Vincente Minnelli, George Stevens e Nicholas Ray.

Dessa forma, embora o melodrama aposte nas emoções intensas, no espetacular e na imersão do público, pode conter em si uma visão crítica da sociedade que o rodeia. Aliás, como o próprio Luiz Carlos menciona em outro momento do texto, as limitações que o contexto lhe impunha influenciaram para que este gênero se desenvolvesse nesta direção.

Houve um catalisador histórico no processo: os teatros populares, de “segunda categoria”, nos quais o melodrama rapidamente obteve sucesso, estavam obrigatoriamente restritos ao drama “mudo”. Tanto em Paris quanto em Londres, somente alguns poucos teatros legitimados pelo governo podiam encenar espetáculos baseados na palavra, vista como um privilégio exclusivo da alta cultura. A palavra era banida dos espetáculos populares, que, por lei, deviam se dedicar a formas de entretenimento não literárias, nas quais as falas, caso existissem, eram ritmadas por música (o que lhes dava outro estatuto, diferente daquele conferido pela excelência poética do texto classicista). Por conta dessa restrição, e também da natureza iletrada da maior parte de seu público, esses teatros populares davam especial atenção aos aspectos “pictóricos” do drama, aos seus signos visíveis: cenário, maquinaria de palco, gestos, ação (…)

Justamente por essa importância dos aspectos visuais e do naturalismo, que o melodrama pôde encontrar no cinema um solo fértil para a sua essência popular e seu caráter conotativo. Seja na mise-en-scène, no uso de objetos cênicos, das cores, da iluminação, de ângulos de câmera etc. O uso conotativo desses elementos estão muito presentes no trabalho de alguns cineastas — nem todos ligados ao gênero aqui abordado —, que antecederam a geração de Fassbinder e que estavam relacionados com a lógica do cinema clássico-narrativo, como ele mesmo admite:

A principal coisa a se aprender dos filmes americanos é a necessidade de se achar um meio termo para o fator do entretenimento. O ideal é se fazer filmes tão bonitos quanto os americano, mas ao mesmo tempo mudar o conteúdo para outras áreas. Eu acho que o processo começa com os filmes de Douglas Sirk, ou em um filme como “A Suspeita” [1941] de Alfred Hitchcock, onde você passa a sensação de que o casamento é algo impossível.

Mas e o Brecht, entra onde?

Até aqui, falamos muito de melodrama, mas pouco da subversão “brechtiana” implementada por Fassbinder ao gênero. Erffmeyer, em seu texto chega a enumerar alguns mecanismos utilizados pelo diretor, por exemplo, a escolha de enquadramentos, o uso de espelhos e superfícies reflexivas que complementam e comentam o que é encenado e a obstrução parcial do quadro por objetos cênicos. Embora esses artifícios não sejam novidade no cinema, tendo inclusive muitos deles sido herdados de Sirk e outros representantes do cinema clássico-narrativo, é na forma que esses elementos são utilizado que a diferença se dá. Novamente, com a palavra o realizador:

Porém, existem diferenças consideráveis entre meus filmes. O nível de estilização cresce em proporção a artificialidade do tema. “Effi Briest” [1974] é muito mais hermética, nesse sentido, do que “O Medo Consome a Alma” [1974], por exemplo. O tema é criado em parte a partir da caracterização, e então tem a ver com os personagens também. Os filmes são muito consistentes com suas atitudes quanto aos personagens (hoje em dia eu tento dar a cada um deles uma motivação visível e compreensível), mas o que surge disso depende muito do tema.

Algumas subversões “brechtianas” de Fassbinder:

Cena de O Direito do Mais Forte é a Liberdade, onde dois personagens são visto através de uma janela, há um reflexo no vidro que não nos permite ver direito quem eles são.

Fox e Eugen estão em um restaurante chique, entre ele há no primeiro plano uma estrutra de madeira que corta o plano ao meio.

Fox e Eugen são enquadrados em um contra-plongée, no primeiro plano há um corrimão entre a câmera e os personagens.

A cena de uma refeição onde a mãe de Eugen serve ele e Fox, a câmera está em um plongée, mas em um angulo um pouco incomum. A cena é fimada com certa distância e é enquadrada pelo batente de uma porta.

Alguns exemplos de mecanismos utilizados por Fassbinder para provocar um distanciamento no público

Meio à moda maneirista, esses aspectos são reutilizados e revelados ao público, por meio da estilização, tal como são: escolhas conscientes tomadas por alguém. Mas enquanto para alguns esse gesto “auto consciente” assume uma sentido de autorreflexão sobre os mecanismos cinematográficos ou a história dessa arte, em Fassbinder, eles se tornam essenciais para a reflexão proposta pelo filme. Isso se aplica tanto a “Eu Só Quero que Vocês Me Amem” quanto a “O Direito do Mais Forte é a Liberdade”. Na verdade mais neste do que naquele, a estilização é muito mais perceptível: as cores pasteis, a mise-en-scène pesada e aparente, os gestos calculados e não naturalistas, a forma artificial de se falar. Neste ponto, o cineasta alemão está sintonia com o dramaturgo e encenador alemão, nas palavras de Brecht sobre sua peça “A Mãe”:

O teatro épico utiliza, da forma mais simples que se possa imaginar. Composições de grupo que exprimam claramente o sentido dos acontecimentos. Renúncia à composições “acidentais”, que “simulem a vida”, “arbitrárias”; o palco não reflete a desorganização “natural” das coisas. É precisamente o oposto da desorganização natural que se aspira, ou seja, à organização natural.

Em “Efeitos de Distanciamento na Arte Dramática”, Brecht busca no Oriente um modelo para o seu teatro épico. Em determinado momento do texto ele escreve:

A atuação dos artistas chineses parece ao artista ocidental frequentemente fria. Não que o teatro chinês renuncie à representação de sentimentos! O artista representa acontecimentos que contêm uma forte tensão emocional; todavia, o seu desempenho jamais denota qualquer calor. Nos momentos de profunda agitação da personagem representada, o artista prende nos lábios uma madeixa de cabelos e mordisca-a. Faz isso, porém, como se num rito; nada revela de eruptivo. Estamos perante a clara repetição de um acontecimento, feita por terceiros, perante uma descrição, na verdade, engenhosa. O artista mostra assim uma pessoa que está fora de si, usando, para tal, os indícios exteriores do seu estado.

Fox ganhou uma bolada, mas acaba sendo enganado

Como dito anteriormente, em “O Direito do Mais Forte é a Liberdade”, Fassbinder interpreta Fox, um sujeito da classe trabalhadora, que ganha dinheiro como “Fox, a cabeça falante” em um show de atrações. Após Klaus (Karl Scheydt), com quem tem um relacionamento, ser preso, ele parte em uma jornada por uns trocados para um bilhete de loteria. Neste início um tanto cómico, lhe negam empréstimos, tem seu dinheiro levado pelo vento. Fox só consegue o bilhete depois de dar um pequeno golpe em um florista (Perter Kern), com ajuda de Max (Karlheinz Böhm), com quem iria fazer um programa. Depois desse prólogo bem humorado, uma elipse.

Pôster do filme O Direito do Mais Forte é a Liberdade
Pôster de “O Direito do Mais Forte é a Liberdade”, nele podemos ver Fassbinder, Christiane Maybach e Böhm
Pôster do filme Eu Só Quero que Vocês me Amem
“Eu Só Quero que Vocês Me Amem” filme televisivo abordado no artigo de Erffmeyer

Aqui há algo interessante, há alguma coisa nesta passagem de tempo — assim como em outras ao longo do filme —, que ressalta o não visto, o que foi conscientemente suprimido por alguém. Depois dessa elipse, vemos Fox, após ganhar uma bolada, em um ambiente burguês, com Max. Neste mundo, desde o princípio ele é um ser exótico, falam dele como se ele ali não estivesse. Mas a questão é, ao nos jogar neste momento, Fassbinder nos faz questionar “o que aconteceu até eles chegarem aqui?”. No cinema clássico-narrativo é fundamental que não nos atentemos para o que é ou não cortado entre as cenas e sequências. Esta particularidade está ligada a outra subversão presente na obra: como sua narrativa vai pouco a pouco adotando um caráter episódico.

Fassbinder em O Direito do Mais Forte é a Liberdade olha para alguém que está fora de quadro.
Fassbinder como Fox em “O Direito do Mais Forte é a Liberdade”

No cinema clássico, um evento deve estar indissociável do outro, tudo o que acontece é uma consequência de outro ação anterior. Em “O Direito do Mais Forte é a Liberdade”, essa relação de causa e efeito são afrouxadas. Não que isso seja novidade do que se é considerado como cinema moderno — que muitas vezes foi bem mais radical quanto essa questão —, mas aqui, esses “episódios” se acumulam de forma a chamar a atenção à questão central do filme: as relações conflituosas entre classes, e aqui não me refiro apenas ao nível afetivo. Dessa forma, há algo além de uma trágica história de desilusão amorosa.

Cena de O Direito do Mais Forte é a Liberdade, em que um bancário, atrás do guichê faz um lamento.
“Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Se repetir muito uma mesma palavra, não vai mais saber o que ela significa”

Ainda sobre esse aspecto, como não lembrar de toda a sequência do Marrocos. Quando convencido por Eugen a sair em uma viagem (turismo sexual), Fox parece encontrar em Salem (El Hedi ben Salem) um quase duplo de si mesmo. Esta sequência funciona como um reflexo do momento em que o personagem de Fassbinder é introduzido no mundo de Max, Eugen e companhia. Embora esteja presente e interaja em alguns momentos, ele é mais o tema que um participante da conversa. Tanto o protagonista de origem proletária quanto o árabe são tratados como estrangeiros em seu próprio país, como seres estranhos. Isto é reforçado por escolhas estéticas, de encenação e formais. Porém, como não tenho intenção de adentrar muito neste assunto, deixo parte da sequência aí em baixo. Deem uma atenção especial ao momento em que a câmera sai dos três personagens e vira para as ruas marroquinas — este movimento de câmera, o diálogo e as imagem captadas dizem muito.

Há ainda outros recursos interessantes que Fassbinder utiliza em “O Direito do Mais Forte é a Liberdade”. Por exemplo, há momentos em que a câmera se detêm em gestos e expressão, em pequenos números musicais ou em tableaux vivants que, se não criam um efeito de distanciamento, ao menos de estranhamento. Em outras situações, o diretor insere “comentários” que provocam uma postura ativa do público. Estes “comentários” se dão de três maneiras no filme: 1) completamente inseridos dentro da lógica interna das cenas, 2) destoantes, mais ainda se relacionam de alguma forma no universo ficcional e 3) um momento especifico onde há um rompimento total com a diegese.

Fox junto de outros personagens observam algo no que está fora de quadro.
um tableau vivant
Close no rosto de uma mulher que olha compadecida para algo fora de quadro.
Uma expressão
Vemos de um lado Fox, sentado em uma escada no meio da rua, e Max coloca a mão em seu ombro. Do outro lado vemos Eugen jogando pinball de costas para os dois. Toda a cena é banhada por uma luz esverdeada.
Uma ruptura da diegese

Os primeiros se dão por meio de olhares e reações de personagens, que chamam a atenção para algo que Fox, totalmente imerso em sua paixão — que, propositalmente, nunca é realmente “sentida” pelo público — não consegue ver. Os segundos acontecem em momentos, como a cena em que Fox empresta uma grande quantia de dinheiro a Eugen. Depois que os dois deixam o banco aparentemente felizes, a câmera se detêm no bancário que lamenta (para si mesmo ou para o público?). Por fim, já na reta final do filme, há um momento de ruptura total com o universo ficcional, quando aos olhos de Max — um “agente duplo” do diretor dentro do filme —, Fox e Eugen encenam uma conversa que nunca tiveram nem terão, um pseudo interlúdio.

Nada mais a dizer…

Por enquanto, estes são alguns pontos que me vieram a cabeça depois de assistir “O Direito do Mais Forte é a Liberdade” e de ler o artigo de Thomas E. Erffmeyer. Gostaria de abordar melhor as consonâncias e dissonâncias entre Brecht e Fassbinder — ambos, em maior o menor grau, atuaram tanto no teatro quanto no cinema. No entanto, me faltam o arcabouço teórico e um conhecimento mais profundo de suas trajetórias e de seus pensamentos. Por hora, deixo este texto, uma tentativa, muito provavelmente falha, mas ainda uma tentativa, de abordar um pouco a obra desse diretor alemão que tanto me fascinou.

Os textos de Brecht citados estão presentes na coletânea “Estudos Sobre Teatro” lançado pela editora Nova Fronteira.

As traduções dos trechos da entrevista com o diretor só foram possíveis graças ao Yuri Cardoso, que também escreve aqui para a zine.

Ouvidos pensantes: o que são paisagens sonoras?

Na era da imagem, as redes sociais costumam ocupar boa parte dos nossos dias e com isso costumamos estar muito atentos às informações visuais à nossa volta. O pôr do sol no horizonte, a visita ao Cristo Redentor ou o momento em que entramos em um festival, são potenciais conteúdos para divulgação no Instagram ou no Facebook.

As condicionantes culturais certamente direcionam nossa atenção e refinam a visão como principal sentido. Por outro lado, em muitas dessas situações o que escutamos torna-se secundário. Contudo a audição é um sentido formidável e com isso é importante elucidar os aspectos daquilo que escutamos à nossa volta.

Nossa reflexão começa na década de 1970 quando o canadense Murray Schafer cunhou o termo paisagens sonoras. Como o nome já indica, um neologismo que nos conduz à ideia de que as percepções auditivas são fruto de uma dimensão espacial compostas por objetos sonoros. Em outras palavras, isso consiste em perceber as informações sonoras presentes no espaço e, em seguida, construir uma noção consciente a respeito daquilo que se escuta.

Um grande exemplo deste fenômeno se apresenta na história recente da humanidade. Tivemos no início do século XX um rápido desenvolvimento das cidades, transformando não somente a paisagem visual, mas também a sonora. O som dos pássaros, do vento na vegetação, dos grilos no início da noite, ou do galo cantando às cinco da manhã foram substituídos pelo ronco dos motores, pela buzina das locomotivas, pelo som das máquinas.

Enquanto as cidades cresciam de forma desenfreada, em 1914 tivemos o surgimento do movimento futuristas na Itália — formado por artistas como Giacomo Balla, Umberto Boccioni, Luigi Russolo e outros, que em resumo demonstravam sua fascinação pela cultura urbana e pelas possibilidades criativas decorrentes dos sons das máquinas. Essas experiências influenciaram mais tarde as obras de John Cage que trouxe o ruído das cidades para suas composições (como “Living room music”, de 1940), e também na famosa experiência criada por Le Corbusier, Iannis Xenakis e Edgard Varèse no Pavilhão Phillips em 1958.

Pavilhão Phillips na Expo 58

Com tamanha mudança na composição visual e sonora das cidades e o reflexo disso nas composições artísticas e culturais é que então, podemos perceber de forma mais clara o papel do som no espaço e em nossas percepções. Afinal, os sons metálicos que ilustram a cidade passaram a compor o imaginário das produções musicais.

Logo sabemos que o espaço é multissensorial, mas a potência sonora diz respeito a aquilo que nos afeta no campo do invisível. O som nos possibilita mecanismos para criar identidade. Por exemplo, quando criamos uma playlist para trazer aquele “clima” e torna certos momentos especiais. Ou quando fazemos uma viagem e colocamos um determinado álbum para apreciar no trajeto. Com isso, todas as vezes que o ouvimos novamente tais músicas lembramos do momento. Percebemos que é através da experiência que o som cria memória.

O som é peça fundamental na criação daquilo que busca gerar experiência. Por exemplo:

Nos filmes

Nos filmes, as cenas eletrizantes com perseguição e fuga, por exemplo, certamente demonstram sonoridades muito mais excitantes do que aquelas presenciadas cotidianamente em um eventual assalto de um banco no centro da cidade. Além dos gritos, reações de pânico e dos tiros trocados entre assaltantes e policiais, o som do filme nos apresenta também os sentimentos que se expressam através do Sound FX. Tais sonoridades que muitas das vezes nos causam suspense, medo, ou mesmo uma certa euforia, e que no geral não nos atentamos, são timbres gerados por sintetizadores geralmente por um profissional de desenho de som.

Aquele sentimento de excitação ao acompanhar uma fuga de um carro em alta velocidade não é por acaso. Ela já está sendo pensada em uma trilha sonora de composição mais acelerada. Para os que se interessam mais em processos criativos de desenho de som para filmes, temos o documentário “The Sound of Godzilla” (2019) produzido pela SoundWorks. Os designer de som Erik Aadahl e Ethan Van der Ryn falam sobre o processo de criação de Foley e ambiências do filme.

“O Som do Silêncio” (2019) é um filme que podemos destacar a respeito da potência do som no cinema. Nele é possível experienciar junto ao baterista Ruben (Riz Ahmed) um processo de surdez e isso, graças ao desenho de som, que nos oferece momentos de contraste entre aquilo que o personagem não consegue mais escutar e aquilo que está soando no ambiente. Uma incrível experiência sonora especialmente de um ponto de vista técnico e que rendeu a produção o Oscar de Melhor som em 2021.

Nas instalações

Outro campo das artes em que o som tem enorme importância é o das instalações imersivas. Ao compreender o som como potente linguagem é possível utilizá-lo para estabelecer linhas narrativas em busca do que o artista deseja comunicar no espaço. Sabemos que as frequências sonoras ditam humor e emoções e, portanto, sensações corpóreas. Com isso temos a potência da música em gerar memória a respeito daquilo que se vivencia no espaço. Nessas experiências microespaciais de expressão humana temos um ponto de partida para entender as complexidades que acontecem em um corpo imerso nos diversos macro espaços de convivência.

Para quem se interessa em conhecer mais sobre a arte sonora aqui está o trabalho “Lumiere” Live do aclamado produtor musical Robert Henke e também “Test Pattern Show” de Ryoji Ikeda – ambos artistas da visual music.

Test Pattern Show de Ryoji Ikeda

Em jogos digitais

Nos jogos digitais o som também se estabelece como importante ferramenta em termos daquilo que possibilita altos níveis de imersão na experiência do jogador. Essa possibilidade em criar experiências cada vez mais realísticas se associa a funcionalidade da comunicação sonora que dá informações instrutivas na jogabilidade. Funções bem conhecidas pelos jogadores de League of Legends, pois o jogo costuma utilizar das ambiências sonoras para indicar perigos, risco de vida dos champions ou mesmo uma certa percepção do tempo de jogo. Tudo isso tem levado não somente as principais produtoras de equipamentos sonoros a investirem milhões de dólares para refinarem a qualidade do áudio, mas também o desenvolvimento de novas técnicas de mixagem por parte dos profissionais de som.

Uma dessas técnicas tem sido popularizada pelo mercado de games como áudio binaural, que é basicamente um outro nome para a mixagem 3D. É claro que esses termos chamam a atenção e para nós que curtimos áudio é um prato cheio para um próximo artigo. Por enquanto, pensemos em como a mixagem 3D busca a criação de um espaço sonoro mais próximo da realidade e que isso junto a outros fatores como jogabilidade e qualidade gráfica também significa maior satisfação do jogador e aumenta as chances de um jogo bem vendido.

Exemplo da importância de um bom desenho de som está no game “Hellblade: Senua’s Sacrifice”(2014) da britânica Ninja Theory. Nele, a temática gira em torno da personagem viking Senua. Uma jovem que busca resgatar alguém de seu afeto na chamada terra dos mortos. As vozes que ecoam distribuídas entre o espaço sonoro possibilitam uma imensa empatia com a guerreira. Portanto podemos caracterizar o áudio deste game como algo mais do que imersivo.

Os conflitos mentais que ela vivencia, demonstram que o maior perigo para a personagem é ela mesma. Um som que oferece ao jogador experiências e sensações intrigantes.

No geral, em um jogo não é difícil perceber uma variedade de estímulos sonoros. Quando estamos no início de uma fase conduzidos por uma trilha sonora mais tranquila, podemos perceber que o som nos proporciona calma, mas com uma finalidade: o jogador precisa entender o espaço no qual o avatar está e quais são os desafios. Em contraponto, temos aquele momento de adrenalina em que o personagem enfrenta o “chefão” e esse momento também é ilustrado sonoramente: uma música mais dinâmica com arranjo encorpado.

Contudo, percebemos que muitas das vezes somos envolvidos por estímulos sonoros e que esses não são digeridos de forma consciente. Isso nos leva a refletir mais sobre as sensações que nos causam determinada trilha sonora. Mas também a pensar se os sons da minha rua interferem no meu estado de espírito. Com isso, deixo aqui um exercício para você que se sentiu instigado a perceber mais as sonoridades à sua volta.

Feche os olhos e tente identificar elementos que “ilustram” a paisagem sonora do seu entorno. Anote e com isso tente visualizar que informações sonoras estavam fazendo parte do espaço. Pense que isso a longo prazo demonstrará que influências sonoras fazem parte do seu cotidiano. Trabalhando nossa consciência auditiva certamente estaremos mais conscientes do espaço que ocupamos no mundo.

TRAINSPOTTING

Preencheu o formulário? Cada nova aba, um novo formulário. App de relacionamento? Formulários. Otimização para encontrar um par, ou (talvez) a otimização da solidão? Personalização de todos os serviços para que tudo seja registrável, capturado. Tempos do burocrático o mais rápido possível para atualizar o mesmo jogo de sempre, a mesma dor de sempre. Só que — aqui — é difícil escolher um trabalho, acho que não temos nenhum que pague o suficiente, ou uma família, acho que estão todas falidas ou fadadas ao fracasso e a corrupção, mas continue fingindo que é bom sonhar com uma casa americana, com crianças planejadas e não fruto de falhas farmacêuticas ou do rompimento da maldita camisinha. Continue assinando nos termos para ter um sonho branco, alvejado, de uma casa com água límpida e cheiro de água sanitária, livre da culpa e dessa angústia, dentro do programa. Melhor ainda, sonhe que terá como pagar pelos remédios que adormeçam até sua angústia mais genuína. O programa diz que estamos caminhando em frente, que é preciso seguir em frente a todo vapor e de toda forma que seja possível. Dentro da lei, ou nem tanto, ao menos não tão à margem ao ponto em que possa questionar a própria lei. Seja também protagonista da lei dos bons, vigie pela lei, proteja as futuras crianças de todo o mal que não seja seu. Tudo está ao seu alcance, se empanturre de informações e de promoções e de produtos que chegam até você antes mesmo de você saber que precisa deles. Mas pra isso, renove outra vez os seus dados. Repita mais uma vez, onde você mora, o que você come, seu número de telefone e do cartão do banco. Mas, alto lá, use esse chip novo para que a China nunca coloque um chip em você! Temos a receita para sua dor de cabeça, para sua disfunção erétil ou falta de lubrificação, para tudo que você precisar temos a receita. Nunca a cura, perceba, nunca afirmamos que tínhamos a cura. Não se irrite, agradeça outra vez, pegue um empréstimo em nome de Jesus, tire uma carta do tarot do Osho com uma robô gostosa. Tudo ficará bem na próxima lunação. O que importa é: você pode rastrear o seu amor. Quer tentar?

Uma mulher, então, percebe que nunca será eficiente. Ela tem duas crises de ansiedade seguidas, depois finalmente para com o rosto enfiado na pia. Vinte apps lhe confirmaram que o amor que ela procura não está disponível no momento. Talvez possa se contentar com um homem disposto a pagar por fotos do seu pé e que depois (talvez) lhe ofereça um jantar, se muito. Ou com um homem que fala apenas sobre si mesmo e não gosta do cheiro de sua buceta, de nenhuma buceta na verdade. Uma “escolha fácil”, segundo o app, após ela pagar por conselhos vips de peritos no assunto por apenas mais 3.99. “Não é uma escolha difícil” e depois, “A resposta está em você”. A mulher mata o final da garrafa de vinho, toma uma aspirina tentando prevenir a ressaca. Uma amiga lhe disse que deveria cheirar a aspirina se acordar pior. Ela sempre acorda pior, mas reagiu com corações. Pareceu um gesto de cuidado por parte da sua amiga. Seu novo vibrador só chega em nove dias, deu problema no frete. Os antigos não surtem mais tanto efeito, ela se entediou deles. Agora os usa para massagear o seu pescoço ou o pé. Um amigo vem à sua casa hoje para lhe entregar metade do seu corre. Talvez possa convencê-lo de cheirar com ela um pouco e, talvez, possam foder. Foderam uma vez, mas ela se lembra vagamente. Dessa vez poderia ser diferente: poderiam foder e lembrar. Mas ele liga, diz que ela vai precisar ir buscar com ele. Ele vai dar uma pequena festa, petit comité, só com gente massa, vacinada pelo menos uma vez na vida. Ela sente ódio, mas também sabe que isso significa que alguém novo pode passar as mãos na sua perna. Algumas coisas nunca mudam. O tesão move as melhores e as piores ideias. Não é a primeira vez que isso acontece, ele faz isso com certa frequência. O endereço dele já está até salvo no seu aplicativo. Enquanto se arruma, fuma vinte cigarros, está nervosa justamente por saber como funciona. Por saber, bem no fundo, que não vai encontrar ninguém novo, pois conhece todas as pessoas que estarão lá e mesmo se tiver alguém que não conheça, não será uma pessoa nova, será mais uma pessoa como as pessoas que ela conhece. Isso é o que acontece com grupos reclusos e seletos de pessoas. Todas as pessoas são as mesmas e se encontram para continuar sendo as mesmas. Mas ela vai, porque sente que é a mesma pessoa, ainda que isso a frustre e deve frustrar todes ali, ela sente que é a mesma coisa e isso é um tipo de pertencimento. Uma palavra importante hoje. Tudo ali é tolerável e isso basta por hora, ao que parece para essa mulher que agora já está a caminho do carro.

O motorista é um homem, usa máscara das boas, pff2 e ainda é bonita. Ela pensa que poderia foder com o motorista, mas isso seria arriscado. “Que tipo de pessoa fode com o motorista?” ela se pergunta genuinamente e desiste, sua autoestima hoje está em baixa. Provavelmente ele não a comeria também, seria desconfortável e abaixaria mais o número de suas estrelas. “Você chegou ao seu destino”, “Está pago no cartão, certo?”, ao final eles nem trocam duas palavras.

O apartamento do amigo fica em um condomínio gigantesco, um aglomerado de blocos e apartamentos cada vez menores e mais caros. São quase dez elevadores, mas tudo é bem sinalizado, ela nunca errou nem uma vez. Sobe até a festa, tira sapatos e a máscara ao entrar. Reconhece todas as pessoas. Algumas acenam de longe, outras beijam sua boca ou dão carinhosos tapas em sua bunda. Tem música alta tocando para que não possam falar muito sobre nada sem que seja algo que valha gritar por. Seu amigo a recebe com um abraço agitado, suas pupilas estão enormes e ficam olhando para o decote dela. Ele segura firmemente nas suas mãos e as beija antes de chamá-la para o quarto. O quarto é praticamente uma cama e uma televisão nova ainda dentro da caixa apoiada na parede, minimalista, muito cool e apertado, mal se consegue andar lá dentro. Eles sentam lado a lado na cama e ele entrega um envelope. É o momento de maior intimidade entre os dois: ele fica grudado ao lado dela, se debruçam contando os ziplocks como crianças diante de uma caixa nova de brinquedos. Maconha, MD, Ecstasy, Cocaína. “Graças a Deus! Era hora”, ela lhe entrega o dinheiro. Como é de praxe, molham juntos os dedos no MD, depois chupam. Sempre se beijam, ele gosta de agarrá-la pelos cabelos e sempre dá uma mordida leve no lábio antes de desgrudar de sua boca. Uma vez o lábio dela chegou a inchar. Ela quer ter as pupilas iguais às dele, dilatadas assim como quem se apaixona, mas ele já está com os olhos na porta. O decote dela hoje não surtiu muito efeito, terá que comprar um novo.

Voltam pro meio das outras pessoas. Ela sabe que não vão foder hoje, o amigo vai atrás de outras transações mais eficientes. Essa palavra “eficiência” volta pra cabeça da mulher que se apoia numa parede de veludo, tenta conter uma vontade súbita de chorar. Logo percebe que tem um homem que parece com alguém que ela viu no aplicativo. Ela tenta lembrar: “Qual era mesmo o defeito dele?”. Esse esquecimento parece uma benção. Ele dança e derruba cerveja pelo cômodo. É terrível, mas suportável. Ela está indo na direção dele com seu próprio e pequeno formulário para descobrir se ele é do tipo que a come no banheiro ou se precisa levá-lo para casa, acender uma luminária e o chamar de “papi” ou “meu amor”. Revisa as perguntas milimetricamente elaboradas quando, de repente, a porta da rua se abre e a festa inteira para. Três pessoas desconhecidas estão paradas na soleira. Penetras. Isso é novo. Ninguém consegue falar nada de tanta esperança. As três pessoas vestem casacos coloridos, uma delas com óculos escuro rachado, a outra tem a cabeça raspada e a terceira tem um aplique enorme e colorido. Diante do silêncio da sala, riem muito. “Caralho, não era aqui não.” diz uma das pessoas com voz muito aguda. Riem mais. A sala inteira ri, estão tentando se enturmar. O amigo, dono da casa, se aproxima, sussurra algo no ouvido de uma das penetras, aquela pessoa dos apliques longos. Mas a pessoa de cabeça raspada fica olhando para a mulher parada no meio do caminho, tira a máscara e sorri. Usa um batom preto escuro. A mulher sorri de volta, as suas pupilas finalmente dilatam. A pessoa de batom preto e cabeça raspada caminha até ela, então diz: “Não vamos ficar nessa festa de merda. Mas se você quiser, você pode vir com a gente.” É aleatório, uma escolha arriscada e aleatória. A mulher fica praticamente sóbria. Aquela pessoa desconhecida beija sua bochecha. Um beijo delicado e lento nas carnes gordas da sua bochecha. “Eu vou”, “Tem droga?”, “Tenho”. Saem.

As três pessoas se apresentam. Ela, ele, elu. A porta da festa do amigo fica para trás, lá atrás todes fingem alívio pela saída das figuras desconhecidas. Fingem se satisfazer em ter apenas uma pequena anedota “daquela vez louca em que isso quase aconteceu”, satisfeites com uma vida de pequenas anedotas e transas turbulentas. Mas a mulher já está chegando em um dos dez elevadores, outra vez, agora no meio daquele trio sem nome. Chamam o elevador, mas demora uma eternidade. O homem não para de falar, reclama e reclama de um filme intragável que assistiu recentemente, de uma publicação improferível, reclama que queria saber falar o impensável e que queria uma transa imensurável. Ela abre a bolsa, e oferece um teco. Cheiram no corredor mesmo, o homem senta no chão para reclamar mais confortavelmente limpando os óculos escuros na camisa. A outra mulher, da cabeça raspada, vira os olhos para a tagarelice do homem e agradece repetidas vezes pelo teco: “Obrigada mesmo. Muito obrigada. Mas obrigada mesmo por isso”. Elu arruma o aplique luminoso enquanto olha pro seu reflexo nas portas do elevador, depois puxa de dentro do casaco uma garrafa de vodka e passa para a mulher da festa. Ela bebe, todes bebem. Isso pode ter durado mais tempo do que pareceu, mas ninguém se irrita em esperar. É estranho. O elevador chega. “Não se olhe tanto no espelho. Isso distorce as suas boas ideias, honey” diz a da boca preta. O homem cantarola uma música, o trio dança entusiasmado. Suas bundas parecem ter vida própria. A mulher (da festa) observa hipnotizada, se sente assim estrangeira e fascinada. A luz do elevador parece piscar, em dois segundos estão no térreo e um porteiro se aproxima puto, gritando em outra língua. Mas ninguém consegue escutá-lo.

Correm, de mãos dadas, para fora do gigantesco condomínio que ela ia toda semana. Temem que o porteiro chame a polícia ou tenha uma arma. Ela teme que nunca poderá voltar. Mas com as mãos estão entrelaçadas, de repente, correr fica tão erótico. Palma com palma suada, corações acelerando. Por isso correm muito, muito mais do que o necessário. Desviam de postes, bueiros, pessoas, bicicletas. Correm determinadamente sem rumo, o condomínio está fora de vista, porém continuam virando esquinas e atravessando avenidas. Até que dá vontade de vomitar. Se apoiam num carro estacionado, todo empoeirado, elu acende um cigarro, todes tiram as máscaras. A mulher da festa, aquela do app de relacionamentos, está esbaforida. Seu rosto está vermelho, gritando seu sedentarismo, sua dieta de fast food quatro vezes na semana. A outra mulher, de boca preta, senta em cima do capô do carro. “Alguém tem maconha?”. A rua está vazia. Ela senta no carro, começa a apertar um baseado e pergunta se a mulher não quer se apoiar no seu colo um pouco. O homem e elu estão dividindo o cigarro, o homem beija o pescoço de elu entre uma tragada e outra. É tão amoroso que é quase violento de encarar. A mulher da festa deita no colo da mulher de cabeça raspada, por cima do carro empoeirado, manchando suas roupas daquela poeira espessa de rua. Consegue voltar a respirar normalmente com o rosto apoiado nas coxas da outra mulher. Percebe que o homem e elu estão agora apoiades contra o vidro, o homem com as mãos dentro do short de elu, elu está mordendo a pele do homem e soltando risadinhas. “Já fodeu na rua?” pergunta a mulher da boca preta. “Não com alguém que não conheço”, responde a outra.

Elas se levantam, a mulher da boca preta desce do carro, enquanto a outra fica sentada no capô. O baseado já acabou, não se sabe como. A mulher careca fala alto, como se estivesse declamando para a mulher da festa, com tom quase agressivo: “Você, senhorita, foi uma pessoa terrível e inconsequentemente safada por sair de um apartamento com três pessoas que não conhece! Pessoas perigosas! Nefastas! Sujas! Agora, pagará o preço justo. Nós só gostamos de meninas safadas com o Estado, não gostamos daquelas que dão para vagabundes! Mãos ao alto!”. A mulher ergue as duas mãos. A outra tira o casaco e o usa para amarrar as mãos da mulher da festa. Amarra as duas mãos para trás, com um nó surpreendentemente firme, e deita ela outra vez no capô. “Agora, o que nós devemos fazer com você, gracinha?”. É um tanto ameaçador, estupidamente excitante. O homem e elu se aproximam. A mulher careca continua: “Vamos revistar sua calcinha! Homem, faça as honras!’. O homem ergue a saia justa da mulher amarrada, a bunda dele sente o metal frio do carro, e então ele puxa a calcinha neon com a boca: “Está molhada! Ela está excitada! Isso é terrível!”. “Está mesmo gostando?”, diz elu, “Vamos provar essa safada!” Ume de cada vez se aproxima e dá uma lambida na buceta da mulher, cada um tem uma linguada diferente. Uma é áspera e veloz, outra é lenta e mole, outra é firme e babada. “Acho que poderia estar mais”, elu diz e vira vodka na buceta exposta da mulher. A vodka é gelada, a mulher se contorce lambendo os lábios. “Está com sede?” diz o homem, “Posso te dar um gole.” Ele enche a boca de vodka e a beija entornando devagar a bebida na garganta dela. Alguém pode passar a qualquer momento. A polícia pode chegar a qualquer hora. Ela faz uma careta enquanto engole a vodka e a baba do homem. Depois o homem continua a beijando por cima do carro. A barba dele arranha seu rosto, tem cheiro de cigarro, seus lábios são finos. “Abra a boca”, ele diz. Ela abre. “Mostre a língua”, ela mostra. Ele começa a chupar a língua dela. Elu e a mulher careca estão dançando aos pés do carro. Elu arrasta e bate a bunda contra as pernas da mulher amarrada. Ela pode sentir a bunda roçando nela e o homem chupando sua língua. Elu e a mulher careca começam a se agarrar, se beijam e apertam os mamilos, quase caindo por cima da mulher amarrada. Seus corpos são pesados, a mulher amarrada começa a se debater. “Você quer que a gente vá embora, porra?” diz a mulher careca. “Acho que ela quer atenção!” diz elu. “Ó querida, eu sinto muito. Deixamos você com um homem, não foi?” diz a careca.

Então, elu começa a beijar as coxas da mulher amarrada, dando mordidinhas enquanto vai subindo. A mulher careca sobe no carro: “Vamos fazer assim: elu te chupa, você me chupa, ele olha. Ok?”. A mulher amarrada faz que sim com a cabeça. O homem se afasta, acende outro cigarro, torna a limpar os óculos. A mulher careca senta na cara da mulher amarrada. Elu chega com a boca na buceta. Parecem começar a chupar sintonizades. A mulher da festa queria conseguir agarrar a bunda enorme da mulher careca, mas as mãos amarradas não permitem. Elu chupa buceta tão bem, vai sugando o clitóris, se lambuza. Dá uma euforia. A mulher careca vai rebolando na cara da outra, que chupa cada vez mais eufórica o seu grelo. Até que está tão excitada que mal consegue continuar chupando, tem vontade de gemer e se contorcer. Os punhos começam a doer de tão atados. Ela geme. A mulher careca também geme, até que se ergue e diz: “Continuem menines! Agora eu quero ser comida.” O homem se prontifica, vira a mulher careca contra o carro e começa a penetrar no cu dela, de modo que os dois conseguem foder e olhar a mulher amarrada sendo chupada por elu. A mulher amarrada tem vontade de chorar, pela primeira vez quer chorar de tanto prazer. Ela se sente suficiente para três pessoas, isso é maior que sua ideia de amor. Ela está quase gozando, quando elu para e sobe em cima dela: “Eu quero dar um teco na sua barriga e te foder. Eu posso?”, ela faz que sim com a cabeça, confia. Elu ergue a camisa da mulher, coloca o pó bem na altura dos seus peitos e cheira. A mulher abre bem as pernas. Se pudesse ter overdose de tesão, estaria morta espumando gozo. Elu morde um de seus mamilos com toda força. Ela grita. Elu começa a deda-la com dois dedos longos. O aplique longo luminoso faz cócegas no rosto da mulher. Elu mete e mete, com os dedos lá dentro roça no ponto G. As pernas da mulher começam a tremer. Elu diz: “Quero lhe comer de pé! Sentir você ficar bambinha, bambinha!” e então puxa ela, vira ela de costas. Agora começa a meter segurando ela pelos punhos amarrados. Ela se inclina e apoia a barriga no carro. Então sente um pau entrando na sua buceta. Se pergunta se ainda é elu que está a comendo. Da posição em que está não consegue ver. Mas sente o pau delicioso entrando. Depois sente os dedos roçando no seu cu enquanto o pau mete na sua buceta. Ela tenta virar para olhar, recebe um tapa forte na bunda. “Não olhe ainda!” diz a mulher careca. Sente que estão todes atrás dela.

Sente o pau, depois dedos, depois línguas e então pau, dedos e línguas outra vez. As línguas, como os dedos, também surpreendem se metendo no cu. Se tenta se virar, recebe um forte tapa na bunda, de novo e de novo. Ela continua tentando se virar, de sacanagem. A bunda ficando vermelha, marcada. Está à beira de um orgasmo. Geme e morde os lábios como nunca. Vê a rua escura na sua frente. Uma pessoa ou outra passando na distância. Podiam até olhar, ela não se incomodaria. Não faz ideia de onde está, mesmo sabendo ser sua cidade, dali parecia outra. Uma cidade dentro da sua, onde pode ser fodida na rua como nunca. Aquele trio incansável continua. Metem e lambem, quando ela está quase gozando, param. Os escuta se beijando e gemendo. Então retomam. Toda vez que retomam, o êxtase é ainda maior. Ela pode se sentir escolhida e escolhida vezes e vezes seguidas. Apertam sua coxa, puxam seu cabelo. Até que os dedos ficam mais firmes e começam a meter no cu e na buceta, frenéticos. Todos os músculos dela contraem. Ela vai gozar, finalmente. O orgasmo mais intenso que poderia ter. Goza rude, alto e livre. O rosto quase se deforma de prazer. Todes param para contemplar ela gozar, é uma coisa assim emocionante. Poderia ser transmitido na tv e até os hipócritas iriam chorar de emoção. Então sente as três bocas beijando suas costas, beijos e beijos subindo até o seu pescoço. “Isso é pertencer”, pensa. Sente que alguém desata os nós que prendem seus punhos. Se vira e o trio lhe abraça forte. A respiração ofegante em comum. Bate uma onda: “Como chamamos isso que existe estrangeiro ao amor?”

Ilustradora convidada:

Laura Pinheiro

Laura Pinheiro, designer gráfica, amante de impressoras e de scanners. Utilizo de processos de design para desenvolver minhas expressões.

👉  Conheça o trabalho da Laura acessando o seu portfólio e instagram.

The Outsider: a fotografia do inexplicável

ATENÇÃO: SPOILERS ABAIXO

The Outsider (2020) é uma minissérie que se destaca bastante pela mistura de elementos de gêneros diferentes, juntando o criminal com o terror. Baseado em um livro de Stephen King, a série começa na pequena Cherokee City, no sul dos Estados Unidos, onde o detetive Ralph Anderson (Ben Mendelsohn) investiga o assassinato monstruoso de uma criança da cidade.

O conflito, estabelecido no fim do primeiro episódio, é que Terry Maitland (Jason Bateman), principal suspeito do crime e, até então o único suspeito possível, tem tantas provas a favor quanto contra sua inocência. É nesse cenário de incertezas e fatos inexplicáveis que o impossível começa a se tornar a única opção viável: uma criatura sobrenatural é a principal suspeita.

Seguindo essa premissa, se constroem regras narrativas que tentam abordar as temáticas do sofrimento, do medo e do pavor acerca dos elementos monstruosos da história. Sendo assim, hoje veremos como essas regras são utilizadas pelo trabalho de fotografia da minissérie.

O monstro:

Algo que só é verbalizado no quinto episódio da série, batizado de “Tear-Drinker” (o bebedor de lágrimas), é que o real culpado do assassinato é a versão de King para o Bicho Papão. Porém, ao invés de se tratar de uma criatura medonha de canções de ninar, essa representação da lenda segue regras muito claras para viver no nosso mundo:

1.Ele pode se transformar em uma cópia idêntica de qualquer pessoa existente, ganhando o mesmo DNA e digitais e tendo acesso aos olhos, ouvidos e pensamentos de seu alvo a qualquer instante. Para tal ele passa por um processo que lhe custa sua força e cerca de um mês para concluir.

2.Ele se alimenta de carne, principalmente humana. Carne animal não parece lhe saciar.

3.A dor e o sofrimento dos humanos são sensações que lhe agradam, sendo assim ele tende a se estabelecer em locais perto da morte, como cemitérios ou sítios com histórico de tragédias.

4.Aqueles que são tocados pelas suas ações tendem a sofrer e morrer. Famílias inteiras, geralmente das vítimas de sua caça, perecem em meio a dor e a tristeza que sua presença traz.

5.Ele também tem o poder de escravizar lacaios. Preferindo sempre aqueles com habilidades especiais e cheios de sofrimento. Ele os marca com uma queimadura em sua nuca e, por meio dela, entra em sua cabeça e manipula seus pensamentos.

6.Ele consegue acompanhar todas as pessoas que ele quiser – aparecendo em seus sonhos ou se manifestando por meio de uma projeção que os visita fisicamente.

Por se tratar de uma minissérie criminal em primeiro lugar, o roteiro de The Outsider tende a uma análise fria e cética acerca do assassino em questão. Sendo assim, todos os episódios anteriores ao quinto fazem uma construção bem estruturada dessas condições – nos fazendo lentamente entender a presença do sobrenatural nesse mundo.

Ao mesmo tempo, existe uma amostragem de cenas que abordam o sofrimento e a tristeza, algo que torna esse uma peça fundamental da história. O que é interessante é que assim como o monstro, a fotografia tenta se deleitar de tais sentimentos expressos pelos personagens. Colocando o publico numa posição de voyeur muito semelhante à criatura comedora de crianças.

Para isso, as lentes da série criam imagens seguindo as seguintes regras:

1.De forma geral, a focagem da minissérie é bastante fechada independente do objeto ou da pessoa em que esteja sendo utilizada. Sempre separando um plano de outro.

2. Além disso, é possível notar bastante o uso de enquadramentos próximos dos rostos dos personagens e muitas vezes em plongée – ângulo muito utilizado para criar relações de poder entre pessoas ou objetos. Porém, nesse caso é utilizada para destacar o sentimento dos personagens, nos fazendo sentir o peso sobre sua cabeça.

Ralph Anderson, sempre tendo a perda de seu filho nos pensamentos, é muitas vezes mostrado por esse ângulo.

3. Ainda falando sobre planos, para provocar incomodo e falta de empatia, a fotografia da série se utiliza de duas estratégias: Ou ela faz planos abertos em que os personagens aparecem isolados ou distantes entre si;

Mesmo se tratando de uma sala cheia de pessoas, note como existe uma distância entre os personagens de diferentes planos.

Ou em planos mais fechados se faz um corte do corpo dos personagens que não são o foco do plano.

Planos do primeiro interrogatório de Terry Maitland: Note como é possível entender a presença dos demais personagens em cena, mas sem necessariamente ter uma visão clara deles.

4. Existe também a quebra da regra dos terços, algo que aparece raramente na minissérie, mas que quando é utilizado tende a se somar com a focagem para criar planos mais particulares e passar a ideia de isolamento.

5. Para complementar com um tom mais melancólico, ambientes tanto fechados quanto abertos, tanto claros quanto escuros se utilizam de uma paleta de cores menos saturada e uma luz mais suave. Algo que, por si só, já ajuda no clima soturno da minissérie.

O mito:

Além dessa construção de voyeurismo, é interessante notar como tais aplicações da fotografia tem um papel fundamental na construção do mito do Bicho Papão de King. Ideia que só fica mais clara após rever os episódios da série, quando já se tem consciência de como a criatura é e como ela age. Porém, estes elementos estão presentes desde o primeiro episódio:

1.Se utilizando do foco mais fechado, quando se trata de planos que destacam objetos aleatórios ou sem muito significado para a cena, em certos casos pode indicar a presença da criatura de forma metafórica. Como um perigo que se espreita nos cantos.

2.Já a diminuição dos personagens em foco e o isolamento, utilizados pra provocar uma falta de empatia, também é aplicado nas primeiras aparições da criatura.

3.Além da paleta pouco saturada, existe uma utilização muito importante da escuridão e da penumbra para construir o pavor quanto a criatura. Quando se trata do Bicho Papão, uma coisa é certa desde a infância: se está escuro ele pode vir te pegar.

4.E por último, o plongée, antes utilizado para simbolizar o peso na consciência dos personagens, agora também tem um significado de superioridade da criatura quanto aos protagonistas da série. Da natureza quanto a humanidade.

Ralph Anderson em meio ao confronto final com o Bicho Papão.

A aceitação da realidade:

Ralph Anderson: Porque não tenho tolerância para o inexplicável. – T01E03: Dark Uncle.

Assim como a fotografia de Mr. Robot, já analisada aqui neste texto, o trabalho de câmeras de The Outsider tem um efeito dramatúrgico semelhante ao dar um tom mais realista para a minissérie. Porém, enquanto na primeira esse trabalho mascara certos atributos caricatos do roteiro, nesta obra ele torna a presença do bicho papão mais ameaçadora e palpável.

Como já citado antes, existe uma construção lenta e meticulosa até que seja verbalizada a suspeita de que a criatura é a real assassina. Até mesmo depois de que essa teoria é revelada, custa muito por parte dos personagens a acreditar que o seu real adversário é uma lenda sobrenatural para pôr crianças para dormir.

Porém, nesse meio tempo, todas as vezes em que, tanto o roteiro quanto a fotografia demonstraram a frustração e o sofrimento dos personagens quanto a investigação, também nos fazem passar pelo mesmo processo de aceitação de tal realidade. Uma espécie de “fases do luto” quanto a aceitação do inexplicável.

Holly Gibney: Quando os fatos estão cheios de coincidências misteriosas, o primeiro passo para ver as coisas claramente não é descartar os fatos, mas expandir a ideia do que a realidade pode implicar. – T01E06: The One About the Yiddish Vampire

Sendo assim, ao invés de ficarmos com o voyeurismo macabro do Bicho Papão, o efeito que a fotografia e o roteiro nos passa é de que aceitar o impossível é algo doloroso e lento. De que sempre vamos ter medo dele, e de que ele sempre nos ronda. Porém, assim como Ralph Anderson fez quanto a morte de seu filho, sua aceitação é necessária e libertadora.

Três vezes Hong Kong: as dicas agora são outras

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Spin-offs, universos compartilhados, filmes e séries derivadas são tendências. Por isso, para também surfar nessa hype, decidi escrever esta pílula inspirada em duas outras (esta e esta) dedicadas a Jackie Chan — o ator honconguês mais conhecido do mundo. Mas atenção, agora o assunto é outro, vou indicar três filmes produzidos em Hong Kong para você assistir sem sair de casa… E não, não vai ter Wong Kar-Wai.

Lifeline (1997)

Ching Wan Lau (ou Sean Lau) roubando o sonho de toda criança

Aqui temos um ótimo Johnnie To sobre bombeiros fazendo coisas de bombeiros. Embora a minha sinopse possa não ter sido uma das mais instigantes, o filme é. Nele acompanhamos o dia-a-dia em um quartel que conta com uma equipe um tanto azarada, que encontra seu momento de brilhar em uma cena final um pouquinho megalomaníaca. “Lifeline” conta com a atuação de Carman Lee e Ching Wan Lau, que trabalharam juntos no drama “Loving You” também dirigido por To. O filme pode ser assistido na Netflix.

Hero (1997)

Biao Yuen e companhia esperando para sabe qual é a próxima dica

Este longa de Corey Yuen é um tipo de “Era uma Vez na América” só que em Xangai e envolve muita luta marcial, ação, melodrama, exagero e um cavalo de pelúcia bem grande (vai lá, pode conferir a cena da charrete de novo). Ok, talvez “Hero” não tenha tanto a ver com o filme de Sergio Leone quanto pensei, mas vale muito a pena ser assistido. O filme conta com nomes como Takeshi Kaneshiro, Biao Yuen, Wah Yuen e Jessica Hester Hsuan e está disponível na Netflix.

Um Agente Fora de Série (2016)

Nada pode parar Sammo Hung nem mesmo aquela dor no joelho

Nesta pepita de ouro — que recebeu um péssimo título no Brasil, como vocês podem ver aí em cima — dirigida e estrelada por Sammo Hung (que já apareceu por aqui antes), vemos um ex-agente do exército chinês tendo que lidar com dois dos inimigos mais implacáveis da humanidade: o avançar do tempo e a culpa… ah, ele também luta contra uns mafiosos. “Um Agente Fora de Série” está na Prime Video da Amazon.

Jackie parece ter curtido as dicas

Estas são apenas algumas pérolas do cinema honcogonês perdidas em meio aos catálogos da Netflix e do Prime Video. Se estiver com um tempinho livre, além de assistir aos filmes mencionados, vale a pena se dedicar a uma busca rápida e descobrir outros mais. Mas se você fizer mais o perfil preguiçoso, também pode aguardar até eu ter ânimo para fazer outro post do tipo. Aí, é com vocês.

Jogos para jogar junto (mesmo separado) – Parte 1

Por conta da pandemia do Covid-19, muitos rolês e saídas tiveram que ser adiadas indefinidamente. Além das festinhas e idas ao barzinho, muitos encontros entre amigos, para jogar em casa mesmo, ficaram em suspensão.

Esse foi um pouco o meu caso, que infelizmente não pude mais marcar de ir na casa de um amigo meu para jogarmos uma partida ou outra de jogos co-op local ou competitivo local. Porém, graças a Steam Remote Play, uma ferramenta que com uma internet boa permite você hostear uma partida local com amigos em seus respectivos computadores, esse problema acabou.

Sendo assim, aqui vai algumas dicas de jogos co-op que podem ser jogados, tanto junto quanto distante:

Versão co-op do jogo clássico de computador, Portal 2 é um grande quebra cabeça no qual você e um colega vão passar horas tentando desvendar como passar de cada fase.

Dois rôbos, personagens de um dos jogos da franquia Portal 2, lutam e olham em direção do jogador.
P-Body e ATLAS, a dupla de personagens jogáveis de Portal 2

Sendo uma dupla de robôs, vocês dois tem que usar suas portal guns para se transportar ou transportar objetos com o intuito de passar de nível.

Momento do jogo Portal 2, há diversos sensores de raios lasers e um portal azul se abre diante do jogador.
Uma amostra das utilidades dos portais no jogo

É um jogo bastante interessante, que fica cada vez mais complexo quanto mais você joga.

Essa vai para os amantes de filmes de Brucutus dos anos 1980. Broforce é uma versão sangrenta explosiva e pixelada do maior crossover de personagens porradeiros da cultura pop.

Imagem de Broforce, um jogo 2D com gráficos pixelados.
uma fase normal de Broforce

Nele você joga diferentes fazes em grupos de até 4 com o intuito matar o boss do nível. Sendo que a cada refém que você resgata você troca de personagem.

Cena mais intensa de Broforce, o céu está alaranjado, há mísseis e fogo na cena.
Juiz Dredd, Coronel John Matrix, Mr. T e Cordell Walker lutando contra um chefão.

Dentre os ícones da cultura pop do jogo estão: Rambo (Sylvester Stallone) da franquia homônima; Cobra Plissken (Kurt Russell), de “Fuga de Nova York” (1981) e “Fuga de Los Angeles” (1996); O Predador; Ellen Ripley (Sigourney Weaver), da franquia Alien; Beatrix Kiddo (Uma Thurman) da trilogia Kill Bill. Além de vários outros personagens.

Uma imagem simulando uma foto que diversos personagens de filmes de ação posam juntos..
Foto de parte do “elenco” do jogo

Falando em porradaria franca, Guacamelee! é um daqueles jogos para aliviar o estresse e fazer os melhores combos de golpes.

Imagem de Guacamelee!, onde se v^alguns personagens em um cenário que simula um porto.
Uma fase comum de Guacamelee!

Com uma temática de luta livre, combina uma história interessante com um mapa de plataforma e um esquema de até quatro jogadores para lutar contra vilões dos mais diversos.

Cena de combate de Guacamelee!
Uma mostra de golpes e combos possíveis no jogo.

Vale a pena também dar uma olhada na sua sequência lançada em 2018.

Não se engane pela aparência fofinha. Overcoocked é pra aqueles que querem testar sua atenção, coordenação em equipe e paciência.

Os personagens de um dos jogos da franquia Overcooked! coziam em plena rua.
Uma das primeiras fazes de Overcooked!

Esse jogo co-op te põe nas cozinhas mais mal arquitetadas de todas com o intuito de fazer você e seu time entenderem a correria da vida de um cozinheiro na hora do trabalho.

Os personagens um dos jogos da franquia Overcooked! coziam em balões.
Uma amostra de uma das fases mais “normais” do segundo jogo

Mesmo que o segundo traga mais recursos e mais fases diferentes. Ambos os jogos, garantem fases estressantes, complexas e divertidas para testar as suas habilidades.

E aí o que achou? Gostou das dicas? Ficou interessado em algum desses jogos?

Sobre Cruellas e Mirandas

Cruella Devil é uma das mais famosas vilãs do universo de animações da Disney e, também uma das mais antigas. Em sua primeira aparição, em 1961 na animação 101 Dálmatas, Cruella é uma madame riquíssima fascinada por roupas de pele que arma, com seus capangas, um esquema para sequestrar os filhotes de dálmata de Anita, sua amiga de infância. Cruella pretende transformar os filhotes em um casaco de pele, devido a padronização única dos pelos de dálmatas. A partir dessa premissa, cria-se então uma das mais sádicas vilãs da Disney, que não busca fama, poder ou riqueza, mas apenas saciar seus absurdos desejos materiais.

Na animação, Cruella já é marcada por um figurino com silhueta única e detalhes fortíssimos. Ela anda com um gigantesco casaco de pele, que inclusive carrega as patas do animal do qual a roupa foi feita. Além disso, a paleta de cores preta, branca e vermelha é característica que fica eternamente atribuída à personagem. Essa paleta de cores é, talvez, a principal característica na construção da identidade visual de Cruella (destacada principalmente por seu cabelo inconfundível), e é respeitada em todos os seus filmes.

Em 1996 e 2000, com as versões em live-action (“101 Dálmatas”, de Stephen Herek e “102 Dálmatas”, de Kevin Lima), Cruella ganha vida através da brilhante atuação de Glenn Close. Dessa vez, aprofundando sua obsessão por roupas de pele, a personagem que, antes era apenas uma madame rica e amargurada, é retratada como uma grande estilista, referência absoluta no mundo da moda e, é claro, um ser humano absolutamente detestável.

Dado que o filme não se trata mais de uma animação, a Cruella de Glenn Close possui uma extensa galeria de figurinos deslumbrantes que conversam muito mais com a caracterização da personagem do que necessariamente com o mundo da moda da alta costura, onde Cruella trabalha. O que acaba permitindo que os figurinistas, Anthony Powell e Rosemary Burrows, tenham tido muito mais liberdade para criar propostas a partir de uma ideia, e não de um momento histórico específico na moda.

Glenn Close veste um figurino em preto e branco

Glenn Close caracterizada como Cruella

Os figurinos da Cruella de Glenn Close demonstram uma enorme exuberância em formas, sobreposição de tecidos e peles e utilização de cores e estampas. Criando um guarda roupa um tanto único para uma vilã singular. Seu estilo conversa com o que a moda gosta de chamar de “avant-garde”.

Glenn Close em um figurino preto e vermelho.

Glenn Close caracterizada como Cruella.

É possível ver um pouco da Cruella original (da animação de 61) tanto na paleta de cores, quanto na utilização de algumas peças em específico: ela está quase sempre de casaco, luvas e salto alto. Além, é claro, do cabelo preto e branco que é a marca registrada da personagem.

Glenn Close como Cruella ajoelhada reza no que parece ser uma igreja.

As estampas padronizadas de pele são característica importantíssima na criação desse figurino, que se utiliza não apenas de pele mas de diferentes texturas animais para os extravagantes figurinos de Cruella, o que novamente trás bastante da personagem original, que é obcecada por esses materiais.

Glenn Close caracterizada como Cruella, veste um figurino preto e vermelho.

Glenn Close caracterizada como Cruella, veste um vestido de gala com uma textura de pele de cobra

Glenn Close caracterizada como Cruella veste uma roupa com estampa de tigre

Vale lembrar que o figurino de “102 Dálmatas” teve uma indicação ao Oscar de melhor figurino.

Glenn close como Cruella.

Quanto à narrativa, diferentemente da animação, a relação entre Cruella e Anita é de trabalho. Anita trabalha para Cruella, e é ela mesmo quem desenha o primeiro croqui de casaco inspirado na pele de dálmata, a partir de sua cadela. Cruella fica deslumbrada pela ideia do casaco e decide tê-lo a qualquer custo.

É a partir da personagem de Glenn Close que se estabelece um novo arquétipo de “business woman” para a personagem com um profundo senso crítico — a ponto de se tornar amedrontadora — e extremamente exigente quanto ao seu trabalho e de seus funcionários. É exatamente em cima desse arquétipo que foi elaborada Miranda Prisley de Meryl Streep. É claro que a personagem vem do próprio livro no qual se baseia o filme, “O Diabo Veste Prada” (2006). Um livro de ficção que conta a história de uma menina que passa a trabalhar com Anna Wintour, editora chefe da Vogue. Porém, é possível observar paralelos entre a Miranda de Meryl e a Cruella de Glenn.

Montagem com trechos da apresentação de Miranda: plano detalhe de um pé saindo de um carro, plano aproximado de alguém andando na rua, Miranda de costas caminha em direção a um prédio, Miranda em um elevador ajeita os óculos escuros.
Primeira aparição de Miranda em “O Diabo Veste Prada”
Montagem com trechos da apresentação de Cruella: plano detalhe de um pé saindo de um carro, plano aproximado de alguém andando na rua, Alguém de costas caminha, Glenn Close entra no que parece ser um atelier.
Primeira aparição de Cruella em “101 Dálmatas” (1996)

No entanto, as referências a Cruella não param apenas em alguns paralelos fotográficos, mas no próprio figurino de Miranda. É claro que, a personagem de Meryl possui um tom muito mais realista do que o universo Disney, e portanto, a direção de arte é menos caracterizada e muito mais referente à moda dos anos 2000. Ainda assim, logo no início se mostra, por exemplo, uma frequente utilização de casacos de pele por Miranda, demonstrada em uma montagem dinâmica em que ela dá seus pertences para a assistente (Anne Hathaway) guardar.

Uma montagem com diferentes planos em que Miranda joga suas roupas para sua assistente.

O próprio nome original do filme, que é o mesmo do livro, faz alusão ao nome de Cruella: Cruella Devil / The Devil Wears Prada. Assim como a personagem de Glenn, Miranda se utiliza muito de casacos com estamparias padronizadas e silhuetas extravagantes para chamar atenção.

Até mesmo o corte e cabelo de Miranda, se utilizando do tom branco de uma maneira extremamente elegante tem uma certa relação com o cabelo de Cruella.

Seguindo esse mesmo arquétipo feminino de vilã “business woman”, está a antagonista do mais novo filme de Cruella, a Baronesa, interpretada por Emma Thompson. Cruella, ao ganhar seu próprio filme, torna-se a heroína. A Baronesa, segue a mesma linha narrativa que a Cruella de Glenn ou a Miranda de Meryl. O que diz muito sobre a nova Cruella, de Emma Stone, que é “oprimida” pela Baronesa — a escolha da palavra oprimida se deu pelo tom punk e revolucionário que foi implicado a essa versão da personagem; a escolha do uso de aspas foi para questionar justamente essa implicação.

Emma Thompson caracterizada como a Baronesa. Ela utiliza um vestido preto e branco.
A Baronesa (Emma Thompson)

Acontece que além de banalizar um pouco a relevância e motivação do movimento — dado que toda a batalha travada por essa nova Cruella é ligada diretamente a uma vingança pessoal e sua suposta “revolução” não questiona em nada o sistema vigente e o status quo —, a escolha de levar o figurino da personagem para a alta costura, com influências de estilistas punks como Vivianne Westwood e Alexander McQueen, acaba trazendo muito mais um universo da moda do que a arte da caracterização. Dessa forma, esvazia-se o sentido do punk e também, o da personagem.

Nesse vídeo, Luke Maher destrincha bastante as influências históricas do mundo da moda no figurino da nova Cruella, idealizado por Jenny Beavan.

Os figurinos da Cruella de Emma Stone, são lindos, mas não trazem em nada a essência da personagem original. O mais gritante de tudo: ela praticamente não usa pele. É claro que a Disney não quis se comprometer em uma polêmica com o movimento vegano e simplesmente optou por não falar no assunto. Um dos principais elementos narrativos e estéticos da personagem é praticamente deixado de lado na nova obra. Ainda levando-se em conta que o filme se passa em uma época onde isso nem sequer começava a entrar em debate.

Emma Stone em Cruella, veste uma roupa vermelha e preta com detalhes em dourado.

Emma Stone usa um vestido vermelho, luvas também vermelhas e uma máscara preta.

Emma stone utiliza uma roupa totalmente preta.

Toda a direção de arte do filme é inquestionavelmente bem pensada, executada e apresentada. A questão é que os figurinos de fato se assemelham muito mais a um desfile de moda do que propriamente a de construção de identidade de uma vilã poderosa.

No final do filme, a nova Cruella chega a dar a entender que teria feito um casaco com pele de dálmatas. Mas logo depois, vemos os cachorros vivos. Esta é praticamente a única cena em que ela aparece trazendo esse símbolo da personagem, em um casaco que imita a padronização do dálmata.

Emma Stone em meio a um desfile, ela usa um vestido com estampa de dálmata.

De uma maneira geral, vemos uma Cruella ousada para o mundo da moda porém, comportada para o mundo da arte.

A paleta de cores, é claro, não só foi respeitada como foi o principal recurso utilizado para estabelecer a identidade visual da personagem no novo filme. Desde padronizações com manchas pretas no branco dos chãos, até as combinações mais simples de figurino, tudo é feito em preto e branco com pitadas de vermelho.

A escolha da influência punk para a indumentária se dá desde o início do filme, com Cruella criança se rebelando com o uniforme, criando novas versões da mesma roupa com diversos elementos associados à moda punk. As ombreiras marcadas da época podem ser um traço remoto a profunda exploração de silhuetas trabalhada nas outras versões da personagem.

Cena do filme em que a Cruella é uma criança, ela usa uma camisa sem manga e munhequeiras brancas com laços pretos.

Cena de filme onde vemos a protagonista ainda criança.

Cena do filme onde vemos a protagonista ainda criança.

Em contraponto, a Baronesa de Emma Thompson tem seus momentos em alguns vestidos de gala extravagantes, que conversam mais com a Cruella original do que a própria Cruella do filme.

Emma Thompson como Baronesa usando um vestido elegante, enquanto fala com alguém que só aparece parcialmente no quadro.

Pôster de divulgação do filme Cruella em que vemos Emma Thompson como Baronesa.

Baronesa desce uma escada usando um vestido chique, com ela há três dálmatas.

É difícil dizer de fato se o que realmente incomoda na personagem é essa atribuição “revolucionária” a uma personagem que é unicamente motivada por uma vingança pessoal, para combater uma pessoa específica que está em posição de poder na sociedade. Ou se é o fato de simplesmente termos uma Cruella heroína, no lugar da vilã tão inescrupulosa que crescemos assistindo. A Cruella é Emma Stone é uma personagem com um coração bom, extremamente ligada a memória da mãe e com uma forte relação afetiva com seus capangas.

Fato é que, de um jeito ou de outro, eles conseguiram inserir a ideia da crueldade como antagonista. Só deram para outra personagem. E, com isso, abandonaram completamente detalhes da essência da história e da vilã original. É difícil se habituar com uma Cruella que não é cruel.

Emma Stone em cena do filme, ela usa uma roupa preta e uma maquiagem no rosto que lembra uma máscara onde se lê "the future"..

As diferentes concepções de Cruella retratam não só a evolução das propostas narrativas, mas também refletem, cada uma, um pouco do seu tempo. A Cruella original, da animação de 1961, é uma personagem muito marcante mesmo tendo muito pouco tempo de tela, e uma história própria também pouco desenvolvida. No live-action de 1996, a personagem é inserida num contexto que é bastante coerente com a vilã original, mas que também diz muito sobre a época em que o filme foi produzido. A ideia de criar uma mulher poderosa, dona do próprio negócio e completamente obcecada com suas paixões dentro da moda — e não apenas uma dondoca com dinheiro herdado e muitos caprichos —, é reflexo de novos debates dentro da sociedade. A maneira como é caracterizada evidencia a singularidade e devoção que definem Cruella. Da mesma forma que definem Miranda.

Já nossa nova Cruella tem sua própria Miranda, ou sua própria Cruella. Gostando ou não da adoção de um visual punk para a personagem, é inegável que a caracterização condiz exatamente com a narrativa proposta. Também se trata de uma escolha que reflete os tempos atuais, seja sob um olhar um pouco cínico, justamente de marcar um tempo de constante esvaziamento de símbolos, seja sob um olhar otimista, entendendo o debate revolucionário como parte do nosso momento atual. Independente da visão que se tenha, a importância de Cruella em todas as suas versões é incontestável para os universos da indumentária, da caracterização e da moda.

Às Vezes, Nem Mesmo a Humilhação Mundial Resolve

Na tentativa de recuperar o turismo no Rio de Janeiro afetado pela violência urbana que atingia a cidade nos anos 90, a prefeitura encontrou uma solução “brilhante”. Resolver a crise da violência? Não. Melhorar a infraestrutura da cidade? Jamais. O plano quase eugenista dos governantes foi tirar os pobres da vista gringa. E, para isso, criaram um Piscinão, bem longe das praias da Zona Sul, para manter os pobres lá, distantes, onde as Helenas não pudessem ver nem a sombra de alguém sem privilégios (ou direitos).

E aí você pensa: mas o Rio de Janeiro é uma cidade inteiramente litorânea. Por que os pobres não vão pegar praia na “região deles”? Eles querem tanto assim incomodar os herdeiros do Pão de Açúcar (tanto da pedra, quanto do supermercado)? E a resposta é que não, ninguém acorda pensando “Ah, hoje eu vou lá para a frente do Posto 9 atrapalhar o beach tennis das madames”.

A verdade é que as pessoas pobres da cidade não vão às praias da Zona Norte porque a Baía de Guanabara, região onde está situada, é imunda. Há 70 anos. E a questão é que o Piscinão de Ramos, vendido pela mídia como “o point da periferia”, também é sujo e contaminado. Mas o mar e as praias ao redor dele são TÃO mais sujos que ninguém tem coragem (ou saúde) para entrar, e aí as pessoas são forçadas a escolher o menos pior.

E o problema é que nem existe interesse em melhorar a Baía de Guanabara. Nem depois do Comitê Olímpico Internacional cancelar as provas aquáticas em 2016 lá porque encontrou “níveis perigosamente altos de esgoto humano em locais de competições olímpicas e paralímpicas”. Ou então porque acharam “níveis virais até 1,7 milhão de vezes acima do que seria considerado alarmante em praias no sul da Califórnia”. Ou seja, nem uma humilhação mundial foi o suficiente.

E não é que os governantes querem manter o Piscinão de Ramos como um lugar interessante do Rio de Janeiro, para a Anitta gravar clipe lá pegando um monte de homem gostoso. Há 6 anos, comerciantes e frequentadores do lugar denunciam o descaso e a precariedade que assolam o Piscinão. Nem troca de água o lugar tem mais. E antes esse fosse o único ponto problemático da água na cidade. Parece que por aqui ela é usada como instrumento de poder, para controle da população mais pobre a partir da necessidade. Porque a água “potável” também apresenta altíssimas taxas de sujeira e há 2 anos já afetou mais de 1 milhão de pessoas nas cidades do Rio de Janeiro e Nilópolis, que ficaram com pouco ou nenhum abastecimento de água devido à uma bactéria conhecida como geosmina.

Mas como no Rio o buraco é sempre mais fundo, a crise da geosmina, além de não ter sido resolvida, foi usada como pretexto para o desmonte e a privatização da CEDAE, a empresa que fornece água para a cidade. Alegando que ela “nunca daria certo”, mesmo apresentando lucro acima de 1 bilhão de reais no ano de 2019. Dinheiro que me parece o suficiente para consertar os problemas técnicos, mas nunca terei certeza disso. E sabe por quê?

Lembra que eu falei que o buraco é sempre mais embaixo? Então, o ex-governador (agora réu) demitiu 54 técnicos responsáveis pelo departamento de qualidade da água. Então fica impossível descobrir o que é preciso para resolver o problema. É o primeiro caso de afogamento de arquivo. E não conseguiram calcular nem quanto poderiam ganhar com a privatização: arrecadaram o DOBRO do que esperado. Imagino a conversa no Palácio da Guanabara “O valor é tudo isso mesmo? Pra que será que querem tanto essa água?”

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Ilustrador convidado:

Augusto Garbieri

Olá! me chamo Augusto, nascido em Santos, sou ilustrador e formado em design de animação e agora também me aventurando em tatuagem.

👉  Conheça o trabalho do Augusto no seu instagram e no seu portfólio.

AMARELO MANGA

Nossa liberdade nos condena? Ela sequer existe? Os dias vem e não param. Doem e não param. Os bichos morrem. Morrem também as pessoas. Tudo parece estar morrendo. Uma mulher se olha no espelho todos os dias, tira as remelas amarelas e sente como se fossem moscas mortas caindo, moscas que comem seus sonhos para morrer de dia na pia. Um homem sente que sua pele está desbotando e se esgueira na janela de uma cela – ou será apenas um quarto sujo dividido entre muitas pessoas? -, mas ele se esgueira e tenta queimar o rosto na pequena fresta de sol, mesmo tendo apenas alguns minutos antes que alguém queira meter a cara e o expulsar de lá. Nada muda nunca? As pessoas amontoadas no ônibus, o ar infestado de morte, seguem respirando, pois é involuntário, seguem respirando grudadas umas nas outras e morrem de medo de que naquele cecê, naquela inhaca suada e desconfortável esteja o motivo da verdadeira morte. Isso parece indigesto, fétido e sadesco. Como o governo, como os últimos dias de sodoma e gomorra. Alguém no poder — se é que é gente — se excita com os olhos desesperançosos da mulher de buceta amarela, a mulher queria estar morta ao invés de excitar aquele alguém, mas é assim que paga as contas. Um grupo de jovens se esfrega entre mesas de bar apertadas, postas ao ar livre, e se esfregam incansáveis uns em outres na nova roleta russa preferida, aquela que está aposentando seus revólveres. Querem morrer e sabem, mas não confessam. O padre está quebrando pedras e isso parece um ato de fé independente das igrejas, ele pode ser morto pelas próprias igrejas em breve. Uma comediante se recusa a continuar rindo e alguém quer cortar fora a sua língua e abrir um sorriso amarelo no seu rosto feito um coringa, mas é tanto barulho e o dia não para. A noite vem, mas ninguém está verdadeiramente convencide de que é a melhor parte. O tempo está apodrecido assim, fora do sol amarelo talvez exista alguma esperança ou talvez na morte de um velho exista alguma esperança (nós sabemos de quem estou falando). Mas ninguém está mais convencide de que o mal possa morrer. Isto é liberdade? Mas há uma condenação sem dúvida. A história aqui no entanto, ela não vai parar, ela vai seguir com toda essa morte simultânea, ela vai abrigar todas essas pessoas mortas e morrendo, ela vai, no entanto, falar também da coragem e do amor escorrendo, se debatendo e tentando sobreviver mais uma noite até o próximo dia inevitável.

Uma jovem evangélica descendo a rua, abotoada até o nariz, como se vestisse uma armadura contra o demônio – que são as pessoas e também ela. Não se sabe se a armadura protege a jovem ou os passantes. É uma focinheira? Ela tem o casório marcado com um açougueiro e tem um pai policial, são quase a mesma pessoa e têm muitos gostos em comum, inclusive a filha. A jovem desce a rua até um ponto de ônibus, porque sua cidade não para nunca. Ela usa máscara cirúrgica, apesar do seu pastor, e vê uma mulher de cabelos vermelhos com uma roupa que talvez nem seja roupa de tão pouca. Ela reza pela mulher, isso pode ter muitos sentidos. Ela reza pela mulher e a mulher belisca seu braço. A jovem vislumbra a mulher de joelhos no milho, vislumbra sua boca aberta e vislumbra enfiar os dedos na boca vermelha da mulher. Não se assuste, ninguém a ensinou a desejar diferente do seu pai e seu futuro esposo. A jovem quase deseja violentar a mulher, pois não sabe distinguir o malicioso beliscão de uma punição com razão de ser. Não sabe distinguir uma punição de um amor. Mas a mulher vermelha sente o desejo vazando da armadura crente da jovem, sente porque é mulher sozinha e essas sabem das coisas, por isso são abandonadas nas esquinas. Ela sabe da jovem e para do seu lado no ponto. Ninguém presta atenção enquanto a mulher cola no ombro da jovem e chega com o rosto perto assim da sua orelha e apesar da máscara pandêmica, manda um beijo e pergunta se a menina não quer tomar uma cerveja agora no meio da tarde amarela. A jovem diz “Cruzes!” e vai, porque pensa que pode castigar a mulher com seu amor, pensa que pode punir a mulher e levá-la ao Senhor de algum jeito. Coisa de gente jovem achar que muda alguém?

Chegam no boteco, pegam uma mesa assim de canto. O garçom tinha um bigode fininho, aparecia porque a máscara dele estava sempre pendurada na orelha, sempre na espera de levar um beijo da morte. Ele era virgem de boca e muito apaixonado pelo entregador de gelo, que comia ele todo domingo depois do expediente, mas nunca beijava. “Isso nunca” – o homem do gelo dizia e por isso ele dava mole com a boca virada pro mundo. Além dele, tinha uma mulher de unhas coloridas enormes que mandava em tudo, ela usava uma máscara de tecido estampada bem alegre, mas tinha uns olhos sérios de quem nunca conheceu o amor. Uma dor assim elegante. De resto, havia mais dois gatos pingados de gente, com a própria podridão, se afundando já naquela hora do dia. Todos homens e com as máscaras meio caídas sobre as mesas. Todos olharam elas entrando erguendo o nariz pra ver se dava pra fungar o cheiro daquelas novas bucetas. A figura das duas parecia um contra senso: uma com a cruz no peito, outra com os peitos quase à mostra. “As crentes são as mais safada” disse alto o garçom para um velho dos olhos vermelhos, talvez fosse surdo, talvez não desse a mínima. “Eu não brinco com nenhum senhor”, respondeu o velho pra si mesmo, o garçom não ouviu.

As duas sentam no canto mais afastado do bar. A mulher bebe um copo de cerveja amarela, bem milho transgênico, e com a outra mão coça o bico do mamilo. A jovem olha, franze a testa e cruza as pernas apertando bem as próprias coxas, uma contra a outra. Essa repressão. Respira engraçado. Uma vez uma menina ficou branca que nem papel fazendo exatamente assim e era um gozo, mas a jovem não sabia e a menina da história quase desmaiou. Ninguém ensina às meninas a gozar? Ela estava com raiva e fechava tudo, contraia até o cu para tentar conseguir dizer alguma coisa sobre a mão da mulher que insistia em coçar o próprio mamilo e não tocava em mais nada. “Por que não vai tocar em outra coisa?”, disse quase grunhindo de ódio. “Te incomoda? Quer que eu toque em você?”, disse a mulher com certo desdém. A mão ainda no mamilo. “Tá doente pra coçar assim?” retruca a crente. “Tô. Quer olhar?”, a mulher coloca o peito todo pra fora. A crente quase sufoca. “Mas o problema mesmo, tá aqui ó”, continua a mulher e abre bem as pernas levantando a saia, mostrando a buceta peluda toda nua, os pelos vermelhos. “É bem na xana que não para de arder, parece tá queimando.” A jovem vira o copo de cerveja na buceta da mulher e pergunta: “Melhor?” A mulher geme: “ Ai, quem vai beber essa cerveja agora?”. A jovem responde, com um tom até carinhoso: “Sua puta.” A mulher sorri, a máscara que estava na orelha quase cai. Ela puxa a cadeira pro lado da crente, que fecha os olhos. A mulher pega e coloca a mão da crente na sua xana molhada de cerveja: “Me cura, vai”. A jovem sente que vai infartar, os dedos tremem entre os pelos finos da buceta, na carne quente e molhada, suada, pegajosa. É gostosa. A vida para, por um segundo, parou a vida de todas as pessoas no mundo. Os olhos fechados, como em oração ou tentação, é a mesma coisa. Mas é gostosa. A crente finalmente diz: “Que nojo”. “Ah é?”, a mulher retruca e chupa os dedos da crente melados da sua xoxota. “É meio azeda mesmo, prova.” A jovem passa os dedos outra vez lá embaixo e os lambe, pra depois cuspir. “Aposto que a sua é pior”, diz a mulher. A jovem pega a mão demoníaca da mulher e coloca na própria xota, por baixo da saia longa e da calcinha casta, bordada. A mulher chupa e lambe a própria mão, cheira, passa a mão com o gosto da buceta crente na cara inteira. “Puta que pariu, que xaninha doce. É de Deus mesmo, já sentiu?”, a jovem responde que não. A mulher pega a mesma mão e coloca na boca da crente. A crente prova a própria buceta na mão da mulher estranha. É uma provação danada. Se sua xota é doce assim é mesmo porque Deus abençoou ela todinha? Ela abre um sorriso, parece um milagre que tenham gostos diferentes. Faz das duas uma coisa ainda mais oposta. Isso a tranquiliza tanto que afrouxa a raiva, afrouxa as pernas, cogita quase abrir um botão da camisa. A língua da mulher, nada santa, aproveita o relaxamento e passa na orelha da crente. Mete a pontinha na orelha, é úmida, tem gostinho de cera. A crente deixa escapar um gemido baixinho. Ela imagina as costas da mulher toda arranhada por Deus, imagina a pele sangrando. “Vamo pro banheiro agora”, fala a mulher ainda com a língua serpentinosa. “Eu não entro em banheiro de boteco não”, a crente se levanta e pensa em ir embora para seu compromisso. Um casal cruza a rua, o homem abre a boca banguela pra jovem de pé. A namorada dele o puxa aos tapas e dobram a esquina. A jovem permanece parada, imobilizada. Lembra do futuro marido, das mãos duras de açougueiro, do cheiro de bicho. A mulher estranha a abraça por trás, ergue seu cabelo revelando a sua nuca evangélica e beija. O beijo dos anjos elas não conhecem. Mas entram no banheiro juntas. O garçom já nem viu, está sentado no colo de um homem que lê um livro em voz alta. Ele acha um porre, mas o homem coloca dinheiro na sua camisa por cada poesia que lê. Todo jovem gosta de dinheiro e ler sobre a morte excita o homem. A dona do bar está prendendo arrudas no cabelo. O homem, que queria ser poeta, coloca os óculos e lê: “Amarelo é a cor das mesas, dos bancos, dos tambores, dos cabos, das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos. Da charque! Amarelo das doenças, das remelas, dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes apodrecidos… Tempo interior amarelo. Velho, desbotado, doente.” O banheiro tem azulejos azuis, brancos e amarelos.” A privada cheira a pinho sol e a cachaça. Na pia tem um anel enferrujado e o espelho é tão sujo que parece todo embaçado. A jovem tira a camisa crente e solta os longos cabelos pretos. A mulher morde o bico dos seus peitos e depois parece beijá-los bem devagar, entre beijar e mamar, com uma sucção leve de uma boca amolecida. Uma cobra sem dentes. O peito vai ficar pontudo quase na boca da mulher. A crente segura ela pelos cabelos, pra que fique mais e mais tempo ali com a cara no seu peito. Depois pressiona o rosto da mulher bem entre os dois seios, pressiona o nariz assim com força, num mata leão de tetas. A mulher arranha as costas da jovem e desce as mãos até apertar sua bunda dura. A jovem folga, deixa a mulher afastar o rosto e rapidamente a mulher tá de joelhos no chão pegajoso do banheiro. A jovem olha ela ajoelhada e apoia uma das pernas na parede. Vai deixar a buceta divina escorrer toda na língua dos infernos. Mas quando a mulher de cabelos vermelhos encaixa a cara na sua xota, o sol parece que nem brilha mais, Deus nem existe mais. A lambida é a salvação das mulheres. Não é nada lânguida, é vigorosa e quente. Vai roçando e sugando, fazendo suar as coxas. A buceta produz quase como que a própria pinga prateada. Faz do mijo, aguardente. Molha o rosto e limpa remela, maquiagem, cegueira, purifica. Parece que foi feita pra encaixar na face, pra sentir um nariz grande e colar os lábios nos lábios. Tem sempre mais. A mulher usa também os dedos e os dedos são a penetração perfeita, a jovem berra. A jovem quer ser mulher, quer a mulher, quer azedar na boca da mulher. Rebora e esfrega com calma a xana nos lábios e na língua da outra, sente os dedos entrando e sacudindo. Nem grita, nem geme, tem epifanias silenciosas, só com som de estalos e baba espessa. Suada, toda melada, a mulher levanta e não para, coloca o pé na outra parede e gruda uma xana na xotota da outra. Gruda também as peles e os peitos, encaixam os rostos nos pescoços e mordem como se fossem arrancar um pedaço. A cruz do colar arrebenta. A fé é escancarada. Fé nas xotas que se beijam, se sarram até o bagaço. Nada sangra, mas tudo expele secreções grossas e brilhantes. As duas estão abraçadas, como que enlaçadas, uma calmaria afoita, um paradoxo, uma urgência lenta em morrer na outra, em matar o dia, em fazer no banheiro o que não pode ser feito nunca em cama nenhuma do mundo, em fazer do mundo o que não pode ser feito nunca da realidade. Furar o bucho do céu, deixar cair os anjos e as virgens todinhas. Assim é ficar fodendo com uma mulher durante toda a tarde. O gozo vira essa coisa infinita. Se alguém olhasse pela fechadura da porta, até chorava, até se convertia. Mas a tarde vira noite. Dois homens querem entrar no banheiro e dão murros na porta. O pai da crente matou um garoto e ainda reclamou que é muito mal pago, que tinha que ganhar mais pelo bem que faz matar. O jovem garçom começou a tossir na cozinha em cima de todos os copos. Alguém sem nome puxou um revólver em troca de uma carteira com só 7 reais. O pastor deu um grito que gerou um infarto dentro da igreja e foi bom pros negócios. Uma agente funerária preenche as fichas com nome dos mortos enquanto canta um pagode pensando em seu amante truculento. Um corpo desapareceu num hospital. No jogo do bicho saiu um cavalo. Abrem a porta do banheiro e saem as duas mulheres descabeladas. Depois vem o dia outra vez que vai, vai, vai, vai e não para.

Ilustradora convidada:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho da Camila no instagram.

Dois perdidos em uma Noite no Paraíso

“Noite no Paraíso” (2020) de Park Hoon-jung é um filme de gângsters um tanto convencional. Sua trama, seus personagens e até algumas situações pertencem a um imaginário cinematográfico envolvendo a máfia (em suas mais diversas representações) criado por gerações de diretores das mais diversas origens e países. Esta relação com um passado cinematográfico não é algo que o diretor nega. Pelo contrário, uma vez que a cena da sauna é uma clara releitura da cena do restaurante de “O Poderoso Chefão” do Coppola.

Na verdade, este momento gera consequências similares ao filme estadunidense. Assim como Michael (Al Pacino), Tae-Gu (Uhm Tae-goo) deve se refugiar em um local idílico — no caso do primeiro foge para Corleone, na Sicília, o segundo para a ilha de Jeju. Porém, este é apenas um exemplo dessa relação com o passado, algo que de maneira nenhuma é uma novidade no cinema contemporâneo. No entanto, o que torna “Noite no Paraíso” interessante é forma como estes elementos recorrentes nos filmes de gângsters são organizados e combinados com momentos dramáticos, criando uma tragédia criminal, se não inovadora, pelo menos curiosa.

Este “sempre ir adiante” da trama, parece não comportar os momentos de leveza ou de comunhão entre os dois personagens — sempre contrapostos a cenas de violência ou de negociações escusas. Entre estes e os momentos de melancolia ou violência não há qualquer diferenciação, aos olhos da câmera eles são equivalentes. Os dois protagonistas de “Noite no Paraíso” compartilham a tragédia de viver em meio a uma realidade cruel e a morte.

Se por um lado, no longa de Park Hoon-jung podemos notar a existência de personagens caricaturas como Sr. Yang (Park Ho-san), Sr. Ma (Seung-Won Cha) ou o capitão Park (Moon-sik Lee) — quase tipos que habitam esse imaginário —, por outro, há aqueles interpretados por Uhm Tae-goo e Jeon Yeo-been, que são dotados de alguma “individualidade” —, o que não só os diferencia, como também os distanciam daquele mundo ficcional. Desta forma, os dois apresentam algum traço de humanidade e individualidade, algo que é determinante para selar seus destinos.

Jeon Yeo-been interpreta Jae-Yeon
Uhm Tae-goo interpreta Tae Gu

A montagem é outro elemento que está em total consonância com o que é comumente feito no gênero — principalmente aqueles mais convencionais, seja feitos na Coreia do Sul seja aqueles dedicados a Tríade ou a Yakuza. No caso, o espaço e todo aquele universo é composto e recomposto por fragmentos e planos curtos que formam um todo — cada plano detêm em si um significado único, mas que não pode ser dissociado do outro. Dessa forma, cria-se uma sensação de constante movimento, que favorece as constantes mudanças na trama ou os jogos de oposições no interior nas próprias cenas.

A vingança final de Jae-Yeon (contém cenas fortes):

Mas afinal, o que quero dizer com tudo isso? De alguma maneira, seja intencional ou não, a agilidade e fragmentação da decupagem está em sintonia com uma “dispersão” narrativa, que nos leva constantemente de um “lado para outro”, além de nos fazer ter um conhecimento parcial de Tae Gu e Jae-Yeon e o seu microcosmo. Dessa forma, o que vemos, como ocorre em qualquer filme, é uma tentativa de transformar pedaços de imagens em movimento em algo coerente, que no caso é uma narrativa com um quê de dramático ou até mesmo trágico.

Tae Gu e Jae-Yeon e o princípio do fim

Este talvez seja um ponto que dá margem a uma reflexão acerca do quê, pra mim, torna “Noite no Paraíso” em um exemplar curioso do gênero. Acredito que esta intensão de Park Hoon-jung de conciliar elementos de drama ao ambiente do gangsterismo não há nada de novo, porém ao estar relacionada as escolhas formais do diretor dão margem a um breve exercício de reflexão.

Por exemplo, Tae Gu e Jae-Yeon, o filme parece tomar um procedimento contraditório, por um lado há uma tentativa de dotá-los de uma vida interior e certa profundidade, por outro, não nos é permitido de fato nos determos neles por um tempo necessário para capturar algo para além do que é visto. Contra essa lógica de imersão há uma força que age nos impossibilitando apreender os momentos em sua completude, algo que ressalta a fugacidade dos mesmos.

Tae Gu após sofrer uma perda imensurável

Aqui retorno a ideia de movimento constante, este “sempre ir adiante” da trama não comporta os momentos de leveza, melancólicos ou de comunhão entre os dois personagens, que sempre contrapostos a cenas de violência ou de negociações escusas. Entre estes e aqueles não há qualquer diferenciação na abordagem, aos olhos da câmera eles são equivalentes. Assim, a tragédia — de viver em meio a uma realidade cruel da qual eles não podem escapar e a certeza da morte — compartilhada entre os dois protagonistas de “Noite no Paraíso” se torna muito mais cruel, já que as engrenagens do destino (e da narrativa) não param.

Tae Gu após ser emboscado por seu chefe

Embora este filme de Park Hoon-jung esteja preso a muitas convenções — talvez em demasia —, também traz algo de interessante que diz respeito a relação entre a sua forma e sua narrativa. “Noite no Paraíso”, assim como esse texto, talvez não traga nada de novo ou de muito original, mas, pelo menos, serve como o esboço de algo. Um exercício, ainda que pouco focado, de chegar a algum lugar.

Todo Pai Tem um Filho Favorito

Primeiro de tudo eu queria deixar claro que essa é uma crônica imparcial. Ela não é nem de direita, nem de esquerda. Muito menos de centro. Ela é para frente. É como um filme do Paulo Gustavo: para todo mundo. Aliás, é como qualquer veículo midiático do país: para todo mundo.

Ela é uma crônica que vem, neutramente, dizer que a neutralidade é um mito. Principalmente na imprensa. Porque noticiar um fato é, em sua essência, escolher qual a melhor forma de falar sobre esse fato. E, se é uma escolha, é uma decisão. Não é aleatória, nem neutra: houve pensamento e consideração para escrever daquele jeito.

E o problema é que aqui no Brasil a gente acredita e até cobra que a mídia seja imparcial, sendo que isso é impossível. A própria palavra “neutro” vem do latim: nem um, nem outro. Até ela é uma escolha. E o perigo mora no fato da gente naturalizar a indiferença. Porque o “normal” vira os jornais tentando ser nulos ao contar uma história. E isso faz com que eles peguem leve quando não devem, a fim de atender às expectativas do público de que eles pareçam neutros. Falam que a cloroquina não tem comprovação científica, quando, na verdade, a comprovação científica existe, mas provando que a cloroquina não tem eficácia. Ou então usam palavras e siglas difíceis, tornando o conteúdo incompreensível para 99% da população: “OAB pede à PGR que denuncie Bolsonaro ao STF”.

Sendo que a democracia na qual vivemos (por enquanto) preza pela liberdade de expressão, está ok ter lados. É igual pai que fala que não tem um filho preferido. A gente sabe que sempre tem. “Mas por que essa liberdade de se posicionar não se abrange à mídia brasileira?” você deve estar pensando. E a questão é que isso é tão cultural nosso, que essa pseudo-neutralidade é o próprio modelo de negócios da imprensa, é a fonte de dinheiro, pois gera publicidade, que essa sim é neutra e quer vender para todo mundo.

Mas o que eu acho é que as marcas se adaptam, a verdade não. E cada um tem a sua, está na Constituição. E aí essa ilusão de imparcialidade, no fim das contas, é um tiro no próprio pé da comunicação brasileira. Porque o que acontece é que a mídia é atacada pelos dois lados, que ficam enfurecidos com o “enviesamento do texto”.

Como no caso da Veja em sua retrospectiva 2015, com o Moro na capa com a manchete “Ele salvou o ano” e com a chamada logo embaixo revelando que o conteúdo era uma análise sobre os segredos da sua “determinação e eficiência”. Ou seja, colocando como se a revista estivesse revelando os “segredos de um herói”, mas com um quê de científico e imparcial. Ou então como a Folha divulgando uma pesquisa de opinião sobre “o que o povo queria que acontecesse no julgamento do Lula”.

Aí acaba que ninguém admite 100% o que sente (e ninguém acredita 100% no que o outro está dizendo). E, com isso, o caos vira um ótimo ponto de união dos veículos com seu público: o apelo emocional vende para todo mundo. Ficar em luto por um avião que caiu. Repudiar uma chacina em escola. Tudo isso é moleza de ser solidário. Agora se posicionar quanto à reforma da previdência ou a descriminalização do aborto, aí eu quero ver.

Ainda bem que não cobram que a história seja imparcial. Se não hoje correríamos o risco das aulas serem “Parece que tinha um negócio de Hitler que tem gente que fala que talvez tenha feito umas coisas que foram ruins. Mas não dá muito pra a gente concluir, pode parecer que temos lados”.

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Ilustradora convidada:

Thamy Rodrigues

Mulher, artista, LGBT e nordestina. Estou me formando em História, sou estudante e praticante do teatro, amante da literatura, das artes plásticas e do misticismo. Meu processo criativo parte do inconsciente-consciente. Geralmente, em minhas composições, nas quais trabalho principalmente colagem e desenho digital, construo corpos-personagens surrealistas, algumas vezes dentro de uma narrativa poética. Busco na arte chances de ser, expressando lugares de dentro, insânias, cosmovisões, posições, dores e prazeres, assim me torno um espaço criativo e comunicativo. Esse encontro artístico extra cotidiano me leva a lugares íntimos de germinação e libertação.

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