Às Vezes, Nem Mesmo a Humilhação Mundial Resolve


Ilustrador convidado: Augusto Garbieri

Na tentativa de recuperar o turismo no Rio de Janeiro afetado pela violência urbana que atingia a cidade nos anos 90, a prefeitura encontrou uma solução “brilhante”. Resolver a crise da violência? Não. Melhorar a infraestrutura da cidade? Jamais. O plano quase eugenista dos governantes foi tirar os pobres da vista gringa. E, para isso, criaram um Piscinão, bem longe das praias da Zona Sul, para manter os pobres lá, distantes, onde as Helenas não pudessem ver nem a sombra de alguém sem privilégios (ou direitos).

E aí você pensa: mas o Rio de Janeiro é uma cidade inteiramente litorânea. Por que os pobres não vão pegar praia na “região deles”? Eles querem tanto assim incomodar os herdeiros do Pão de Açúcar (tanto da pedra, quanto do supermercado)? E a resposta é que não, ninguém acorda pensando “Ah, hoje eu vou lá para a frente do Posto 9 atrapalhar o beach tennis das madames”.

A verdade é que as pessoas pobres da cidade não vão às praias da Zona Norte porque a Baía de Guanabara, região onde está situada, é imunda. Há 70 anos. E a questão é que o Piscinão de Ramos, vendido pela mídia como “o point da periferia”, também é sujo e contaminado. Mas o mar e as praias ao redor dele são TÃO mais sujos que ninguém tem coragem (ou saúde) para entrar, e aí as pessoas são forçadas a escolher o menos pior.

E o problema é que nem existe interesse em melhorar a Baía de Guanabara. Nem depois do Comitê Olímpico Internacional cancelar as provas aquáticas em 2016 lá porque encontrou “níveis perigosamente altos de esgoto humano em locais de competições olímpicas e paralímpicas”. Ou então porque acharam “níveis virais até 1,7 milhão de vezes acima do que seria considerado alarmante em praias no sul da Califórnia”. Ou seja, nem uma humilhação mundial foi o suficiente.

E não é que os governantes querem manter o Piscinão de Ramos como um lugar interessante do Rio de Janeiro, para a Anitta gravar clipe lá pegando um monte de homem gostoso. Há 6 anos, comerciantes e frequentadores do lugar denunciam o descaso e a precariedade que assolam o Piscinão. Nem troca de água o lugar tem mais. E antes esse fosse o único ponto problemático da água na cidade. Parece que por aqui ela é usada como instrumento de poder, para controle da população mais pobre a partir da necessidade. Porque a água “potável” também apresenta altíssimas taxas de sujeira e há 2 anos já afetou mais de 1 milhão de pessoas nas cidades do Rio de Janeiro e Nilópolis, que ficaram com pouco ou nenhum abastecimento de água devido à uma bactéria conhecida como geosmina.

Mas como no Rio o buraco é sempre mais fundo, a crise da geosmina, além de não ter sido resolvida, foi usada como pretexto para o desmonte e a privatização da CEDAE, a empresa que fornece água para a cidade. Alegando que ela “nunca daria certo”, mesmo apresentando lucro acima de 1 bilhão de reais no ano de 2019. Dinheiro que me parece o suficiente para consertar os problemas técnicos, mas nunca terei certeza disso. E sabe por quê?

Lembra que eu falei que o buraco é sempre mais embaixo? Então, o ex-governador (agora réu) demitiu 54 técnicos responsáveis pelo departamento de qualidade da água. Então fica impossível descobrir o que é preciso para resolver o problema. É o primeiro caso de afogamento de arquivo. E não conseguiram calcular nem quanto poderiam ganhar com a privatização: arrecadaram o DOBRO do que esperado. Imagino a conversa no Palácio da Guanabara “O valor é tudo isso mesmo? Pra que será que querem tanto essa água?”

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Ilustrador convidado:

Augusto Garbieri

Olá! me chamo Augusto, nascido em Santos, sou ilustrador e formado em design de animação e agora também me aventurando em tatuagem.

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