Todo Pai Tem um Filho Favorito


Ilustradora convidada: Thamy Rodrigues

Primeiro de tudo eu queria deixar claro que essa é uma crônica imparcial. Ela não é nem de direita, nem de esquerda. Muito menos de centro. Ela é para frente. É como um filme do Paulo Gustavo: para todo mundo. Aliás, é como qualquer veículo midiático do país: para todo mundo.

Ela é uma crônica que vem, neutramente, dizer que a neutralidade é um mito. Principalmente na imprensa. Porque noticiar um fato é, em sua essência, escolher qual a melhor forma de falar sobre esse fato. E, se é uma escolha, é uma decisão. Não é aleatória, nem neutra: houve pensamento e consideração para escrever daquele jeito.

E o problema é que aqui no Brasil a gente acredita e até cobra que a mídia seja imparcial, sendo que isso é impossível. A própria palavra “neutro” vem do latim: nem um, nem outro. Até ela é uma escolha. E o perigo mora no fato da gente naturalizar a indiferença. Porque o “normal” vira os jornais tentando ser nulos ao contar uma história. E isso faz com que eles peguem leve quando não devem, a fim de atender às expectativas do público de que eles pareçam neutros. Falam que a cloroquina não tem comprovação científica, quando, na verdade, a comprovação científica existe, mas provando que a cloroquina não tem eficácia. Ou então usam palavras e siglas difíceis, tornando o conteúdo incompreensível para 99% da população: “OAB pede à PGR que denuncie Bolsonaro ao STF”.

Sendo que a democracia na qual vivemos (por enquanto) preza pela liberdade de expressão, está ok ter lados. É igual pai que fala que não tem um filho preferido. A gente sabe que sempre tem. “Mas por que essa liberdade de se posicionar não se abrange à mídia brasileira?” você deve estar pensando. E a questão é que isso é tão cultural nosso, que essa pseudo-neutralidade é o próprio modelo de negócios da imprensa, é a fonte de dinheiro, pois gera publicidade, que essa sim é neutra e quer vender para todo mundo.

Mas o que eu acho é que as marcas se adaptam, a verdade não. E cada um tem a sua, está na Constituição. E aí essa ilusão de imparcialidade, no fim das contas, é um tiro no próprio pé da comunicação brasileira. Porque o que acontece é que a mídia é atacada pelos dois lados, que ficam enfurecidos com o “enviesamento do texto”.

Como no caso da Veja em sua retrospectiva 2015, com o Moro na capa com a manchete “Ele salvou o ano” e com a chamada logo embaixo revelando que o conteúdo era uma análise sobre os segredos da sua “determinação e eficiência”. Ou seja, colocando como se a revista estivesse revelando os “segredos de um herói”, mas com um quê de científico e imparcial. Ou então como a Folha divulgando uma pesquisa de opinião sobre “o que o povo queria que acontecesse no julgamento do Lula”.

Aí acaba que ninguém admite 100% o que sente (e ninguém acredita 100% no que o outro está dizendo). E, com isso, o caos vira um ótimo ponto de união dos veículos com seu público: o apelo emocional vende para todo mundo. Ficar em luto por um avião que caiu. Repudiar uma chacina em escola. Tudo isso é moleza de ser solidário. Agora se posicionar quanto à reforma da previdência ou a descriminalização do aborto, aí eu quero ver.

Ainda bem que não cobram que a história seja imparcial. Se não hoje correríamos o risco das aulas serem “Parece que tinha um negócio de Hitler que tem gente que fala que talvez tenha feito umas coisas que foram ruins. Mas não dá muito pra a gente concluir, pode parecer que temos lados”.

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Ilustradora convidada:

Thamy Rodrigues

Mulher, artista, LGBT e nordestina. Estou me formando em História, sou estudante e praticante do teatro, amante da literatura, das artes plásticas e do misticismo. Meu processo criativo parte do inconsciente-consciente. Geralmente, em minhas composições, nas quais trabalho principalmente colagem e desenho digital, construo corpos-personagens surrealistas, algumas vezes dentro de uma narrativa poética. Busco na arte chances de ser, expressando lugares de dentro, insânias, cosmovisões, posições, dores e prazeres, assim me torno um espaço criativo e comunicativo. Esse encontro artístico extra cotidiano me leva a lugares íntimos de germinação e libertação.

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