É dia de festa



Há algum tempo convivemos com datas festivas: dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados, além dos feriados consagrados e institucionalizados, como natal, carnaval, dia da independência e outros que me escapam neste momento. Indicativo de nossa vocação para celebração, as datas comemorativas tem sua importância e efeito social benéficos. A memória possui papel fundamental nessas escolhas. Grandes acontecimentos e marcos, assim como os trágicos e dolorosos eventos, são dignos de ganharem suas datas específicas e seu merecido destaque. Espécie de lembrete que nos supre de modelos a ser seguidos ou evitados, a memória confere valores às situações do passado, santificando ou demonizando personalidades, lugares e fatos. Assim, fizemos a transição dos antigos gabinetes de curiosidades e coleções particulares aos primeiros ensaios do que viriam a se tornar nossos museus. Essa vontade de documentar, catalogar e eternizar artefatos que de outro modo seriam perdidos pela ação do tempo, alcançou dimensões de ciência, e hoje em dia nos é difícil imaginar um mundo sem a prática da memória. Para o bem ou para o mal, mesmo que a serviço de interesses nem sempre louváveis, a memória, solidificada na forma de datas comemorativas, presta seu papel a humanidade.

Com a revolução industrial e o avanço tecnológico a serviço da produção, essas datas foram gradualmente pervertidas em veículos de ideais de consumo. O imperativo existente em presentear alguém nesses dias torna-se tão opressor que é possível sentir-se culpado por não o fazê-lo. Afinal, quem arriscaria não presentear a nova namorada no dia dos namorados? Ou não comprar algo para a mãe no dia das mães? Você pode escolher não o fazer, mas a coerção exercida pela mídia e pela maioria das pessoas de seus círculos sociais, no mínimo, o levará a refletir se realmente vale a pena levar a pecha de ser “do contra”. Infelizmente, de tão naturalizadas, grande parte dessas datas exercem influência praticamente irresistível. Talvez o problema seja sua excessiva quantidade, já que em alguns calendários, notamos celebrações para todos os dias do ano. E não incluo as festividades religiosas, pois desta forma estes números dobrariam. De fato existem dias para tudo e para todos.

O mérito em se ter um dia próprio é, aparentemente, objeto de desejo – ao alcance – de todos, nenhuma profissão ou causa é insignificante e todas merecem sua data específica.

Interessante perceber que as categorias contempladas passam por diversas esferas do convívio humano: o trabalho e suas mais variadas profissões; os relacionamentos e dias especiais para todos os graus de parentesco e relações afetivas; as causas sociais e seus “dias mundiais” de múltiplas lutas; junto de todas estas se segue uma profusão de motivos e justificativas para tantas comemorações. Dentre inúmeras questionáveis, destaco alguns exemplos bizarros como o “dia da baiana do acarajé” e o “dia do cotonete”. Muitos destes fogem à regra geral das datas forjadas para impulsionar vendas, mas creio que o ponto comum seja a satisfação narcísica existente em “possuir” uma data. O mérito em se ter um dia próprio é, aparentemente, objeto de desejo – ao alcance – de todos, nenhuma profissão ou causa é insignificante e todas merecem sua data específica. A gratificação da lembrança nesses dias é a recompensa final pela dedicação aplicada à pessoa, instituição ou ideal amado. A chancela oficial, claro, fica por conta da aceitação e permanência desses dias nos anos seguintes, processo que caberá ao tempo decidir, mas na verdade, quem está ligando? Então, se no próximo dia do amigo você sentir uma incontrolável vontade de disparar mensagens a todos seus contatos, ou se no dia do sexo você subitamente deseje visitar aquele sex shop perto do seu escritório, saiba, caro amigo, que pode não ser sua vontade própria.

Compartilhe sua opinião