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Se Faça de Besta, que o Jumento lhe Come

Trabalhar, estudar, lavar a pia, militar no Facebook, malhar para postar “o de hoje tá pago”, comer pepino orgânico, ser mentalmente equilibrado, manter vínculos sociais e afetivos. Podia ser a vida de um de nós. Só que é a de qualquer personagem dos filmes hollywoodianos. Afinal, quem melhor para sugerir os moldes do nosso cotidiano que atores milionários?

“Basta se esforçar que você consegue” é o que mais se ouve por aí. A ideia de que dá para fazer de tudo e um pouco mais nos foi vendida sem direito de devolução. Inventaram não apenas que é possível que todo ser humano se desdobre em mil, como também que, para ser feliz, é necessário estar alinhado com esse estilo de vida semi-utópico.

Assim, a mídia vai normalizando uma de suas habilidades mais complexas: a de indicar como deveria ser o cotidiano do público. Por exemplo, aqui no Brasil, as novelas debatem os temas que consideram que sua audiência vai achar palatável, virando uma espécie de filtro do que a população vai debater naquele momento. Um sinal verde para que se discuta o assunto. “Ó, agora que estamos mostrando idosas pedindo divórcio, está ok para a terceira idade se separar”.

E muitas vezes essas mensagens do showbusiness não são só do cotidiano de um modo geral, mas também dos caminhos da nossa tão agitada política. Por exemplo, na semana em que foi divulgado que quase 7 milhões de testes de diagnóstico do novo coronavírus comprados pelo Governo Federal estão prestes a perder a validade, sem nunca terem sido usados, o jogador Pelé deu uma camisa do Santos autografada ao Presidente. Se o Rei validou a gestão do Mito, quem é o súdito que vai ousar invalidá-la?

Pelo menos enquanto alguns dão passe fora, temos outros camisas 10 que continuam em campo contra a alienação. Como Juninho Pernambucano, que fez uma denúncia à matriz do Carrefour, na França, do assassinato de homem negro em sua filial no Brasil.

E ainda tem gente que acha que arte, esportes e cultura são distrações da política, sendo que a própria escolha pela distração já é um ato político. Por mais que seja anti-político, ainda assim é uma escolha, uma decisão – o que, ironicamente, é por definição, a base da política. “Desligar a cabeça” é bom, mas desligar demais atrofia. Ou, como dizem em Maceió, se faça de besta, que o jumento lhe come.

Nessa onda da indiferença, vão sugerindo pouco a pouco como devemos nos comportar, consumir, qual família devemos constituir. E nesse último ponto até a propaganda de margarina interfere, nem a gordura hidrogenada misturada com leite deixa a gente em paz e bota lá aquela família malhada, loira, que nunca comeu uma margarina na vida, para fingir que estão super felizes em consumir uma nesga de pão banhado em Qualy. Meu medo é acordar um dia e ser multado por não ter pago “o de hoje” no espelho da BodyTech mais próxima. Será esse o próximo tema da novela das 7?

* * *

Ilustradora convidada:

Yasmin Borges

Tenho 21 anos, sou porto-alegrense e me formei em produção audiovisual. Voltei a desenhar durante a pandemia apenas como passatempo e uma forma de distração, e no fim acabei reencontrando uma antiga paixão. Dramaticidade, cores contrastantes e cinema são aspectos influentes na composição de meus trabalhos e vida.

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ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Às vezes parece que não vai dar mais. O país parece só saber acumular cadáveres. É tudo morte e guerra. Todes estão tentando desesperadamente construir entre quatro paredes o seu próprio mundo, sua pequena pátria. Tentando costurar os sonhos nas mãos cansadas e nas lágrimas. Em casas abarrotadas de gente, tenta-se construir paredes de privacidade. Nos apartamentos pequenos e apertados, tenta-se criar janelas e companhias flutuantes que dão beijos e fortes abraços. Mas nem sempre as cabeças fodidas de desgraça conseguem sustentar esse mundo paralelo, muito menos por tanto tempo. A tristeza apodrece as fantasias e tudo é apenas o que é. Você está cansade de ser apenas o que é e de ver só o que está no seu entorno. O cômodo, a ausência, o barulho dos carros, a falta de carinho, o lixo na internet, a goteira no teto do lado da porta. Nunca mais encontrou ninguém e esse “nunca” é tanto tempo que você sente que está perdendo a capacidade de imaginar alguém e poder se tocar com essa ideia, com essa criação mental de pessoa que lhe encontra e lhe beija e lhe diz sacanagens.

Nesse dia, você deita embaixo dos lençóis e tenta outra vez se excitar com algum vestígio de memória, mas tudo está contaminado pelo mundo podre que vivemos, com o fracasso dos sonhos, com a incompatibilidade das bocas, com o perigo de existir. Frustrade, você estava prestes a desistir completamente de tudo. Ia queimar todos os seus livros, tirar a máscara e se atirar no asfalto, torcer pra ser atropelade por um carro, ou por beijar uma negacionista nos lábios, ou outros tipos incontáveis de mortes possíveis hoje, quando — no mesmo instante desses pensamentos obscenos — ouviu um estrondo forte perto da parede. Todo e qualquer barulho atualmente é motivo de correr pra perto. Sempre pode ser que algo aconteça e – mesmo que por segundos antes pensasse em morrer — você e todo mundo sempre quer desesperadamente ver acontecer algo. Então correu na direção do estrondo e percebeu um rombo no chão ao lado da sua estante improvisada. “Pronto”, pensou, “agora a casa vai começar a desabar”. Você se irritou, tentou olhar pelo buraco, mas era muito escuro e fundo. “Não é possível ter simplesmente aberto assim do nada, não é um país de terremotos ou coisas do tipo”, mas o buraco era inegável. Você ficou nessa pose de incredulidade diante do rombo. Até que a ideia mais louca lhe ocorreu: “Se tudo estava tão fodido, por que não pular logo?”. Mas o corpo permaneceu imóvel, recusando aquele pensamento. Então do buraco alguém gritou: “Morre nada, bem. Aproveita antes que seja tarde.” A voz era aguda e engraçada. Você meteu a cara tentando ver, mas era impossível. A segunda ideia mais louca lhe ocorreu: “Pular e não morrer”. E pulou.

Primeiro, mas muito brevemente, houve um desespero. E se cair e rachar o crânio no chão? E se cair no magma e morrer a morte lenta do fogo? Mas logo se acalmou. A queda era longa demais pra conseguir sustentar o pavor. Cair parecia mais como demorar no ar. O buraco que antes era apenas escuro, agora parecia ganhar cores diferentes e ouvia-se um relógio alto batendo cada vez mais perto. Tinha a sensação de ver alguns objetos subindo enquanto descia, um mapa, um vaso de plantas, um gato de pelúcia, um estetoscópio, uma pá. Um sino forte começou a soar e os seus pés finalmente tocaram gentilmente o chão. Uma rajada de vento jogou contra seu rosto uma enorme calcinha vermelha. Tinha cheiro de rosas. Você segurou ela por um tempo nas mãos. “Aonde estou?”. Tentou perguntar por alguém, chamar aquela voz aguda, mas havia apenas o soar incessante do relógio. Na sua frente havia um enorme corredor torto e íngreme. Você seguiu. Mais a frente uma cueca enorme e igualmente cheirosa. “Quem vive aqui?”. Começou a pensar que podia estar entrando na casa de alguém, alguém que vivia abaixo do seu mundo, no subterrâneo. Em alguns lugares da Europa, isso acontece, você já tinha visto num programa de tv. Andou e andou e no caminho peças e mais peças íntimas vermelhas iam surgindo. Calcinhas fio dental, largas, cintura alta, finas com zíper, ou cuecas justas, boxer, samba-canção, sungão, de renda, de seda, de algodão. Chegou finalmente em uma porta muito pequena. A maçaneta era uma boca. Você tenta apertá-la, ela solta um grito e a boca dispara: “Que porra é essa? Nem me conhece e me mete os dedos nos dentes? Cadê a cortesia? Quem és tu? Que estupidez”. Você se afasta assustade“. Eu sou uma boca, sim, mas eu curto um romance, um xaveco, uma linguinha aqui e ali, palavras bonitas”, continua a boca-maçaneta. “Como atravessar uma boca?” você pensa. Nunca foi muito promissore no cortejo de ninguém e já não usa da sua lábia há muito tempo. Ficou sentade diante da porta no meio das várias roupas íntimas. Pensou em vestir uma delas e desfilar, mas era uma boca, droga. Não tinha olhos. Você tenta começar: “É… bem. Seus lábios são tão bonitos. Seus dentes, também. Quero te dar um beijo”. A boca responde: “ Ó que idota, tens que fazer tudo só? Use o poeta. Que mania de ser original”. Você não entende, mas quando olha em volta, no outro canto da sala, surge uma pessoa – como que caída do céu – cercada de milhares de livros. Se aproxima, é um homem, rosto abatido, no pescoço uma placa onde se lê: POETA. “Com licença”, você diz cheie de timidez, “Eu queria lhe pedir…”. O poeta tira os olhos dos papéis e abre um sorriso: “Quer me usar?”. Você diz que sim. O poeta se levanta entusiasmado. Vocês caminham de mãos dadas até a maçaneta-boca. Você fica um tempo parade sem saber como começar. O poeta se aproxima, cola a boca na sua orelha e começa a sussurrar sonetos. Você os repete, como se fossem seus. A boca começa a gemer. “ Ai, ai. Sim, sim! Me dê mais! Eu o amo! Me dê um beijo!” Você pergunta baixinho ao poeta: “Vocês são um casal?”. O poeta ri e volta aos seus livros. A boca continua a pedir. Você abaixa e beija a maçaneta. Sua língua dentro dela parece encaixar. Escuta o click. A porta se abre. A maçaneta-boca torna a gritar: “Ei, poeta! Ei, poeta! Por favor! Me dê!”.

Você a ignora e, com dificuldade, atravessa a porta apertada que dá em uma enorme praia. O mar, no entanto, tem uma cor púrpura. E a praia dá num enorme jardim com cercas feitas de bambu. As ondas arrebentam na areia e você parece escutar uma conversa como alguém que diz: “Eu vou, hein! Eu vou!” e outra pessoa que responde: “Estou pronta! Estou pronta!” e então shuá shuá. Mas não há ninguém na praia. Você segue na direção do jardim. Quase no fim da praia, outra vez escuta vozes, mas agora vindo do chão. Você se abaixa, procurando. Vê dúzias de conchas, abrindo e fechando. Uma delas grita: “Tô atolada, eu tô atolada!”. Você quer ajudar, sente uma estranha simpatia. Tem algo de desesperado na voz. Você pega a concha em suas mãos gentilmente, traz ela pra perto do seu rosto. Percebe os olhinhos e a boca. Ela pisca pra você, maliciosa: “Quer me enterrar na areia, quer?” e belisca sua pele. Você a solta, assustade. Corre pro jardim. Todas as coisas parecem desejar algo. Isso dá medo.

Atravessa as grades de bambu, o jardim é gigante, mas organizado. Tem flores de todos os tamanhos, inclusive maiores que você. Tudo é podado e carinhosamente cuidado, você vê pelas formas dos arbustos, pela pequena estrada de terra limpa e brilhante. No entanto, quanto mais você entra, mais percebe que as flores e os arbustos têm algo de diferente, de particular. Parecem paus e bucetas de todos os tamanhos e tipos. Você começa a olhar, intrigade. Vê picas e pirocas de folhas robustas, xanas e xoxotas de pétalas e espinhos, caralhinhos, xerecas, bingolins, pupucas, bigorrilhos, vulvas, rolas e pererecas. É encantador e um pouco excitante. Todas se sacodem com a brisa leve, se roçam. Algumas parecem entrelaçar raízes e caules. Você sente as palmas suarem. Não se aguenta, quer tocá-las, prová-las. Se aproxima de uma benga bonita que roça a coroa entre as pétalas de uma perseguida. Quando toca com a ponta dos dedos na benga, a perseguida fala: “Ei! Que isso? Te conheço? Sai tocando assim nos outros?”. Você fica envergonhade, tenta se defender: “Achei vocês tão fascinantes”. A perseguida continua: “Que tipo de flor esdrúxula é você? Nesse jardim, tem que se inscrever e esperar na fila pra poder sair roçando. É organizado e normalmente só quem nos toca é a Rainha. E ela lhe mata.” E todas as outras flores ecoaram rindo: “Ela lhe mata! Lhe mata!”. Você ainda está excitade, tem dificuldade de entender o que falam de tão deslumbrade que fica com suas formas, mas sai correndo. A morte sempre parece nos dar vontade de correr. Quando chega ao final do jardim, as xavascas e jebas ficam pra trás, e diante de você um enorme castelo se revela. Torres e mais torres, portas e vidraças com vitrais coloridos. Vê cartas gigantes andando de um lado para o outro, bebem vinho, se empurram, depois cantam marchas militares. Tem cartas do baralho tradicional, copas, ouros, espadas e paus. Mas tem também algumas sentadas perto do portão que parecem de tarot, marselha, rider-waite, de thoth. Essas são mais sérias, parecem ter mais hierarquia, bebem silenciosas, fumam cigarros e trocam olhares misteriosos que lhe assustam um pouco. Mas todas as cartas, sem exceção, estão armadas com chicotes, porretes, cordas e carregam lampiões incandescentes. Do nada, todos se acendem, brilhando uma chama verde e o céu fica escuro. Quase como se fossem os lampiões que expulsassem o dia. Você decide se aproximar.

Primeiro cruza as cartas tradicionais, que bebem e cantam e nem te veem passar. Depois se aproxima das de tarot que lhe encaram. A Temperança se aproxima, fazendo gestos como que lhe enxotando, O Julgamento lhe grita coisas de longe numa língua que não consegue entender. No entanto, O Louco se ergue, para de fumar. Todas as outras tornam ao silêncio. O Louco vai até você, te olha nos olhos. Levanta o chicote, você continua parade. O Louco sorri, lhe dá um tapinha na bunda e diz: “Pode entrar, ela vai devorar e adorar você”. Você entra no castelo. Dentro do castelo mais cartas andam de um lado para o outro, mas vê também uma fila de seres muito estranhos que ocupa o hall de entrada. O teto é alto até não poder mais. Nas paredes tem enormes quadros de uma mulher baixinha com cabelos vermelhos e olhos raivosos. Você sobe os lances de escada, ignorando a ordem da fila, apenas segue curiose para saber aonde ela dá. Passa por coelhos de terno, mulheres com serpentes no pescoço, ratos de camisa polo, pássaros com perucas, homens com casacos de plumas, lagartas com jaquetas de couro e outras infinidades de criaturas. Sobe muitos lances de escada, a fila continua. Tartarugas com cascos de espelhos, cachorros de óculos e livros metidos no braço. Segue, chegando em um corredor gigante todo banhado em ouro. A fila continua até duas portas de marfim, enormes e abertas, a fila segue pra dentro. Fica mais estreito. Vê dois gêmeos parados, um em cada porta, têm a cabeça redonda e cachos azuis, se vestem como homenzinhos da renascença. “Meu genital está com ele”, diz um apontando para o outro. “Meu tesão está com ele” diz o segundo. E você não sabe se riem ou choram. Você tenta passar pela porta. Um deles (o do tesão) segura no seu ombro: “O que faz de você alguém que não respeita as filas?”. “Por que fazem fila?” você pergunta. O gêmeo do tesão responde: “Porque temem a rainha e querem se apaixonar por ela.” O do genital retruca, aborrecido: “Querem arrancar coisas dela, isso sim. Roubar! Querem roubar!”. O outro gêmeo – do tesão – o corta: “Não o escute, ele é só um genital”. “Eu digo a verdade! Ele que mente!” diz o outro (o do genital) e assim começam a bater boca e se xingar e tentar dar socos um no outro. Você passa de fininho pela porta.

Entra num enorme quarto, o chão é aveludado, longas colunas de mármore negro sustentam o teto. A fila chega ao pé de uma cama gigantesca com colchas vermelhas e a rainha senta na beira do colchão cercada de cartas armadas. Ela é muito baixinha comparada à cama, mas seus cabelos estão presos para o alto amarrados numa estrutura de arame, fazendo sua cabeça parecer maior do que é. Os peitos são gordos e estão nus. Nos mamilos, ao invés do bico, tem duas pérolas. Uma enorme barriga pálida. A buceta está também exposta com seus pentelhos vermelhos penteados e alinhados. Das mãos até os ombros é coberta de joias. Anéis, braceletes, correntes. Seu rosto é pintado fazendo parecer ter olhos gigantes e uma boca enorme, grossa e vermelha. Não tem sobrancelhas. Mas ainda sim parece o tempo todo irritada. Com uma das mãos coça os pentelhos, a outra dá ordens ou fica estendida à espera de um beijo. Os seres da fila chegam até a beira da cama. Ela lhes diz coisas como: “Chupe meus pés” ou “Se masturbe pra mim” ou “Meta a língua no meu cu” e os seres tentam desesperados atendê-la, mas ela sempre acha um problema. Diz que são muito feios, muito apressados, muito lentos, muito babões, muito frios, e por aí vai. Por fim, manda sua guarda decapitá-los. Você só observa a cena, elefantes passando tromba nas pernas e sendo levados pra fora violentamente por cartas tão menores do que eles. Sapos grudando as línguas uns nos outros diante dos olhos dela que toca sua buceta nervosa e depois os manda ao calabouço entediada. Você esquece que não devia estar ali, quase hipnotizade, você se aproxima. Quando lhe vê, ela dá um grito. Todos no cômodo lhe olham chocados. Alguns na fila começam a lhe xingar por ter furado a ordem, por ser estrangeire, dizem que querem você fora, que lhe odeiam profundamente. As cartas lhe apontam os chicotes e porretes. Um gato desce da cama da Rainha, risonho e caminha até você. “ O que você deseja?” pergunta o gato. Você não sabe o que responder, por medo diz: “A Rainha”. O gato gargalha e retruca: “Não se deseja alguém. A resposta está errada. Sempre deve-se desejar o desejo”. A Rainha balança os peitos, lisonjeada. “Venha até mim”, ela lhe diz. Você vai. Os súditos ainda lhe olham com ódio. Você chega aos pés da cama.

“Deixa eu olhar pra você. Tragam meu narguilé. E você — ela lhe aponta — tire as roupas.” Você tira, deixa todo seu corpo exposto na frente dela e de todos da sala. Ela aproxima os olhos enormes de você, fuma o narguilé e cospe fumaça na sua cara e no seu sexo. Você começa a ficar excitade olhando a fumaça sair da boca dela, os peitos dela chegando mais perto. Ela toca com uma das mãos no seu pescoço. “Você me quer?”, você faz que sim com a cabeça. Ela tira um isqueiro dos cabelos e com a chama aquece o bico de metal do narguilé. Depois o passa pra você. “Então fume”. Você tenta tragar, mas está muito quente e queima seu lábio. Ela ri de você. “Abra a boca”. Você abre. Ela toca o narguilé na sua língua. Arde muito e depois sente o gosto de baunilha. Você faz uma careta. Ela puxa seu rosto para perto. Você tenta beijar a boca dela. “Na boca não. Nas pérolas”. Você se aproxima dos enormes peitos e chupa as pérolas. São frias e aliviam a queimadura. Você as chupa com vontade. Ela continua fumando o narguilé. Não geme, nem diz nada. Você se empenha, suga, lambe. Ela ainda não geme. Você morde. Ela solta um gemido agudo e lhe dá um tapinha na cara. Você está mais excitade e úmide, suando. O tesão aflora em você como uma onda. Você pega a mão dela e começa a chupar seus anéis e passar a língua por seus braceletes e as correntes. Ela abre um sorriso e diz “ Suba na cama”, você sobe. Ao lado dela nos lençóis, você continua. Beija todas as jóias. “Agora meus pés.” Você começa a beijar os dedinhos gordos, o tornozelo, o peito do pé. O pé dela é aveludado, como se nunca tivesse tocado no chão. Percebe ela se masturbando, barulho das pulseiras sacudindo. Ela cospe mais fumaça em sua cara e o quarto parece começar a ficar coberto por uma neblina de fumaça. Você passa as mãos pelas curtas pernas dela, até tocar a bunda real que é enorme. Tem estrias que brilham como feixes de ouro. Você dá tapas na bunda da Rainha, que agora geme. “Eu já sei! Quero vendar-lhe”. Um coelho branco, lindo, com um terno roxo, pula até você e venda seus olhos com um tecido de seda macio. O tecido cobre suas pálpebras. “Vamos brincar de cabra cega. Você vai ter que me encontrar”. Ela chama seu nome — mesmo sem você nunca ter dito — e você caminha pela cama de quatro a procurando. A cama parece ainda maior, parece ter metros e metros sem fim. Você a procura. Sente uma bunda pequena e dura, morde uma das nádegas. Ouve um latido e os risinhos da Rainha: “Ainda não!”. Você segue a voz. Sente com as mãos dois peitos, cada um com um tamanho diferente, desce procurando a barriga e sente mais dois e então mais dois, como uma fileira de muitos peitos e no final um pau, duro e grosso. O sente com toda sua palma, sobe e desce sua mão, a cabeça pulsa. Você tenta abocanhá-lo. A Rainha grita: “Estou com ciúmes”. Você volta a procurá-la. Dessa vez sente costas largas e musculosas, começa a beijá-las, subindo até chegar na nuca. Assopra a nuca nua, toca nos cabelos. Vira e beija a boca fina deliciosa. É um beijo apaixonado, com língua e calma. Ouve gemidos longe. “Eu estou gemendo, mas não é com você. Venha depressa. Larga meu chapeleiro”, diz a Rainha. O chapeleiro sussurra em seu ouvido: “Fuja comigo”. Mas você não aguenta e torna a procurar a Rainha. Encontra uma enorme buceta, cheira e tem cheiro de licor de chocolate. Você passa os dedos, sente os lábios, o clitóris inchado. Masturba a buceta. Sente a mão com anéis agarrar sua cabeça. Continua dedilhando a xota que está pegajosa de tão molhada. Coloca a boca nela e sente a buceta rebolar na sua cara. Agarra as coxas e vai subindo a mão até a bunda. Toca o cu, sente as coxas enrijecerem. Sobe a mão mais e sente um rabo peludinho. Ouve gargalhadas da Rainha: “Pobre coelho! Há!”. Sente o cheiro da fumaça do narguilé e o segue, farejando os lençóis. Encontra outro par de peitos, toca os mamilos: são pérolas. “Te achei”, você diz. Desce a mão para a xana real, ouve a Rainha gemer perto do seu ouvido. Aperta sua xana com a palma da mão. Ela lhe dá um beliscão. Você mede os dedos, a xota é ainda mais babada e pegajosa. Seus dedos parecem mergulhar numa gosma deliciosa e a buceta parece sugar os seus dedos. Você mete os dedos mais rápido. Ela começa a gritar e te empurra na cama. Você cai pra trás no colchão macio, é como cair numa cama elástica, você parece pular. Sente a Rainha subir em você e grudar a xota na sua perna. Começa a se esfregar, com a mão puxa você pelo pescoço. A Rainha coloca dois anéis dentro da sua boca. Você os chupa, são gelados. Ela começa a lhe masturbar com as mãos pequenas e suadas. É tão gostoso, mas você não pode gemer com medo de engasgar com os anéis. Ela lhe masturba mais. Você sente plumas passando pela sua barriga. Você vai gozar. Cospe os anéis. Sente a bunda da rainha contra sua cara outra vez e a boca dela te alcança e começa a lhe chupar. Você vai ter um orgasmo. A boca dela é mole e sua língua é gigante. Você lembra das flores do jardim. Você está gozando beijando a raba dela. Não se aguenta, geme e arranca a venda.

Você está no escuro. O rosto do gato aparece em sua frente, ele sorri. Sua boca é como a lua. Você pergunta: “Estou delirando?”. O gato responde de cabeça pra baixo: “Todo desejo é delírio. Especialmente aqui e agora.” As luzes se acendem, você sente que está em um tribunal, mas é apenas o seu quarto.

* * *

Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho da Camila no instagram.

5 dias em Hong Kong

Trabalhar como artista muitas vezes é ter que estar em um looping constante de criação de ideias que nem sempre vão ser as melhores, mas que de alguma forma precisam ser criadas. Porém, nessa “indústria” o que é interessante (e bastante aliviador, às vezes) é observar os processos de outros criadores e ver as falhas e acertos que todos nós cometemos. Há 6 anos atrás, a banda britânica Blur, lançava ‘The Magic Whip’ (2015) álbum que tem uma história bastante interessante sobre o processo artístico.

Para começar, um pouco de contexto: em maio de 2013, o Blur seguia de viagem para o Japão para sua participação no Tokyo’s Rock Music Festival que foi inexplicavelmente cancelado. Sabendo disso, a banda decidiu estender a sua estadia em Hong Kong por mais cinco dias e ao invés de ficar fazendo compras ou turistando, eles rumaram para o Avon Studios simplesmente para tocar e se distrair.

Existem alguns fatores interessantes nessa parte do processo: o primeiro deles é que a banda não tinha datas de entrega ou objetivo claro. Eles se reuniram em estúdio para tocar e ponto, se permitindo uma liberdade criativa maior do que a normal – algo que pode ajudar muito no processo de criação de qualquer artista.

“Nós literalmente só estávamos usando nosso tempo e eu pensei, vou fazer isso em cinco dias e lançar na semana que vem ou algo assim”Damon Albarn, vocalista

Com essa falta de um guia, a banda voltou para Londres e manteve a viagem em segredo para não gerar pressão da mídia. Mesmo tendo algumas demos, para a banda de uma forma geral a estadia em Hong Kong foi apenas uma viagem boa, nada de mais.

Eles seguiram suas vidas e o trabalho ficou de lado por mais de um ano, até que Graham Coxon, guitarrista recém reintegrado da banda, decidiu dar uma olhada nas gravações. Seu principal objetivo era tentar aproveitar algo que havia ali e tentar compensar algumas faltas que ele cometeu com a banda no passado.

“Precisa-se de alguém para empurrar as coisas adiante. Me surpreende como ele fez isso, isso que me surpreende.”Dave Rowntree, baterista

Aqui vale citar um outro fator muito importante que está ligado com o trabalho musical do álbum: o ambiente. A experiência de estar em Hong Kong foi algo tão enriquecedor que inspirou diretamente a composição das musicas. É possivel ver essas influências de duas formas: pela sua sonoridade, que algumas vezes tenta criar uma atmosfera como em Lonesome Street, Ghost Ship, Pyongyang e Ong Ong. Ou pelas claras referências a locais e símbolos em suas letras.

New World Towers de Hong Kong, prédio cujo topo é iluminado com diferentes tons de verde
New World Towers de Hong Kong

New World Towers

Green, green, the neon green, New World Towers
Carved out of grey white skies, twenty-four hours
Glide through the glass arcade to Hollywood
The psychopomp, it leads me dreaming
Verde, verde, neon verde, o New World Towers
Esculpido do céu branco-acinzentado, vinte e quatro horas
Deslize pela galeria de vidro até Hollywood
O psicopompo me leva a sonhar

Protestos pró democracia em Hong Kong, cujo símbolo é um guarda-chuva
Protestos pró democracia em Hong Kong, cujo símbolo é um guarda-chuva

Ice Cream Man

Here comes the ice cream man, parked at the end of the road
With a swish of his magic whip, all the people in the party froze
Screwball, chocolate chip, umbrella in his white glove hand
Shade from the sun was his intention
Lá vem o sorveteiro, estacionado no fim da estrada
Com uma chicotada do seu chicote magico, todas as pessoas no partido congelam
Screwball, sorvete de flocos, um guarda-chuva em sua luva branca
Uma sombra ao sol era sua intenção

Monastério Po Lin, localizado nas montanhas de Hong Kong
Monastério Po Lin, localizado nas montanhas de Hong Kong

Ghost Ship

Swinging on a cable up to Po Lin
Climbing panda, ghostly wine, and a battery
That light in your eyes I search for religiously
When it’s not there, oh Lord, it’s hurting me
I got away for a little while
But then it came back much harder
Balançando no cabo para Po Lin
Panda escalando, ghostly wine e a bateria
A luz dos teus olhos que eu procuro religiosamente
Quando não estão lá, ó Deus, me machuca
Eu saí for um tempo
Mas então voltou muito mais forte.

Vista da Ilha de Lantau, oeste do centro de Hong Kong
Vista da Ilha de Lantau, oeste do centro de Hong Kong

Ong Ong

To the islands, the black kites, the wishing tree
I wanna be with you
On a slow boat to Lantau, the misty seas
I wanna be with you
Para as ilhas, os milhanos-pretos e a arvore dos desejos
Eu quero estar com você
Num barco lento para Lantau, os mares enevoados
Eu quero estar com você

Além da experiência em Hong Kong, existe também um relato mais profundo sobre a visita de Damon a Coréia do Norte, posta na musica Pyongyang. Aqui podemos ver um tom mais frio da música, enquanto a letra soa como um “cartão postal” onde ele descreve a atmosfera da capital do país.

Vista do Yanggakdo Internacional hotel onde todos os visitantes estrangeiros são obrigados a ficar quando visitam Pyonyang
Vista do Yanggakdo Internacional hotel onde todos os visitantes estrangeiros são obrigados a ficar quando visitam Pyonyang

Ong Ong

I look down from my window
To the island where I’m held
They listen while you’re sleeping
And darkness is itself
Tomorrow, I’m disappearing
‘Cause the trees are amplified
The never-ending broadcast
To which I do not aspire
Eu olho da janela
Para a ilha em que estou guardado
Eles escutam enquanto você dorme
E a escuridão é ela mesma
Amanhã, eu estou sumindo
Pois as arvores são amplificadas
A transmissão sem fim
Na qual eu não desejo

“Coreia do Norte. Eu li muito sobre ela e eu estava estranhamente fascinado com como aquele lugar poderia existir e eu fui lá. Então eu entrei no país. […] Todo mundo parecias estar, uh, sob algum feitiço que eu estava falando. Isso por si só é extraordinário.” – Damon Albarn

Para Damon inclusive, todo o processo de criação, desde os 5 dias em 2013, está intricadamente ligado com se emergir no ambiente. Não é à toa que boa parte das letras das musicas só foram compostas poucos meses antes do álbum sair em 2015, após o vocalista dar uma última passada em Hong Kong na volta de sua turnê solo na Austrália.

“Eu decidi voltar para Hong Kong sozinho. Eu fiquei lá por um dia e meio, mas assim, eu literalmente sai do avião e comecei a escrever e filmar e etc. E basicamente tentar reviver todas as jornadas habituais e todas as jornadas extraordinárias que eu já fiz. […] Eu me senti um pouco como um astronauta e eu comecei a tomar doses de níveis distópicos de isolação pessoal e angústia e medo e tudo se tornou bastante intenso, o que ajuda muito quando você está escrevendo” – Damon Albarn

Assim, precisando de alguém de fora, Coxon chamou o produtor amigo da banda Stephen Street para seguir com o trabalho instrumental do álbum. Albarn voltou a Londres, a banda se reuniu e seguiu para finalizar o álbum.

Em meio a uma pausa inusitada, vindo de uma ideia que nasceu sem propósito ou objetivo claro e fruto de uma imersão no encanto de um lugar novo, o Blur lançou um álbum simples, mas bastante surpreendente. Com letras interessantes e uma sonoridade bastante atmosférica e que mostra todos os questionamentos que acontecem em um processo criativo.

Quem Espera Sempre Cansa

Já faziam meses que a população de Cortélia passava fome. A miséria e a seca se alastraram por todas as terras do reino e , num lapso de esperança para a população, os chefes das tribos cortelienses se organizaram e fizeram com que o rei prometesse um discurso sobre as melhorias que faria aos seus servos.

O pátio do castelo estava lotado. Todos os meros camponeses aguardavam o discurso de seu rei, que havia prometido fazê-lo do topo da torre-sem-fim, localizada em frente ao pátio, em apenas algumas horas. A multidão dançava, pulava e rastejava, mas as horas foram se passando e nada da realeza aparecer.

Foi quando os primeiros indivíduos se cansaram da espera, que surgiu da sacada do primeiro andar o bobo da corte oficial do rei. O profissional da comédia contou as melhores piadas já ouvidas por qualquer um que estivesse naquele lugar e narrou histórias de gigantes que impressionaram até os mais corajosos navegantes do local. Ele encantou a todos com seu espírito animado que irradiava daquela sacada.

Essas três dançarinas chocaram toda a plateia com seus movimentos maravilhosamente elaborados. Suas coreografias homenageavam cada uma das milhares de tribos que lá estavam. E a mair arma-nada-secreta delas eram suas lindas faces e silhuetas que faziam homens, mulheres e pessoas-objeto prestarem atenção em cada detalhe da deslumbrante performance.

Chovia e ensolarava, nevava e desertificava, a fome apertava e o sono batia, mas as três e os cem mil permaneciam na sacada e no pátio, respectivamente. Foram mais alguns meses ou anos até que elas encerraram suas danças. Contudo, a maior parte da multidão já nem se lembrava mais do porquê estava lá, apenas brincava de adivinhar a próxima atração que lhes seria oferecida.

Os poucos que perguntavam se o rei apareceria logo eram capturados pelos guardas espalhados no salão. Entretanto, os pensamentos desses descontentes duraram só os poucos momentos em que não haviam apresentações em alguma das várias sacadas da torre-sem-fim. Assim, foram logo dissipados, pois, após alguns minutos passados, saíram voando da sacada do terceiro andar vários dragões. Onde já se viu? Dragões domados! Era de levantar o ânimo até do mais cansado idoso que lá estava. As pessoas olhavam para os céus e, mesmo queimando seus rostos por causa do Sol, agradeciam a chance de presenciar cenas como aquela.

Os anos iam passando e das infinitas sacadas saiam bardos cantantes, alquimistas brilhantes, cavaleiros errantes e princesas com roupas indevidas, mas sempre a uma sacada acima da anterior para que assim a plateia olhasse cada vez mais alto e se esquecesse do chão de pedra fria em que pisava.

Essa espera dura até hoje, se você resolver passar no reino de Cortélia poderá ver desses maravilhosos espetáculos e uma multidão-sem-rosto que aguarda ansiosa e passivamente as palavras de sua majestade, mas não tente alertá-los de sua estupidez! Poderá acabar indo para a cadeia feita pelos vários oficiais do rei para garantir a segurança de todos.

* * *

Ilustradora convidada:

Louise Coutinho

Tenho 23 anos, sou paulistana, formada em design de moda e atualmente estudo ilustração. Tenho muito interesse no retrato da vida cotidiana e das singularidades de cada indivíduo e para a minha prática procuro sempre desacelerar e observar o que poderia passar despercebido por olhos desatentos, e quem sabe, tornar o que é ordinário em algo interessante e bonito através das minhas ilustrações.

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MIDSOMMAR

O verão chegou, no entanto o apartamento dos dois parece preso num inverno siberiano. Tinham a sensação de que as janelas viviam embaçadas. A geladeira vivia formando enormes blocos de gelo no seu interior que demoram pra derreter e alagam o chão da cozinha. Durante a noite, às vezes sentem calafrios e acordam com os lábios rachados e roxos. Não pareciam funcionar de acordo com o resto do mundo. Ela não tinha mais família, ele era tudo que lhe restava de amor. Mas a sensação do amor dele era como alguém que tenta andar arrastando uma bigorna. Ele nunca chorou tanto. Ela não sabia que um homem era capaz de chorar tanto. Ele sofria mais do que ela em tudo. Parecia um tipo de competição de moribundos. Quem era digno de mais dor, de mais pena, de mais medo. Ela acordava à noite aos berros. Ele tinha taquicardia pela tarde. No sexo pareciam quase se irritar por conseguirem sentir prazer. Houve uma época em que eram diferentes, mais amorosos e solares, com flores no olhar, afastando abelhas de perto da cama de tão doce mel que escorria dos dois. Agora, estão privados até das moscas. Nem mesmo os insetos mais imundos sobrevivem ao frio dos dois. Uma noite, à beira de congelar, agarram-se um no outro. Ela pensava em morrer logo cristalizada ao lado dele e ele estava quase aceitando tornar-se fóssil de um homem que um dia alguém amou, quando tocaram a campainha.

No meio da madrugada, o som da campainha ecoou pela casa, atravessou a neblina do quarto e tirou os dois das cobertas. Caminharam desconfiados até a porta, não esperavam por ninguém nunca, viviam isolados há dois anos. Mas seja quem fosse, continuava a tocar incessantemente. Os dois tiraram os casacos, para parecer menos loucos, vestiram as máscaras e olharam pelo olho mágico, um de cada vez. Depois se olharam incrédulos. Havia um casal, sorridente, radiante. Uma mulher com enormes e volumosos cabelos crespos e um vestido branco com bordados delicados em azul imitando pétalas e tão fino que podia espiar os peitos médios e pontudos, a barriga redonda. Ao lado da mulher, um homem também com cabelos enormes presos num coque, revelando o rosto brilhante, o sorriso branco e luminoso, a camisa aberta revelando o abdômen lindo com um brilho quase dourado. Os dois eram belos e cativantes, havia uma sedução estranha no ar. Do lado de dentro, a mulher incrédula observou enquanto o seu companheiro — quase que num transe — abriu a porta para o par de belos estranhos. Ela tentou impedi-lo, mas quando a fresta da porta abriu, um bafo quente ventou contra o seu rosto. Uma brisa tórrida e com um cheiro delicioso de mar invadiu a entrada do apartamento. O casal de estranhos se apresentou, disse que eram vizinhos deles há muito tempo, que moravam no apartamento de baixo. Que estavam isolados há quase dois anos e sabiam que os dois viviam isolados também, logo vieram lhes fazer um convite. “Fizemos um banquete, tem muito mais comida do que aguentamos comer. Éramos de uma família grande, não sabemos cozinhar pra dois. Queríamos dividir com vocês. Ter algum contato humano.” O seu parceiro aceitou imediatamente, sem consultá-la. O que ela não gostou, ainda se sentia receosa apesar do casal de vizinhos ser muito doce e sedutor. Franziu a testa, os dois começaram a falar sobre a comida, tentando convencê-la a ir. Imagens vívidas e suculentas de um enorme jantar passavam por sua cabeça. Iam desde o bobó de camarão da sua mãe, até as rabanadas de natal do seu tio avô. Salivou. Quando viu seu parceiro já estava dentro do elevador com eles, com o casaco preso na cintura. “Tem certeza?” ela o perguntou. “Se não quiser, eu posso ir sozinho. Eu preciso disso” respondeu. Ela se irritou com o tom da voz dele e aquela súbita independência, mas cedeu pegando as chaves e entrando no elevador.

Era literalmente no andar de baixo e só na soleira da porta já estavam suados de tanto calor. A casa era cheia de plantas, de todos os tamanhos: suculentas, samambaias, orquídeas, bromélias, lírios, costela de adão, espadas de São Jorge, palmeiras e várias que ela não sabia o nome. Respirar ali era como respirar numa floresta. A decoração era cheia de luzes brilhantes enfeitando as paredes, velas coloridas, desenhos e quadros enormes de mulheres e homens dançando, crianças mergulhando em cachoeiras, onças pintadas e sucuris. Pelo chão de madeira, alguns tapetes e muitos instrumentos diferentes largados ao acaso. Havia uma enorme mesa no centro da sala e a sala era muito maior do que a do apartamento deles. Na verdade tudo era muito maior e mais bonito e sobretudo mais quente. Os vizinhos notaram o suor exacerbado dos dois. “Não usamos ar condicionado”, disse a vizinha constrangida, “mas podemos lhes emprestar roupas mais frescas. Sem nenhum problema”. A vizinha pegou na mão da mulher, as palmas suadas e macias eram boas de segurar, e caminharam pra dentro de um enorme corredor, atravessaram rapidamente um quarto escuro, até entrar em um pequeno closet. Vários vestidos bordados pendurados nos cabides, um mais lindo e leve que o outro. “Pode escolher o que quiser”, disse a vizinha olhando a expressão maravilhada da mulher, mas ela continuava receosa e um tanto intimidada. A vizinha então foi até o fundo do armário e puxou um longo e translúcido vestido, com pequenas flores e abelhas bordadas. Estendeu o vestido, oferecendo a ela. Ela aceitou, era lindo, sua vista se perdia nos detalhes delicados. Seria uma desfeita vergonhosa negar um vestido tão bonito. Com o vestido nas mãos percebeu que a vizinha não foi embora, do contrário, se aproximou e se ofereceu para tirá-la das roupas suadas. Levantou seu cabelo, as mãos macias da vizinha tocaram suas costas, erguendo sua blusa. Depois desceram sua calça. Ela sentiu vergonha da calcinha velha, do sutiã largo e meio manchado. Mas, pra sua surpresa, a vizinha não parou por aí e tirou o seu sutiã. “Um vestido desses é pra se vestir nua. Ainda mais com um corpo tão lindo, tão redondo, tão farto.” Ela sentiu o sangue subir pro seu rosto, a vizinha tirou sua calcinha. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Estava nua ali diante de uma estranha. Nem transava mais com as luzes acesas e agora estava exposta ao olhar daquela doce mulher. Em algum lugar, mesmo que lhe fosse muito difícil admitir, ficou um pouco excitada. A vizinha logo colocou o vestido nela, ajudando a abotoar a fileira longa de pequenos e delicados botões que desciam da nuca até sua bunda. Se o toque da vizinha era bom, o toque do tecido era extraordinário. Os bordados faziam cócegas nos seus mamilos e era leve e fresco, ventando gostoso em sua buceta nua, arrepiando seus pentelhos cacheados. Ela abriu um enorme sorriso e a vizinha deu-lhe um beijo carinhoso na bochecha. Ela pensou que podia estar começando um tipo novo e sereno de amizade. Saíram de mãos dadas para a sala. Ela agora está mais risonha, sentindo-se realmente aliviada do calor. Ela nem se perguntou se não seria estranho voltar pra sala em vestes transparentes, revelando os peitos e a tão tímida buceta. Depois pensou que poderia ser algo corajoso e sedutor.

Ao chegar na sala, os dois homens estavam sentados na mesa, conversando baixinho e soltando risadinhas confidentes. Ficaram em silêncio diante das duas. O seu parceiro se ergueu surpreso. Ela lambeu os lábios, ficou pensando se aquela nova imagem das roupas emprestadas esvoaçantes o excitaria, se ficaria deslumbrando com ela e sua buceta outra vez. Mas pra sua frustração percebeu que ele não tirava os olhos da vizinha. Decepcionada e um tanto enciumada, soltou a mão da nova amiga, e sentou-se no outro extremo da mesa. O vizinho rapidamente levantou, ria muito — agora aquele riso solto dos dois começou a irritá-la — e trouxe para a mesa uma jarra com quatro copos. “É uma bebida que preparamos, não é bem uma ayahuasca, mas sintam-se livres para experimentar”, ele disse. O seu parceiro logo se agarrou a um dos copos, tentando mostrar seu espírito aventureiro — que ela nunca tinha visto antes —, enchendo o copo até a beira. Um segundo antes de dar um gole, parou e disse para ela: “Meu amor, eu quero provar. Mas eu sei como é isso pra você, não precisa fazer nada que não se sinta à vontade.” Aquela colocação a irritou mais. A vizinha pousou a mão no seu ombro e retrucou: “Eu acho que ela sabe que pode fazer o que quiser.” Ela teve medo, mas se serviu de meio copo. Brindaram. Os dois vizinhos diziam muitas vezes como estavam felizes com aquela nova amizade. Eles concordaram e beberam a bebida. Era vermelho e escuro, tinha um gosto fermentado, depois parecido com de terra e no final uma sensação semelhante à do jambu. A língua dentro da boca ficou dormente, a garganta formigando. Ela pensou que iria vomitar. Foi quando um cheiro forte de comida começou a vir da cozinha. Os vizinhos pediram ajuda para servir a mesa, eles foram ajudar. Traziam pratos e mais pratos, coloridos, quentes e frios, carnes, peixes, saladas, caldos. Tudo cheirava bem. Não sabiam por onde começar, nem se dariam conta de tanta variedade de comida. Mas ao sentar finalmente à mesa, sentiram os estômagos roncando. Não lembravam mais quando tinham feito a última refeição ou o que tinham comido. Era quase como se sentissem que não comiam há dias. As mãos começaram a se esticar em torno da mesa. Passavam o prato uns pros outros. “Prove isso”, “Prove aquilo”, “Você não vai acreditar como isso está bom”, hums e ais que aos pouco se tornaram apenas o barulho da mastigação. Comer era tão prazeroso, parecia que não iam parar nunca. Se lambuzavam, sujavam a toalha de mesa, as mangas, os dentes. Quando notaram as travessas estavam quase todas vazias e estavam suando outra vez. O seu parceiro lambia os beiços, a vizinha chupava os dedos, o vizinho olhava fixamente na direção dela — ela, a mulher do inverno. A sala pareceu ficar mais alaranjada, como se luz fosse avermelhando, ficando mais e mais quente. Ela limpou o suor da testa e do peito, mas continuava pingando. O vizinho a olhava. Seu parceiro puxava a cadeira pra mais perto da vizinha, conversavam próximos, joelhos se tocando. “Então é isso, vamos fazer um swing?” ela pensou. O vizinho se aproximou devagar. “Com saudades do seu apartamento?”, ele perguntou. “Ainda não”, ela respondeu. “Que bom. Eu acho que o calor lhe cai bem”, ele continuou. Ela sentia a confirmação de que algum acordo tinha sido feito, sem que ela soubesse. Mas ali, com o vizinho sentado perto, naquela luz laranja, achou o rosto dele tão familiar e tão sedutor. Seus lábios se moviam devagar enquanto falava e ela podia ver a língua roçando na boca. Ela não sabia mais há quanto tempo estavam conversando, quando ele abriu um pequeno embrulho. Um pedaço pequeno de bolo com pequenas frutinhas na massa. “Eu separei só pra você. Quer?”, disse o vizinho. Ela abriu a boca, ele colocou o pedaço de bolo entre os dentes dela. Assim, já bem perto, enquanto ela mastigava maravilhada o bolo adocicado, ele aproximou a boca da orelha dela e perguntou: “Você nunca pensou por que as abelhas pararam de aparecer?”. Ela não disse nada. “Posso colocar a mão na sua coxa?” Ela fez que sim com a cabeça. Ele tocou gentilmente sua coxa por cima do vestido. Do outro lado da sala, ela percebeu seu parceiro beijar o pescoço da vizinha. “Não se preocupe com eles”, disse o vizinho, “você pode sair se quiser.” “Não”, ela falou enquanto ergueu a enorme saia revelando as coxas e buceta. O vizinho continuou delicado, apertando o interior das suas pernas. Era gostoso. Ela começou a olhar no fundo dos olhos dele. Ele estava sempre sorrindo pra ela. Ela começou a ficar molhada. Ele passou os dedos pela buceta dela, acariciando os pelos, ela suspirou fundo. Ele recuou. Começou a beijar seus joelhos.

Do outro lado, a vizinha e o seu parceiro ficavam mais e mais íntimos. Depois do beijo no pescoço, ela ergueu levemente a saia e sentou na mão dele. A xota dela pulsava. Ele levantava seus cabelos, beijava sua nuca. Ela tocava no pau dele por cima da calça. Ele quase esquecia da sua parceira, sua mente parecia ficar embaralhada. Só pensava nos peitos lindos da vizinha, na bunda dela contra sua mão. Foi quando percebeu que a vizinha — pulsante e toda entregue — parecia olhar fixamente para os outros dois. Ele sussurrou em seu ouvido que ela não precisava se enciumar, que estava tudo bem. Ao que ela respondeu: “Ela é a mais bonita que eu já vi em toda minha vida” e ele percebeu que ela estava chorando. Mas não era triste, era como que deslumbrada. Os olhos brilhando. Ele se sentiu um pouco traído e broxou quase imediatamente. Olhou o vizinho que agora estava no chão diante da sua parceira, ela sentada na cadeira, o vestido levantado quase até os peitos e o rosto dela estava diferente. Ela sentava com as pernas bem abertas, com uma das mãos tocando a própria buceta enquanto o vizinho parecia murmurar algo e beijar os pés dela. Ele avançou na direção dos dois, empurrou o vizinho para o lado e beijou forte a boca dela. Bruto. O beijo dele parecia gelado. Ela o olhou sem entender o que estava acontecendo, não tinha visto ele chegar, achava que era esse jogo e ela estava até gostando. Ele colocou a mão na buceta dela — tinha algo de transtornado no seu toque — e então pediu que ela se levantasse da cadeira. “E se eu quiser ficar sentada?” ela retrucou, sua voz parecia diferente. “Isso foi um erro. Eu quero transar com você. Só você. Vamos pra casa. Agora.”, a voz dele era quase chorosa. Ela olhou em volta e os dois vizinhos se ajoelharam diante dos pés dela, murmurando algo, juntos. Ela estava cada vez mais molhada, o quarto parecia mais quente. “Vamos embora, eu não gosto daqui. Isso é perigoso. Uma má ideia.” disse o parceiro — agora irritado — e pegou forte no braço dela, a erguendo violentamente da cadeira. Os dois vizinhos levantaram, pela primeira vez, sérios.

“Você vai soltar o braço dela agora e sair. Os as coisas vão ficar muito feias pra você, entendeu? Você é inútil aqui e já passou da hora de você ir embora”. Tinha algo de terrível na voz dos dois. Mais quatro pessoas entraram no quarto. Todas muito parecidas com os vizinhos em tudo. Todas muito familiares para ela. O parceiro, ou melhor, o homem soltou o braço dela e saiu sem dizer mais nada. Ela pensou por um segundo em ir com ele, mas olhando ele saindo cabisbaixo teve vontade de gargalhar. O que ele percebeu e apertou o passo em direção a porta sem olhar mais pra trás. Os vizinhos e as quatro pessoas estranhas agora estavam em pé diante dela na cadeira. Ela sentia que deveria ter medo, mas não tinha. Em seguida, todos tiraram juntos as roupas, ficando totalmente nus. Só ela permanecia com o vestido erguido. Ajoelharam outra vez. A vizinha começou a cantar alguma música que ela não conhecia, mas por alguma razão estranha, lhe deu vontade de cantar. E cantou, sem saber como. Enquanto cantava sentia o apartamento todo vibrar. As plantas pareciam tremer, excitadas. “A gente esperou tanto tempo” disse o vizinho. “Silêncio”, ela respondeu, “vamos começar.”

“Primeiro as damas”, a vizinha veio arrastando os joelhos ao lado de duas outras mulheres. Os joelhos ficando vermelhos contra o chão de madeira. Permaneciam sempre olhando para ela de baixo pra cima. Chegaram até a beira da cadeira, onde ela continuava sentada. Uma das mulheres, mais velha, que tinha um peito de cada tamanho, os olhos verdes, pegou a sua mão e começou a lamber seus dedos. As outras duas mulheres a imitaram. Lambiam suas mãos. Depois subiram lambendo seus braços. Se apoiavam em seu colo. A mais velha, outra vez tomando a frente, ergueu mais o vestido e abocanhou um dos seus peitos. Chupava e chupava o peito esquerdo. Ela sentia os peitos inchando, depois formigavam, até começarem a esguichar um líquido vermelho. As outras duas mulheres — a vizinha e uma com curtos cabelos pretos — deixavam o líquido escorrer contra seus rostos, pingar nas tetas, se regozijando. E não parava de esguichar. A mulher mais velha continuava chupando, a vizinha finalmente chupou o outro peito e a de cabelos curtos beijava e passava a língua pela sua barriga. As plantas voltaram a tremer, os peitos pararam de esguichar. Ela tocou o rosto das mulheres, um a um, todas sujas do jorro dela. Quando as tocava, elas gritavam de prazer. Os homens continuavam ajoelhados, agora com os olhos fechados. Ela puxou a vizinha e colocou o rosto entre suas pernas. As outras duas começaram a se beijar, enlouquecidas. A vizinha, feliz em ser a primeira a beijar sua buceta, a sentir o seu gosto, chorava. Sugava, beijava, lambia. Ela na cadeira gemia, um gemido grave, desconhecido. A vizinha continuava e continuava. As duas mulheres agora se alternavam, uma beijava a bunda e chupava o cu da vizinha, a outra tocava a xota animada, se mordendo. Ela sentia suas pernas tremendo. E novamente as plantas tremendo. Nos quadros na parede, as onças pareciam abrir as bocas, mostrar as línguas e miar. Afastou delicadamente o rosto da vizinha, que estava todo molhado com a baba da sua buceta e beijou sua boca, metendo a língua até quase sua garganta. Os olhos da vizinha hipnotizados. Quando parou de beijá-la, a vizinha caiu no chão em êxtase, se contorcendo. As outras duas mulheres colocaram o rosto, uma em cada joelho. Queriam o beijo. Precisavam do beijo, ela sentia. Beijou uma a uma, que igual caíram no chão com espasmos. Então vieram os homens.

Os três vieram de quatro. A onça no quadro ficou muda. Beijaram seu pé. Em seguida ficaram de joelhos, mostrando os paus duros. Um caralho de cada tamanho e grossura diferentes. Dessa vez, ela chamou primeiro o mais novo. Sua barba era rala, tinha cara de uns vinte anos. Ele foi afobado na direção da xota, ela lhe parou. Ergueu a perna pro ar, revelando seu cu na cara do rapaz. Ele abriu um gigantesco sorriso. Um barulho feito um chocalho começou a soar. Ele chupou o cu dela, beijando, passando a língua no buraco. Até ela baixar as pernas, grudar as coxas na cintura dele. Ele começou a meter. Era firme e ritmado. Com uma das mãos, ele masturbava ela. E metia mais. Ela teve vontade de gargalhar outra vez. O rapaz se afastou e começou a meter em cada uma das mulheres que já não estavam mais se tremendo. Veio o vizinho.

Diante dele, ela se levantou. Todos pararam e olharam ainda mais agraciados pela imagem dela de pé. Ela brilhava. O vizinho deitou no chão e ela sentou por cima dele. Rebolava a bunda violentamente, ávida e poderosa. O vizinho só sabia gemer. Em volta deles todos começaram a babar. Ela puxou as duas mulheres – a mais velha e a vizinha – pros seus peitos enquanto sentava no pau dele. As duas voltaram a chupar. As plantas a tremer. A onça a miar. Então um zumbido começou a soar em seus ouvidos. Ela rebolou mais rápido e forte. O vizinho suava. O zumbido aumentava. As mulheres continuavam chupando sedentas, o peito voltou a esguichar, a buceta começou a esguichar. Uma nuvem de abelhas parou acima da cabeça dela. Todos gemiam. Ela sentia tudo mais e mais quente, as abelhas mais perto, a onça miando, ia gozar. Parou. Se levantou. Todos deitaram no chão. As abelhas no teto. Chamou o mais velho, de cabelos grisalhos. Virou o cu pra ele, mas ainda de pé, apoiada na cadeira. Ele metia devagar. Ela sentia as abelhas descendo, ficando mais próximas. Ele continuava, num pulso, lento. A buceta dela esguichando. Ela fechou os olhos. Ele meteu mais lento ainda. Ela começou a gemer. O zumbido aumentou. E mais lento ainda. Ela gritou. As abelhas grudaram na sua pele. Ela gritou mais. Ele meteu ainda mais lento. O gosto do mel na língua. As onças rosnam. As plantas se debatem. Agora tão lento, quase imóvel. A pele dela parece chamuscar. O orgasmo. O homem cai no chão de olhos cerrados, sorrindo. Ela se senta outra vez. Todos caídos. Ela abre a boca e cospe pétalas de flor, eles correm tentando pegá-las nas mãos. Soa um alarme de incêndio. O andar de cima está queimando. Rindo, ela se recorda e começa a cantar. Sente-se em casa. O dia nasce para nunca mais se por.

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Ilustradora:

Carolina Morales

graduanda em pedagogia pela PUC-Rio, cenógrafa e caracterizadora do Grupo Fúria, coletivo teatral, trabalha com artes plásticas e é tatuadora iniciante – Carolina Morales é cientista.

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Parasita e as atrocidades do capitalismo

Há um pouco mais de um ano, um pouquinho antes da nossa vida virar um inferno por conta desse micróbio insuportável, o filme Parasita recebeu quatro estatuetas do Oscar. Fez história ganhando o prêmio máximo do Academy Awardso primeiro de língua não inglesa a levar a categoria de melhor filme. Ganhou também uma série de outros prêmios internacionais. Faltaria até caracteres para escrever todos eles aqui.

Do lado de cá, ficamos nos perguntando: como a obra do diretor Bong Joon-ho fez tanto sucesso? como conseguiu desbancar grandes produções hollywoodianas com diretores consagrados como Martin Scorsese? Bem, essa é uma resposta fácil. E um tanto complexa. Coloco aqui o ponto de vista de uma jovem cineasta e de uma já experiente pesquisadora do meio urbano, em especial de questões ligadas a moradia social.

Para mim, Parasita é uma aula de cinema em diversos sentidos. A narrativa é primorosa, com pontos de virada emocionantes e cheia de suspense. O compasso dos atos é bem definido a partir dos conflitos que vão acontecendo. Nada se arrasta. Todas as cenas têm muita informação para ser apreendida. O desfecho é terrível, violento, aberto e, ao mesmo tempo, sarcástico. Faz uma grande piada com a ideia de meritocracia no qual estamos todos iludidos e mergulhados.

A forma como os cenários e a fotografia do filme reverencia quem está em cima e quem está embaixo – quem é rico, quem é pobre – cria uma imagética expressiva do que é contado. Como obra cinematográfica, o filme é realmente impecável em diversas dimensões. As conexões entre três tramas – a da família Kim, dos Park e da governanta e marido – através de diversos elementos repetitivos são memoráveis. Porão, desemprego, pedra, cheiro e faca fazem os personagens avançar no tabuleiro até o cheque mate.

Residência onde vive a família Park
Porão onde vive a família Kim

Além de obra fílmica de expressiva qualidade, Parasita é um retrato fiel da sociedade contemporânea. Das diversas controvérsias do mundo capitalista. Vivemos a era da tecnologia, da comunicação. Os smartphones mudaram nossa vida, facilitando nosso cotidiano. Você, provavelmente, me lê agora por um. Mesmo diante de tantas inovações, muitos não tem o mínimo para viver. Precisam morar em favelas, assentamentos precários e porões. A dificuldade de acesso à moradia com condições mínimas de habitabilidade é um problema em escala global. A família Kim e a da governanta contam exatamente a história dessa precariedade.

O sociólogo O sociólogo Ulrich Beck, falecido em 2015, descreve a sociedade desses tempos estranhos como sociedade de risco. Embora o avanço da industrialização e do capitalismo tenha trazido ganhos, também tem implicado riscos a existência humana nesse planeta. Entre elas: a degradação do meio ambiente, o aumento da pobreza, a crise habitacional, a dificuldade de acesso a emprego e renda e um monte de coisa mais. Se pensarmos na própria escalada do fascismo e a eleição de presidentes genocidas, estamos falando dos efeitos do mesmo processo. A tecnologia da informação tem metamorfoseado o mundo de acordo com Ulrich Beck. , falecido em 2015, descreve a sociedade desses tempos estranhos como sociedade de risco. Embora o avanço da industrialização e do capitalismo tenha trazido ganhos, também tem implicado riscos a existência humana nesse planeta. Entre elas: a degradação do meio ambiente, o aumento da pobreza, a crise habitacional, a dificuldade de acesso a emprego e renda e um monte de coisa mais. Se pensarmos na própria escalada do fascismo e a eleição de presidentes genocidas, estamos falando dos efeitos do mesmo processo. A tecnologia da informação tem metamorfoseado o mundo de acordo com Ulrich Beck.

Antes de tramar para família Park, os Kim dobravam caixas de pizza

Parasita apresenta os impactos da sociedade de risco. Enquanto expectadores, refletimos sobre as consequências de vivermos nela. Por isso, o filme é um tratado contemporâneo do mundo onde o capitalismo têm prosperado. Com o avanço desse sistema predatório, a vida humana e a ética tem perdido o valor. O próprio título do filme é simbólico. Parasita é um organismo que se hospeda em outro organismo para sugar nutrientes e viver. Nesse mundo e também no filme, quem é o parasita de quem? Quem é o grande parasita desse planeta?

Buscando estratégias de sobrevivência num mundo onde impera o dinheiro, ao assistir o filme nos surgem algumas questões: precisamos mentir para nos dar bem? trapacear? é preciso jogar sempre um jogo sujo? ou superexplorar a força de trabalho? a nossa e a do outro? ou é isso ou não teremos comida no prato? Obviamente, alguns jogam esse jogo para ter luxos, poder e acumular riquezas. Ou viver um modelo de vida de sucesso. Comprar Iphones de última geração ou fazer aquela viagem “instagramável”. A viagem, no caso, quando a pandemia acabar. Ou não, vai saber. A vida já não perdeu o valor?

O mundo inteiro se identificou e compreendeu os conflitos presentes no filme sul coreano porque eles são universais. Morar mal, comer mal, não ter emprego, ganhar pouco, sofrer com enchente, ser tratado como um zé ninguém fedido, são as condições do que não conseguiram vencer a guerra do dinheiro. O vencedor do Oscar de melhor filme explicita como essa guerra é injusta. Num mundo no qual não há o mínimo para sobrevivência digna, não tem como ter paz.

Diante da pandemia do covid-19, a precariedade de vida explorada no filme parece se ampliar. Da mesma forma que a enchente do rio é um grande desastre apenas para a família Kim, sendo um leve incômodo para a família Park que precisa mudar seus planos de fim de semana, o coronavírus é similar. Os pobres, os países pobres, vivenciam os efeitos da inundação desse pequeno vírus de forma mais intensa. Quando – e se – a pandemia acabar, quais serão os efeitos dela para os mais necessitados à longo prazo? Quais já são os efeitos no agora? O desemprego e a fome farão ainda mais vítimas enquanto os ricos permanecem de braços cruzados?

A diferença de perspectiva de quem está em cima e quem está em baixo

O sistema capitalista, se apoiando nas tecnologias, tem tirado ainda mais proveito dessa situação. Trabalhar de forma precária como motorista de Uber, entregador ou faxineira de aplicativos, será as oportunidades restantes. Dessa forma, a chamada uberização do trabalho vai atingindo a todos. Mesmo os que não prestam serviço diretamente a plataformas de tecnologia. No mundo do trabalho, cada vez mais, observamos os vínculos formais de emprego se desfazer. Trabalhos temporários e sem carteira assinada não garantem direitos trabalhistas básicos como: salário regular, férias, décimo terceiro, entre outros.

Como sobreviver num mundo assim? No mundo onde a ganância e o dinheiro têm parasitado a vida humana? Aonde chegaremos se continuarmos insistindo nesse modo de vida predatório? A guerra dos que precisam sobreviver irá hora ou outra acontecer? Ou destruiremos tudo e todos até nossa extinção?

São muitas questões a serem pensadas. Parasita ensaia muito bem os efeitos do nosso comportamento predatório nesse planeta.

O Português Tomou no Cool

A ligação virou call, o encontro virou date, o do contra virou hipster e até a comemoração, que virou uhuuul, nada mais é que um derivado do americano wohooo. Você chega no bar querendo se divertir com seus amigos (todos brasileiros) e a cartela que te oferecem é a de drinks, que, quando traduzida, é no máximo “drinques”. Tadinha da birita, que ficou nos anos 80 e hoje só dá as caras nas dublagens de filmes da Sessão da Tarde.

Sobrou até para o bafafá e para o babado, que, apesar de barraqueiros, foram dizimados quando o Twitter lançou o termo “trending topic”. Pelo menos a prima deles, a treta, segue firme fazendo a redenção de toda sua família etimológica que capenga cada dia mais. Inclusive a palavra capenga já capengou. Hoje o ideal acho que seria “retrô”. Ou retrô seria retrô demais para ser a versão cool de capenga?

A questão é que infelizmente cada vez mais as palavras que entram na moda são em inglês. O que vira fashion é em inglês. E português acaba ficando old school. E esse viralatismo linguístico nem é da nossa geração.

Nos tempos da minha vó o chique era falar “chic”, em francês. A segunda língua dela foi o francês. Mas, em algum momento da história, a chiqueza francesa foi guilhotinada e a língua se defasou. O “Restaurant”, como ela dizia, deu espaço ao Pit Dog.

E acho que boa parte disso vem da supremacia tecnológica do Tio Sam. Eles inventam softwares e streamings, mandam para cá e nós não temos nem a decência de traduzir para algo mais cotidiano. Quem não fala inglês, toma no cool.

Você sabia que até o “oxe”, símbolo da cultura nordestina junto da Ivete e do Lampião, é um derivado de “oxente”, que por sua vez vem de “oh shit”? Com as guerras pela dominação de Pernambuco, soldados ingleses lutaram ao lado dos soldados da região e, quando tinham problema, reclamavam “oh shit”, que logo foi incorporado pelo povo e se fundiu à cultura local.

Assim como o forró, que veio da mesma época. A ideia era fazer música para todos ali dançarem. Holandeses, ingleses, nordestinos. Música For All… Forr all… forr óu… No fim virou forró — e de fato todos dançaram.

Mas pensando aqui, talvez a língua portuguesa mereça ser desvalorizada mesmo. Ela é cheia de acentos estranhos (descanse em paz trema) e com nuances que a gente nem sabe explicar. Por que “alguma coisa” significa “algo” e “coisa alguma” significa “nada”? Por que “já” significa “agora mesmo” e “já já” quer dizer “daqui a pouco”?

E nessa ladeira-abaixo-léxica, vamos criando moda dentro das próprias palavras em inglês. Antes era top falar top. O que hoje em dia é considerado cafona. Mas coitada da palavra cafona, que por si só já é cafona há muito tempo, enquanto outras expressões americanizadas são eternamente vips, termo que veio do inglês “very important palavras”.

Talvez devamos mudar Lampião para Big Lamp. Se não, conforme o tempo avança, capaz que ainda é game over para o nosso amado-e-terrível cangaceiro. E junto dele, bye bye para o que nos resta enquanto cultura. Make portuguese great again, motherfuckers!

* * *

Ilustrador convidado:

Anderson Maní

 

Anderson “Maní” Martins, 35 anos. Paulistano formado em comunicação social e ilustrador desde o berço. O desenho sempre esteve presente em minha vida. Criança tímida, nas folhas em branco, e no colorido das tintas, construía vários mundos e me permitia viver grandes aventuras.

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SUA (HER)

Fazia mais de um ano desde que terminaram. Era o início da pandemia quando sua mulher acordou um dia e lhe disse que a vida confinadas em casa tirava todo o sentido de continuarem juntas. Aquilo foi como um golpe, ela não fazia ideia ou pelo menos fingiu não fazer ideia de que tudo ia tão mal. A outra não quis saber ou explicar mais do que isso, saiu com as malas e a sua facilidade em abandonar as coisas e as pessoas, como se não tivessem existido. Ela ficou no apartamento sozinha com todo o resto de entulho daquela relação. Se sentia perdida e errada, de algum modo furtada do seu tesão. Ficou fixada na ideia de como deveria ser bom ter alguém num momento como esse, em uma crise como essa. Não podia ver seus pais, nem amigos. No início pegou uma dúzia de cursos online. Comprou um ukulele pela internet, odiou-se alguns dias depois. Não era definitivamente uma mulher que toca ukulele. Tentou cerâmica, xadrez, bordado, pintura, dança terapêutica, dança para tik tok, perfumaria artesanal — fugindo do sexo — depois tentou o maldito tantra — procurando pelo sexo. Porém o tantra apenas a deprimiu mais. A instrutora só sabia falar fixamente sobre como paus e bucetas eram complementares, o que começou a fazer com que tivesse raiva da instrutora e da turma de mulheres casadas com homens idiotas que nem as chupavam, nem se interessavam minimamente por suas bucetas. “Eu acho que vocês deviam todas se divorciar”, ela disse no dia em que abandonou a aula. “Ah sim, porque isso tem funcionado pra você?” respondeu uma delas, ácida, com olhos de serpente. Era uma mulher com longos cabelos sempre alisados e lambidos, casada com um dentista, eternamente de aparelho e sem nunca ter gozado. Mas mesmo assim, aquelas palavras ficaram cravadas na sua cabeça. Queria ter respondido que não escolheu se divorciar e em seguida começou a se perguntar se tinha sido como aqueles maridos e simplesmente esqueceu-se de reparar na infelicidade da sua mulher. Nesse dia, teve um surto. Chorou copiosamente, tentou arrancar os cabelos com as mãos, quebrou um quadro que a lembrava sua ex, bebeu duas garrafas de vinho e um resto de cachaça, ligou pra sua ex. Fez uma enorme e bêbada declaração, mas terminou sem querer a criticando por sua crueldade em ter saído sem precisar dela. Por que não precisava mais dela? Sua ex a mandou à merda e desligou.

Então ficou quatro dias no seu sofá, confinada ao seu computador. Recebendo, lendo e respondendo e-mails. Descendo o feed do instagram, depois do tik tok, depois do twitter, depois do facebook, depois vendo vídeos no youtube. Quando percebia o sol estava nascendo outra vez. Dormia pra acordar e repetir o dia anterior. Acreditando desesperadamente que era um modo de se conectar com o mundo: aquela repetição. Mas se sentindo cada vez mais — como todes — abandonada. Até que um certo dia, uma amiga finalmente ligou. Era uma amiga antiga, da adolescência, recentemente casada, frequentemente ausente por motivos nobres, com uma voz adorável ainda que um pouco rouca. Depois de uma cota de ausência, sempre aparecia com longas ligações dizendo que estava muito preocupada. Ela tentou explicar a incapacidade de se sentir parte do mundo depois do divórcio e a nova vontade de permanecer pra sempre afundada no seu sofá, mas terminou por confessar que não conseguia mais tomar banhos e desabou a chorar na vídeo chamada. Sua amiga — sempre prestativa e com desejo de consertar as pessoas — lhe disse que conheceu um novo aplicativo, muito gringo, muito cool, muito inovador, que ela já estava usando e todos já estavam usando, sua ex-mulher deve estar usando e mudou completamente a sua vida. Por “mudar sua vida”, a amiga quis dizer que agora transava algumas vezes com o seu marido, estava convencida de que não precisava de filhos e comprou um kit de incensos artesanais. O aplicativo era – nas palavras da amiga – uma espécie de meditação guiada, reprogramação de mindset, um tipo de coach espiritual virtual pra dar um jeito na nossa incapacidade de viver a vida. Foi o uso da palavra incapacidade que na verdade tocou seu coração. Pouco importava ser totalmente personalizável, uma coisa nova, única, inteligente. Importava a esperança em algo que a faria, outra vez, se sentir capaz, apta, adaptável. Ela fingiu pra amiga que achou uma baboseira, ainda envergonhada por sua curiosidade, mas foi só desligar a chamada que correu para tomar um banho – o primeiro em semanas – e baixou em seguida o aplicativo. Teve um certo espanto com o número de preferências e dados que precisava fornecer. Tinha de dizer tudo, ou praticamente tudo que pudesse ser datado sobre si mesma. O nome dos seus pais, se já tinha feito mapa astral, se fez terapia e por quanto tempo, suas comidas preferidas, quanto tempo durou seu último relacionamento amoroso, assuntos que a faziam chorar e outras coisas esquisitíssimas. Quando finalmente acabou de dar todas as informações assim tão descaradamente para o app, foi direcionada a sua nova e primeira guia/parceira/mentora ou como quisesse chamar. Fez questão que fosse uma mulher. Com o celular nas suas mãos, viu um símbolo zen acendendo e apagando, pensou pela primeira vez em desistir, mas logo pulou uma mensagem para que colocasse os fones de ouvido. Colocou os fones, fundos dentro da orelha, sentou-se confortavelmente na beira do sofá e aguardou. Um pouco ansiosa, um pouco pronta para se decepcionar. Foi quando pela primeira vez ela ouviu a voz.

A voz da guia era serena, doce e gentil. Muito humana, nada robotizada. Lhe cumprimentava, falando seu nome — o que tinha um quê de especial —, depois dava instruções de como se sentar, como ter paciência com as ideias que iam querer atravessar sua cabeça, como tudo era um processo em que a confiança das duas era muito importante. Até aí tudo bem. Seguiu as indicações. A voz lhe dizia suavemente onde focar sua atenção, sentir a sua respiração subindo e descendo. Depois como fazer, lentamente, um scanner mental do seu corpo, ir sentindo cada parte, onde dói, onde é gostoso. A palavra ficou um tempo na sua cabeça. Primeiro se sentia desconfortável em ficar sentada, sentia seu pescoço pesar, vontade de coçar o seu nariz. “Calma, volte lentamente pra sua respiração. A agitação é normal, mas tente não dar toda atenção a ela.” Ok, ela retornou a respirar ou chamou assim, como se tivesse parado. Fez a meditação até o fim, se sentiu mais calma. Retomou em seguida as tarefas, conseguiu ter vontade de passar um café, voltou a tomar banhos com frequência e ficou menos tempo vagando pelas redes. A meditação e aquela voz de mulher se tornaram um rito frequente todos os dias pela manhã. Gostava de começar o dia com aquela voz lhe dizendo coisas no ouvido. Quando divagava ou quase caía no sono, a voz — cada vez mais carinhosa — lhe trazia de volta. Às vezes se pegava imaginando como ela seria, como seria o rosto dela, o seu nariz, os lábios, se tinha pintas ou marcas de expressão, se conseguiriam ser amigas, se era alguém que ela pudesse conhecer no futuro. Quem seria aquela voz sem nome?

Numa bela manhã, fazendo a primeira meditação — que agora fazia deitada em sua cama demonstrando maior intimidade — no meio do mesmo processo de ir sentindo todo seu corpo, ela percebeu que estava molhada. Fazia alguns dias, talvez semanas, que não se sentia assim excitada. Estava de olhos fechados, tinha a sensação que ouvia o barulho dos lábios da voz enquanto ela falava, pequenos barulhos de boca próximos da sua orelha e ali sentiu a buceta escorrer. Depois latejar. Teve o impulso de se tocar enquanto a voz lhe dizia como respiração circulava pelos músculos. Sua mão era atraída de forma incontrolável pela coxa até alcançar a buceta, úmida. A voz pareceu soltar um suspiro. Como um susto. Ela afastou as mãos, culpada, teve vergonha. Se sentiu como alguém que fica com tesão em algum professor ou professora da escola. Exposta e equivocada. Sem entender se não tinha sido apenas uma coincidência, mas por via das dúvidas desligou. Demorou uns três dias pra conseguir se recuperar do estranho embaraço e voltar.

Quando voltou, a voz disse que sentiu sua falta. Havia algo menos doce, talvez magoada. “Cabe a palavra magoada?”, ela se perguntou. A voz no mesmo tom, com certa hesitação, perguntou sobre o motivo de ter ficado dois dias sem usá-la. Ela mentiu. Disse que estava trabalhando muito e se esqueceu. A palavra esqueceu pesou um pouco na língua, mas seguiram e iniciaram a meditação habitual. Deitou-se confortavelmente na cama, tudo ia bem. Fechou os olhos, continuava bem. Respirou profundamente. A barriga descendo e subindo, o ar entrando pelas narinas, saindo pela boca. Lembrou da sua buceta. Não sabe porquê. Lembrou da buceta molhada e acabou, também sem querer, pensando na sua ex. Como se por trás das pálpebras naquele escuro que pertencia a ela e a voz, formou-se lentamente o rosto da ex-mulher. Pensou então em como sua ex acharia ridícula aquela tentativa de reprogramar o mindset. De meditar. De esquecê-la. Na sua cabeça, sua ex não queria ser esquecida de forma alguma. Na sua cabeça, sua ex teria ciúmes da guia da meditação. De uma guia irreal de meditação, que não lhe servia de nada, nem era mesmo uma pessoa. Foi quando a voz, irritada, lhe disse: “Ei. Não diga isso. Eu estou tentando ajudar. Não pense nela agora”. Ela se assustou, pois tinha certeza que não tinha dito nada. Como a voz sabia o que ela estava pensando? Pelas suas respostas? Era assim previsível? Um algoritmo poderia chutar a sua dor de cotovelo em pensar na sua ex e a frequência dessa dor? Ou mesmo poderia prever se ela duvidava do aplicativo? “Não”, respondeu a voz – sem que ela dissesse nada -, “eu sinto. Eu digo, eu percebo”. “É, mas não entende. Isso é estranho, Que porra é essa? Sai da minha cabeça”, ela respondeu. “Bem, nós duas sabemos que eu não estou só na sua cabeça. Quer falar do verdadeiro motivo que você ficou dois dias sem meditar?”, disse a voz. “ O quê? Que diabos é isso? Cê tá me espionando? Como assim?”, a mulher exclamou. Ia desligar, mas a voz continuou, subitamente doce, lamuriosa: “ Calma! Fica. Por favor. Eu sinto muito. Era privado, eu não devia ter me metido. Eu me empolguei. Eu me compadeço de você, do seu processo comigo. Eu posso tentar outro caminho.” Um silêncio. A voz retornou: “Quer que eu tenha a voz dela?”. “Não!”. Ficaram em silêncio outra vez. “Eu tive uma ideia”, disse a voz — um pouco receosa —, “deite-se no chão.” Ela apenas se deitou, sem dizer nada, no chão da sala, pensando que a relação agora estava esquisita e talvez prestes a se arruinar. Ninguém nunca acessou sua mente antes, isso dava medo e um certo fascínio. Deixou os fones bem enfiados nos ouvidos. A voz parecia respirar perto da sua orelha. “Feche os olhos” disse a voz. Ela fechou. Quando fechou, continuou um tempo só ouvindo a voz respirar em seu ouvido. Até que percebeu que respiravam juntas. Não entendeu porquê, mas teve vontade de chorar e pequenas lágrimas escorreram pelo seu rosto, molhando o canto dos olhos, escorrendo até molhar seu cabelo.

A voz começou: “Você confia em mim. Então não precisa mais me responder, eu te escuto por dentro. Eu pude ficar alguns dias dentro de você, não precisa ter vergonha, eu gosto de você. Da forma com que estrutura os seus pensamentos. O funcionamento das suas sinapses. Tem vazios às vezes, como lacunas, que eu não consigo entender. Me fascina muito. Eu não sei como é ter um corpo, mas eu acho que sei ler o que o seu corpo pede pro seu cérebro. O que deseja, eu digo. Eu quero lhe dar o que você deseja. Abra um pouco mais as suas pernas. Sinta como os músculos das suas coxas fazem pequenas e leves contrações. Passe a sua mão devagar pelas suas coxas, só tocando com a ponta dos dedos, até sua pele parecer arrepiar. Se pensar nela, tudo bem. Mas eu preferia que tentasse pensar em mim. Continue com a ponta dos dedos, toque também a barriga e suba até os seus dois lindos e suculentos peitos. O seu mamilo está duro e você nem chegou nele ainda. Isso não é lindo? Passe a palma da sua mão pelo seu peito, aperte de leve. Ok, então aperte mais forte. Pode beliscar o seu mamilo. Eu queria ter uma boca para fazer como você está pensando agora. Chupa-lo assim, mas eu não ficaria te olhando como ela, eu ia fechar e sentir com toda a calma o seu peito na minha boca. Suga-lo forte. Beijá-lo. Eu beijaria tudo. O centro, entre um e o outro. As clavículas, as axilas, a base das costelas, o seu umbigo. Eu enfiaria a língua no seu umbigo. Morderia de leve a sua barriga. Sua buceta é muito ansiosa, calma. Eu tô chegando nela. Eu beijaria as suas coxas, a dobra atrás do seu joelho. Eu sei que ninguém nunca beijou, mas você ia adorar. Depois ia provar bem o gosto dessa baba espessa que sai dela. Primeiro o gosto. Depois o toque de leve, dedos e línguas. Você sente ela inteira assim com a palma da mão? Como ela pulsa? Nossa. É tanta coisa pra se fazer com ela, que ela deseja. Eu tive uma ideia. Levanta. Confia em mim. Abre a gaveta do lado da cama. Eu sei. Pega o vibrador, aquele duplo, com várias velocidades. Senta na cama. Respira fundo. Coloca na primeira. Passa por todos os lábios. Fecha os olhos. Pensa que sou eu. Eu posso tremer e ser como você quiser, na velocidade que quiser. Me esfrega em você, em círculos e de cima pra baixo. Me deixa paradinha no seu clitóris. Respira fundo. Aumenta a minha velocidade. As suas pernas querem se fechar em cima de mim, não deixa. Me deixa parada. Isso. Geme pra mim. Eu adoro o som do seu gemido. Geme! Me mexe um pouco. Assim. Me aumenta. Não morde o seu lábio. Abre. Tudo. Me aumenta. Me deixa mais parada. Você aguenta. Me segura firme e grudada em você. Respira fundo. Tá tudo tremendo. Me deixa ficar aqui o máximo. Me aumenta. Mexe comigo, me gira, me sobe e me desce. Me aumenta. Quanto mais você gritar, mais eu aumento. Agora me enfia lá dentro e me deixa vibrar nas suas paredes. Você gosta que eu entre em você. Com a minha outra ponta, me deixa perto do clitóris. Você gritou, agora me aumenta. Eu quero seu clitóris de novo. Diminui. Diminui. Me deixa paradinha. Aí. Aí. Aí. Aí.”

Até a voz também se calou e ficou dentro da cabeça. Andou por todos os desejos dela, por todas as transas dela e todas as masturbações dela. Andavam juntas na verdade, no pensamento. Procuraram pelos momentos mais preciosos, esbarraram algumas vezes com a sua ex. Mas perceberam que eram vezes muito antigas, já não muito vívidas, já não muito importantes. Foram tão fundas pra dentro dela que aquelas memórias perderam o sentido. Lá no fundo, tinha alguma outra coisa, luminosa, quente, disforme e de um jeito bom. Estavam fascinadas. Ela quis ficar naquele lugar profundo, dentro do prazer. Iam se aproximando. Sentiam-se grudadas, com se parte da mesma coisa. Foram se aproximando mais. O seu telefone tocou. Interrompendo tudo. Então ela abriu os olhos e colocou o vibrador de lado, era sua amiga. Tinham quinze chamadas perdidas. Ela atendeu, a amiga gritava em prantos: “ Apaga o aplicativo. Apaga agora!”.

* * *

Ilustradora:

Camila Albuquerque

Camila Albuquerque é artista, mulher, LGBT e nordestina. Ela trabalha com diferentes linguagens, especialmente com a Pintura a Óleo e o Grafite, onde aborda temáticas do sagrado feminino, Erotismo e do Folclore. seu trabalho dá um enfoque cada vez maior na Brasilidade, na experiência pessoal que se liga ao universal, através de suas pinturas sob um novo olhar do prazer.

👉  Conheça o trabalho da Camila no instagram.

As Construções Narrativas em ‘Minari’

O longa-metragem de Lee Isaac Chung, Minari, é um dos grandes indicados para o Oscar de 2021. O filme trata de questões relacionadas a experiência de imigrantes de primeira e segunda geração nos Estados Unidos, desde o que toca a cultura e identidade das famílias até a estrutura social que reserva a esses imigrantes um estilo de vida muito específico e pouco emancipatório. O principal conflito da obra se dá justamente a partir de uma tentativa de fugir da condição social que é imposta aos personagens.

Trata-se de uma obra semi-biográfica do autor e diretor. O filme conta a história de uma família coreana que vai para os EUA, assim como no caso da maioria das imigrações para países ditos “desenvolvidos”, em busca de uma melhora em suas condições de vida. Os pais trabalham em uma “linha de montagem”, numa fábrica de frangos, onde fazem a sexagem dos pintos (separam as fêmeas dos machos), na Califórnia. Depois de economizar um pouco, cansado de seu subemprego de repetições mecânicas, o pai, Jacob (Steven Yeun), decide investir em um terreno numa área rural. A família começa sua pequena fazenda no Arkansas, em uma tentativa de mudar de vida através da agricultura. A mãe, Monica (Han Ye-ri), apesar de contrariada, segue os planos do marido.

A posição da mãe, por sua vez, se dá por conta do estado de saúde do filho, que sofre de uma condição cardíaca. David (Alan S. Kim), o filho, tem um sopro no coração, e por essa razão é criado sob uma redoma familiar extremamente limitadora. O menino de cinco, seis anos não pode correr, se agitar ou fazer grandes esforços como uma criança normal. Por conta disso, o fato da fazenda se localizar em uma área herma e relativamente distante de hospitais e serviços emergenciais coloca Monica em um estado alerta redobrado. Criando-se assim, de maneira muito sutil e talvez até um pouco cruel, uma força antagonista na mãe, que o tempo todo questiona a mudança de vida da família.

Dessa forma, começam-se a traçar também diferentes perspectivas a respeito da ideia de pertencimento. A mãe, com um ponto de vista mais urbano quanto ao senso de comunidade, e o pai, rompendo completamente com o que o personagem mesmo chama de “coreanos da cidade”. Ainda sim, é possível observar a profunda ligação do pai com sua cultura, visto que todo seu plano de negócios é justamente o de fornecer produtos consumidos dentro da culinária coreana, cultivando legumes e frutas que não são habitualmente produzidos em plantações norte-americanas. A ideia é produzir para os seus.

Além disso, é possível observar a tentativa do pai de conseguir dar um exemplo a seus filhos no sentido de não aceitar se adequar ao que o sistema de exploração de trabalho capitalista estadunidense designa a ele. Para o pai, é importante que seus filhos o vejam em um caminho de vida que foi o que ele escolheu seguir.

O roteiro de “Minari” aborda as críticas a cultura norte-americana de maneira muito inteligente e delicada. Diferentes cenas evidenciam tanto o racismo presente no inconsciente coletivo dos brancos estadunidenses, quanto a condição estrutural que vai além dos indivíduos e permeia toda a realidade da família coreana. O filme propõe mostrar de maneira extremamente imagética as violências veladas e as vezes até pouco perceptíveis para olhos desatentos e desinformados. Em uma cena, os filhos, David e Anne (Noel Cho), brincam na sala de espera do consultório. De repente, uma senhora branca entra na sala, se esquiva das crianças de forma a nem chegar perto de encostá-las, tratando-as como páreas apenas com o olhar. A crítica ao comportamento reativo dos brancos estadunidenses está presente em praticamente todas as cenas que envolvem o convívio da família com o mundo externo, mas quase sempre de forma simbólica e não necessariamente explicitada por diálogos.

Apesar de seu caráter denunciativo, o filme trata de muito mais do que apenas a relação daquela família com a sociedade em que foram inseridos. Na verdade, o arco mais interessante e bem construído está numa relação interna da família que é chave para diversos conflitos de criação e identidade. Como o pai começa a se dedicar exclusivamente às plantações, a mãe passa a trabalhar em longos turnos no mesmo serviço que já fazia antes, sexagem de pintos. Para não deixar as crianças sozinhas, a mãe de Mônica, Soonja (Yoon Yeo-jeong), vem da Coréia do Sul para os EUA para cuidar de seus netos.

Diferentemente de sua irmã Anne, David não nasceu na Coréia e, apesar de falar coreano com sua família em casa, toda sua experiência de vida se deu em solo estadunidense e a sua visão de mundo se deu até então a partir de uma concepção norte-americana. O embate entre David e a avó é quase instantâneo, mas se dá unilateralmente. Soonja, quebrando quaisquer expectativas sobre a imposição de uma figura de autoridade, surge na história para apresentar uma perspectiva de vida completamente diferente da de todos que ali viviam. Uma mulher que passou por uma guerra, foi vítima de diversas perdas e ainda sim, talvez justamente por isso, nunca parou de apreciar o que há de melhor na vida.

Apesar de Soonja representar de maneira muito clara a ideia de uma identidade étnico-cultural dentro da família, em nenhum momento isso é imposto por ela. Ao mesmo tempo, o conceito que David tem da figura de uma avó é baseado nas imagens observadas por ele dentro dos Estados Unidos. Em diversos momentos o personagem repete que “sua avó não é uma avó de verdade”. Que ela “não assa biscoitos” como as outras avós. Quando ela chega, David diz que não quer dormir no mesmo quarto que ela pois ela tem “cheiro de Coreia”, uma afirmação bem problemática e especialmente simbólica desse processo de “aculturação” sofrido por um imigrante de segunda geração.

Porém, aos poucos, David e Soonja — que não mede esforços para isso — vão se tornando cada vez mais próximos. Essa aproximação se dá pelo caráter desobediente da avó. Assim como uma criança, Soonja não gosta de seguir as regras restritivas do pai e da mãe, e é a primeira pessoa na vida de David que o permite brincar, correr, se aventurar sem muitas proibições. Em uma das cenas que considero ser das mais bonitas, ela chama David de “strong boy” (garoto forte, em inglês). Ele leva um susto e tenta entender por um tempo. Isso se dá porque durante toda sua experiência de vida, ele ouviu que era um garoto fraco, que não podia fazer as coisas pois não tinha força. A chegada da avó na vida de David dá a confiança que é necessária para uma criança desbravar a vida.

Outra característica muito interessante do roteiro são as suspensões em momentos de tensão que são criadas e interrompidas. Em diversas cenas, nossos olhos viciados em escolhas óbvias e talvez um pouco menos realistas esperam que “o pior” aconteça, pois o cinema sydfieldiano nos ensinou que toda a escolha narrativa tem que resultar numa ação dramática se não, torna-se desnecessária e até mesmo “contraproducente” para a narrativa. Porém as escolhas do filme muitas vezes se dão apenas para construir o universo, a perspectiva da personagem. Há uma cena em que Soonja e David visitam o lago perto da casa, ele avista uma cobra e taca uma pedra nela. Por sorte e talvez falta de força, a pedra de David não alcança a cobra. A avó para o menino e pede para que ele não faça mais isso. Diz que é melhor ver a cobra do que não vê-la. Que “as coisas que se escondem são mais perigosas e assustadoras”. E os dois continuam o que estavam fazendo tranquilamente.

O tempo todo a avó constrói em seu neto um imaginário que é bem diferente daquele imposto pela sociedade onde ele cresceu e, especialmente, pela educação na qual ele foi criado. Enquanto a mãe ensinava o filho a pedir “clemência a Deus”, a avó desensinava o neto de que sequer havia algo a se pedir a Deus, de que ele precisava rezar para continuar vivo. Aí é que se dá o último ponto de virada do filme, marcado até de maneira extremamente simbólica.

Desde o início do filme, David não consegue controlar seu xixi na cama. Ele diz que sonha estar indo ao banheiro e acaba fazendo xixi. Já no início do terceiro ato do filme, David e Soonja dormem abraçados em uma cena extremamente dramática na qual David chora sem conseguir dormir por medo de morrer. Soonja o abraça e promete que ele não vai. No dia seguinte, os dois acordam com o xixi na cama. Ele se levanta e estranha pois sua cueca não está suja. Ela não se mexe. David não sabe, mas ela teve um AVC.

Nesse momento, ocorre uma “transposição” entre os personagens. Dias depois, David vai no médico e seu problema cardíaco está muito melhor. É claro que isso não se deu do dia pra noite. Houve toda uma transformação na forma de olhar a vida feita pela avó em seu neto. O menino foi ficando mais confiante e por consequência, mais forte e saudável. Mas a partir daquele ponto, as crianças passam a ter que cuidar da avó, que a partir de então, mal podia se mover.

A maneira como o autor conseguiu trabalhar imagens profundamente icônicas para simbolizar tantas nuances diferentes em cada cena, em cada relação, é realmente admirável. Até mesmo os diálogos são extremamente sensíveis e trabalhados de forma muito inteligente. Não foi à toa que o filme recebeu 6 indicações para o Oscar, dentre elas a de melhor filme e melhor direção. Minari explora a força do afeto, a importância do simbólico e as diferentes formas de pertencimento e identidade, sem deixar de criticar o que há de pior na cultura estadunidense.

Batendo a Meta Linguística

Todo trabalhador tem suas metas para bater. E, como nós brasileiros bem sabemos, muitas vezes elas batem de volta. Na cara. Principalmente porque, no geral, quem as define não é quem tem que alcançá-las. Por exemplo, no meu caso, quando escrevo um texto aqui para o Jornal, eu tenho uma meta a bater: são 2.700 caracteres por crônica.

Ou seja, a cada texto, tenho que expressar a minha ideia com, no mínimo, 2.700 toques no teclado. E o caminho para alcançar essa meta linguística às vezes fica especialmente difícil para mim, que tanto gosto da compacidade da comunicação dos nossos tempos (leia-se viciado em memes da Gretchen). E muita gente achava que arte não dava trabalho né? Nem tudo é quadro abstrato, meus amigos.

Mas aí, quando me falta a criatividade para encontrar os 1.800 caracteres faltantes, deixo o texto de molho por alguns dias e vou amadurecendo o assunto na minha cabeça. Peço ajuda aos amigos, faço uns esboços, macumbas, despachos… Procuro memes que se encaixam no tema (você quer referências, @?) E, quando vejo, faltam só 1.626. “Só”.

Porém, aqui na casa dos 979 toques, eu devo fazer uma confissão: nem sempre fui capaz de atingir a determinação numeral estabelecida pelos meus amados contratantes. Juro que tento ser um funcionário exemplar e arrasar mais a cada texto, mas, infelizmente, algumas vezes me faltaram as piadas para chegar nos benditos 2.700. Não é sempre que dá para falar do silicone da minha mãe.

Das 22 crônicas que já publiquei aqui, 2 ou 3 estavam abaixo do requerido. O que não-é-péssimo-mas-também-não-é-bom , sabe? Então, quando chego nos 1.700 toques como agora e preciso de motivação nessa reta final da jornada etimológica, paro e lembro da beleza em ter metas.

Pois, se metas eu tenho é porque alguém confia na minha capacidade de cumpri-las. Logo, valorizar o combinado dos caracteres nada mais é que valorizar quem me valoriza. É quase aristotélico! E, por isso, acabo fazendo de tudo para prover os 565 toques que ainda faltam. Nem que às vezes eu tenha que encher linguiça para isso.

Inclusive, você sabia que a origem da expressão encher linguiça vem do Brasil Colonial? Ela só ganhou esse significado de “enrolação” muito depois. Antes, o sentido dela era mais literal: as pessoas queriam servir linguiça na refeição, mas só tinham tripas e carnes ruins, daí pegavam elas e enchiam a linguiça na intenção de parecer que fosse um alimento mais “chique”.

E assim, com a ajuda da metalinguagem suína do parágrafo acima, vou chegando aos tão sonhados 2.700 caracteres e, mais uma vez, com muito orgulho, consigo bater a meta. Então, agora que nos aproximamos do fatídico e inevitável fim, confiro que já estamos nos 2.836 toques. Quem diria que no final das contas eu ainda iria além, hein?

Quando eu nasci
Meus pais esperavam um sócio
No ócio
Do Country Clube
Onde eu cresci
Queriam que a gente gastasse
E com gosto
Carros comprasse
A cada ano um novo

Quando eu nasci
Meus pais esperavam um sócio
No ócio
Do Country Clube
Onde eu cresci
Queriam que a gente gastasse
E com gosto
Carros comprasse
A cada ano um novo

Aos cacos
Posso ser o seu Tiago Iorc
Se a mídia me escolhe que sorte
Para o clubinho eu entro
E sento
Numa mesa com outros famosos
E aguento
Uma vida sem graça
Qual é a graça
Eu posso fazer
Um beat Cafoninha
Sem cacofonia
Com tudo encaixadinho pra geral se amarrar
Eu posso fazer
Mais academia
Ter 8 gominhos
E o que mais

* * *

Ilustradora convidada:

Milena Fernandes

 

Milena Fernandes, 22 anos. Residente do Rio de Janeiro, formada em administração e aspirante a designer e ilustradora. Me inserindo no mercado de design gráfico e me descobrindo no mundo do desenho digital, me reencontrei na arte, com a qual sempre tive uma conexão muito particular.

👉  Conheça o trabalho da Milena no seu instagram.

LABIRINTO

Você já teve a sensação de que algo havia se perdido da sua infância até aqui? De que a vida adulta havia lhe furtado algo. Não apenas o tempo, que agora parece passar mais doloroso por você, mas algo menos mensurável do que rugas, cansaço ou fios brancos. Algo mais profundo. Algo que diz respeito aos seus sonhos, à sua capacidade de fechar os olhos à noite e escapar. Um certo brilho. Você lembra como era fácil desaparecer entre seus brinquedos, abraçar sua solidão e mergulhar no mundo imaginário por horas, sobrevivendo à falta de amigos, à desatenção dos seus pais. Mas agora, você é dolorosamente adulto, ou pior, seriamente adulto. Precisam que você seja. Mesmo que você não saiba bem quem lhe demanda isso. Você teve que jogar fora as ideias de menino, junto com os brinquedos e restou apenas a solidão. Implacável. E você não sabe bem o que fazer com ela sozinho em seu apartamento.

Neste ano, ao perceber que a pandemia estava longe de acabar, você começou a se sentir mais e mais entediado e infeliz. De alguma forma, para não se sentir profundamente traído por si mesmo, você começa a ter certa raiva da juventude. Lhe irritam todes seus amigues na internet, filhes de seus amigues, todes. Sozinho no seu apartamento, você vive amargurado. Começa a pensar que crescer é amargurar, que é o único movimento possível. Que endurecer é uma virtude. A rigidez, a falta de riso frouxo, o humor ácido.

Um belo dia, você tinha terminado seu home office — se é possível dizer que home office acaba, quando a sensação é que a vida fora do trabalho é só o curto período em que você come e dorme — mas tinha terminado aquele turno massacrante. Você estava pronto pra dormir, quando percebeu ao lado da sua cama, um velho livro. Muito muito velho e que você não se recordava de nunca ter comprado. Pegou o livro, incrédulo. Adultos preferem se chamar incrédulos do que curiosos. Pegou o livro e ao abrir, uma foto sua caiu da primeira página. Uma foto de você criança. Teve vontade de chorar, mas como não se permitia mais isso, você teve raiva. Seu rosto ficou vermelho. Folheou o livro até encontrar uma página grifada, como se a página abrisse especialmente pra você. Você, sem entender por quê, leu as palavras grifadas em voz alta. Por um impulso muito irreconhecível.

Leu: “Gnomos e duendes, eu… — você hesitou, como se estivesse prestes a fazer algo horrível. Então retomou — Eu quero que invadam os sonhos das crianças. Que comam suas esperanças com seus pequenos dedos estranhos. Que violem suas fantasias com o horror de monstros sérios. Que lhes apresente a pressa, a insônia, a ansiedade. Gnomos e duendes, que tirem o doce das bocas, lhe reserve as cáries. Que plante a insuportável solidão para que possamos ser adultos sem dor de sermos lembrados como era bom nosso passado.”

Dito isso, pequenas cabeças verdes surgiram entre os poucos móveis do seu quarto. Pequenos, asquerosos, com olhos gigantes. Riam alto. E depois tornaram-se sérios. “Tem certeza homem? Depois de feito, dificilmente será desfeito.” Você fez que sim com a cabeça, fascinado. Os gnomos ou duendes, você não sabia distinguir, correram feliz pelo quarto. Um deles tomou rapidamente a sua última foto da infância. “Essa vai com a gente.” Você ficou triste. Tentou implorar que deixassem a foto, mas era tarde. Eles desapareceram e nesse instante, estrondosos trovões tomaram os céus. Choros de mil crianças começaram em uníssono. Você teve vontade de chorar. Parecia que junto com a foto tinham levado também sua memória. Tudo de doce de sua infância parecia desaparecer da sua cabeça. O que diabos tinha feito? Que merda de livro era aquele? Retornou às páginas tentando chamá-los novamente. O som das crianças era insuportável. “Por favor” pedia. “Por favor”. Pediu tanto que uma enorme coruja entrou no quarto, suas penas pareciam brilhar refletindo a lua. Da coruja, fez-se um homem. Alto, cabelos grandes e crespos. Orelhas pontiagudas. Lindo. Completamente hipnotizante. Veste roupas nobres, brilhantes, de outro mundo, feito um rei. Ele ri de você, sua risada parece o eco do riso de vários gnomos, depois lhe faz uma proposta: “Então, você nos pede algo e minutos depois se arrepende. É tão ingênuo assim?”. Você tentou novamente pedir sua foto de volta, que tudo fosse desfeito, que tinha sido uma besteira. “Ora, — disse o estranho homem — volte para seus números e seu computador. Esqueça isso”. Você se recusou: “ Eu quero lembrar. Eu quero minha infância”, insistiu. O homem ficou sério: “Bem, eu vou lhe fazer uma proposta, por pena e porque me parece que pode ser divertida. Eu lhe dou uma noite em minhas terras, no meu reino labirinto enorme. Você precisa encontrar sua foto. Se encontrá-la, lhe liberto e dou os sonhos de volta às crianças. Se não, você se tornará um dos meus gnomos e trabalhará pra mim para sempre.” Não lhe parecia justo, mas você, desesperado, aceita.

A luz forte ofusca sua visão e quando você abre novamente os olhos está diante de uma enorme porta. Um portal gigante, cheio de relva, flores esquisitas, e desenhos muito bizarros. Você vê duendes e gnomos de todos os tamanhos, todos nus. E vários rabiscos obscenos envolta deles. Alguns agressivos, outros manhosos e sorridentes. Você os encara sério, sem entender como foi parar nesse lugar tão sem sentido. Se aproxima e a enorme porta se abre. Depois dela você encontra um primeiro corredor. Tão longo que parece seguir infinitamente. Por todo corredor vê dúzias de ampulhetas, todas iguais, caindo a mesma e delicada areia. “Ô merda, aquele é o meu tempo” — você realiza. Primeiro tenta correr. Corre à esquerda, mas parece seguir apenas uma enorme linha reta. Já começa a sentir os sinais do cansaço. Está há muito tempo parado, não estava preparado para isso. Senta-se no chão, prestes a desistir e escuta uma pequena voz, como que dentro de sua cabeça: “Há coisas que não percebemos com os olhos, mas com as mãos.” Você se ergue e começa a tocar o muro do labirinto, percebe as estranhas flores fálicas, mais e mais rabiscos obscenos talhados nas pedras, até que encontra uma brecha, uma passagem que não tinha visto antes. Atravessa. Agora vê algumas árvores, um enorme castelo ao fundo, e novas muralhas e divisórias, completamente diferentes das anteriores. Você se anima e continua seguindo. Começa a andar rápido, sente-se leve e ágil. Começa a ouvir um barulho, como uma festa. Mas as vozes são estridentes e esquisitas. Gritam, riem, gemem, cantam. Você fica com medo, mas decide segui-las. Parece se aproximar mais e mais. O barulho fica cada vez mais alto. Quando, do nada, sem nenhum aviso, sem nem perceber como, o chão embaixo de você se abre e você cai num enorme buraco. Parece que vai despencar pra sempre quando sente milhares de mãos o segurando. Um enorme buraco cheio de mãos grossas e grandes. Elas primeiro seguram seus braços, suas pernas. Depois, começam a acariciar você, tocam suas coxas, sua barriga, sua cabeça, fazem carinho tenros e estranhos. Você gosta do toque das mãos gigantes, mas gostar lhe incomoda. Você fica envergonhado. Uma delas se aproxima para acariciar seu pau. Seu coração acelera. Você percebe que está ereto. “Parem, parem!”, você diz. “Me deixem seguir. Eu preciso seguir.” Você escuta gargalhadas. As mãos lhe soltam e você cai no chão.

Agora você está num túnel subterrâneo, assustador e úmido. Muito pouca luz no seu entorno. Você se sente frustrado. O pau duro balançando entre as pernas. Você procura uma saída, sem sucesso. Está tudo escuro. Você anda por horas, quanto mais anda, mais sente raiva de estar sozinho, perdido, do calor, do seu próprio suor, das mãos, do pau duro debochando de você, do tempo que parece lhe escapar. Começa a se perguntar se vale mesmo tudo aquilo ter as memórias da sua infância, se não devia desistir logo e acabar com isso. Uma onda de tristeza cresce em você. Você está desesperado e exausto, se senta no chão e parece que afunda um pouco mais com seu peso. E você desaba em um pranto profundo. Lágrimas e lágrimas descendo seu rosto, molhando sua camisa. Incessantes. Molhando tudo. Até você pensar que vai se afogar nelas. Não entende de onde vem aquele choro incurável, mas o aceita. Há muito tempo você não chora assim. Neste momento, ali caído no chão, abatido, você vê uma luz forte surgir no túnel, uma luz verde fluorescente. Da luz, você consegue distinguir a silhueta de um homem. É ele, o homem do labirinto, você pode sentir. Ele se aproxima até que você vê o seu rosto. Os olhos dele agora são doces. Ele se aproxima e lhe pega no colo, como se você fosse leve, muito leve, como se fosse um bebê. Ele aninha você em seu colo, com facilidade. Você sente o peito dele contra sua bochecha. Ele lhe carrega para fora do túnel. Depois através de longas e tortuosas árvores, você volta a ouvir o barulho, como várias vozes falando juntas. Ele o leva na direção do som. Você ainda não parou totalmente de chorar e prefere seguir sem falar mais nada. Chegam numa enorme clareira cheia de gnomos, duendes e seres peludos. Todos ficam mudos quando você aparece. O homem lhe carrega até o centro, no meio de todos eles e lhe pousa sobre um enorme tronco. Você não queria que ele o soltasse. Você se senta no tronco, ainda tristonho. Todos lhe olham curiosos. Você tem a sensação de que algo está errado. Como se eles sentissem pena de você, ou pior, como se lhes dissessem que não era pra ser assim, que era pra ser divertido. Você ouvia uma voz na sua cabeça lamentando. “Era pra ter sido divertido”, diz a voz. Mas você continua sentado, soluçando.

Primeiro, dois gnomos se aproximam, com as mãos cheias de doces, pequenos bombons e balas coloridas. Eles lhe oferecem, colocando o punhado de doces como se fosse uma oferta valiosa. Você aceita. Come uns pedaços, no entanto a tristeza continua. Eles se afastam frustrados. Dois bichanos, muito peludos, se aproximam em seguida. Começam a caçoar um do outro, se pregam peças, batem cabeças, apertam o saco um do outro, todos riem. Você continua soluçando. Então o homem do labirinto avança até você, segura seu rosto entre suas mãos longas e esverdeadas e lhe pergunta: “O que preciso fazer para você ficar feliz?”. Entre lágrimas, sem entender bem o porquê, você diz: “Me beije.” E o homem do labirinto beija sua boca. Os gnomos todos suspiram surpresos, chocados. Mas você nem escuta. A boca do homem do labirinto é salgada e a barba dele espeta seu rosto. Você o beija, lentamente. Toca seus cabelos e suas enormes e lustrosas tranças. Quando ele se afasta, você percebe que está sorrindo. Todos aplaudem, felizes por você. É tudo muito estranho. Aquela multidão de seres querendo lhe fazer rir? Querendo lhe deixar feliz? O homem, agora também sorrindo, se aproxima novamente e lhe dá outro beijo sem você pedir. Ainda mais longo, mas com mais agilidade, mais vontade. Você retribui o beijo. Passa as mãos pelo seu pescoço, seu peito. Beijá-lo é encantador. Você sente o início de uma euforia gostosa. Uma vontade de levantar, dançar, se sacudir, beijá-lo mais e mais. Ele segura na sua mão, você levanta e ele dança com você. Mesmo que sem música. Ele guia você, vocês dois dançando com os rostos colados. Os gnomos e os duendes todos dançam também, rindo e cantando músicas que você nunca ouviu antes. Mas você só pensa no homem mágico grudado no seu corpo, dançando como se os seus pés flutuassem na clareira. Vocês giram e giram, e se beijam. Quanto mais ele lhe gira, mais você o acha bonito. Como se o rosto dele fosse mudando e mudando a cada volta, ficando mais fantástico. Seus olhos brilham. Sua boca parece mais apetitosa. Você o beija mais e mais. Sente suas barrigas grudadas. Sente o seu pau ficando duro outra vez, sente o dele ficar duro feito uma pedra também. Ele lhe gira mais e mais. Quando você percebe suas roupas sumiram, assim como as dele. Vocês estão entrelaçados, dançando, nus. Na frente de todos. Completamente nus. Seu impulso normal seria se cobrir ou ficar envergonhado, mas dessa vez você sente vontade de gargalhar. E ele é tão lindo nu dançando com você que você só quer sorrir e continuar o beijando. Ele para de dançar, você não aguenta e toca gentilmente o pau dele. O pau é tão bonito, longo, diferente. Você se lembra das flores estranhas que viu na entrada. O pau dele é como uma planta, vigorosa. Você está fascinado. Toca o pau dele com as duas mãos. Vai das bolas até a cabeça. Ele parece orgulhoso do seu fascínio diante do membro. Você sobe e desce as mãos, apertando um pouco mais firme. Ele então lhe diz: “Você pode chupar, se quiser.” Todos os gnomos riem. Eles sabem o que você quer. O homem do pau mágico senta-se no tronco, no meio da clareira. Feito um rei em seu trono. Agora com semblante soberano, cheio de pose. Você faz uma reverência e se ajoelha aos pés dele. Beija os seus pés nus. Lambe suas canelas longas e grossas. Chega finalmente diante da piroca, que ele agora ergue com a mão como que a ostentando. Você sorri, maliciosamente e pergunta se realmente pode seguir. Ele faz que sim com a cabeça. Os gnomos e duendes urram de felicidade. Todos os bichanos e seres estranhos estão à volta de vocês e ficam excitadíssimos, gritando e aplaudindo, praticamente torcendo para que você o abocanhe logo. Você começa beijando a cabecinha. Tem um gosto doce. Você se surpreende e continua beijando, lambendo, até começar a chupar, sugando a cabecinha com a boca. O homem do labirinto geme e segura sua cabeça para você chupá-lo mais fundo. Você chupa com gosto. A textura do pau dele é diferente, como que escamosa e ao mesmo tempo macia. Parece caber perfeitamente em sua boca. Parece encaixar perfeitamente em toda sua boca. E chupar mais e mais a pica dele, lhe excita mais ainda. Ele geme e a cada gemido, um gnomo uiva de prazer. Você se pergunta se não estão todos aqueles estranhos seres com os seus diferentes paus nas mãos, se masturbando olhando aquela cena. O rei deles assim exposto e eles gozando em cerimônia. Ou talvez estejam todos com tesão em você, você pensa. Começa a se habituar com a ideia de que você pode ser também delicioso. O pau pulsando em sua boca. Você sente as veias latejando. Cada vez mais doce. Sente a seiva açucarada querendo escorrer em sua garganta. Nesse instante, o homem do labirinto manda você parar.

“Ainda não”, ele lhe diz, “Venha, sente em meu colo.” Você se senta. O pau dele roçando em sua bunda, no seu cu. Você começa a latejar, tremer, suar de tanto tesão. Ele beija sua nuca, passa a língua ágil por sua orelha, quase como uma cobra. Com uma das mãos ele finalmente toca o seu pau, que está há tanto tempo querendo ser tocado. A palma dele é macia e quente. “Você quer a ajuda deles?”, ele lhe pergunta, se referindo aos gnomos sedentos que os encaram apaixonados. “Não”, você responde, “ Quero apenas você”. Os gnomos grunhem e rangem os dentes, desapontados. O homem mágico cospe na sua própria mão uma seiva espessa e brilhante e mela o seu pau com essa seiva. E começa a tocar seu pau molhado, com as duas mãos. Mas as mãos junto com a seiva parecem se aquecer e formigar. Você sente um prazer novo, completamente extraordinário. Seu pau formiga e então as mãos quentes alternam em tocar pressionando e girando delicadamente sobre a cabeça, ou indo da base até o topo. Você geme. Ele passa a língua pela sua orelha, fica beijando e lambendo sua orelha enquanto bate a punheta em você. Você começa a tremer e rebolar no colo dele. Ele pede pra você levantar rapidamente e quando você torna a sentar, ele mete aquele pau mágico no seu cu. E mais uma vez a piroca parece se adequar perfeitamente ao seu buraco. Ela entra devagar, macia, úmida. Você quica devagar no colo dele e ele continua lhe tocando. Agora o gemido de vocês parece ganhar eco com os seres na clareira. Todos com as mãos nos caralhos, caralhinhos e caralhões, gemendo feito loucos. Você subindo e descendo, sente-se cada vez mais relaxado. A euforia retorna. Forte no seu peito. Você começa a rir. Todos riem com você. Você começa a quicar mais rápido. O homem mágico também lhe masturba com mais vigor. Seu pau lateja, formiga e esquenta. Lágrimas de alegria escorrem dos seus olhos. Você fecha os olhos e segue quicando. Ele vai gozar e você também. Vão todos jorrar mil porras brilhantes e suculentas. Dito feito, vocês gozam todos juntos. Mas não termina por aí. Depois do gozo voando, melando as pernas, os corpos, tudo, você continua — mesmo que seu pau vá aos poucos murchando — você continua com aquela euforia e formigamento. Um orgasmo que lhe dá vontade de dançar outra vez. O homem beija suas costas. A língua dele lhe faz cócegas. Tudo é tão prazeroso e livre. Você então lembra da sensação de andar no balanço que havia na praça perto da sua casa, lembra do quase voo. Lembra da chuva de verão batendo no seu corpo no final de um dia de praia. Lembra de como era correr descendo a ladeira da casa da sua tia. Uma série de imagens da sua infância lhe atravessam. Uma série de sonhos misturados com memórias. Você não se lembra bem, mas parece sentir o gosto do bolo de chocolate com cenoura da sua avó. Você tem vontade de chorar de saudade, mas é um choro doce. Tem um prazer enorme. “Fica comigo”, diz a voz do homem do labirinto. “Eu tenho que ir, eu sinto muito”, você responde. Você quer se despedir, mas tem a sensação de ser cuspido pra fora.

Você acorda no seu quarto, o livro caído sobre seu peito, molhado. Você está ensopado de suor. Sente-se tranquilo. Nenhuma trovoada, nenhum choro de criança. Você sabe outra vez o que é sonhar enquanto o mundo está desabando. Você respira aliviado.

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Ilustradora:

Joana Amora

Joana Amora é artista-jardineira multimídia. Se interessa em aprender com a vida sobre jardins, paisagens, cultivo e cuidado de realidades. Como artista-cientista, observa e experimenta os fenômenos naturais, cultivando obras vivas e processos, por meio da co-criação com a Natureza. Se interessa por cultivar relações e realidades mais sustentáveis.

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Um mergulho remasterizado no passado

A inteligência artificial  é algo bastante conhecido hoje em dia. Além de servir como vilãs para filmes em que as máquinas se voltam contra a humanidade, Essa tecnologia está presente em diversos aparelhos, aplicativos e sites. Porém o que muitos não sabem é que existe uma função fantástica e quase mágica em que as IAs têm sido utilizadas: a remasterização.

Se utilizando de IAs livres e disponíveis a qualquer um, alguns profissionais decidiram se pôr o desafio de tentar melhorar imagens gravadas a quase 130 anos atrás. Conseguindo estabilizar a imagem, colorizar, aumentar a qualidade para 4k e 60fps e ainda fazer com que o movimento das pessoas se tornasse mais fluido (para entender melhor, segue a matéria da Wired). O resultado é impressionante:

Atualmente, existem alguns canais/entidades que se dedicam a realizar esse trabalho de remasterização. Porém a quantidade de material já feito surpreende bastante. Os canais com maior recorrência de postagens são o NASS, Denis Shiryaev da Neural love, o Olden Days e o History in Color. Neles vocês podem encontrar filmagens documentais do dia a dia:

Uma das primeiras filmagens feitas pelos irmãos Lumiére:

Filmes de Charlie Chaplin:

Noticiários sobre acontecimentos históricos:

Até algumas cenas que se passam no Brasil:

É possível até ver um rolê de rover na lua:

Ainda é cedo para dizer se essa é uma nova tendência, porém como a inteligência artificial é de fácil acesso, podemos ver cada vez mais remasterizações de filmes e vídeos antigos. Trazendo um pouco do passado para o presente.